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14 Dezembro de 2015 | 18h19 - Actualizado em 17 Dezembro de 2015 | 10h40

Basquetebol: "Na crise vamos ser melhores que no tempo da guerra" - Bi Figueiredo

Luanda - Já na parte exterior do Multiusos do Kilamba, após a partida de cartaz entre 1º de Agosto e Petro no Africano de clubes, a Angop travou breve conversa com Albino Figueiredo "Bi Figueiredo". Afastado das lides de momento, mas com uma vida inteira ligada ao basquetebol e à Federação Angolana de Basquetebol, o homem aceitou abordar uma temática que lhe é familiar.

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Bi Figueiredo, ex-secretário geral da FAB

Foto: Foto Cedida

Breve, mas esclarecido e profundo quanto à sua visão do basquetebol, Bi fez revelações e deixou dicas, algumas enigmáticas, porém notórias de quem ainda pulsa basquetebol nas veias.

(Por Pedro da Ressurreição)

Siga a entrevista:
 
Angop – Depois de longo tempo de ausência faz a sua aparição nos campos neste Africano de clubes. Com que impressão ficou do jogo de destaque entre 1º de Agosto e Petro?

Bi Figueiredo (BF): O que me satisfaz do que vi no jogo Petro-1º de Agosto - às vezes sou um bocado mal compreendido nisso - é que os atletas angolanos sobressaíram em relação aos seus colegas estrangeiros. Mas mesmo assim, acho que ainda me preocupa um aspecto que tem a ver muito com os fundamentos de basquetebol.

Interrogo-me às vezes ver os jogadores depois de um lançamento a não se preocuparem com bloqueio defensivo. Hoje já me pergunto se o bloqueio defensivo deixou de existir no basquetebol. A tendência é espectáculo, estamos plenamente de acordo, mas deveremos sempre fazer prevalecer o basquetebol que caracterizou Angola. Que é o basquetebol com boa defesa, que tem a ver com a execução dos fundamentos tanto defensivos como ofensivos.

Mas foi um jogo interessante. Acabei por ver também o Libolo no primeiro jogo e hoje um bocado. Acho que entre os três, dois deles vão cruzar na final. Espero e desejo é que sobressaiam sempre mais os jovens talentos, que eu vi hoje. Não escondo que há muito tempo que não venho aos campos, então perguntava quem eram os jovens.

E interessou-me saber que alguns jovens, com o devido respeito pelo termo, vou usar um termo veicular, até são da periferia. Penso que é o número 18 do Petro (Gelson Gonçalves), procurei saber de onde era. E é sempre bom sabermos que afinal ainda temos a possibilidade, se soubermos trabalhar em coesão, se soubermos trabalhar com humildade, ainda temos em Angola Miguels Lutondas, Carlos Almeidas, etc.

Temos é que encontrá-los, dar-lhes oportunidade. Porque a sociedade de dia para dia está a tornar-se cada vez mais difícil de se conviver e há que chamar esses jovens a uma convivência mais salutar, e isso tem a ver com a capacidade também dos dirigentes de saberem ver em que condições esses jovens vivem, o meio social em que estão e poder socializá-los.

Quando falo em socializá-los digo – passe o pleonasmo - numa sociedade sã, saudável onde todos os cuidados devem ser poucos, desde o acompanhamento escolar, alimentar e, um termo que se usou muito ao longo dos anos, o treino invisível. Mas, de resto, fiquei satisfeito em ver estes  jovens jogarem.  

Angop - Porque esteve muito tempo ligado ao dirigismo desportivo, como, na sua opinião, se devia capitalizar a organização destes dois torneios continentais no país?

BF: Vou dar-lhe um exemplo: Estamos aqui num monstro adormecido. Acho que se devia capitalizar este torneio com muita actividade de basquete infantil aqui à volta. Acho que já temos condições – tive oportunidade há dias de visitar uma empresa -, temos meios em Angola para pôr tabelas aqui à volta e pôr essa juventude envolvida, enquanto decorrer a competição.

O desporto acaba por ser uma festa, mas ele não se deve reservar ao tal espectáculo adulto. Acho que aqui fora deveria criar-se um outro ambiente de basquetebol para pôr milhares de crianças a lançarem bolas, a terem contacto com a bola de basquete. Deveremos tirar mais proveito dessas actividades que organizamos.
 
Angop – E quanto à ausência de público nos jogos?
 
BF: Vou dar-lhe uma opinião conforme terminei. Eu acho que aqui a  jusante desta mega estrutura se deveria criar outros atractivos. Vou lhe dar um exemplo, colocar aqui jogos infantis, para crianças, de tal modo que os pais e familiares mais crescidos possam estar a assistir ao basquetebol e os filhos bem entregues, logicamente, a pessoas competentes, a realizarem outro tipo de actividade. Eu acho que isso não pode ficar confinado à parte interior do pavilhão e nem ao jogo em si.

Acho que se devia criar aqui uma envolvente mais festiva para atrair mais pessoas ao campo. Como vê isto aqui está morto. Basta sair lá de dentro, cá fora está morto e escuro. Acabou!

Angop - Mas sobre a competição em si…

BF: Se quer que lhe fale de um sentimento... Gostaria que estivéssemos a organizar o campeonato africano sub-14. Porque acho que o país entrou para uma razão e não se justifica. No meu pensamento sobre aquilo que concebo sobre o basquetebol, deveríamos catapultar mais recursos para os escalões de formação. Segundo constatações, o Africano de juvenis provavelmente vai ser na Nigéria.

Há muitos anos que digo que acho que Angola até 2020 não deveria perder campeonato africano. Pronto, há outras razões que já não interessa referenciar. Mas eu gostaria de saber daqueles atletas que ganharam o sub-16 onde estão. Quer dizer como está o processo que referi atrás, do acompanhamento, saber o modo de vida que os jovens têm.

Eu digo que a sociedade caiu na real – ou seja – estávamos a viver voando, agora estamos a viver andando e é assim que as pessoas devem começar a viver. As pessoas devem começar a andar e depois é que devem pensar em voar. E mesmo a voar tem que ser com responsabilidade. Penso que este momento que o país está a viver vai nos obrigar a sermos mais unidos, a sermos mais inclusivos e isso sobremaneira vai melhorar.

Eu não lhe escondo, com o devido respeito pelas equipas que participaram no campeonato da segunda divisão, particularmente a equipa do Bié, que agora não tem recursos para vir para a primeira divisão, digo que foram recursos, mesmo que não financeiros, mas foram recursos humanos e materiais que se perderam, que se deveriam fazer para os sub-14.

Tomei conhecimento de que no campeonato nacional feminino de sub-14 que decorre na Huíla estão apenas quatro equipas. Para uma selecção que, para mim, é campeã africana – não ganhou desta vez, mas para mim é campeã africana, isso não é bom. Por isso, acho que a crise veio no momento certo. Porque estou esperançoso de que as pessoas vão poisar e vão saber que agora os recursos são mais fortes usando as pernas e não as asas.

Angop – Parece enigmático. É preciso acompanhar os jovens, fazer melhor gestão dos recursos disponíveis, estar mais unidos. Não tem sido assim, mas julga que com a crise vai-se repor...?

BF: Bem, há aqui também que fazer uma certa paridade. Nós construímos estes monstros, não são para ficarem fechados. Agora há o Africano de clubes, depois provavelmente vai ficar fechado seis-oito meses. Este bicho – passe a expressão – não foi feito para isso, foi feito para levar muita gente às costas. Por exemplo, falou-me do público.

Eu não sei porquê que nós não abrimos as portas às escolas primárias. Porque eu acho que o não haver recursos financeiros não quer dizer que não exista recursos de iniciativa, recursos de execução e gestão melhor. Nós, de facto, habituámo-nos só a limpar com dinheiro, não nos habituámos a limpar com o pano ou com a vassoura. Ainda bem, agora vamos ter de limpar mesmo com a vassoura e até a aquela vassoura tradicional. Esta a ver?

O que é importante é que este monstro que temos aqui, que tenha por exemplo mil miúdos/dia a praticarem basquetebol, mil a fazerem andebol, outros tantos no volei e que aqui à volta tenha mais cinco mil miúdos. Porque se você trouxer as crianças ao campo, logicamente, com todas as condições de segurança - eu falo muito disso, para lidar com criança tem de ser com todas as condições de educação primárias - você verá que a criança vai forçar o educador e o familiar a virem.

Por isso, há que neste tipo de organizações mobilizar-se mais os colégios, as escolas primárias e secundárias, as universidades e até criar o estímulo entre o desporto e a educação em que os melhores alunos é que têm direito a vir ver o espectáculo. Tem que se criar outro ambiente, porque senão, está ver, acabou o jogo e vamos para os hotéis e para as casas, não há uma envolvente. Eu acho que se deve tirar mais proveito disso.

Angop – O que faz o Bi Figueiredo agora na relação com o basquetebol?

BF: Agora? Vamos lá ver. A idade sobremaneira pesa, mas não impede. Sempre que somos solicitados estamos no terreno. E gostamos de nos avaliar nos momentos de crise, no momento da “guerra”. Os momentos do auge deixa-os para a juventude, nos momentos da dificuldade estamos cá ainda para darmos as nossas opiniões e contribuição, para mostrarmos que na crise vamos ser melhores que no tempo da guerra.

Angop – Está anunciar que o basquetebol o terá de volta?

BF: Eu não posso esconder que tenho sido contactado a dar opiniões sobre o basquetebol e transmito-as. Mas para quem me conhece também sou muito exigente, muito rigoroso. Por isso, ou mudamos a mentalidade ou não interessa dar a contribuição. Dar a contribuição para o espectáculo e não dar contribuição para melhores lançamentos e melhores ressaltos não me interessa logicamente.

Angop – O próximo ano é eleitoral dentro do ciclo olímpico. Esses contactos não lhe motivam ao dirigismo?

BF: Não me motiva ser dirigente desportivo já, mas motiva-me a dar a minha contribuição directa em defesa do que ajudei a construir. Eu costumo dizer que não podemos deixar o edifício cair. Não! O meu tijolo de certeza absoluta que eu não vou deixar ruir até à minha morte.

Angop – E como pensa mantê-lo?

BF: O meu tijolo garanto que não vou deixar ninguém demolir. Isso posso lhe garantir. E eu tenho consciência e tenho crédito nos governantes. Não faço apologia de personalidades, mas nos momentos difíceis é que se avaliam os homens e nós estamos aqui para demonstrarmos que no momento difícil Angola pode recuperar o título de campeão africano. E estamos disponíveis a isso se formos convidados.

PERFIL

Nome completo: António Albino Rodrigues de Figueiredo
Data e local de nascimento: 16 de Abril de 1962 (53 anos), Namibe

Prática e formação desportiva

1972/74 - Jogador de Minibasquetebol no CDUNOL – Clube Desportivo Universitário de Nova Lisboa
1976/80 - Jogador do escalão jovens no Sporting Clube do Huambo
1981 - Curso de Treinadores Nacionais do Grupo “C”, pela FAB no Huambo
1982 - Curso de Orientadores Desportivos pelo Instituto Médio de Bud Blackumburg da Alemanha
1983 - Curso de Treinadores Nacionais do Grupo “B”, pela FAB em Luanda

Treinamento desportivo

1977/9 - Monitor de Minibasquetebol e Iniciados Masculino do Sporting Clube do Huambo
1980/1 - Treinador de Cadetes Masculino do Sporting Clube do Huambo
1981/4 - Director Técnico e Treinador de Juniores Masculino do Mambrôa Sport Clube do Huambo
1985/7 - Director Técnico e Treinador de Seniores Masculinos do Petro Atlético do Huambo
1987/8 - Director Técnico e Treinador de Seniores Masculinos do Dínamo Sport Clube do Huambo
1987 - Treinador Adjunto da Selecção Nacional Júnior Masculina

Juízes e cronometristas

1978/81 - Árbitro Nacional de 1ª Categoria

Dirigismo desportivo

1977/82 - Secretário Executivo da Associação Provincial dos Desportos do Huambo, que englobava todas as modalidades desportivas excepto o futebol
1982/87 - Chefe de Sector Provincial de Cultura Física e Recreação da Delegação Provincial dos Desportos nomeado em Diário da República
1984/87 - Presidente de Direcção da Associação Provincial dos Desportos Colectivos do Huambo, que englobava o basquetebol, andebol, voleibol e hóquei em patins
1985/89 - Membro da Federação Angolana de Basquetebol
1988/91 - Quadro do MINSE colocado na ADDA (Direcção Nacional dos Dezoito Clubes Dínamo em Angola), tendo ocupado a função de Chefe da Direcção Técnica Nacional
1989/92 - Secretário Geral da Federação Angolana de Basquetebol
1989/96 - Membro da Comissão Técnica Nacional de Basquetebol por inerência do cargo de SG
1992/00 - Secretário Geral/Tesoureiro da Federação Angolana de Basquetebol
1996/00 - Membro do Comité Olímpico Angolano – Representante da FAB
2003/04 - Assessor do Presidente da Direcção e Director p/ Basquetebol do Grupo Desportivo Interclube de Luanda
2004 - Candidato a Presidente da Federação Angolana de Basquetebol

Organização desportiva

1978 - Presidente da Comissão Organizadora do Torneio de Minibasquetebol do Huambo com a participação de dezoito equipas (escolas primárias). Foi o primeiro torneio deste escalão etário realizado em Angola após a independência.
1984/87 - Presidente da Comissão Organizadora de sete campeonatos nacionais de basquetebol de diversas categorias realizados no Huambo.
1985/89 - Coordenador Técnico de campeonatos nacionais sob a égide da FAB realizados nas províncias de Luanda, Namibe, Huíla, Zaire e Bié.
1989 - Director Geral Executivo do Comité Organizador do Afrobasket89 realizado em Luanda qualificativo para o Mundial de 1990.
1990 - Secretário Executivo da Comissão Organizadora da IIIª Edição da Taça Juventude – Torneio Internacional de Basquetebol que antecedia a participação da nossa selecção no campeonato africano.
1992 - Director Geral Executivo do Comité Organizador do Iº Campeonato Africanode Sub22 realizado em Luanda.
1998 - Coordenador da Comissão Eleitoral para a Iª Associação de Treinadores de Futebol de Angola.
1998 - Coordenador Adjunto da Comissão Eleitoral para a Iª Associação Nacional de Treinadores de Basquetebol.
1999 - Director Geral Executivo do Comité Organizador do Afrobasket99 realizado em Luanda, qualificativo para os Jogos Olímpicos 2000.

Formação desportiva

1990 - Prelector de Organização Desportiva no Curso de Treinadores de Basquetebol do Grupo “C”, sob a égide da FAB.
1998 - Director do  Curso de Treinadores de Basquetebol do Nível Médio do Comité Olímpico Internacional realizado em Luanda sob a égide do COA.
 
Direcção das selecções nacionais

1981 - Coordenador Adjunto das selecções nacionais seniores masculina e feminina aos IIIºs Jogos da África Central realizados em Luanda.
1990 - Chefe de Delegação da selecção nacional sénior feminina ao Campeonato Africano realizado em Tunis–Tunísia e ao Torneio da SADCC realizado em Lusaka- Zâmbia.
1990 - Coordenador da selecção nacional sénior masculina ao Campeonato do Mundo realizado em Buenos Aires–Argentina.
1993 - Coordenador da selecção nacional sénior masculina ao Campeonato Africano realizado em Nairobi – Quénia.
1994 - Chefe de Delegação da selecção nacional sénior feminina ao Campeonato Africano realizado em Joanesburgo – África do Sul.
1996 - Coordenador da selecção nacional sénior masculina aos Jogos Olímpicos de Atlanta – EUA.
1997 - Chefe de Delegação da selecção nacional sénior masculina

Assuntos Basquetebol  

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