Angop - Agência de Notícias Angola PressAngop - Agência de Notícias Angola Press

Ir para página inicial
Luanda

Max:

Min:

Página Inicial » Notícias » Educação

22 Novembro de 2019 | 11h40 - Actualizado em 22 Novembro de 2019 | 12h09

Profissionais da esperança

Luanda - Desde os tempos remotos, o professor é visto como um segundo pai e um dos principais elementos no processo de transformação do aluno. Em todo o mundo é assim.

Envia por email

Para compartilhar esta notícia por email, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Corrigir

Para reportar erros nos textos das matérias publicadas, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

1 / 1

Crianças regressam às aulas em Luanda

Foto: Pedro Parente

Crianças regressam às aulas em Luanda

Foto: Pedro Parente

(Por Márcia Manaça)

É dele a responsabilidade de transmitir conhecimentos científicos, num exercício diário que requer qualificações académicas e pedagógicas.

Amado por uns, odiado por outros, o docente carrega o nobre estatuto de formador de consciências e "alimentador" de esperanças.

A sua missão primária é, inequivocamente, transmitir as ferramentas essenciais para quem, um dia, terá de enfrentar o competitivo mercado de trabalho.

Mas, nesse processo de "lapidar" consciências e descobrir talentos, nem tudo é um mar-de-rosas. Os profissionais do ensino dizem que o seu dia-a-dia é cheio de "conflitos".

Para ser professor, contam, há que viver um dilema constante: escolher o "agente" a que vai dedicar o seu maior tempo: a família (casa) ou os alunos (escola).

"Quem não ama não deve ser professor, uma vez que isso exige doação, é para missionários", testemunha a professora Luísa Grilo, que fala, em exclusivo, à ANGOP, com nostalgia, sobre a importância do Dia Nacional do Educador (22 de Novembro).

O professor tem, na docência, a sua paixão. Com giz/marcador e apagador, demonstra o amor ao próximo e contribui para o desenvolvimento de qualquer país.

É no meio dessa satisfação que Luísa Grilo começou por leccionar em 1971, ou seja, durante 48 anos.

A sua vida na docência já vem de longe, mas o dom começou a nascer ainda em criança.

Após concluir a 4.ª classe, Luísa Grilo ficou colocada na Missão Católica, em Malanje, onde continuou os estudos. Depois de formada e integrada na Educação, exerceu funções no Ministério da Educação até à aposentadoria.

No dia dedicado ao educador, a profissional fala, com nostalgia, sobre o início da carreira.

Com semblante alegre, refere que a Educação nunca lhe deu "bens materiais de relevo".

Recorda que uma das primeiras alegrias foi ver, ao fim de um ano lectivo, 45 alunos, dos 52 da primeira turma do ensino primário, lerem e escreverem com clareza.

Naquela altura (anos 70, 80), conta, com todo o empenho, criava meios de ensino com material que tinha disponível, oferecido pela natureza.

"Fazia o uso das árvores para adquirir paus, a fim de, por exemplo, ensinar a Matemática. Usava o chão para, de forma divertida, ensinar os alunos a fazerem contas", narra.

A docente afirma que, ao longo da carreira, lhe ficou marcada a simplicidade das famílias que, outrora, respeitavam tanto os professores.

"Os pais depositavam toda a confiança de um futuro melhor no professor, o que era muito gratificante", testemunha Luísa Grilo, lembrando, inclusive, que os comerciantes davam crédito aos professores, com vales no pagamento dos produtos.

É desse tipo de reconhecimento, hoje raro, que a docente diz sentir saudade.

Afirma que foi bastante gratificante ser professora.

"Uma vez tive necessidade de urgência e acorri a uma instituição hospitalar do país, onde, para o meu espanto, fui rapidamente atendida. Depois, o médico apresentou-se e disse-me que tinha sido meu aluno na 4.ª classe", recorda.

Outro aspecto que marcou o ensino do antigamente é a união entre os docentes.

Nas décadas de 70, 80 e 90, os professores eram unidos, repartiam tudo quanto pudessem, para rapidamente ultrapassar as dificuldades.

Hoje, tudo isso mudou. Em várias escolas, nota-se a falta de ética, de respeito e de consideração entre professores e alunos/estudantes.

Segundo os profissionais da classe, “as pessoas passaram a ser materialistas, o que faz que a educação viva um processo de degradação cada vez mais acentuado”.

No entender de Luísa Grilo, é preciso repensar o actual modelo de formação, conjugar aspectos da ciência, técnica, tecnologia e o lado humano.

Igualmente, diz, devem ser criadas condições sociais nas instituições escolares. “Não é possível leccionar numa escola sem casa de banho nem água potável”, adverte.

A profissional diz que o seu maior desejo é ver os professores valorizados, o que começa pela qualificação e criação de oportunidades.

"Os professores devem sentir o apoio do pessoal da administração e ser formados, no sentido de saberem ensinar. Devem inseri-los no ponto de vista integral".

Movida pelo mesmo sentimento de amor à profissão e ao país, a docente universitária Maria da Natividade teve a iniciativa de organizar o primeiro mestrado em Matemática. A formação está prevista para 2020.

A professora terminou o doutoramento em Espanha, com nota máxima (Summa cum laude) e recebeu convites para trabalhar na Europa, mas decidiu-se a regressar.

Diz que transmitir conhecimentos é o seu maior prazer. "O ensino da Matemática deve ser baseado na lógica, a partir do ensino primário, ou seja, ensinar o aluno a pensar".

Professora há 34 anos, lamenta a falta de apoio a projectos apresentados que podem contribuir para a melhoria do sistema, como a superação dos quadros.

A título de exemplo, lembra que se fala da má qualidade, que é fruto da falta de preparação adequada dos professores, e do facto de o projecto de mestrado em Matemática estar a ser sustentado apenas pela propina dos alunos.

Em contrapartida, mostra-se satisfeita quando vê que um estudante de licenciatura em Matemática, formado por si, tem sucesso e faz um mestrado no exterior.

Segundo a docente, deixar alicerces, uma base de sustentação para os jovens ou a nova geração dar continuidade do legado, é o seu maior desejo.

Maria da Natividade estudou até ao segundo ano no Liceu, no tempo colonial, na sua povoação (Missão de Chiulo, no Cunene), altura em que só podiam estudar até à 4.ª classe e depois tinham de ser ou professores ou enfermeiros.

Entre as duas opções, escolheu ser professora. Anos depois, terminou a 8.ª classe e foi encaminhada para fazer o IMNE, onde cursou Matemática e Física.

Começou por dar aulas na escola 27 de Março, no Lubango, passou pelo Puniv de Luanda e, depois da licenciatura em Matemática, foi para a Universidade Agostinho, como monitora, onde foi também chefe de Repartição de Matemática.

A sua história e a de Luísa Grilo são só uma pequena amostra de que o ensino pode ser feito com amor e paixão, ainda que em condições adversas.

A experiência e a dedicação de ambas podem inspirar os novos professores e ajudar a resgatar um sentimento que se vem perdendo com o tempo: o zelo e o amor pelos alunos.

Leia também
  • 22/11/2019 00:35:44

    Investir no educador

    Luanda - A educação constitui o pilar fundamental para o desenvolvimento e fortalecimento de qualquer Nação, sendo que, em tese, uma sociedade sem instrução tem tudo para fracassar.

  • 20/11/2019 15:55:49

    MESCTI quer inter-comunicabilidade entre IES

    Luanda - O Ministério do Ensino Superior Ciência, Tecnologia e Inovação (MESCTI) pretende estabelecer uma rede de inter-comunicabilidade entre as Instituições de Ensino Superior (IES), de formas a facilitar o acesso à internet e consequentemente dar maior celeridade a esses serviços.

  • 20/11/2019 15:55:12

    Angolanos exploram opções em universidades americanas

    Luanda - Mais de 40 universidades americanas estão hoje, quarta-feira, na Mediateca de Luanda, a dar oportunidade aos estudantes, pais e encarregados de educação de conhecerem os seus programas educacionais.