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14 Abril de 2015 | 17h02 - Actualizado em 14 Abril de 2015 | 20h25

O futebol evoluiu muito e não há comparação possível - Ndunguidi

Luanda - O antigo extremo direito do 1º de Agosto e da selecção de futebol Ndunguidi Daniel (ND) fala, em entrevista à Angop, sobre o nível de desenvolvimento da modalidade ao longo dos 40 anos de Independência Nacional, alcançada em 11 de Novembro de 1975, e aponta as infra-estruturas como o principal ganho.

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Ndunguidi Daniel - Antigo Futebolista Angolano

Foto: Gaspar Dos Santos

(Por Marcelino Camões e Ventura Bengo)


Angop: Qual é o estado do futebol 40 anos após a independência nacional?

ND - O futebol evoluiu muito ao longo dos 40 anos de independência no aspecto das infra-estruturas, condições de trabalho e não há comparação possível com o tempo anterior. Hoje, os atletas têm condições excelentes para a prática do futebol, uns já são bem remunerados – praticamente são profissionais, enquanto antes o futebol era amador – não havia nada de remuneração. Actualmente os atletas têm condições para praticar o futebol e no futuro não terão problemas sociais.

Angop: Está a dizer que os atletas do seu tempo passam por problemas sociais?

ND - Sim, boa parte. Porque no meu tempo jogávamos mais por amor à camisola, por amor à pátria.

Angop: Falou em infra-estruturas, quer pormenorizar?

ND - Hoje, fruto do CAN2010, temos quatro estádios excelentes. Os clubes estão a construir centros de treinamento para os seus atletas. O 1º de Agosto tem uma academia e existe ainda a Academia de Futebol de Angola (AFA).

Angop: Então o futebol evoluiu nestes 40 anos de independência?

ND - Acho que neste aspecto evoluiu muito. Deu um salto qualitativo. Agora em termos de futebol é que continuamos a não ter ainda aquela qualidade desejável.

Angop: Porque?

ND - Está à vista de todo mundo - o futebol angolano não tem craques (estrelas). O futebol espanhol e inglês são atractivos porquê? Porque existem estrelas. O futebol hoje é um espectáculo e quem proporciona o espectáculo são os atletas.

Angop: Os estádios em Angola têm estado vazios por falta de estrelas?

ND - Isto está à vista de todo mundo.

Angop: O que falta para o surgimento de estrelas no futebol nacional?

ND - Temos que formar uma nova geração, dar outra qualidade aos nossos jogadores e estabelecer o biótipo de atletas que queremos para o futuro. Temos que definir qual é o futebol que nós queremos para o nosso país. O futebol de Angola não é peixe nem é carne. Não está definido. Eu vejo o futebol do Congo, da RD Congo, do Ghana, da Nigéria e sabe-se logo. Antes, o nosso futebol tinha uma definição. Era um futebol técnico, um futebol espectáculo.

Angop: Até que ponto a vinda de treinadores, naquela altura, de países como a Bulgária, ex-Checoslováquia, ex-Jugoslávia e depois o Brasil influenciou no biótipo do futebol angolano a que se refere?

ND - Por exemplo, no 1º de Agosto, a nossa escola era a jugoslava. O futebol no 1º de Agosto foi sempre caracterizado, até aos anos 90, pela escola jugoslava, por técnicos jugoslavos, onde a força é aliada à técnica e tivemos frutos. No Petro era o futebol brasileiro.

Angop: Quando se fala em biótipo trata-se já de uma questão de política desportiva do país?

ND - Exactamente. O país tem de definir políticas desportivas não só para o futebol, mas para o desporto em geral. Há países que são conhecidos no mundo por causa do desporto, como o Brasil actualmente por causa do Neimar, a Argentina por causa do Messi. Os maiores embaixadores, os maiores diplomatas no mundo são os desportistas. Eles é que fazem a maior propaganda dos respectivos países, mesmo não sendo diplomatas de carreira. Angola tem que embalar neste século XXI.

Angop: Permita-me que retroceda para o início da entrevista, onde falou da evolução das infra-estruturas, fundamentalmente após o CAN2010 que Angola albergou. Como encara a gestão destes imóveis?

ND - Aí já é outro departamento. Acho que estes estádios deviam ser entregues a gestores profissionais ou a empresas privadas, porque o Estado angolano tem outras preocupações.

Angop: Fale mais sobre as escolas de futebol em Angola...

ND - Temos que inundar o país com escolas de futebol. Actualmente só temos três escolas com boas condições: a do 1º de Agosto, da AFA e a do Petro Atlético de Luanda, num país com 18 províncias. A Alemanha, que é um país territorialmente inferior a Angola, tem 25 centros de treinamento especiais só para o futebol jovem. Por isso, deram espectáculo no recente mundial, disputado no Brasil.

Angop: Além das escolas citadas, existem outras como a Norberto de Castro, Joka Sport...

ND - De facto, omiti estas, mas continuam sendo poucas num universo de 18 províncias. Considero muito poucas. O Estado tem que investir no desporto se quiser que a sua bandeira seja elevada ao mais alto nível. Os investimentos no desporto são muito fracos.

Angop: Apenas para deixar bem claro. No seu ponto de vista, o futebol evoluiu muito ao longo dos 40 anos de independência apenas em termos de infra-estruturas?

ND - Sim, em termos de infra-estruturas a evolução está à vista de todo o mundo. Mas agora no futebol praticado, aí já não houve evolução. Sem medo de errar, o nosso futebol não tem qualidade nenhuma. Temos de ter a coragem de dizer isso e investirmos na formação, porque o nosso futebol decresceu, fundamentalmente depois da última geração de jogadores como Akwá e Mantorras.

Primeiro formar o jovem como homem na sociedade, depois como futebolista e em seguida fazer a gestão dos investimentos que forem feitos. O futebol hoje é táctico e o futebolista deve ter capacidade intelectual para assimilar as orientações do treinador. Angola tem 24 milhões de habitantes, não é difícil pegar em 60 jovens com 10 anos e acompanhá-los até 2022. Os maiores países no mundo em termos de futebol fazem isso. A Alemanha para ganhar agora o mundial do Brasil2014 começou a preparar a equipa depois do de 2006. Muitos destes atletas agora campeões do mundo eram sub-14 e sub-15.

Angop: O desporto escolar seria um caminho?

ND - Exactamente. Eu venho do desporto escolar, tal como a maioria dos craques deste país.

Angop: Actualmente existe desporto escolar, como tal, em Angola?

ND - Que eu saiba não existe.

Angop: Esta questão do desporto escolar passa muito pela valorização do professor de educação física?

ND - Exactamente. A disciplina de educação física deve ser mais valorizada. Eu sou do tempo em que se podia reprovar se não tivesse boa nota em Educação Física. A disciplina é importante para desenvolver as capacidades motoras do estudante.

Angop: Qual é a importância dos centros de treinamento?

ND - Isto é fundamental, porque há jovens que ainda praticam futebol em campos pelados nos campeonatos juvenis e juniores. Acho que, assim como se proibiu nos seniores jogar em campos pelados, se devia exigir o mesmo aos escalões de formação.

Angop: E sobre os talentos?

ND - O talento natural existe. Agora é importante saber como estão a ser formados, como está a ser transmitido aos jovens o ABC do futebol para que eles possam desenvolver as qualidades natas.

Angop: Não depende também da formação e valorização do próprio treinador? Os melhores estão no futebol de alto rendimento, não é assim?

ND - E de quem é a culpa? Dos dirigentes. Agora, no nosso Girabola2015, dos 16 treinadores 11 são estrangeiros, o que é uma vergonha. Existem equipas que contratam treinadores estrangeiros para não descerem de divisão. Agora eu pergunto como fica o treinador nacional? Há um preconceito em relação ao nacional. Mas, na verdade, o treinador estrangeiro de qualidade não vem para Angola e nem para África. Existem 11 treinadores estrangeiros no Girabola, mas a qualidade da competição não melhorou.

Dizem que sou muito crítico, mas devemos fazer críticas construtivas para melhorarmos.Portugal também tinha esta política, mas hoje o campeonato português tem 18 clubes e só um treinador é estrangeiro, o espanhol do FC do Porto. E a ele é exigido que seja campeão.

Angop: Em relação à remuneração, não estando ainda em vigor a lei do profissionalismo desportivo... Como se pode definir o desporto em Angola: é profissional ou não?

ND - Existe um profissionalismo encapotado. Por lei, não está ainda nada definido. Mas o profissionalismo existe. Hoje no Girabola já há salários de 20 mil dólares/mês para o caso de clubes grandes. Nada comparado a clubes europeus. Mas há clubes no país que pagam bem.

Angop: Os angolanos que evoluem no estrangeiro trazem mais-valia à selecção nacional?

ND - Eu sou de opinião que o jogador angolano que evolui no estrangeiro deve ser convocado para o 11 inicial, porque se for para ser suplente que se coloque o que joga no Girabola.

Angop: Fale mais sobre os investimentos que devem ser canalizados para o futebol...

ND - Os investimentos devem ser contínuos. Um clube como Bayern de Munique investe anualmente quatrocentos e 80 milhões de euros. O nosso futebol é de brincadeira em relação a países como Espanha, Inglaterra, França e mesmo Portugal. Mas eu não vou patrocinar um clube que não me garante retorno financeiro - o futebol angolano não é atractivo.

Angop: Qual é para si a equipa ideal ao longo dos 40 anos de independência?

ND - Isto é simples. Não vou agradar a todos, mas seria: Ângelo Silva (Guarda-redes), Manico (lateral direito), Lourenço e Garcia (centrais) e Mascarenhas (lateral esquerdo); Sarmento, Lufemba e Eduardo Machado (meio campo), Abel, Jesus e N’suka (ataque).

Angop: Há alguma razão para ficar de fora do 11 ideal?

ND - Trata-se do meu “onze”. Nesta minha condição de treinador, não posso colocar todos, mas reconheço terem ficado de fora outros jogadores também de muito valor.

Angop: Quem seria para si o futebolista de todos os tempos?

ND - Dinis. Para mim, foi o maior. É o nosso Pelé.

Angop: E o desportista de todos os tempos?

ND - Também é o Dinis.

Angop: O Ministério da Juventude e Desportos e a Federação Angolana de Futebol anunciaram para este ano a realização de uma conferência nacional de futebol. Qual é a sua opinião?

ND - Não vai dar em nada. É desnecessária. Já houve vários encontros de futebol em Angola, mas depois fica tudo em papel e na gaveta. Tem que se partir para a acção e acção é o futebol jovem. De quem é a AFA? Então se o kota (patrono da AFA) deu o exemplo, dizendo o caminho, as pessoas estão a dormir! Não é necessário encontro. Deve-se apostar no futebol jovem, na formação.

Angop: Foi estrela do futebol angolano. Entretanto, não chegou ao profissionalismo...

ND - Não cheguei ao profissionalismo porque na altura não era permitido. Em 1979 devia ingressar no Sporting de Portugal, mas não foi possível por lei.

Angop: O Sport Lisboa e Benfica também já esteve na corrida?

ND - Também, em 1990, com 33 anos. Eles gostaram do meu futebol.

Angop: Sente-se realizado?

ND - (Silêncio)

Angop: Em face do silêncio, o que ganhou com o futebol?

ND - Concretamente nada. Ganhei prestígio e fama. Financeiramente, não ganhei absolutamente nada.

Angop: Noto que fala com nostalgia. Sente que não é reconhecido por tudo que deu ao futebol nacional?

ND - Pelo Estado angolano não me sinto reconhecido. Apenas pelo meu clube, o 1º de Agosto, onde sou actualmente conselheiro para o futebol e embaixador.

Angop: Reclama por este reconhecimento?

ND - É claro. Fui embaixador do desporto angolano como todos os outros e em tempos de guerra. Penso que o Estado angolano deve-me este reconhecimento.

Angop: É treinador de futebol, inclusive ganhou um título nacional em 1998 e levou a equipa à final das Afrotaças. Já não exerce, porquê?

ND - Como treinador activo, já não por opção. Eu tenho ideias próprias e noto que não há espaço para mim.

Angop: Por tudo que representa para o futebol angolano, se fosse presidente da Federação Angolana de Futebol (FAF) onde começaria a trabalhar?

ND - Já batemos nesta tecla. Na formação.

PERFIL


Nome: Ndunguidi Daniel Gonçalves
Naturalidade: Buco Zau (Cabinda)
Data de Nascimento: 13 de Outubro de 1956
Comida Preferida: Funje de milho (molho variado)
Bebidas: Vinho
Ocupação nos tempos livres: Navegar na internet sobre temas variados como política, desporto e entretenimento.
Cantor preferido: Augusto Chacaya, uma das referências da banda Jovens do Prenda.
Troféus conquistados como atleta: Campeonato nacional em 1979, 1980 e 1981.
Troféus como treinador: Bi-campeão nacional (1998 e 1999) e três vezes vencedor da Supertaça (1998, 1999 e 2000)
Internacionalizações: Oitenta, num percurso entre 1976 até finais da década de 1980.

Assuntos Futebol  

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