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15 Abril de 2019 | 18h19 - Actualizado em 16 Abril de 2019 | 10h40

Tripoli: um beco sem saída para marechal Haftar

Luanda - A nova ofensiva militar lançada contra a capital líbia, Trípoli, é vista por muitos como uma autêntica faca de dois gumes para o seu mentor, marechal Khalifa Haftar, o homem que ajudou Muamar Kadafi a chegar ao poder, em 1969, antes de o combater até à sua morte, 42 anos depois.

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Bandeira da Líbia

Foto: Divulgação

O marechal prometeu uma “entrada rápida e sem combates”, em Trípoli. Mas, aparentemente, ficou  surpreendido com a forte resistência encontrada no terreno, onde as forças do lado oposto terão alegadamente capturado muitos soldados seus, com todos os seus meios de combate, logo nos primeiros dias.

Em vez da esperada instabilidade da coligação militar do campo adversário, a sua operação encontrou uma ampla mobilização de forças hostis,  particularmente  a célebre milícia da Brigada 166 de Misrata (200 km a leste de Trípoli), que expulsou, em 2016, o Estado Islâmico da cidade de Sirtes, terra natal de Kadafi, no centro do país.

     

Inicialmente reticente, a tropa de Misrata decidiu, à última hora, juntar-se à operação “Vulcão da Raiva”, lançada pelas autoridades de Tripoli, para defender a capital, exemplo seguido também por outros grupos das recém-reconciliadas cidades de Zintan e Zawiya, cujas milícias estão entre as mais temidas do país.

Muito cedo, começaram a circular, na imprensa e nas redes sociais, relatos e imagens de soldados pró-Haftar que se teriam rendido ao campo contrário, em número de mais de 150 indivíduos, em Zawiya, cidade portuária da região da Tripolitânia (oeste), situada ao longo da principal estrada que liga Trípoli a Benghazi, capital da região da Cirenaica (leste) e bastião de Haftar.

É, de resto, um novo ciclo que se abre na história da guerra civil líbia, mas com ingredientes bastantes para se transformar num conflito sem fim e mais devastador, à semelhança do que aconteceu com a Síria, podendo igualmente revelar-se um “beco sem saída” para o marechal, rumo a um fim inglório da sua carreira.

Principais cenários

Num primeiro cenário, tido por analistas como o menos provável, Haftar pode vencer a batalha mas a guerra vai continuar, porquanto o apoio dos seus actuais aliados (Rússia, Egipto, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita) será insuficiente para obrigar o lado contrário a conformar-se com a eventual derrota e depor as armas.

Uma das consequências imediatas será uma grave crise humanitária, já prenunciada pelas centenas de pessoas que abandonam diariamente as suas casas, e a destruição sistemática de infra-estruturas económicas e sociais, além do aprofundamento da divisão entre o leste e oeste da Líbia, ou mesmo a cisão do país em dois.  

Será quase impossível realizar o seu velho sonho de estar no comando dos destinos da Líbia e consolidar o seu estatuto de herói-messias, conquistado num passado recente, na martirizada cidade de Benghazi, a  segunda maior do país, onde ele se notabilizou pela coragem com que resistiu e pôs fim à onda de assassinatos do período pós-revolucionário atribuídos a grupos jihadistas.

Os aliados externos do actual Governo Nacional  de Acordo (GNA) instalado, em Trípoli, combatido por Haftar e reconhecido internacionalmente, procurarão certamente ajudar o parceiro a resistir até às últimas consequências, reeditando-se assim o tradicional confronto entre a Rússia e o mundo ocidental.

O choque entre estes dois blocos ficou patente logo no início do assalto lançado a 04 de Abril de 2019, quando a Rússia, valendo-se do seu poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas, bloqueou uma declaração deste órgão mundial que pretendia repreender o marechal Haftar e convidá-lo a desistir.

Na sua contra-proposta, o Kremlin exigiu um novo texto que tornasse o apelo para a cessação das hostilidades extensivo a todas as forças militares líbias, “e não apenas às tropas de Khalifa Haftar”. Mas essa modificação também foi prontamente rejeitada pelos Estados Unidos.

A Rússia anda arrependida e jurou nunca mais repetir o “erro” que cometeu, em 2011, ao dar luz verde à resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, que autorizou a intervenção militar internacional na Líbia, a pedido de França e Reino Unido, para impedir o avanço das tropas governamentais líbias sobre Benghazi, berço da Revolução de 17 de Fevereiro que destituiu Kadafi.

O argumento dos proponentes do documento, apoiado por tenores africanos como a África do Sul e a Nigéria, era que as forças estacionadas às portas de Benghazi tinham ordens para exterminar a população desta “cidade rebelde”, que Kadafi apelidara de “ratos”, daí a necessidade de proteger os civis em toda a Líbia.

O objectivo da missão governamental seria travar a Revolução. Mas a operação onusina abortou a investida e, em tempo recorde, as forças de Kadafi foram postas em debandada, com as suas longas colunas de tanques de guerra e carros blindados completamente dizimadas, marcando assim o começo do fim da era kadafista.

Desde então, a Rússia passou a culpar o Ocidente pelas mais recentes guerras civis, na Líbia e na Síria de Bashar al-Assad, o que a levou a lançar uma operação militar para evitar a este último o mesmo destino que Kadafi.

O segundo cenário seria o da derrota pura e simples, em que Haftar assistiria, impotente, ao desmoronar irreversível do seu império de activos construído nos últimos anos, desde os louros acumulados à frente da Revolução de 2011 ao messianismo demonstrado, à posterioridade, na purga de jihadistas, em Benghazi.

Como afirma Wolfram Lacher, investigador do Instituto Alemão de Política Internacional e de Segurança, a actual ofensiva de Haftar “poderá eternizar-se ou fracassar”, por ser uma operação que “galvanizou as forças líbias do oeste contra ele, que está agora confrontado com a perspectiva de uma guerra prolongada e a hipótese de uma derrota”.

Independentemente da fase em que possa ocorrer, uma derrota pura e simples do marechal significaria uma humilhação total e a precipitação do fim da carreira do imbatível general que ganhou a fama de líder militar “mais poderoso” da Líbia, depois de ter combatido com ou contra quase todos os grupos armados no país.  

A sua operação contra Trípoli foi lançada pouco antes de uma conferência nacional patrocinada pelas Nações Unidas, na cidade de Ghadames, fronteiriça com a Argélia, para produzir um novo plano de resolução do conflito líbio, que passaria por eleições gerais e unificação das instituições do país, actualmente divididas entre o leste e o oeste.

Observadores acreditam que o acordo que sairia deste encontro, agendado para 14 a 16 de Abril de 2019, mas já cancelado pela ONU, poria termo às ambições pessoais de Haftar de instaurar um poder absoluto na Líbia, com o apoio dos seus principais aliados internacionais, sobretudo a Rússia e a Arábia Saudita.

   

Acredita-se, igualmente, que o facto de ter iniciado a sua operação poucos dias antes desta conferência, vista pelo ocidente como “muito importante”, mostra que o marechal sempre evitou, deliberadamente, uma solução política para a crise líbia, e que a sua presença em encontros internacionais para a paz na Líbia foi uma “mera táctica de ganhar tempo”.

O principal receio seria que a sua popularidade era insuficiente para enfrentar com êxito uma disputa eleitoral, no quadro das eleições gerais que resultariam da conferência de Ghadames.

De 76 anos de idade, Khalifa Haftar fez parte dos 600 militares líbios recrutados pela CIA, em 1990, durante a Administração Reagan, nos Estados Unidos, para derrubar Kadafi, de cujas Forças Armadas foi chefe do Estado-Maior, antes da ruptura entre os dois homens.

Uma das figuras mais influentes no regime de Kadafi, depois de participar no golpe de Estado liderado por este último para derrubar o rei Idris, em 1969, Haftar chefiou as forças líbias na guerra contra o Tchad, até 1987, quando foi capturado em combate e feito prisioneiro de guerra.

É detentor de dupla nacionalidade, incluindo a americana, que lhe foi atribuída durante a sua permanência de cerca de duas décadas nos Estados Unidos, e participou em várias tentativas de golpe contra Kadafi.  

Por Frederico Issuzo/Angop

Assuntos Líbia  

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