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18 Março de 2017 | 19h47 - Actualizado em 21 Março de 2017 | 08h54

A Igreja é uma presença viva na sociedade - Arcebispo de Saurimo

Saurimo - A democracia é um dos melhores regimes que o país tem, por possibilitar a participação de todos na construção do bem comum, disse o arcebispo da Arquidiocese de Saurimo, Dom José Manuel Imbamba, durante entrevista exclusiva à Angop, no âmbito das próximas eleições gerais.

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Dom Manuel Imbamba - Arcebispo de Saurimo

Foto: Lucas Neto

(Por Hélder Dias)

Em entrevista, o arcebispo afirma que, por este facto, a Igreja Católica tem encorajado os seus fiéis, em particular, e os cidadãos, em geral, a não se coibirem do processo eleitoral, em virtude de ser um dever sagrado, cívico e louvável que contribui para o reforço da democracia.

Segue a entrevista na íntegra:

Angop: Reverendíssimo arcebispo, este ano Angola realiza mais um pleito eleitoral, e, neste momento, decorre a fase do registo. Como é que avalia este processo?

Dom José Imbamba (JI): A avaliação que faço do registo eleitoral é positiva. Estamos a responder ao apelo e à convocação. É um processo que está a decorrer como se esperava, porque está a mobilizar as forças vivas do país, para que o angolano, enquanto tal, se sinta responsabilizado a participar.

O registo eleitoral é o pressuposto básico que nos habilita a exercermos activa, responsável e conscientemente a nossa cidadania, por isso deve ser um processo que tem de continuar a ser feito de forma transparente e consensual, para se evitar animosidades, desconfianças e fricções desnecessárias, tendo em vista o bem maior que pretendemos, que é a democratização mais forte da Nação.

Todos quanto querem construir o país na base do direito, da justiça, da paz, do desenvolvimento e da dignidade da pessoa humana devem sentir-se comprometidos com este processo.

Angop: Alguns partidos na oposição já começam por alegar fraude antes da realização do pleito. Como líder religioso, que opinião tem sobre esta postura?

JI: Como disse, este processo requer transparência, consenso e diálogo permanente, para que todos se sintam bem. É verdade que à partida já existiu esta desconfiança em ralação ao Ministério da Administração do Território, que está a coordenar esta fase administrativa do registo eleitoral. Esse é um aspecto muito prático que deve envolver todas as vontades. Todos os partidos políticos têm de dar o seu parecer, a fim de que o mesmo em si só não nasça com estas desconfianças e suspeitas. Por isso, aconselho os partidos a sentarem-se para concertar e tirar os meios-termos e decisões que possam agradar a todos.

Se nós tomarmos decisões conflituosas à partida, claro, a coisa avança, mas com deficiência, porque uma das partes não se sentirá achada no todo do processo. Penso, também, que terá de haver alguma humildade para podermos tirar aquilo que convém a todos, uma vez que os interesses que estão em jogo não são dos partidos, mas, sim, da Nação. Então, é preciso que os interesses partidários diminuam um pouco para virem ao de cima os da Nação.

As eleições serão consequências de tudo aquilo que está a ser edificado agora e, se os alicerces não forem fortes, o resto que será feito irá ser deficiente, daí a necessidade de haver diálogo permanente e consenso entre os partidos, para se evitar desconfianças.

Angop: Qual é o papel da igreja neste domínio?

JI: A igreja é uma presença viva no seio da sociedade e sabe que a democracia é um dos melhores regimes que temos, por possibilitar a participação de todos na construção do bem comum, e é por isso que a Igreja Católica encoraja todos os seus fiéis, em particular, e os cidadãos, em geral, para que não se coíbam deste dever sagrado, cívico e louvável. A igreja aconselha, insiste e forma as consciências das pessoas, no sentido de serem elas mesmas protagonistas da construção da sociedade que eles querem e serem protagonistas na escolha responsável daqueles que entendem que devem ser os seus dirigentes.

Temos tido um papel muito activo neste sentido. Os nossos leigos são capacitados para estas actividades, permitindo que a participação política dos cidadãos não seja algo estranho à própria vida social, mas que seja um imperativo que o cidadão deve assumir sempre como forma de dar o seu contributo à construção do bem que todos desejamos. A igreja é um parceiro incontornável na educação para a maturidade política, cívica, cultural, formação da cidadania, por isso é que estamos envolvidos nesta campanha de sensibilização das pessoas para o registo eleitoral.

Angop: Como deve ser a participação dos cidadãos neste processo?

JI: É preciso que nós, pouco a pouco, ajudemos os nossos cidadãos a perceberem que a vida política é um bem, um serviço necessário, pois as sociedades não são anárquicas, são organizadas e precisam de líderes que garantam o direito, a estabilidade social, a segurança, o desenvolvimento e a justa repartição dos bens. Para que isso seja factível, há necessidade de uma autoridade do povo, que é delegada a alguém, para, em seu nome, poder governar.

A participação dos cidadãos neste processo não deve ser de imitação, de fanatismo, cega, mas, sim, consciente e responsável, que ajude o país a crescer. Há a necessidade de uma educação e de transformarmos estes actos eleitorais em cultura, para que seja algo que nasça espontaneamente do nosso modo de ser e de viver, para evitarmos aquelas realizações pontuais e efémeras de nos deixarmos levar pela “onda”.

Temos uma história, temos um passado, um presente e um futuro; temos de aprender das lições do passado para podermos construir este nosso hoje com a consciência, discernimento e a inteligência que impõe, para fazer que o nosso futuro seja brilhante não só para nós, mas também para aqueles que virão depois de nós. Isso exige, sobretudo, da camada juvenil muita responsabilidade. Os jovens não podem olhar só o carreirismo, a fama e o poder. Tudo isso são conquistas que requerem uma preparação, maturidade cívica, política, cultural e social e humana. A educação é um dever e acto necessário que devemos ter sempre presente, para que, pouco a pouco, aprendamos a transformar os actos democráticos em cultura.

Angop: E a responsabilidade dos partidos políticos…

JI: Os partidos políticos têm muita responsabilidade. É preciso não reduzirmos a vida política à militância, porque a política é muito mais do que isso. Os partidos não devem preocupar-se só em garantir o voto, é preciso que eles próprios eduquem as pessoas a não se fecharem no partido. É, também, missão dos partidos fazer que os seus militantes aprendam a respeitar a diferença, a viver no convívio tolerante, fomentar a fraternidade, a fim de que se assumam como uma escola para a cidadania.

Angop: Como é que o arcebispo encara as eleições em Angola?

JI: Como sabe, o nosso passado foi de violência, de muita guerra. Nós estamos numa fase de aprendizagem, em que muitos ressarcidos do passado ainda estão na nossa consciência e, então, há um trabalho de purificação e rejuvenescimento, que é preciso fazer. Este ano, vamos realizar o quarto pleito, ainda somos aprendizes neste domínio, temos feito o necessário e o possível, cumprindo com o que está plasmado na nossa Constituição. Não podemos fazer já uma avaliação no seu todo, já que, como disse, somos ainda aprendizes.

Angop: Nos últimos pleitos, a oposição sempre alegou ter havido fraude. Que opinião tem sobre isso?

JI: A minha opinião é que, realmente, tudo isso nasce do facto de nós só olharmos o poder pelo poder. Ainda não estamos a viver a democracia como um espaço de convívio, de realização, de diálogo e de afirmação, no qual conseguimos reconhecer que hoje ganhou o outro, amanhã serei eu e irmos maturando esta consciência. Esse é um fenómeno de África. Como a democracia ainda não é o nosso forte, a nossa cultura, então facilmente escorregamos nestas especulações. Penso que não deveria ser esta a nossa atitude, deveria ser mais positiva, participativa e virada para o optimiso. As eleições são o culminar de todo um processo. O que está na base de tudo isso é a desconfiança, a forma como os partidos preparam as bases e criam os ambientes.

Angop: Qual deve ser a postura dos partidos quando perdem as eleições?

JI: A postura mais elegante deve ser reconhecer, agradecer à participação de todos, aceitar a derrota e estender a mão ao vencedor. Essa é a atitude mais nobre que não vai retardar nem adiar o nosso desenvolvimento.

Estas convulsões, por causa das eleições, retardam mais o país, bem como o próprio partido em se organizar melhor, para poder atingir níveis de realizações mais concretas. Aquele deveria ser o momento de repensar o que falhou, o que tem de ser melhorado, qual o ponto fraco e forte. Perder tempo com convulsões pós-eleitorais que provocam confusões, isso não se aconselha.

Angop: Em breve, os partidos começam com as campanhas eleitorais. Que conselho quer deixar?

JI: O processo de campanha eleitoral é um momento em que há certo nervosismo, ansiedade, em que os espíritos estão mais para a exaltação. Portanto, o que aconselhamos é sabedoria, prudência, capacidade de saber comunicar, informar e apresentar o projecto político.

Infelizmente, existem políticos que não têm um programa de sociedade, de governo, de desenvolvimento. Logo, é preciso que os partidos políticos mostrem e convençam. Durante as campanhas eleitorais, as utopias brilham, as belas ideias aparecem. As campanhas eleitorais devem ser momentos de diálogo social e de respeito às diferenças.

Os líderes partidários têm uma responsabilidade acrescida, porque são eles que comandam e que têm o poder de delimitar os excessos e entusiasmos desnecessários, uma vez que, se não conseguirmos banir tudo isso, cairemos no fanatismo, e o “fanatismo é intolerante, rejeita o outro, não dá importância à inteligência do outro”. Os líderes políticos devem ajudar os seus militantes a respeitarem-se mutuamente. Espero que, durante a campanha eleitoral, todos nos comportemos como dignos cidadãos, responsáveis, cientes de que sabemos o que queremos e que amamos, sobretudo, a sua pátria.

Os partidos devem olhar o país no seu todo. É preciso não reduzir o país num partido, a cidadania na militância. É preciso que não esgotemos a política no partido, sejamos líderes de verdade e que amemos o seu povo, que arregacemos mangas para entrar na massa e líderes próximos dos seus liderados.

Angop: Como é que caracteriza o povo angolano neste domínio?

JI: O povo angolano é pacífico, manso e obediente. Se formos capazes de lhes transmitir mensagens que promovem a tolerância, a paz, o respeito pela diferença e convívio, tenho a certeza absoluta de que os processos eleitorais decorrerão de forma satisfatória. A população angolana é de bem, que gosta da paz, da harmonia, que gosta de trabalhar, de apreciar o belo do seu país, de festa, de convívio e da arte.

É uma população que, quando chamada para os deveres grandes, sabe responder com respeito, ordem, disciplina e sabe dar lições aos políticos. A população angolana surpreende-nos nestes aspectos. Então, é preciso que aproveitemos esta nobreza dela para nós também sabermos assumir a nobreza política, cívica, religiosa, que vai ajudar-nos a ser nós mesmos no concerto das nações e um povo forte.

Angop: Quem é Dom José Manuel Imbamba?

JI: Sou filho desta terra. Nasci na cidade do Luena (Moxico), tenho 50 anos de idade. Estou a viver o meu ano jubilar. Sou de uma família profundamente Católica. O meu pai é oriundo de Cacolo (Lunda Sul), a minha mãe é do Moxico. Sou o terceiro filho entre cinco irmãos. Com 14 anos, entrei no Seminário de Malanje. Prossegui os meus estudos nos seminários do Uíge e de Luanda. Fui ordenado sacerdote em 1991. Em 1995, fui enviado para Itália, onde me doutorei em Filosofia. Voltei em finais de 1999. Trabalhei na Universidade Católica, de 2001 até 2008, quando fui nomeado bispo do Dundo e, em 2011, fui nomeado arcebispo de Saurimo, onde trabalho até ao momento. Sou de um temperamento muito pacífico e tímido. Sou o magno chanceler da Universidade Católica de Angola e porta-voz da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé e Príncipe. Sou o presidente da Comissão Episcopal da Cultura.

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