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31 Outubro de 2014 | 08h04 - Actualizado em 31 Outubro de 2014 | 19h53

OMS: Angolano Luís Gomes Sambo cessa funções com sentimento do dever cumprido

Luanda - O angolano Luís Gomes Sambo, que desde 2005 exerce o cargo de director do Comité Regional da OMS para África, eleito por dois mandatos consecutivos, cessa as suas funções no final dos trabalhos da 64ª sessão deste órgão, a ter lugar na cidade de Cotonou, República do Bénin, de 3 a 7 de Novembro.

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Benin: Luis Gomes Sambo (m) - Director regional da OMS África

Foto: Soares Caetano e José da Costa

Luís Gomes Sambo deixa o "posto" com sentimento do dever cumprido

Foto: António Escrivão (Arquivo)

Por: Gaspar Francisco

Em vésperas desta reunião, Luís Gomes Sambo, concedeu, em exclusivo, uma entrevista à Agência Angola Press “Angop” onde discorre, sobre os mais variados temas que preocupam o continente africano, no que à saúde diz respeito, nomeadamente, as principais endemias, com particular ênfase para a sida e o ébola, as políticas governamentais, as metas preconizadas ao longo do seu mandato e outras questões fulcrais.

O interlocutor da Angop, que cumpriu o seu primeiro mandato de 1 de Fevereiro de 2005 a 31 de Janeiro de 2010 e reconduzido para um segundo mandato de cinco anos, a um de Fevereiro de 2010, disse que durante 25 anos aprendeu imenso e deu o seu melhor para a OMS e para África e fala do seu futuro pós OMS.

Eis a entrevista na íntegra:

Angop: Doutor, nesta altura, o sentimento é de dever cumprido?

Luís Gomes Sambo (LGS): Durante 25 anos aprendi imenso e dei o melhor de mim para a OMS e para África.

Angop: Que metas foram estabelecidas para os seus mandatos? Acha que os objectivos pelos quais se bateu, a frente da OMS/AFRO, foram cumpridos?

LGS: Para prestar contas sobre o meu mandato durante os últimos dez anos, produzi um relatório intitulado “Uma Década de Acção da OMS na Região Africana“. Este relatório trata da minha contribuição ao desenvolvimento sanitário em África na qualidade de Chefe da equipa da OMS na Região africana. Para responder aos desafios que se colocavam à região africana em 2005, impulsionamos oito medidas que nos levaram a melhoria do desempenho da Organização: a reestruturação para melhorar a eficácia e a eficiência organizacional; produção de orientações políticas, técnico-normativas e mesmo científicas para melhorar a qualidade e cobertura dos cuidados de saúde às populações; prioridade absoluta à saúde da mãe e da criança; aceleração das intervenções relacionadas com o controlo do VIH/SIDA, tuberculose e paludismo; arranque da luta contra as doenças crónicas; promoção das determinantes da saúde e prevenção dos riscos associados às doenças não transmissíveis; e capacitação e autonomia do pessoal da OMS na região.

Não conseguimos realizar cem por cento das nossas aspirações mas estamos satisfeitos com os resultados.

Angop: Se lhe pedíssemos que nos caracterizasse a quantas anda a saúde no continente berço, o que nos diria?

LGS: Eu diria que a saúde em África vai ao ritmo do crescimento económico e em particular da distribuição dos seus benefícios, que tem um impacto importante nas condições de vida da população. Naturalmente o desempenho dos sistemas de saúde joga um papel determinante na melhoria do estado de saúde das populações. Em termos de saúde da população a situação caracteriza-se por um peso elevado de doenças transmissíveis tais como o VIH/SIDA, paludismo, tuberculose, doenças tropicais negligenciadas, epidemias recorrentes às quais se junta o aumento progressivo de doenças crónicas tais como a diabetes, doenças cardiovasculares, hipertensão arterial, cancro e perturbações mentais. O peso das doenças tem um impacto especial sobre os grupos mais vulneráveis das populações; por exemplo as mulheres grávidas e crianças são tributárias com elevadas taxas de mortalidade materna e infanto-juvenil. Todavia, no decurso da última década registaram-se progressos importantes e aponto como exemplos a redução da mortalidade infantil de 80 a 63 óbitos por cada mil nascidos vivos; o decréscimo da mortalidade das crianças com idade inferior a 5 anos de 129 a 95 óbitos por cada mil nascidos vivos; a redução da mortalidade materna de 670 a 500 óbitos por cada 100.000 nascidos vivos; a diminuição da incidência do VIH em cerca de 26%; a redução em cerca de 34 % dos óbitos associados ao SIDA; e a redução da incidência do paludismo em 39%.O combate contra as doenças endémicas conheceu alguns sucessos entre os quais saliento a eliminação da lepra; a redução de 90% do número anual de casos de poliomielite entre 2005 e 2013; e progresso para a fase final da erradicação da doença do verme da Guiné. Estes avanços traduzem o resultado do trabalho dos Governos, das comunidades africanas e dos parceiros de desenvolvimento. Referi-me à média das estatísticas na nossa região que integra 47 países; e alerto que existem disparidades de país para país e no interior de cada país. Existem graves iniquidades no acesso a cuidados de saúde de qualidade. Estas assimetrias fazem apelo à novas políticas e práticas que promovam a protecção social e evitem a exclusão das populações mais pobres. A cobertura sanitária universal é o novo caminho escolhido conjuntamente pelos Ministros da Saúde africanos, Comissão da Unidade Africana e OMS em direcção do desenvolvimento sanitário sustentável.

Angop: Para a OMS, quais são as os principais males que enfermam a África e que afectam seriamente a saúde da sua população?

LGS: A qualidade de vida tem muito a ver com o estado de saúde das populações; a maior parte das doenças e das suas causas, decorrem das condições em que as pessoas nascem, crescem, vivem, trabalham e envelhecem. Estas condições são conhecidas como as determinantes da saúde. As principais determinantes da saúde em África estão relacionados com a pobreza que afecta mais de 50% das populações africanas, o obscurantismo, a educação de base, condições de emprego e remuneração, higiene e saneamento, habitação, e comportamentos de risco tais como o alcoolismo, tabagismo, sedentarismo e alimentação desequilibrada. Apenas os serviços nacionais de saúde são insuficientes para responder aos complexos desafios da saúde em África. A abordagem dos problemas de saúde deve ser holística e as soluções devem ser de natureza inter-sectorial. Naturalmente o sector da saúde é o fulcro da liderança do processo de desenvolvimento sanitário onde outros actores têm interesses e responsabilidades partilhadas.

Angop: Crê que os governos têm dado o melhor de si, para dar à sua população o que ditam os postulados da organização que dirigiu ao longo destes anos?

LGS: Desde o ano 2000, os governos dos países africanos fizeram esforços para aumentarem a percentagem dos seus orçamentos nacionais dedicada à saúde, apesar da maioria não ter alcançado a meta de 15% fixada pelos Chefes de Estado e de Governo africanos. Naturalmente as nossas metas têm que ser ambiciosas para estimularem o máximo de resultados em termos de saúde. No meu ver, seria bom que os Governos reforçassem ainda mais a liderança em matéria de políticas de saúde, definição de normas, regulação e legislação sanitária. Eu também advogo por mais investimentos no sector da saúde para assegurar um capital humano saudável, condição indispensável ao crescimento económico e ao desenvolvimento. Os esforços de descentralização dos serviços nacionais de saúde também carecem de maior coerência em termos de atribuição de recursos humanos, tecnológicos e financeiros e exigência em termos de resultados. Desta forma os governos poderíam de acordo com os contextos específicos intensificar o diálogo com as populações e melhorar a dinâmica da sua participaçãona procura de soluções para a saúde de todos. Destas interações, poderiam  eventualmenteresultar novos modelos de serviços de saúde a nível comunitário.

Angop:   As questões sócioculturais, a seu ver, influenciam, de alguma forma, na resolução   dos problemas de saúde pública? De que forma?

LGS: Estas questões estão associadas às determinantes sociais da saúde. Certos comportamentos individuais ou colectivos de risco e certas crenças e práticas tradicionais são prejudiciais à saúde individual e pública. Por exemplo, os ritos funerários e a forma como certas comunidades da África ocidental tratam os cadáveres antes do enterro favorecem a transmissão do vírus do Ebola do cadáver infectado para a comunidade ou a família que o envolve. Mas tudo é uma questão de educação e informação das pessoas, para que elas compreendam certos fenómenos e façam a escolha certa no interesse da sua própria saúde.

Angop:   Acha que os governos têm investido o necessário para as políticas de saúde nos seus países?

LGS: Alguns governos já fizeram muito e outros precisam de fazem muito mais para responder às necessidades crescentes e por vezes imprevisíveis de cuidados de saúde às populações. As capacidades das infraestruturas de saúde devem ser reforçadas para poderem responder aos anseiosda cobertura sanitária universal. Seria também importante um maior investimento na capacidade de produção de profissionais de saúde; e no domínio da investigação para a produção de novas tecnologias e concepção de melhores modelos de organização dos serviços de saúde.

Angop:  Particularmente ao VIH/Sida, como é que o continente está? Considera haver progressos? Que números podem ser avançados, para compreendermos esta problemática?

LGS: Cerca de 24 milhões de pessoas vivem com o VIH na ÁfricaSubsaariana; e em 2013 tivemos uma estimativa de 2,2 milhões de novas infecções. A percentagem de pessoas infectadas com o VIH diminuiu de 25% (de 7% em 2001 à cifra actual de 4,7 %). A percentagem de mulheres grávidas seropositivas com acesso a tratamento anti-retroviral é de 63% comparada com 49% em 2009. A taxa de cobertura de tratamento anti-retroviral a pacientes com SIDA aumentou de 10% em 2001 a 63% em 2012. Apesar destes progressos, o peso o VIH/SIDA em África ainda é muito elevado. África alberga cerca de 70% do total de pessoas infectadas com VIH no mundo. Portanto o combate contra o VIH/SIDA deve continuar sem tréguas!

Angop: Número de países membros e quantos aderiram à organização durante o seu mandato? E no que toca às relações de cooperação com a União Africana?

LGS: Um país, a nova República do Sudão do Sul, admitido como Estado-membro das Nações Unidas em 2011, solicitou a transferência da Região do Mediterrâneo Oriental para a Região Africana da OMS; e o pedido foi aceite através de uma Resolução do Comité Regional de 2012 em Angola subscrita pela Assembleia Mundial da Saúde de 2013 na Suíça. Durante o meu mandato também trabalhei para consolidar as relações de cooperação da OMS com dois países, a República da África do Sul e a República Popular e Democrática da Algeria com quem negociei e assinei acordos de base para criação de Representações da OMS com estatuto de missões diplomáticas. Com a União Africana, negociamos em 2012 um novo Acordo de cooperação que substituiu o Acordo precedente com a Organização da Unidade Africana. O nosso país albergou e patrocinou no ano passado o primeiro evento importante decorrente do novo Acordo; tratou-se da primeira reunião conjunta da OMS e da Comissão da União Africana que produziu decisões importantíssimas sobre a criação de uma Agencia Africana dos Medicamentos, o estabelecimento de um Centro Africano de Controle das Doenças e a intensificação do movimento em direção da Cobertura Sanitária Universal.

Angop:  Que desafios se colocam à organização, para os próximos tempos?

LGS: Os principais desafios da OMS meu entender, prendem-se com a execução do programa de reforma iniciada há dois anos e que pressupoe um financiamento de acordo com as expectativas dos Estados-membros.

Angop: Como angolano pensa que o país ganhou mais visibilidade, tendo o senhor a frente dos destinos de tão importante organismo continental?

LGS: Penso que não sou a pessoa indicada para responder a esta questão. Mas, deixe-me dizer-lhe que para honrar o nosso país, procurei sempre dar o melhor do meu saber e o máximo da minha energia para a concretização da missão da Organização Mundial da Saúde em África.

Angop: O que é que o futuro reserva ao doutor Luís Gomes Sambo?

LGS: Não tenho nenhum plano especial, vou regressar ao país e reintegrar-me na sociedade.

Angop: O Continente e o Mundo estão confrontados com uma “desgraça” que é o vírus do ébola. Que acções acha os governos devem fazer para travá-la?

LGS: Os países afectados com a epidemia deverão intensificar a execução dos seus planos de combate ao Ébola e priorizar a detecção dos casos, a prevenção a nível comunitário, o tratamento das pessoas infectadas,o seguimento dos contactos e realização de enterros seguros, com o objectivo principal travar a epidemia tão cedo quanto possível. A missao das Nações Unidas criada para responder à emergencia do Ébola – UNMEER já está estabelecida no Gana para reforçar o apoio aos países. Os países não afectados com Ébola, devem acelerar o processo de preparação de acordo com as directivas da OMS, para que se defendam de forma adequada na eventualidade de epidemia.

Angop: Mais alguma consideração pretendia, o doutor, fazer sobre algo que não tenhamos abordado nesta breve entrevista?

LGS: Sim duas coisas, primeiro agradeço ao Presidente da República, ao Governo e à sociedade civil do nosso país pelo apoio e desvêlo à minha pessoa ao longo dos dois mandatos que cumpri em nome da República de Angola. Em segundo lugar, desejo boa sorte e sucessos à pessoa que me substituirá para continuar o combate por uma melhor saúde e qualidade de vida dos africanos.

Quem é Luís Gomes Sambo?

Luís Gomes Sambo nasceu em 1952, no Município de Lândana, província de Cabinda, Angola.

Licenciou-se em Medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de Angola, e obteve o Diploma de Especialização em Saúde Pública pela Ordem dos Médicos de Portugal. É também Doutorado em Gestão pela Universidade de Hull, no Reino Unido.

Iniciou a sua carreira em 1977 como Médico Distrital no Município de Cacuaco, Província de Luanda, e foi Director dos Serviços de Saúde na província de Cabinda entre 1978 e 1980, tendo exercido funções como Director da Cooperação Internacional do Ministério da Saúde em Luanda, de 1981 a 1983.

Em 1983, foi nomeado Vice-Ministro da Saúde, cargo que ocupou durante cinco anos. Enquanto Vice-Ministro Angolano da Saúde, foi Presidente da Comissão Nacional de Saúde, Coordenador dos hospitais públicos em Luanda e Supervisor das áreas relacionadas com o Controlo das Doenças, Saúde Materno-Infantil e Recursos Humanos para a Saúde.

Luís Gomes Sambo entrou para a OMS em 1989, como Chefe da Equipa de Apoio Estratégico Interpaíses em Harare, no Zimbabwe, onde supervisionou o apoio técnico para o reforço dos sistemas de saúde nos países da África Austral. Em 1990, foi transferido para a Guiné-Bissau, onde passou a desempenhar o cargo de Representante da OMS no país. Em 1994, regressou ao Escritório Regional em Brazzaville, na qualidade de Chefe da Unidade responsável em coordenar a implementação da Estratégia “Saúde para Todos”. Em 1996, exerceu funções como Director da Divisão de Desenvolvimento de Serviços de Saúde no Escritório Regional onde, em 1998, foi nomeado Director de Gestão do Programa.

Luís Gomes Sambo, foi eleito por unanimidade pela 59.ª sessão do Comité Regional Africano da Organização Mundial da Saúde como Director Regional da OMS para África. A 126.ª sessão do Conselho Executivo da OMS renomeou-o para exercer um segundo mandato de cinco anos, que teve início a 1 de Fevereiro de 2010. O seu primeiro mandato foi de 1 de Fevereiro de 2005 a 31 de Janeiro de 2010.

Alguns dos prémios e distinções atribuídos ao Dr. Sambo em reconhecimento do seu contributo e realizações na área da saúde pública incluem: Certificado -  Who’s Who in Medicine and Healthcare, Seventh Edition 2009-2010, pela Marquis Who’s Who Publications Board, USA; galardoado com o título Doutor Honoris Causa pela Universidade Nova de Lisboa - Portugal, em 2012;  ’Officier de l’Ordre National de la Valeur’ da República dos Camarões em 2012; ‘Commandeur de l’Ordre National du Mérite du Benin’ em 2012; Officier de l’Ordre do Burkina Faso in 2010; Doutor Honoris Causa, pela Universidade de Kinshasa, República Democrática do Congo, em 2009; o prémio Salva de Prata, atribuído pela Ordem dos Médicos de Angola, em 2008, a Medalha de Comandante da Ordem de Madagáscar, em 2007, e a Medalha de Ouro da Saúde Pública pela República do Níger, em 2006.

Luís Gomes Sambo tem várias publicações em revistas científicas internacionais e é membro da Ordem dos Médicos de Angola, Ordem dos Médicos de Portugal, da Sociedade Internacional de Ciências de Sistemas e ainda membro do Conselho Editorial Internacional da Biblioteca Mundial de Medicina da Mulher.

Fala fluentemente Português, Francês e Inglês.



 

Assuntos Saúde  

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