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12 Maio de 2019 | 22h45 - Actualizado em 12 Maio de 2019 | 22h45

Lunda Norte, um celeiro quase esquecido

Dundo - Considerada “ouro verde”, a agricultura na promissora província angolana da Lunda Norte está em declínio, principalmente devido ao investimento tímido e lento no sector, relegado a um quase total esquecimento.

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Cultivo de hortícolas na Lunda Norte

Foto: Angop

Por Sónia Ferry e José Honório

As culturas de arroz, milho e girassol, em grande escala, associada aos palmares, que, nos anos 1970, transformariam aquela província do leste de Angola em terra de oportunidades, estão mesmo a desaparecer, ao contrário dos diamantes que lá abundam.

Apenas para ilustrar, a área de cultivo de arroz, no nordeste da Lunda Norte, reserva 45 mil hectares de terras aráveis, à espera de resposta dos potenciais produtores. Na frente Luachimo, por exemplo, há outros 200 mil hectares de terreno propício à produção deste cereal em grande escala, precisamente numa das margens do rio com o mesmo nome.

O verde dos extensos campos, onde, na década de 70, predominava o cultivo do milho, arroz, girassol e mandioca, associado à criação de gado em cinco reservas, que contabilizavam 23 mil cabeças, e à piscicultura, graças aos experientes agricultores da época, foi sendo, aos poucos, substituído pela letargia resultante da falta de um forte investimento no sector agrícola naquela terra.

Existem projectos que apontam para a entrada em acção de novos investidores, tanto nacionais quanto estrangeiros, nomeadamente sul-africanos e vietnamitas, ainda no papel, adiando assim a tão desejada “revolução verde”.

O nordeste da Lunda Norte, envolto em condições climatéricas - favorecidas pelo rio Kassai, tem forte tradição na cultura do arroz, desde muito antes da independência de Angola, se bem que a plantação dos palmares seja mais antiga, fazendo fé à tradição da produção de óleo de dendém, que data de 1969.

São bastantes os motivos para que a agricultura na Lunda Norte possa crescer exponencialmente. A província está dentro de uma das maiores bacias hidrográficas do planeta – o grande rio Zaire, cujos afluentes Luembe, Catchimo e Tchiumbue drenam para o curso do Kassai.

O mais importante ainda é que a oeste e a norte prevalece um microclima ideal para a produção em grande escala. Para já, um potencial desperdiçado que até podia estar a gerar riqueza.

Optimista, o director do Gabinete Provincial da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento, Francisco Lubamba, garantiu à Angop que há condições de irrigação, porque chove durante cerca de oito meses, mais precisamente de Setembro a Maio.

Em termos globais, o volume de precipitação é superior a 1.400 mm. Além disso, os solos da província são férteis para produzir e abastecer o mercado agro-alimentar nacional. Os municípios do Cambulo, Capenda Camulemba, Xá Muteba, Lucapa, Cuango e Chitato, entre o nordeste e o sul da província, concentram as maiores parcelas de terrenos aráveis.

Francisco Lubamba dá conta, para já, da existência de 289 cooperativas na Lunda Norte. Destas, apenas 118 estão sob controlo do seu pelouro, num universo de oito mil e 851 camponeses.

Constam ainda das estatísticas 325 associações, sendo assistidas igualmente 157 federações, com 16 mil e 388 associados, oito mil e 393 dos quais do sexo feminino.

Na campanha agrícola 2017/2018, por exemplo, só no segmento da produção de raízes e tubérculos, a safra foi de 157 mil e 233 toneladas, volume superior ao registado em 2016 (950 toneladas).

Os cereais renderam três mil e 456 toneladas e as leguminosas 550 toneladas. Já em hortícolas e frutícolas, foram colhidas 2.153 e 24.313 toneladas, respectivamente. Estes números, na avaliação do director da Agricultura, estão ainda longe da real capacidade produtiva da região.

Daí que declare como desafio na presente campanha 2018/2019 contar com a ajuda de brigadas de mecanização agrícola em toda a província, quer no nordeste, quer no sul, para aumentar a produção. Apesar das dificuldades, a produção agrícola tem sido escoada para as províncias de Malanje, Luanda e Lunda Sul.

Enquanto isso, estão em carteira outros projectos estruturantes que aguardam por financiamento no sentido da revitalização da produção de arroz, milho e palmares no nordeste da província. A Cosa, uma zona forte na produção animal, também faz parte desses planos.

Será de grande valia a concretização do projecto de médio prazo para reactivação da produção agrícola no nordeste e na Calonda, em que se deverá contar com investidores nacionais e estrangeiros, nomeadamente vietnamitas.
 

Sector fértil mas pouco produtivo

Se, antigamente, as grandes produções agrícolas estavam a cargo da Diamang (empresa que explorava diamantes), actualmente a agricultura familiar começa a organizar-se e a ganhar espaço na Lunda Norte, província onde os produtores anseiam por deixar para trás a agricultura de subsistência.

Com 1.343 criadores de gado bovino nos municípios do Caungula, Capenda Camulemba, Chitato, Cambulo e Lucapa, a pecuária também quer mudar o quadro para nelhor.

Em 2016, por exemplo, o sector controlava 6.421 bovinos, 5.670 suínos, 5.177 ovinos e 6.582 caprinos. Já a avicultura contabilizava cerca de 40 mil aves, no quadro do programa implementado pelo projecto agro-pecuário Cacanda.

Mais do que as dificuldades, é destas potencialidades do Nordeste da Lunda Norte que José Salam e Anacleto Almeida gostam de falar. Antigos funcionários da Endiama, nas zonas de Calonda e Cacanda, ambos defendem investimentos para uma viragem na agricultura.

José Salam tem 62 anos. É natural da Lunda Norte, onde começou a trabalhar na agricultura em 1972, até ser aposentado pela antiga Companhia de Diamantes de Angola. Antes, esteve nas áreas do Nordeste e Catximo, no Cambulo, e de Luachimo, no Lucapa. E no vai-e-vêm de e para o campo ganhou mais experiência.

Nota que a actividade no campo era mais satisfatória porque havia facilidade na aquisição do material agrícola, boa parte do qual era importado da ex-Jugoslávia. Em declarações à Angop, acrescenta que “os tempos eram outros, não havia esta situação de penúria de hoje.”

“A maior parte dos técnicos, hoje, não explora o sector como se esperava”, diz, frisando que é essa apatia dos agricultores que leva a que o país sinta a necessidade de importar cada vez mais alimentos, especialmente arroz e óleo de palma, apesar da existência de províncias como a Lunda Norte com potencial para produzir esses alimentos.

Este é também o sentimento de Anacleto Almeida, 70 anos, natural da província da Huíla e reformado há sete anos. Trabalhou no projecto Cacanda desde 1987, como técnico da área de ração animal. Ele vê a Lunda Norte como exemplo do que pode acontecer, se houver forte investimento no sector e na formação profissional dos jovens associados à agricultura.

Com passagem pela Endiama, José Rosa, já na casa dos 60 anos, também foi director do Gabinete de Estudos e Planeamento do Governo Provincial, até 2007. Não é por acaso que, fora da extração de diamantes, apoia a transformação do nordeste da província em Polo de Desenvolvimento Agrícola, para revitalizar a zona que já teve reservas agropecuárias, até ao Cosa e à área do Catchimo e Luia, no município do Cambulo.

Lunda de naturalidade, José Rosa, um experiente agro-pecuarista, abre o livro: “Houve um estudo efectuado pelo governo local sobre as áreas que poderiam concorrer para a diversificação da economia, fora dos diamantes”. E achou-se que o Nordeste, pela sua forte influência nas culturas e pelas condições naturais, poderia ser um polo de desenvolvimento, completa o agora reformado.

Uma vez mais, o director da Agricultura espera que a colaboração da Endiama e de outros parceiros ajude o Governo da Lunda Norte a relançar a actividade agrícola na região. Não foi por acaso que investidores sul-africanos estiveram, em Fevereiro de 2018, no nordeste da província, onde constataram as condições dos terrenos para possíveis trabalhos de prospecção, no futuro.


Projecto Cacanda com altos e baixos

Até há poucos anos, o projecto Cacanda, reinaugurado em 2012, era visto como a esperança para a Lunda Norte dar um passo em frente na agricultura. A sua estrutura, concebida no tempo colonial, contava com pocilgas, aviários e áreas para bovinos e cultivo de hortícolas.

Anacleto Almeida, o único técnico de ração na Lunda Norte, refere que o projecto Cacanda de hoje retrocedeu em relação a estrutura de 1975, em que começou a funcionar “com profissionais certos, no lugar certo”, uma prática que mais tarde foi substituída pelo nepotismo.

“Cacanda era algo ostensivo. Produzia frangos, galinhas poedeiras e reprodutoras, gado bovino, caprino e suíno”, relembra, com indisfarçável nostalgia. Ainda falando do maior projecto agro-pecuário da Lunda Norte, acrescenta que Cacanda tinha também uma fábrica de produção de ração para galinhas e carne de vaca. Juntava-se a isso uma sala de encubação.

Assim sendo, não era permitida a importação de pintos com um dia de vida. Só depois de criados é que eram distribuídos entre as zonas do Cosa, Calonda e Cafunfo, como frisou Anacleto Almeida, incapaz de esconder a emoção que sente ao falar desses tempos.

De 1988 a 1989, Cacanda teria atingido uma produção de 35 mil ovos/dia. O objectivo da empresa era, primeiro, abastecer os trabalhadores. Mais tarde, o produto era despachado para os mercados de Luanda e outras províncias circunvizinhas.

Em finais de 1990, o projecto fechava. A Endiama retirava-se definitivamente de Cacanda em 1992, depois das primeiras eleições gerais na história de Angola. Cerca de três anos depois, em Junho de 1995, o empreendimento voltava a arrancar com o projecto sul-africano Trans Energy, que só durou dois anos, por desentendimento com a parte angolana.

Por isso, o técnico reformado lamenta ver a Lunda Norte a depender actualmente da produção de ovos de outros pontos do país.

Assim que foi reinaugurado, em 2012, à Agricultiva, uma empresa israelita, foi confiada a gestão privada pelo Governo Central, para que garantisse a auto-suficiência do projecto, então com 20 mil galinhas poedeiras. Mesmo assim, os níveis de produção de ovos, que são de 18 meses, diminuíram por causa da má qualidade da ração.

Anacleto Almeida admite que a entrega do projecto a estrangeiros levanta várias questões, como a falta de experiência em relação à alimentação das aves segundo o tempo de vida. “Não há centro agro-pecuário que sobreviva sem uma fábrica de ração”, alerta, antes de precisar que essa omissão compromete o desenvolvimento das galinhas, e, por conseguinte, dos frangos.

Desolado com o projecto Cacanda, Francisco Lubamba, o “homem forte” da agricultura na Lunda Norte, deplora o estado daquela infra-estrutura de produção agro-pecuária, que diz estar a ser mal gerida. Em vez de produzir, como era esperado, está a usurpar os meios do empreendimento, encaminhando-os à província da Huíla, acusa.

Em Março de 2018, altura em que o actual Presidente da República, João Lourenço, visitou a província da Lunda Norte, para orientar uma reunião da Comissão Económica do Conselho de Ministros, o projecto Cacanda recebia 17 mil aves para a produção de ovos. Três meses depois, de acordo com Francisco Lubamba, desapareceria, inexplicavelmente, igual número de aves.

Desde 2013, já passaram pela gestão do projecto Cacanda três empresas privadas, nomeadamente a israelita Agricultiva, a Omatapalo e, actualmente, a Agrisurbi, que, entretanto, não se disponibilizou a falar à Angop.


Falta de técnicos agrários


Na receita para a reactivação da produção agrícola, José Salam afirma que também falta aos jovens profissionais trabalharem mais com os veteranos, ainda que muitos já estejam reformados, a fim de adquirirem experiências, porque estes conhecem bem as áreas de maior produtividade e até terrenos “virgens”, onde os agricultores poderiam cultivar à vontade.

A visão é partilhada por Anacleto Almeida, que insiste na necessidade da construção de um Instituto Médio de Agronomia na Lunda Norte, uma vez que, hoje, a província não pode só depender da exploração do diamante, apesar de necessária, mas também da agro-pecuária.

Anacleto gostaria de ver, pelo menos por enquanto, reconstruída uma escola de formação profissional técnica de nível básico e médio no Luxineno, área do Luxilo, no município do Cambulo, onde a Endiama formava operadores de engenhos, cacheiros de armazéns, oficinas e anotadores de pecuária e agricultura.

A expectativa dos dois interlocutores faz eco nas palavras do director do Gabinete Provincial da Lunda Norte da Agricultura, Pescas e Desenvolvimento. Francisco Lubamba denuncia a degradação do laboratório de solos e equipamentos, erguido há seis anos no município de Capenda Camulemba. Em causa está a inoperacionalidade da infra-estrutura, desde que foi inaugurada.

Admitindo que este laboratório até poderia vir a ter estatuto regional, o responsável defende que o passo seguinte é pôr o edifício a funcionar, o que permitirá à região virar-se para a agricultura mecanizada, deixando para trás a fraca produtividade aliada a métodos de cultivo rudimentares.

Em Angola, apenas existem quatro laboratórios, nomeadamente nas províncias da Lunda Norte, Lunda Sul, Namibe e Cuando Cubango.

Em contrapartida, não há técnicos, razão que leva Francisco Lubamba a olhar para o Instituto de Investigação Agronómica, no Huambo, onde podem ser formados pelo menos 10 quadros que irão reactivar o laboratório, de maneira a facilitar a análise dos solos.


Resiliência dos pequenos produtores


Com os olhos das autoridades governamentais fixos no brilho dos diamantes, a produção agrícola na Lunda Norte não é uma tarefa fácil. Ainda assim, pequenos produtores no Dundo, Chitato, Luxilo e Mussungue, só para citar alguns pontos, são exemplos de resiliência. Vencendo barreiras, tornaram-se fornecedores de produtos como o limão, goiaba, abacate, ananás, mandioca e milho, entre outros.

Responsável pela Fazenda Txissua, da empresa Escorpião, a 25 quilómetros do Dundo, Carlos Borba Maria, 60 anos, aposta na cultura de citrinos, além de abacateiros e ananases. Dos dois mil hectares, só mil estão cultivados, por enquanto. Contudo, nas áreas de Maóca e Mapulo, a 20 quilómetros da sede do Chitato, e no Luxilo, conta com outros quatro mil hectares para plantar mandioca, milho e batata-rena.

Satisfeito por ter colhido até meio hectare de laranjas, que já lhe renderam algum dinheiro no mercado informal, o representante da Fazenda Txissua, em actividade há 10 anos, confessa que abraçou a fruticultura pela experiência de ter trabalhado nas cinco frentes agrícolas do Cosa, Cacanda, Calonda e Mocolonji, e no município do Cambulo, que, no entanto, desapareceram depois da independência.

Como trabalha com 70 porcento do seu salário de funcionário público, e adquire os pés de alguns citrinos ora na Huíla, ora na vizinha República da Zâmbia, Carlos continua a fazer planos para o futuro. Cogita vender os seus produtos noutros pontos fora da província e, ainda, espera que algum dia venha a processar industrialmente as frutas. Por isso, anda atrás de financiamento para ampliar a produção.

José Alberto Maiel, proprietário da fazenda Kanema, a 12 quilómetros da cidade do Dundo, queixa-se das dificuldades que os produtores vivem ano após ano, na Lunda Norte, “porque ainda sentem pouco apoio do Estado”, quando, na realidade, há potencial na província. Grande parte das ajudas fica para os agricultores do sul e centro do país, reivindica.

Cem hectares de terra estão disponíveis na fazenda Kanema, que tem como foco o cultivo de ananás e mandioca, ao longo dos seus 14 anos de existência. E a visão não se fica por aqui. Está ainda em curso a criação de aves.

Como o projecto agro-pecuário Cacanda subiu o preço da ração, José Alberto Maiel, que comercializa todos os produtos em hotéis e hospitais da cidade do Dundo, disse que deixou de criar galinhas e que a nave agora foi adaptada para suínos.

A criação de gado também está comprometida na fazenda Kanema. Metade dos 120 bovinos foi dizimada após ingestão de capim infestado com larvas venenosas. Apesar da preocupação com a falta de pastagem, o agricultor não pensa desistir do campo, porque acredita no futuro da agricultura.

As causas da fraca produção na Lunda Norte têm a ver com a carência de recursos humanos especializados, mas também com as dificuldades na aquisição de máquinas agrícolas e peças sobressalentes, como reforça David Gregório Arsénio, director técnico da Fazenda Txamboma, uma propriedade que existe há cinco anos, a 12 quilómetros do distrito do Mussungue, e que, neste momento, produz hortícolas e frutícolas.

Sem sombra de dúvidas, a situação de esquecimento da agricultura na Lunda Norte é uma realidade que não passa despercebida, num momento em que o potencial da região diamantífera começa a criar uma corrida às terras aráveis.

Moçambicanos e australianos também já lá estiveram, em Janeiro de 2019. Deixando uma luz verde n

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