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30 Junho de 2020 | 16h52 - Actualizado em 30 Junho de 2020 | 16h51

RDC/60 anos de independência: Rei Philippe da Bélgica pede desculpa pelas "feridas" da colonização

Kinshasa - O Rei Philippe da Bélgica, no poder desde 2013, manifestou nesta terça-feira 30, "os seus profundos remorsos" pelas feridas infligidas durante o período colonial no Congo belga, a partir de 1971 República do Zaire e desde 1997 República Democrática do Congo, segundo a RFI.

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Bélgica:Vista área da cidade de Bruxelas

Foto: Rosário dos Santos

Esta é a primeira vez na história do país, que um Rei belga reconhece os crimes cometidos naquele maior país da África central, indica a rádio francesa.

Em carta endereçada ao Presidente Félix Tshisekedi, por ocasião da comemoração dos 60 anos da independência, o Rei Philippe,  sem citar o rei Leopoldo II,  escreveu "quero exprimir os meus mais profundos remorsos, por essas feridas do passado, cuja dor é hoje revivida pelas discriminações ainda presentes nas nossas sociedades".

O soberano assumiu o compromisso de "combater todas as formas de racismo, para que a memória seja definitivamente pacificada", pode ler-se na carta, em referência a uma comissão parlamentar belga, com peritos belgas e africanos, criada para analisar a memória colonial e no momento em que a mobilização contra o racismo é mundial, em nome do movimento Black Lives Matter, despoletado após o assassínio por asfixia em Maio 2020 em Minneapolis do cidadão afro-americano George Floyd.

Em Bruxelas e Antuérpia foram vandalizadas inúmeras estátuas do cruel monarca belga, na sua maioria com tinta vermelha, para simbolizar o sangue vertido pelos congoleses e muitas universidades e municípios decidiram retirar as estátuas ou bustos de Leopoldo II, num parque público, em Gand.

Numa petição que já recolheu 80 mil  assinaturas, o colectivo de militantes anti-colonialistas designado "Reparemos a História" reclama que todas as estátuas em homenagem a Leopoldo II sejam retiradas de Bruxelas, designadamente a que o representa a cavalo frente ao Palácio Real, os signatários acusam o soberano de "carrasco e de ter morto mais de 10 milhões de congoleses".

Esta carta do Rei Philippe surge depois de o seu irmão mais novo, o príncipe Laurent, ter afirmado não acreditar que o rei Leopoldo II "tenha feito sofrer a população" da actual República Democrática do Congo, mas para alguns historiadores o reinado de Leopoldo II foi um "holocausto esquecido".

Em 2000/2001 uma comissão de inquérito parlamentar debruçou-se sobre o assassínio em Janeiro de 1961 do efémero primeiro-ministro congolês Patrice Lumumba e concluiu na "responsabilidade moral de alguns ministros e outros actores belgas".

Recorde-se que em 1885 a Conferência de Berlim desenhou o "mapa cor-de-rosa" que dividiu África, atribuindo vastos territórios africanos aos países colonizadores e concedeu ao rei belga Leopoldo II a Bacia do Congo e o designado Estado Livre do Congo, que este administrou como sua possessão pessoal e privada entre 1885 e 1908, com excepção do Enclave de Cabinda, que se transformou num protectorado português a 1 de Fevereiro de 1885 através do Tratado de Simulambuco, enquanto Angola passou a ser uma colónia de Portugal.

Leopoldo II que reinou entre 1865 e 1909 em 1908 cedeu o território do Congo belga à Bélgica, que o colonizou de forma brutal e racista, com separação estrita entre africanos e brancos até 1960 e em seu nome, foram cometidas atrocidades e mortos milhões de congoleses, "feridas" que ainda pesam na memória colectiva dos congoleses.

Sessenta anos depois da independência os congoleses não sabem o que é viver em paz

A 30 de Junho de 1960, mal os horrores ligados à produção de borracha infligidos por Leopoldo II terminaram, o primeiro Presidente do país foi Joseph Kasa-Vubu, mas a violência continuou, sobretudo depois do assassínio - ainda hoje polémico - no Katanga do seu efémero primeiro-ministro Patrice Lumumba a 17 de Janeiro de 1961.

Em 1965, Mobutu Sese Seko que ficou 32 anos no poder, derrubou Joseph Kasa-Vubu e criou um novo sistema de exploração, baseado nos depósitos inesgotáveis de cobre da província do Katanga, despoletando uma guerra civil que causou pelo menos meio milhão de mortos civis e militares.

A 27 de Outubro de 1971 Mobutu criou a República do Zaire, que em 1997 se transformou em República Democrática do Congo, sob o regime de Laurent-Désiré Kabila, seguido pelo seu filho Joseph Kabila proclamado chefe de Estado a 26 de Janeiro de 2001 após a morte do pai e obrigado a renunciar a um terceiro mandato em Agosto de 2018 e a 10 de Janeiro de 2019 Félix Tshisekedi, foi proclamado chefe de Estado, encarnando a primeira alternância pacífica na RDC, mas que não se consegue libertar da tutela de Joseph Kabila, cujo partido é maioritário no parlamento.

A violência e opressão continuam, tal como os conflitos sobretudo no leste da RDC, que provocaram milhares de mortos e milhões de refugiados.

A  RDC tem enormes jazidas de ouro, urânio, cobre,  diamantes e outros minerais estratégicos, mas também borracha e marfim.

Assuntos RDCongo  

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