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16 Junho de 2019 | 21h11 - Actualizado em 17 Junho de 2019 | 19h20

Água mineral sobrevive à crise em Cabinda

Cabinda - Ao contrário dos anos 1970, a tão sonhada indústria de água mineral, em Cabinda, já é uma realidade hoje e, apesar da actual crise económica, o projecto privado ''Água Tchiowa'' dá sinais de resistência.

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Momentos da colocação do rótulo da água mineral Tchowa

Foto: Pedro João

Água mineral Tchiowa

Foto: ANGOP

Por: Pedro João e José Honório

São 120 mil garrafas de água mineral produzidas diariamente, com primazia para o consumo interno. Ou seja, sacia a sede de mais de 90 por cento da população de Cabinda (estimada em mais de 716 mil habitantes pelo Censo 2014), comprovando, assim, o dinamismo do empresariado privado.

Mas, a produção da água mineral engarrafada em Cabinda também provou dos dissabores da vida – embora praticamente ultrapassados, hoje em dia.

Após a independência nacional, a então fábrica de águas do Subantando – que, na época colonial, produzia água mineral e gaseificada em garrafas de 50 a 60 centilitros (cl), fechara as portas.

Com isso, Cabinda, a província mais a norte de Angolaviu este segmento industrial entrar em declínio.

Com a queda da actividade industrial,  Cabinda também passou a depender fortemente das importações da Europa, notadamente de Portugal e Espanha, e, ainda, da cidade fronteiriça cidade de Ponta Negra, República do Congo, e, com isso, o consumo de água mineral era apenas para uma “elite” da sociedade cabindense.

Se, para algumas pessoas, era sinónimo de status, já para o cidadão comum, beber a água mineral nas terras da floresta do Maiombe era como que uma ousadia - que até “custava os olhos da cara”, já que, nessa altura, este produto fazia figura de luxo à mesa, em unidades hoteleiras ou em empresas de renome internacional, baseadas na região.

Ventos do progresso sopraram 

O ano 2006 foi decisivo para a revitalização da indústria de águas em Cabinda. Dando asas ao espírito empreendedor, o grupo empresarial angolano Emcica lança, na zona de Tchimutiako, um projecto, do qual viria a nascer uma moderna fábrica de água mineral – baptizada de “Água Tchiowa”, nome tradicional que, em português, significa Cabinda.

O facto de Cabinda ser uma das províncias do país com ricas bacias hidrográficas motivou a decisão do grupo. Ao analisar a zona projectada para produção, como se de uma caça ao tesouro se tratasse, descobriram um terreno com o subsolo abundante com água natural.

No espaço, fizeram um furo artesiano de 260 metros de profundidade, sustentado por uma tubagem em aço inoxidável até ao tanque de água bruta na estação de tratamento, no fundo, a fonte que alimenta a fábrica.

Lançado o desafio, do sonho à realidade era apenas uma questão de tempo. A construção levou dois anos e a tão almejada indústria de água mineral finalmente despertava em 2009, após inaugurada a fábrica, na localidade de Tchimutiako, nos arredores da cidade de Cabinda, ocupando uma área de 12 mil e 264 metros quadrados.

O empreendimento industrial – o primeiro dos dois do género existentes actualmente em Cabinda, funciona com autonomia técnica, permitindo produzir todos os componentes incorporados na produção de garrafas, o que torna a unidade dinâmica e competitiva neste segmento. Apenas os rótulos e a resina granulada são importados ainda.

Estruturalmente, a unidade conta com três secções específicas, a de injecção, de sopro e de enchimento, transformando o plástico para o fabrico de garrafas e também de tampas.

Inicialmente, a produção somava as 50 mil garrafas de água mineral/dia. Ao longo dos últimos anos, a empresa investiu. E os bons resultados não tardaram em aparecer, pois houve um aumento para 120 mil garrafas/dia.

O formato varia entre meio litro, um litro e meio, e bidões (5 litros), sempre em linha com as necessidades do mercado.

Crescimento, ascensão e dinamismo são sinónimos que evidenciam a trajectória de sucesso da produção da água mineral “Tchiowa”, 10 anos depois.

Sem interrupção, o produto continua a ser distribuído por toda a rede comercial, incluindo instituições públicas, entre as quais do ramo sanitário.

Caminho para o desenvolvimento 

Samuel João Pequeno, jovem engenheiro angolano no ramo das telecomunicações e director-geral da unidade fabril, é um dos rostos notáveis nesse sector.

À Angop, ele destaca como a determinação, paciência e o espírito de entrega ao trabalho contribuíram para que o grupo Emcica superasse os fortes desafios da crise económica que o país atravessa actualmente.

O jovem gestor destaca a força de vontade da equipa de trabalho e diz-se orgulhoso por ver na província de Cabinda uma empresa nacional como a Água Tchiowa, com a capacidade de produzir e ainda de distribuir o produto para o mercado consumidor.

Daí não ter dúvida da importância deste empreendimento, que até se distingue em termos de ganhos da paz que os angolanos respiram definitivamente há 17 anos, de um lado, e de outro, como marca que acaba por engrandecer o parque industrial de Cabinda.

O facto de a fábrica ter uma força laboral constituída maioritariamente por pessoas jovens, sobretudo finalistas dos cursos de Química dos Institutos Politécnicos de Cabinda, admitidos através de estágios, no quadro do “Programa de Inserção na Vida Activa”, é outra vantagem que Samuel João Pequeno faz questão de apontar.

Formados no Instituto Politécnico de Cabinda, João Maquila e Lucas Dumbi são dois dos vários exemplos de vidas transformadas em Cabinda, através do emprego que conseguiram no momento em que mais precisavam de trabalhar e deixar de depender de familiares.

Com a mão na massa, no laboratório da fábrica onde se ocupam dos exames químicos, ambos não escondem a satisfação, ao mesmo tempo que garantem tudo fazer para que a Água Tchiowa continue a ter qualidade desejável para o consumo da população.

Certificado pelo Instituto Nacional de Controlo de Qualidade Alimentar, do Ministério da Saúde, a Água Tchiowa tem como prioridade o mercado de Cabinda, mas tem chegado também a outras províncias, como Zaire, em especial na Base Petrolífera do Kwanda (Soyo), e Luanda.

Até ao momento, a fábrica gerou 197 postos de trabalho em Cabinda, entre técnicos e funcionários administrativos.

E o objectivo, diz o responsável, é manter a qualidade do produto e distribuí-lo aos principais estabelecimentos comerciais da rede grossista e retalhista, incluindo unidades hoteleiras, restaurantes e similares.

A Chevron/Cabgoc, Algoa e Porto de Cabinda são as “grandes” empresas que também bebem a água mineral da marca Tchiowa, facto que confirma a excelência do produto feito localmente.

Uma qualidade que é destacada por Samuel João Pequeno, licenciado em Engenharia Electrónica e Computadores no ramo de Telecomunicações e mestrado em Automação, Instrumentação e Controlo pela Universidade de Engenharia do Porto.

Embora se tenha esquivado a revelar os valores da facturação, Samuel João Pequeno fez transparecer que o volume de negócio até é satisfatório, pois a produção atinge o mercado de Cabinda a 100 por cento e outras províncias. 

Investimentos e expansão de mãos dadas

Para tirar do papel o sonhado projecto da fábrica, o grupo Emcica empregou nove milhões e 500 mil dólares norte-americanos. Desta verba, apenas dois milhões foram financiados pelo banco BIC, enquanto fundos próprios completaram o resto.

À frente da direcção da Fábrica Água Tchiowa há cerca de 10 anos, Pequeno acredita que o investimento do grupo é uma resposta à estratégia de diversificação da economia e a potencialização da indústria nacional, no intuito de Cabinda diminuir as importações da água mineral.

Por falar em diversificar, o grupo Emcica tem já montado, na mesma unidade fabril, equipamentos para novas linhas de produção de água gaseificada e sumos naturais.

Este novo investimento, defende o interlocutor, visa tornar Cabinda numa província auto-suficiente na produção e consumo destes produtos, para que o empresário local deixe de recorrer a outras localidades, fora do enclave.

A aposta forte da empresa não fica só por Cabinda. Disposto a facturar com o negócio promissor do segmento das águas, o grupo Emcica concluiu, desde finais de 2018, em Luanda, mais uma unidade fabril, com uma capacidade instalada para produzir 300 mil litros de água pura Tchiowa.

Este responsável diz-se confiante e explica que a nova unidade fabril está instalada na zona de Catete e a produção de água mineral deve iniciar em breve. O abastecimento terá como prioridade o mercado da capital do país e seus arredores.

Apesar de se escusar a revelar o investimento deste projecto, o engenheiro encara a nova unidade industrial em Luanda como o consolidar do trabalho desenvolvido nos últimos anos para continuar a senda de crescimento. Ou seja, atingir o apogeu.

“Se as políticas bancárias e cambiais melhorarem, temos grandes objectivos de avançar para outras províncias”, prevê, expectante, apontando, uma vez mais, que o desafio passa por alavancar o parque industrial em Cabinda e a economia local.

Acrescentou que a aposta visa, também, combater o desemprego, numa província onde o mercado de trabalho concentra cerca de 28 por cento da população (segundo dados do Censo 2014).

Rendido ao sucesso da fábrica de água mineral, o secretário provincial de Cabinda da Indústria dá nota positiva ao projecto implementado pelo grupo Emcica.

Geraldo Ndubo Paulo acentua que projectos como este são fundamentais, porquanto dinamizam a economia na província e aumentam a oferta de emprego, bem como tiram o sector industrial da letargia.

Hoje, estima-se que mais de 90 por cento da população da província de Cabinda consome a água mineral engarrafada Tchiowa, inclusive nas zonas mais recônditas, sem descartar algumas regiões vizinhas da República Democrática do Congo e do Congo Brazzaville.


Consumidores valorizam empreendimento

As garrafas de 50, 150 a 180 centilitros de água mineral Tchiowa, comercializadas no mercado desde 150, 200 a 500 kwanzas, respectivamente, são muito valorizadas e reconhecidas pelos consumidores e até revendedores em Cabinda, que as procuram sempre que o assunto é matar a sede.

É o caso de António Cunha, consumidor e revendedor da água mineral Tchiowa no seu estabelecimento comercial, segundo o qual a referida unidade fabril é motivo de orgulho pelo impacto directo na vida da população em termos de emprego e ainda por ser uma fonte de arrecadação de receitas para o Orçamento Geral do Estado (OGE).

O empreendimento está a trazer muitas vantagens para a província. Uma delas é o emprego para a camada jovem, diz. E exprime: “Estou muito satisfeito por ver que grande parte dos trabalhadores é jovem”.

Enquanto isto, Joaquim Bundo, empregado de balcão numa pastelaria na cidade de Cabinda, considera que a produção da água mineral Tchiowa reflecte a boa vontade dos “filhos da terra”, em mudar a vida de muitos jovens, que deixam as estatísticas de desemprego.


Marca Tchiowa arrebata cinco prémios internacionais

A tradição, aliada a uma década de inovação, experiência e crescimento, são alguns factores que levaram a marca Água Tchiowa a arrebatar, desde 2014, fora do país, cinco títulos de reconhecimento internacional pela qualidade do seu produto.

O primeiro troféu foi na cidade de Londres (Inglaterra) em 2014, no Meeting de avaliação da qualidade das águas (Quality Crown Award). O segundo veio de Paris (França), em 2015, na Word Quality Commitment.

Ainda em 2015, aconteceu a terceira distinção no Meeting sobre Internacional Diamond Preze For Excelente Quality, o quarto troféu veio de Marrocos, em 2016, durante o The Bizz (Gestão Empresarial Visibilidade e Sucesso dentro da sua Comunidade), enquanto o 5º foi alcançado na Suiça, em 2017, durante o Internacional Star Award For Quality.

Estas razões levam Samuel João Pequeno a defender que o país precisa de uma indústria em condições de alavancar a produção nacional e abastecer a população com produtos “made in Angola”, com qualidade.

É caso para se dizer: valeu a pena, o sonho se tornou realidade.

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