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30 Agosto de 2016 | 08h44 - Actualizado em 31 Agosto de 2016 | 15h29

Madeira volta à ribalta para reerguer Luena e outras cidades

Luena - Depois de uma longa travessia no deserto, mercê da guerra que assolou o país, a exploração de madeira na província do Moxico começa, este ano, por ganhar corpo e nova dinâmica, com o foco voltado para o consumo interno e exportações, com vista à captação de divisas, com a entrada em cena de 65 operadores licenciados pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF), o que constitui verdadeiro indicador de diversificação da economia.

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Exposição de madeira no Luena feita a quando da visita do Presidente José Eduardo dos Santos

Foto: Francisco Miúdo

(Por Agostinho Kilemba e Ambrósio Soni)

Nesta empreitada, para “empurrar” para frente a “locomotiva da diversificação da economia” e contribuir, decisivamente, para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Moxico a valores tão expressivos, estão ex-militares, pastores, agricultores, bancários, comerciantes, entre outros, que se decidiram a abraçar esta nova “batalha do povo angolano”, a de garantir a auto-suficiência da produção interna de bens e serviços.

No total, oitenta (80) processos para a licitação da actividade deram entrada na Direcção Provincial da Agricultura, mas, em função das cotas de produção da madeira, estabelecidas a nível nacional e porque a exploração deve obedecer aos critérios de sustentabilidade ambiental, apenas sessenta e cinco (65) passaram pelo crivo do IDF.

A floresta do Moxico, por sinal a maior província de Angola, com uma extensão de 230 mil quilómetros quadrados e uma exploração controlada da madeira, constitui hoje uma das fontes de arrecadação de receitas e divisas, embora a sua contribuição ainda seja insignificante.

Este recurso florestal, a par do arroz, é um dos principais trunfos da região, para voltar a erguer novas cidades, construção de estradas, infra-estruturas sociais, melhorar a condição de vida dos seus habitantes e colocar mais uma pedra neste grande edifício que se chama Angola, rumo ao desenvolvimento e à prosperidade.

O engajamento dos empresários locais em apostar na exploração e na transformação da madeira local, para agregar valor a este produto e depois exportá-lo, vai ao encontro da visão do Presidente da República, José Eduardo dos Santos, aquando da sua visita, a 22 de Junho último, ao Luena, segundo a qual “o Moxico pode contribuir para a exportação e captação de divisas, por possuir potencialidades no sector florestal e agrícola”.

Hoje, nas estradas nacionais n.ºs 180 e 230, em todo o seu percurso é fácil avistar-se com um camião, carregado de enormes toros, com diâmetros a variarem de 60 centímetros a 1,5 metros, saído das áreas de corte em direcção a Luanda, principal mercado de consumo interno da madeira e centro logístico para a exportação à Asia e à Europa.

Na estrada nacional n.º 180, no troço Luena/Lumbala Nguimbo, numa extensão de 356 quilómetros, estão já asfaltados 130 quilómetros até à localidade de Lucusse. No início deste mês (Agosto), a empresa Sino Hidro, responsável pela empreitada, começou por colocar o tapete asfáltico em mais 31 quilómetros, para permitir melhor circulação rodoviária nestas regiões ricas em madeira.

Mas, sobre a circulação rodoviária ainda há muito por se fazer, pois grande parte das estradas necessita de intervenção urgente, outras de construção e umas de reabilitação, em virtude de os empresários se queixarem dos elevados custos, devido ao mau estado das vias, que encarece o frete para Luanda.

Além da estrada, as pontes metálicas estão a ser substituídas pelas de betão armado. A primeira está em construção no rio Luio, com tabuleiro de 50 metros de comprimento e cinco de largura. As obras terão a duração de três meses.

Corte da madeira quintuplica e atinge crescimento recorde este ano

Moxico, a única província que ostenta seis reservas florestais, com uma área de cerca de 700 mil hectares, explorou, em 2015, três mil metros cúbicos, e a meta para 2016 é atingir os 16 mil metros cúbicos, sendo 250 para cada madeireiro, representando um crescimento de 433,33 porcento em relação ao ano passado, mas a quantidade é considerada pouca por madeireiros já com muitos anos de actividade.

A entrada em cena de 65 operadores permite a este sector ser um dos maiores geradores de postos de emprego a nível da província, depois da agricultura, com as cifras a ultrapassarem os dois mil postos de trabalho, para jovens locais e de outras regiões como Luanda, onde muitos tentaram a oportunidade do primeiro emprego, mas sem sucesso.

A exploração em grande escala da madeira abre, desta feita, uma janela de oportunidade para o ressurgimento da indústria de mobiliário de Angola, que entrou em falência poucos anos depois da proclamação da independência nacional.

O surgimento desta indústria permitirá ao país apostar nas escolas de formação para este segmento de negócio, bem como poupar divisas, pois Angola depende, grandemente, também da importação de mobiliário, enquanto a matéria-prima existe em abundância.

Apesar de ser a única em termos legais a ostentar seis reservas florestais, num total de 700 mil hectares, segundo Isaac Victor, chefe de departamento do Instituto de Desenvolvimento Florestal (IDF), Moxico ainda não é o maior produtor, mas poderá dar resposta às necessidades que o Estado enfrenta no domínio da diversificação da economia neste segmento de negócio.

Isaac Victor diz que a região dispõe de uma diversidade de espécies, com destaque para aquelas que têm sido concorridas por parte dos interessados na madeira, como a espécie mussivi ou pau-ferro, mucesse, muvuca, mumanga, mussal, mucula, também chamada de girassonde, mucosso e outras. Estas são as mais representativas e as mais solicitadas.

Dada a dureza, qualidade e valor económico das espécies mencionadas, bem como a apetência de potenciais investidores neste negócio, o IDF, conta o seu responsável à reportagem da Angop, para a campanha que vai de 15 de Maio a 30 de Setembro, recebeu pelo menos 80 processos para a exploração da madeira, mas as solicitações feitas ultrapassaram as capacidades produtivas legalmente estabelecidas para o Moxico.

“As solicitações feitas ultrapassaram as capacidades legalmente estabelecidas de produtivas da província, uma vez que, em termos da capacidade produtiva, de acordo com os documentos legais disponíveis, o Moxico pode produzir 16 mil metros cúbicos/ano e, deste volume, é possível licenciar até 11 mil metros. Como queríamos juntar os 80 processos, atingimos mais de 20 mil metros cúbicos. Fomos incapazes de dar satisfação a esses pedidos”, fez saber.

Dos nove municípios, o IDF disponibilizou licenças para a exploração de madeira em sete, designadamente, Moxico, Luau, Alto Zambeze, Camanongue, Leua,  Bundas e Lushazes.

Nesta campanha, para o município do Luau, estão licenciados 15 operadores, Lushazes 8, Bundas 9, Leua 1, Camanongue 1, Alto Zambeze 10 e Moxico, 16, sensibilizados de que, a partir do próximo ano, a madeira deixa de ser transportada em toro fora da província, para dar corpo ao diploma legal que obriga a sua transformação local.

Efeito multiplicador com decreto da transformação local da madeira

Se com o corte o sector madereiro absorve, nesta fase embrionária, mais de dois mil e 600 postos de trabalho, com a implementação do decreto presidencial que impõe a obrigatoriedade da transformação do toro nas áreas de exploração ou na cidade do Luena, dezenas de milhares poderão ser criados nos próximos anos, revelou à reportagem da Angop o presidente da Associação dos Madeireiros do Moxico, Frederico Paulino.

Apesar de não existirem dados estatísticos fiáveis da quantidade de madeira que era explorada no tempo colonial, sabe-se que, a nível da província, existiam 31 serrações de grande, médio e pequeno portes que davam suporte a toda a actividade de exploração, transformação da madeira, conforme o chefe de departamento do IDF do Moxico, Isaac Victor.

Antes mesmo da entrada em vigor do diploma legal que obriga a transformação da madeira, os exploradores anteciparam-se em alargar a sua carteira de investimento para a área de serração dos toros em tábuas, barrotes, tacos e contraplacados.

O próprio diploma legal encontra eficácia de aplicabilidade, com a aprovação do programa dirigido de apoio ao empresariado nacional voltado para o segmento da madeira, no qual o Moxico, de acordo com o presidente da Associação dos Madereiros, foi contemplado com cinco projectos.

Produção de madeira no município dos Bundas

A exploração de madeira no município dos Bundas, 356 quilómetros a Sul da cidade do Luena, regista crescimento exponencial, tendo sido licenciadas, para esta campanha, nove empresas operadoras, rumo à exploração em grande escala.

A motivação e a vontade em impulsionar o sector são demonstradas pelos jovens da Associação Kujolela, da comuna de Luvuei, cujas actividades iniciaram em 2012, com uma média mensal de 75 mil tábuas e barrotes, exploradas numa área de mais de mil hectares.

O projecto que emprega 22 jovens produz, igualmente, mais de 80 toros/mês, que são transportados em grandes camiões com direcção para Luanda.

De acordo com Jaime José, gerente do projecto localizado em Luvuei, município dos Bundas, a equipa de 22 jovens é dividida em duas, uma vez que faz prospecção da espécie Mussivi (Pau Ferro), planta caracterizada pela sua dureza e qualidade, e outra que se ocupa pelo corte e transportação do toro até à berma da estrada, momento em que acontece o seu transporte para o local da serração, onde o toro é transformado em madeira, com várias espessuras.

A exploração é acompanhada por um processo de estudo sobre o impacto ambiental, que permite a substituição da espécie explorada para evitar a desflorestação na região. A associação conta com um viveiro da espécie Mussivi, com mais de duas mil plantas, para fazer a reposição na época chuvosa.

O responsável adianta que o processo de corte da madeira é moroso, porque a associação vive dificuldades em adquirir equipamentos novos que possam auxiliar na actividade de corte e aumentar a produção para as cifras mais altas.

Jaime José explica à equipa de reportagem da Angop que a madeira do Moxico está a ser muito solicitada, tanto em Luanda, tanto na Lunda Sul, daí a necessidade do aumento da produção para conseguir dar resposta à demanda, mas o problema reside na degradação acelerada das estradas, facto que encarece o frete, situação que deve ser resolvida pelo Governo.

Além da Associação Kujolela, na comuna do Luvuei, há o grupo Construções Associadas (CA), que está a edificar duas grandes serrações para a transformação local de toda a madeira explorada pela empresa, visando cumprir com a directiva do Governo de não fazer circular o toro fora da província.

O projecto possui uma estufa para o processo de secagem da madeira, com capacidade de armazenar até três mil madeiras em 15 dias, para, posteriormente, serem transportadas em camiões para os locais de venda.

Essas duas serrações, quando estiverem a funcionar em pleno, poderão serrar entre 3000 e 4000 tábuas/dia.

A empresa, que tem neste momento 49 trabalhadores na área de corte, segundo o seu gerente no Moxico, David Capengo, quando as duas serrações estiverem a funcionar, pelo menos 300 novos postos de trabalho serão criados.

A maquinaria para a instalação da serração já se encontra na localidade, faltando apenas a sua montagem.

Esta empresa, que antes explorava 500 metros cúbicos, mas que agora reduziu para 250, por força da nova cota de exploração para a província, também possui uma estufa para secar a madeira.

Em actividade desde 1999, nas áreas de transporte, agricultura, apicultura e comércio, no sector da madeira, conta com uma área de exploração de mil hectares.

Quintas Bongo, um jovem que teve a oportunidade de ganhar o seu primeiro emprego no projecto, louvou a iniciativa privada e diz ser necessário que o Governo esteja de mãos dadas com os empresários locais, a fim de reduzir o desemprego na região.

Para o empregado, apostar na produção de madeira em grande escala é um dos caminhos que podem servir de alternativa no processo de diversificação da economia nacional.

Administrador municipal dos Bundas acena investidores

O administrador municipal, Alberto Calumbi Keshipoco, em entrevista à Angop, afirmou o município, além da madeira, ser potencialmente agrícola e possuir milhares de hectares de terras de que necessita o investimento privado para alavancar a economia local.

Para o responsável, a exploração de madeira trará benefícios para o município, em particular, e para província, em geral, uma vez que a sua comercialização começa por ultrapassar as fronteiras angolanas.

Referiu que o município dispõe de imensos hectares de polígonos que permitem a exploração industrial de madeira, além da sua proximidade com a República da Zâmbia.

Em função destas potencialidades, solicitou aos empresários nacionais e estrangeiros para investirem na região, numa altura em que se fala em diversificação da economia nacional, com vista à captação de mais receitas para o Estado.

Alberto Calumbi defende que a transformação da madeira explorada deve ser feita no município, para permitir agregar valor e aproveitar, da melhor forma, os seus derivados, que são úteis para a prática da agricultura.

Pediu que a palha retirada da madeira no acto da sua preparação pudesse servir para a produção de fertilizantes, usados no cultivo de batatas, cebolas e outros produtos agrícolas, assim como a sua conservação.

São explorados, por mês, mais de 10 hectares de madeira por empresas e associações sedeadas nas comunas de Luvuei e Ninda. Actualmente, existem no município mais de 50 mil hectares prontos para a exploração.

Ficheiros

Exploração de madeira na província do Moxico

Assuntos Economia  

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