Angop - Agência de Notícias Angola PressAngop - Agência de Notícias Angola Press

Ir para página inicial
Luanda

Max:

Min:

Página Inicial » Notícias » Educação

18 Novembro de 2015 | 19h09 - Actualizado em 18 Novembro de 2015 | 19h09

Certificação e competência contribuem na qualidade de ensino - Filipe Zau

Luanda - O pedagogo Filipe Zau afirmou, em entrevista à Angop, que a certificação e a competência devem caminhar de mãos dadas, de forma a darem resposta às necessidades do sistema educativo nos vários sectores, bem como elevar a qualidade do processo de ensino e aprendizagem.

Envia por email

Para compartilhar esta notícia por email, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Corrigir

Para reportar erros nos textos das matérias publicadas, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Filipe Zau aborda situação do ensino superior em Angola

Foto: Henri Celso

O também reitor da Universidade Independente de Angola avançou que a qualidade de ensino é sinónima de competência e não de certificação.

(Por Marcela Mateus)

Angop – O país regista nos últimos anos aumento exponencial de licenciados. Este aumento acompanha a qualidade que se impõe no sistema de ensino superior?

Filipe Zau (FZ): Quando falamos em qualidade de ensino pressupõe que os quadros têm competência suficiente para dar as respostas ao mercado de trabalho e é o mercado de trabalho e não as instituições que conseguem avaliar na prática os quadros.

A qualidade dos recursos humanos é detectada em função das respostas que conseguem dar quando começam a trabalhar. O que me cabe efectivamente e tenho a informar é que muitas vezes se recorre a técnicos superiores estrangeiros, na medida em que se considera que os nacionais não dão as respostas adequadas. A qualidade de ensino pressupõe que as pessoas sabem teoricamente e do ponto de vista prático para assumir a sua profissão lá fora.

Angop - Na qualidade de docente, na realidade angolana, esses programas e curriculum satisfazem as necessidades?

FZ: Os currículos, por exemplo, que nós estamos a trabalhar já têm 10 anos e têm tantos anos quanto a instituição e nunca foram revistos. Hoje, a dinâmica da vida não é a mesma que havia há 10 anos. Penso que os currículos, que já foram herdados na altura dos que existiam em Portugal, não estão, se calhar, de acordo com aquilo que necessitamos hoje para resolver os problemas em Angola, que não são os mesmos de Portugal. Alguns cursos lá podem ter uma determinada valorização que para Angola não têm nenhuma significância para resolver problemas.

Os cursos devem ajustar-se em função das necessidades e do carácter cultural e sócio-político. O factor cultural em Angola é de extrema importância, porque somos um país com assimetrias de desenvolvimento enorme. Por outro lado, somos um país plurilingue e várias culturas. Todas essas diferenças devem funcionar de forma harmónica para não criarmos problemas na capacidade de poder responder.

Deve-se, no entanto, levar em conta que a Lei de Base do Sistema Educativo Lei 13/01 e os princípios são unificados numa sociedade diversificada que não permite ainda adaptações de carácter regional nas diferentes épocas. Mesmo em termos de desenvolvimento, tenho que desenvolver triângulos que possam dar respostas ao progresso comunitário daquela região. Por isso, deve ser unificado da base ao topo.

Daquilo que se lê e se organiza, na questão de educação, são estratégias e essas estratégias de educação mudam de tempo em tempo, conforme as repostas que o país necessita em determinado momento do seu desenvolvimento. Em 40 anos de independência, já passamos por vários momentos de desenvolvimento e precisamos de uma reforma.

Mas, no actual momento, temos que redefinir e pensar quais são as melhores políticas e estratégias que dão respostas à qualidade de ensino de forma geral. Tudo deve estar interligado, quer a nível do ensino como nos diferentes componentes de ensino que interferem entre si, bem como as instituições/docentes, discentes, a formação, a avaliação, o sentido ético, os laboratórios, a teoria e a prática têm que funcionar como tal.

O processo educativo não é apenas um processo do Ministério da Educação ou do Ministério do Ensino Superior, mas de todo um conjunto de situações articuladas que devem ser analisadas, discutidas, para dar resposta aos diferentes sectores das actividades a nível das indústrias e outros serviços.

Angop - Acha que os quadros que concluem o ensino superior têm sido bem aproveitados?

FZ: Estamos numa era de grandes inovações e globalização da economia. Podemos até dizer que estamos na fase do capitalismo avançado, neo-liberal completo, onde hoje em dia a ideologia que existe é a do mercado. Os jovens têm de entender que as ideologias acabaram, os sonhos das grandes ideologias é o mercado e, portanto, esta teologia do mercado preocupa-se apenas com a competitividade e na competitividade quem é melhor tem de facto facilidades. O contrário acaba pelo caminho.

Por isso, não é estranho encontrarmos licenciados no desemprego, porque se esse licenciado não teve uma boa formação tem de lutar para o mestrado e melhorar a sua performance. Os jovens têm de entender, sobretudo, quando andam a "matar aulas" e não aproveitam no bom sentido estão a prejudicar-se, porque é a partir das universidades onde começa a competição para o mercado de trabalho.

Quando usam ainda fraudes académicas e mecanismos de contornar e matar a aula e não aproveitam as oportunidades estão a prejudicar-se a si próprios, porque é a partir da sala de aula onde começa a competitividade. Temos de ter uma visão mais pragmática no mundo actual e globalizado, por estarmos num sistema do mundo capitalista, onde só a boa formação dos técnicos e a resposta adequada ao trabalho, com responsabilidade e uma filosofia de cumprimento para com as nossas tarefas poderão levar realmente a alguma coisa, para não vivermos situações que outros países africanos já viveram: que é formar para o desemprego.

Angop - Um olhar atento às instituições quer públicas como privadas no país dá garantias que estão inteiramente constituídas para auxiliar esta qualidade de ensino que se deseja?

FZ: Cada instituição de ensino superior tem a sua filosofia de trabalho. Actualmente, nenhuma instituição tem um professor fixo, porque não temos escolas suficientes de formação de professores, nem para o ensino primário. Das poucas existentes não satisfazem todo país para formar docentes. Por outro lado, essas mesmas escolas deveriam formar professores para as escolas do ensino médio, para se pensar posteriormente na capacitação e formação de professores para o ensino superior.

Mas sabemos, por exemplo, que a nível dos ISCED as políticas estão desvirtuadas, pois, apesar de ser um Instituto Superior de Ciências da Educação, forma quadros que são tudo menos professores. As instituições públicas vocacionadas para a formação de professores não os formam. Logo, a esse nível começam alguns problemas, porque o indivíduo já nasce com um conjunto de dificuldades. Esse professor aprendeu a avaliar as metodologias, as relações professor-aluno?

O mercado de professores está aberto, porque está sempre em falta, tendo em conta que o país cresce 3% ao ano e o sistema escolar não cresce nessa proporção. O resultado são salas superlotadas e a falta de professores, factores que concorrem para a fraca qualidade no ensino aos diferentes níveis.

Angop - Quer dizer que, com os passos dados, ainda existe uma longa caminhada para se alcançar a qualidade desejada?

FZ: Temos é que reflectir e o que me parece que falta, de certa maneira, é uma discussão que toque a nível micro, macro e meso-sociológico e das políticas educativas. Isto é a nível da filosofia do trabalho e do desenvolvimento de recursos humanos. Uma ampla discussão em simpósio, conferências para que as pessoas reflictam não só a nível político sobre o que se pretende e as vias necessárias para a concretização dos objectivos preconizados.

Angop - O que falta para isso acontecer?

FZ: Deve-se reconhecer que, entre 2002 e 2008, o país registou um boom no que toca à construção de infra-estruturas escolares. Estamos a falar de 54 escolas médias e técnicas. Elas existem e da melhor qualidade, o que pode ter é falta de professores para o funcionamento destas escolas.

Mas, infelizmente, surge a pergunta. Destas 54 escolas técnicas, quantas são de formação de professores? O professor é um profissional que forma todas as outras profissões, não há nenhuma outra que exista se não houver um professor. A qualidade de ensino implica bom professor e bom professor implica investimento na formação e vocação para a actividade.

Quando se fala dos países mais desenvolvidos, devemos reconhecer que apostaram da base ao topo no sistema, um processo que, muitas vezes, passa por discussões, análise, entendimento. O desenvolvimento comunitário que se faz, por exemplo no Cunene, não pode ser igual ao que se faz em Cabinda, obrigando a que repense friamente com o tempo e com muita serenidade.

O que é certo é que temos que pensar na educação daqui a 25 anos. Onde pretendemos chegar e começar a trabalhar, mas trabalhar numa direcção correcta e ir corrigindo os desvios que criaram dificuldades. Na lógica da competitividade, a educação está a apanhar o pior dos quadros, aquilo que os outros não querem e temos que inverter.

Se ganharmos consciência hoje e começarmos a trabalhar, de certeza teremos respostas no futuro. É preciso criar uma certa consciência da importância da educação, o papel social que tem a nível sociológico e das necessidades de desenvolvimento do país como um todo e a actual conjuntura da competitividade em ter de competir com outros.

Angop – Em função do surgimento de diversas instituições, o que se pode esperar do ensino superior no país?

FZ: O problema não está no crescimento do sistema e nas instituições que vão aparecendo. O Estado deve conseguir dar respostas e o privado deve ajudar. Temos que ter regras definidas e deontologia profissional adequada. Qualquer país que procura o desenvolvimento deve apostar no conhecimento, porque estamos a sair da era da industrialização e a entrar na era do conhecimento.

As riquezas de um país não se reflectem nos recursos naturais que se tem, mas no conhecimento para maior e melhor gestão dos recursos existentes, sem necessitar de auxílio de estrangeiros. Vemos, por exemplo, o índice de desenvolvimento humano, onde estamos e onde está Cabo Verde? A universidade começou depois de nós e eles tiram quadros que dão respostas, com conhecimento aos problemas do país.

Angop - Na qualidade de pedagogo e encarregado de educação, que áreas devem ser mais valorizadas em termos de formação?

FZ: Todas as áreas são importantes para o desenvolvimento. O Plano Nacional de Desenvolvimento até 2025 definiu quais os cursos que precisamos. Mas temos um problema de enviusamento, porque muitos alunos têm como preocupação ser doutor numa coisa que aparentemente dá menos trabalho. Perdemos o sentido da dignidade do trabalho, sobretudo o manual. Qualquer trabalho é importante desde que seja útil à sociedade. Temos um plano nacional com necessidade, mas escolhemos cursos onde o mercado já está saturado e onde a competição aumenta ainda mais.

Angop - Angola 40 anos... Que comparações se podem fazer ao ensino superior de outrora e de hoje?

FZ: Nesse contexto, não estamos a falar de qualidade de ensino mas de acesso, e, indiscutivelmente, temos oportunidades que há 40 anos era difícil ter. Portanto, o angolano antes da independência com a 4ª classe e com o curso industrial ou comercial estava habilitado para enfrentar o mercado de trabalho e com grandes benefícios. Nesses 40 anos houve uma virada substancial. Em 2010, a nível do ensino primário e secundário, em cada 3 angolanos estava um indivíduo inserido no sistema de ensino. Dos 24 milhões de habitantes no país, pelo menos 6 milhões estão a estudar o ensino primário, numa população que cresce 3% ao ano.

O problema da qualidade de ensino está nos componentes dos processos que trabalhamos hoje, razão pela qual é preciso estudar e investigar na lógica e no contexto da competitividade, tendo em conta que a certificação não vai justificar se és ou não bom trabalhador, é somente o primeiro passo para o acesso às instituições.

Angop - O país está dividido por regiões académicas. Que benefícios traz esta divisão académica?

FZ: As divisões académicas são uma estratégia de organização. Elas têm a ver com os contextos económicos e culturais. As regiões académicas despoletam vocações de cursos de todo nível que organizam as oportunidades de trabalho. Quer dizer que cada região ou área específica precisa, segundo as suas necessidades, de um programa específico desenvolvido que esteja de acordo com o espaço e a região para melhor organização dos cursos. As regiões académicas permitem uma melhor distribuição e localização dos quadros formados, tendo em conta que já não se regista o deslocamento de quadros de uma área do país para outro.

Pelo país existem sete regiões académicas: as universidades Agostinho Neto (Luanda e Bengo), 11 de Novembro (Cabinda e Zaire), José Eduardo dos Santos (Huambo, Bié e Moxico), Mandume Ya Ndemofayo (Huíla, Namibe, Cuando Cubango e Cunene), Kimpa Vita (Uíge e Cuanza Norte), Lweji Ankonda (Lunda Norte, Lunda Sul e Malanje) e Katiavala Buila (Benguela e Cuanza Sul). No domínio privado, existem as universidades Privada de Angola, Gregório Semedo, Católica de Angola, Metodista de Angola, Independente de Angola, Lusíada de Angola.

PERFIL

Filipe Silvino de Pina Zau, músico, compositor, poeta e investigador, é doutorado em Ciências da Educação. Foi docente, diplomata e assessor para Assuntos de Educação, Cultura e Desportos na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Obras publicadas: "Encanto de um Mar que eu Canto", em 1996, e em 2002 "Angola: Trilhos para o desenvolvimento", um trabalho de investigação editado pela Universidade Aberta, sua dissertação de mestrado.

É ainda autor de "Educação em Angola"; livro de poesias com o título “Meu canto, a razão e a quimera das circunstâncias", "Marítimos Africanos é um Clube com História" e “Do Acto Educativo ao Exercício da Cidadania".

É o actual reitor da Universidade Independente de Angola (UNIA) e consultor do ministro da Educação.

Assuntos Educação   Formação  

Leia também