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06 Julho de 2015 | 10h32 - Actualizado em 06 Julho de 2015 | 10h31

"Portugal cometeu um tremendo erro ao reconhecer a independência de Angola tardiamente" - Otelo Saraiva de Carvalho

Lisboa - Otelo Saraiva de Carvalho, um dos rostos do Movimento dos Capitães de Abril de 1974, conhecido por ter derrubado o regime político autoritário, autocrata e corporativista que vigorou em Portugal, entre 1933 e 1974, abrindo caminho à sua democratização, encara "um tremendo erro" o facto de Portugal ter reconhecido tardiamente a independência de Angola. Em entrevista à Angop, a primeira concedida a um órgão de informação angolano, e por ocasião dos 40 anos da independência nacional (11 de Novembro), Saraiva de Carvalho sentencia que, ao tornar-se nos últimos países do mundo a aceitar a independência de Angola, Portugal "levou a que, hoje, as relações com Angola tenham sempre embaraços". "Há coisas que deixam marcas para sempre", afirma.

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Otelo Saraiva de Carvalho, do ex-Movimento dos Capitães de Abril de 1974 (Portugal)

Foto: Cortesia de Paulo de Jesus

Paulo de Jesus (Correspondente em Lisboa)  


Leia a entrevista:


Angop - Enquanto um dos protagonistas da “Revolução dos Cravos”, em Portugal, como gostaria que fosse recordado pelos povos africanos que falam a língua portuguesa, sobretudo pelos angolanos?


Otelo Saraiva de Carvalho (OSC) - O Presidente Agostinho Neto, quando fez o seu discurso, durante a cerimónia de assinatura  dos Acordos de Alvor, a 15 de Janeiro de 1975, classificou o Movimento das Forças Armadas (MFA), pelo exemplo como fizemos o 25 de Abril, como o quarto movimento da luta de libertação (de Angola). É assim que gostaria de ser recordado: alguém, sendo oficial do exército português, que desenvolveu, em África, nas três antigas colónias portuguesas (Angola, Moçambique e Guiné-Bissau), uma guerra colonial contra movimentos que tinham desencadeado uma guerra de libertação pela reconquista da independência, mas que, num determinado momento, devido às circunstâncias deterioráveis, desenvolvidas no seio do exército português, tomou consciência, com os seus camaradas, a deliberação de assumir, como fundamental, para o bem-estar dos portugueses e dos povos africanos, de lutar também pela democratização e reconquista da liberdade e dignidade dos portugueses e, simultaneamente, dos povos das ex-colónias, pela independência e pela auto-determinação.

Angop - Revê no discurso de Neto uma homenagem à vossa ousadia revolucionária?

OSC - Foi um discurso muito humanista, em que ele nos dá esta classificação: considera o MFA como o quarto movimento de libertação de Angola. Para mim, foi um orgulho ter feito parte do movimento revolucionário, porque permitiu a conquista da liberdade ao povo português e aos povos das antigas colónias portuguesas em África.


Angop - Quê influências directas tiveram as revoltas como a do 4 de Fevereiro de 1961 para o “25 de Abril”?


OSC - O primeiro factor para o 25 de Abril foi, precisamente, a guerra colonial, que já se prolongava por muito tempo. A partir de 1961, Oliveira Salazar começa a enviar tropas para Angola, depois dos acontecimentos do 4 de Fevereiro de 1961. Contudo, as coisas se agitaram mais com os ataques de 15 de Março daquele ano, perpetrados pela UPA/FNLA, liderada por Holden Roberto, no norte de Angola, com a chacina de fazendeiros e trabalhadores portugueses.

Salazar mandou projectar as imagens na televisão portuguesa para ter argumento em tomar as rédeas de agir contra Angola. Ele assume rapidamente a pasta de ministro da Defesa, destituindo o então titular da pasta, Júlio Carlos Alves Dias Botelho Moniz, que, alegadamente, com o apoio dos Estados Unidos, preparara um golpe militar contra Salazar, em Abril de 1961, desencantado com a política de intransigência de Salazar em relação à auto-determinação dos territórios ultramarinos.

Em 13 de Abril de 1961, Salazar determina então a célebre frase “Para Angola, rapidamente e em força!”, quando se apercebeu que os acontecimentos de 15 de Março eram organizado por um movimento nacionalista, apoiado por potências internacionais. Envia, então, milhares de tropas para Angola, para, segundo ele, suster a rebelião. Ela achava que, rapidamente, haveria de ser subjugada em seis meses. Entretanto, levou mais 13 anos de guerra (até 1974).

Ao fim desses anos, já com o Governo sob liderança de Marcelo Caetano, ao invés de se procurar aquilo que Salazar deveria ter feito imediatamente, que era uma solução política para se pôr fim à guerra, com o fundamento de que todos os povos têm direito à auto-determinação, pois, já estávamos cansados de uma guerra que não nos levava a lugar nenhum, Marcelo Caetano dava sinais de continuar a guerra colonial.


Angop - E então?


OSC - Nós, oficiais do exército, somos confrontados, ainda em 1973, com dois decretos-leis, que, ao invés de encontrar uma solução política, reunindo a uma mesma mesa os líderes dos movimentos de libertação, Marcelo Caetano fez diferente: dá a possibilidade aos antigos oficiais do exército, que fizeram qualquer missão no império, de puderem ingressar, mediante um estágio de seis meses, no quadro permanente, transformando-lhes em capitães ou majores, para continuarem com a guerra colonial. Isso provocou, entre nós, oficiais do quadro permanente, uma revolta. Não podíamos mais continuar a guerra para irmos morrer. Daí a revolução de 25 de Abril…


Angop - O regime português até à altura do 25 de Abril achava-se ainda com forças de continuar com a guerra?


OSC - Se não surgisse a nossa revolta do 25 de Abril, a guerra colonial teria ainda se prolongado por muitos anos. Éramos contrários a isso, porque os povos tinham direito à sua independência. Então, havia que se encontrar uma solução política para se pôr fim à guerra e dar-se a independências às ex-colónias, porque elas tinham esse direito.

Angop - O que o MFA preconizava?


OSC - A nossa linha orientadora era permitir instaurar a democracia em Portugal, com a introdução do modelo representativo da Europa Ocidental e dos Estados Unidos; desenvolver Portugal; e preconizávamos a total descolonização dos países africanos de língua portuguesa. Na prática, como dizia o Presidente Agostinho Neto, nos constituímos no quarto movimento, juntando-se, sobretudo, ao MPLA, devido à nossa preferência ideológica, mas também ao PAICG e à FRELIMO.


Angop - A UNITA e a FNLA não entravam nas vossas contas?


OSC - Tínhamos mais preferência pelo MPLA, porque era o único movimento, por razões ideológicas e capacidade de gestão política, do qual tínhamos contacto e diálogo.


Angop - Consta que o MFA, por intermédio do Otelo Saraiva de Carvalho, terá sido um dos impulsionadores em convencer o então Presidente cubano, Fidel Castro, a enviar tropas para Angola para ajudar o MPLA, em 1975…


OSC - Realmente, isso é verdade. Recebi um convite do Presidente Fidel Castro. Eu era comandante da Comando Regional de Lisboa, quando veio a Portugal a filha do que era, até ao 25 de Abril, o director-geral da PIDE-DGS, major Silva Pais. Ela tinha-se casado com um diplomata suíço, colocado em Havana, como representante da Confederação Helvética. Depois de se divorciarem, o marido regressou ao seu país e ela ficou em Cuba e tornou-se “revolucionária” cubana.

Ela veio visitar os pais na cadeia de Caxias. Na sua despedida, ela veio ter comigo no Quartel-General, convidando-me a visitar Cuba e encontrar-me com Fidel Castro. Duas semanas depois, recebi a formalização do convite do comandante Fidel para visitar Cuba, de 21 a 30 de Julho de 1975. Em véspera do regresso a Lisboa, Fidel Castro disse-me: “Otelo, se não te importas, almoçamos, eu e o meu irmão Raul Castro (na altura chefe do Estado-Maior das Forças Armadas), porque temos uma conversa particular contigo”.

Então me informou que, uma semana antes, recebera uma delegação do MPLA, que trouxera uma carta do Presidente Agostinho Neto, em que revelava que estava com dificuldades, porque as tropas sul-africanas, no apoio à UNITA, avançavam para invadirem Luanda, assim como as tropas zairenses, de Mobutu Sese Seko, no apoio à FNLA, a partir do norte.

Fidel Castro dissera que o MPLA já tinha pedido apoio, mas rejeitado, a Leonid Brejnev (Presidente da então União Soviética, entre 1964 e 1982), limitando-se no envio de conselheiros militares.

Fidel perguntou-me o que ele poderia fazer.


Angop - O que respondeu?


OSC - Eu sugeri que avançasse. No dia seguinte, regressei a Portugal, e, passado uma semana, as tropas cubanas começavam a desembarcar em Angola.


 Angop - Não era de esperar de si e do MFA um papel mais neutro em relação aos três movimentos em Angola?


OSC - Quem está numa posição que tem que tomar decisões, toma ou não toma. E a decisão era inevitável. É verdade que se exigia de nós alguma isenção, mas, perante tal situação (com três movimentos de libertação, com apoios e ideias diferentes, com grandes potências interessadas nas riquezas de Angola – petróleo e diamantes, etc.), tivemos que fazer uma escolha. E a escolha, pelo nível de capacidade intelectual e política, era o MPLA que nos dava garantias.


Angop - Que garantias queriam?


OSC - Com a UNITA e com a FNLA nunca tivemos simpatias. O Jonas Savimbi não nos dava garantias nenhumas. O Holden Roberto, apesar de ter andado em missões evangélicas, também não nos dava garantia de qualquer gratidão por parte deles. Portanto, tínhamos que fazer uma escolha e a escolha recaiu sobre o MPLA.


Angop - Como se sente quando, hoje, ouve afirmações de que naquela altura o processo foi mal gerido por Portugal?


OSC - Acho que o processo não foi mal gerido. Foi tentada uma plataforma mínima de acordo entre os três movimentos de libertação. O próprio António de Spínola, oficial militar português, político conservador, que jogou um determinante papel naquele período de transição que se seguiu ao 25 de Abril, tinha uma ideia completamente diferente de auto-determinação e de independência. E houve uma luta muito grande entre ele e o MFA. Spínola tinha uma ideia de criar uma “Commonwealth” à portuguesa, em que ele seria o Presidente da República e de todas as províncias ultramarinas.


Angop - Para Spínola, independência jamais…


OSC - A perspectiva dele era gizar uma cultura ultramarina que conduzisse à paz, e mais nada. Isso era completamente ridículo. A visão do MFA, que acabou por ceder perante Spínola, gizava que o Governo a sair a partir do “25 de Abril” deveria imediatamente tomar medidas no sentido de elevar imediatamente o nível económico, cultural e social do povo português, sobretudo das classes sociais mais desfavorecidas. Para nós, o Governo português saído da revolução de 25 de Abril deveria, imediatamente, também, reconhecer o direito dos povos à auto-determinação, com todas as consequências que daí adviriam, mesmo a independência.


Angop - Facto que Spínola rejeitava...


OSC - Spínola era contra a independência. Ele queria implantar logo nas colónias um modelo tipo europeu-ocidental. E ficaria à espera que surgissem partidos. Seriam partidos fantoches portugueses em Angola, que, juntamente com o MPLA, UNITA e FNLA, fariam eleições. Houve essa tentativa. Ele foi afastado do processo, e acabou por reconhecer, a 27 de Julho de 1974, em que faz uma intervenção dramática na televisão, que, finalmente, reconhecia o direito dos povos à auto-determinação e à independência. Mesmo assim, continuou a lutar contra isso.

Entretanto, nós, o MFA, procuramos criar condições para o estabelecimento de um acordo mínimo os três movimentos, que acabou por dar o texto do Acordo de Alvor - assinado entre o governo português e os três principais movimentos de libertação de Angola, (MPLA, FNLA e a UNITA), em Janeiro de 1975, em Alvor, no Algarve, estabelecendo os parâmetros para a partilha do poder, após a obtenção da independência de Angola.

Os acordos foram extremamente difíceis porque havia conflitos ideológicos resultantes dos apoios externos da União Soviética, Estados Unidos e África do Sul aos três respectivos movimentos nacionais. Assisti aos Acordos de Alvor e, ao cumprimentar o Presidente Agostinho Neto, me disse para não se cair na euforia, porque as diferenças eram muitas.


Angop - Ficou frustrado?


OSC - Em relação a Angola, sim. Isso não aconteceu em Moçambique, em Cabo Verde, na Guiné-Bissau ou em São Tomé e Príncipe. Nestes países, havia só um movimento forte; o resto era fantasma. Em Angola, não. Existiam três movimentos fortes no terreno (MPLA, UNITA e FNLA), em representação étnico-linguístico dos povos quimbundo, umbundo e quicongo. Havia já um grande choque.

Tenho ainda a dizer que, por causa dos apoios externos, os novos dirigentes que surgem em Portugal, com o 25 de Abril, Mário Soares (do Partido Socialista – PS) e Sá Carneiro (do Partido Social Democrata - PSD), não reconhecerem o Governo que se vai formar finalmente em Angola com a independência de 11 de Novembro de 1975 - o MPLA recebia apoio da União Soviética. Era muito grave Portugal ser o 83º país do mundo a reconhecer a independência de Angola. Tardou demais.  

ANGOP - Foi um erro político?


Não há dúvidas que foi um tremendo erro Portugal reconhecer a independência de Angola tardiamente.


Angop - Esse erro custou caro para as relações político-diplomáticas entre os dois países?


Não tenhamos dúvidas que o reconhecimento tardio da independência de Angola levou a que nem sempre, ainda hoje, as relações com Portugal sejam boas. Há coisas que deixam marcas para sempre. Isso tudo custou caro para as relações entre Angola e Portugal.

Angop - Entretanto, ensaiou-se a democracia em 1992, com os resultados terríveis que deles se seguiram. Depois surgiu, finalmente, a paz, em 2002, com a morte de Savimbi. E aqui, como viu o papel dos militares angolanos na resolução política do “caso” angolano”?


OSC - Em Portugal, no 25 de Abril, os militares tiveram, como perspectiva, tão depressa quanto possível, deixar a gestão política para os partidos políticos, o tal modelo ocidental, com os partidos a funcionarem (1974/1982, quando, em Outubro de 1982, é extinto o Conselho da Revolução).

A sede do poder residia muito no MFA, no Conselho da Revolução, até às eleições constituintes de 1976 para a Assembleia da República. Depois da extinção do Conselho do Revolução, o papel dos militares cingiu-se apenas no âmbito da fiscalização legislativa. O poder político foi entregue aos partidos políticos. Em Angola, os militares tiveram um papel importantíssimo. Mas, hoje, a população, se calhar, prefere cidadãos de reconhecido mérito a dirigirem a política do país. Aqui, em Portugal, são os jovens políticos, formados, que estão a dirigir o país, e têm ideias políticas inovadoras diferentes do passado.

Angop - Deixou a política activa?

OSC - São os custos da democracia. É tempo para as outras gerações. Não podíamos estar na política eternamente. Não fazia sentido, até porque tínhamos combatido a ditadura. Éramos contra as pessoas permanecerem muito tempo no poder e não se dar tempo às outras gerações.


Angop - Na sua opinião, como deveriam ser as relações de Portugal com Países Africanos de Língua Portuguesa (PALOP), nomeadamente com Angola?


OSC - Elas deveriam ser fraternas. Em 1978, estive com o falecido Presidente de Moçambique, Samora Machel, de quem me tornara muito amigo. Ele convidou-me a viver em Moçambique, por eu ter nascido em Moçambique, assim como os meus filhos. Isso é significativo.

Angop - Hoje há ainda portugueses magoados com a independência dos PALOP?


OSC - Uma vez fui a um supermercado e uma senhora na casa dos 60 anos, que tinha uma vida rica em Moçambique, caiu aos gritos contra mim, chamando-me de comunista e que tinha ajudado a vender as colónias aos soviéticos. Formou-se um circo à nossa volta. Com calma, fiz entender à senhora que as terras não eram portuguesas e que os seus povos tinham direito à auto-determinação e independência. Ao manter aquela subjugação aos povos africanos, Portugal estaria isolado internacionalmente, porque era visto como uma nação colonialista e seria um país subdesenvolvido. A senhora e o marido, que ouvia a conversa, saíram cabisbaixos. Felizmente, já se notam poucos casos destes. Aos poucos, os portugueses já compreenderam que as colónias eram pertença dos seus povos, os africanos.


 Angop - Então, qual é a mensagem que endereça aos PALOP que este ano comemoram 40 anos de independência?


OSC - É sempre extremamente aliciante (re)construir um país. E é satisfatório sentirmos (eu e os meus camaradas) o sonho dos nacionalistas africanos em tornar rapidamente possível o alcance da liberdade, da dignidade e da soberania dos seus países.

Perfil

Otelo Nuno Romão Saraiva de Carvalho, nasceu na então cidade de Lourenço Marques (actual Maputo), em 1936; militar e líder político português, membro do chamado Movimento dos Capitães, considerado seu estratega, derrubando o regime de Marcelo Caetano, em 25 de Abril de 1974. Passou de capitão a general graduado, e foi nomeado comandante da Região Militar de Lisboa e integrou o Conselho da Revolução em Março de 1975.

A 25 de Novembro de 1975, deu-se um novo golpe militar em Portugal, pondo termo ao processo revolucionário iniciado com o derrube da ditadura, sendo Otelo de Carvalho alvo de acusações políticas, alegadamente de ter pactuado com os sectores revolucionários, facto que determinou a sua despromoção para capitão.

Tornou-se candidato presidencial em 1976 e 1980 pela extrema-esquerda, somando uma percentagem considerável de votos.

Líder do partido Frente de Unidade Popular e, depois, envolvido nas Forças Populares 25 de Abril (FP-25), foi submetido a um longo processo judicial. Em 1985, foi preso e, depois de recurso da sentença, foi libertado após cinco anos, ficando a aguardar julgamento em liberdade. Porém, em 1996, a Assembleia da República aprovou uma amnistia para os elementos presos das FP-25.

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