Angop - Agência de Notícias Angola PressAngop - Agência de Notícias Angola Press

Ir para página inicial
Luanda

Max:

Min:

Página Inicial » Notícias » Entrevistas

28 Fevereiro de 2019 | 18h10 - Actualizado em 01 Março de 2019 | 04h07

"É tempo de viver na diversidade"

Luanda - O músico angolano Waldemar Bastos considera que Angola atravessa momento sublime e é chegada a hora de os angolanos saberem viver na diversidade de pensamento, sem ressentimentos.

Envia por email

Para compartilhar esta notícia por email, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Corrigir

Para reportar erros nos textos das matérias publicadas, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

1 / 1

Músico Waldemar Bastos (arquivo)

Foto: Francisco Miúdo

Show do Mês com Waldemar Bastos (arq)

Foto: Henri Celso

(Por Venceslau Mateus)

Em entrevista exclusiva à ANGOP, o artista radicado nos Estados Unidos da América convida os angolanos a apoiarem as medidas governativas do Presidente da República, João Lourenço, e diz-se satisfeito com a forma como vem sendo reconhecido nos últimos tempos.

Durante a conversa, Waldemar Bastos expressa o desejo de conhecer a sua terra natal, o Zaire, e fala, sem rodeios, dos momentos amargos por que passou antes de ir para o "exílio".

Eis a íntegra:

ANGOP - Em 2018, foi distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de música. O que isso significou para si?

Waldemar Bastos (WB) - Receber um prémio na minha terra, principalmente o maior galardão atribuído anualmente pelo Estado angolano a individualidades culturais, é bastante gratificante. Significa que os responsáveis angolanos perceberam, definitivamente, que tenho dado o melhor para a internacionalização da cultura angolana, através da música. É um prémio de mérito pelo que faço.

A atribuição do prémio, pela minha música, diz-me que estamos a viver um tempo novo, de união e irmandade.  Para mim, este prémio é a primeira reparação dos danos causados à minha imagem e à minha família, que muito sofreu com o que aconteceu. A minha família e eu fomos muito prejudicados, a todos os níveis, até chegar ao ponto de me sentir um forasteiro dentro do meu próprio país.

ANGOP - Está há muitos anos fora de Angola. O que o levou a emigrar?

WB – Houve uma acção muito negativa contra a minha pessoa. Inventaram muita coisa, possivelmente devido à minha música. Foi movida uma campanha muito silenciosa, eficaz  e com muito maquiavelismo. Foi terrível, mau e tremendo. Espero que seja um tempo do passado. Eu considero passado, um passado do qual tirei lições.

ANGOP - Esta mágoa de que fala já faz parte do passado?

WB – É uma situação que está definitivamente ultrapassada e atenuada. Sou cristão, sou um homem de perdão, mas é muito importante que a reparação seja feita. Foram feitas coisas, acusações e destruídos sonhos, muitos sonhos.

Devido à malvadez e insensatez de determinadas pessoas, até sem a casa fiquei. Tiraram-me tudo, deixaram-me de rastos. Quando recebi o convite da Nova Energia para actuar no “Show do Mês”, em Dezembro de 2018, nem sabia onde ficar.

ANGOP - Sendo que estas mágoas já dizem respeito ao passado, que apreciação faz do actual momento político no/do país?

WB - É um momento sublime. Todos os angolanos, há muito, ansiavam por mudanças. Felizmente, o país tem um novo comandante que, em pouco tempo, está a dar mostras de que está apostado em romper com um passado nada famoso. Face a isto, quero convidar todos os angolanos, cada um na sua esfera, a darem o seu contributo para a caminhada deste comboio. Não podemos e não devemos ficar de braços cruzados. Temos a obrigação de andar de mãos dadas com o Presidente João Lourenço, para que se possam atingir os objectivos traçados pelo novo Executivo.

Cada um deve perceber que é o momento de reerguer esta Nação, de reerguer a Pátria angolana, alicerçada nos valores da angolanidade, da fraternidade e de vivermos num clima de união e irmandade, respeitando a Lei. É tempo de vivermos na diversidade, porque a diversidade de pensamento também é muito enriquecedora.

ANGOP - É um dos que sempre se batem, por meio da música, pelo bem-estar dos angolanos. Como avalia o actual momento desta arte no país?

WB – Acredito que, a partir do momento em que se começa a promover o resgate de valores, a música angolana vai ganhar, dentro dos próximos tempos, uma evolução qualitativa. Quando há libertação da alma de um povo, quando há o resgate de valores, a tendência é mudar, é fazer melhor. É muito natural que evolua ainda mais, porque os artistas começam a pensar realmente no ADN dos alicerces da angolanidade. Acredito em dias melhores no mundo da música angolana.

Temos muitos jovens com talento, que têm dado o melhor para o engrandecimento da música angolana e para a valorização, preservação e divulgação desta arte. Temos artistas da nova e velha gerações, que estão a dar tudo para a internacionalização da cultura angolana. Acredito que, apesar de ser um processo longo e de exigir trabalho aturado e árduo, vamos conseguir atingir os objectivos preconizados.

ANGOP - Como define a música angolana?

WB – A música angolana pode ser definida como um jardim com várias flores. Há quem goste de rosas brancas, vermelhas e amarelas. A música angolana é uma miscelânea de vários tons de musicalidade, várias correntes e estilos.

Pode ter diferentes abordagens, mas uma que é fundamental: aquela que se alicerça no ADN da multiculturalidade de Angola. A riqueza da música angolana está na sua diversidade cultural.

Costumo usar uma figura de estilo para definir a música angolana, segundo a qual “no rio Kwanza ainda há muito para se descobrir”. É preciso mergulhar, em profundidade, para descobrirmos que ainda temos muito para dar. Por exemplo, nalguns fóruns, nos Estados Unidos da América, diz-se que o jazz veio de M'banza Kongo. Devemos ter uma música com identidade e evitar que ela seja uma cópia.

ANGOP - Não é apenas um artista angolano, na medida em que ganhou uma projecção que o leva a ser considerado um artista mundial...

WB – Agradeço muito a Deus pelo dom. Sou músico desde criança. Ao longo dos anos, percebi que tinha uma missão. A minha música espalha fraternidade, faz ponte entre os mundos. Já trabalhei no Japão, no Brasil, na Turquia, nos EUA e em Portugal. Faço pontes com artistas de outras nacionalidades. A minha música cria pontes entre culturas, civilizações e  espalha a identidade angolana. É um privilégio e agradeço ao dom e ao talento que Deus me deu. O que faço é, simplesmente, partilhar o talento com o mundo. Convivo com a fama, mas a fama não me domina. Não sou apologista da vaidade. Acima de tudo, sempre quis e consegui ser um indivíduo normal. A minha função é abraçar as pessoas e, sobretudo, os valores espirituais, morais, éticos e estéticos.

ANGOP - Além de intérprete e compositor, é guitarrista. Onde começa uma e acaba outra e qual das três vertentes é a mais saliente na sua carreira?

WB - As pessoas estão a ficar muito admiradas porque não conheciam este meu lado de guitarrista. Mas, a primeira manifestação que tive na música foi ser solista e depois passei para o lado da composição: tocar violão, intérprete. Em bloco, umas vezes um aparece mais destacado, outras vezes a composição. Dou valor a todas as vertentes do meu dom. Preocupo-me muito com uma dimensão da música de África, que é as guitarras cantarem. Em África, em M'banza Kongo, em particular, as guitarras não tocam, cantam. É um lado sublime. Às vezes, complemento o meu canto de voz com o canto da guitarra.

ANGOP - Lança, em média, uma obra discográfica de seis em seis anos. Por que razão este espaço de tempo tão longo?

WB - Nunca gostei de dar às pessoas produtos vagos só para aparecer. Estou na música por amor, não por comércio. A ideia é produzir música que seja consumida durante muito tempo, que as pessoas possam ouvir e ouvir sem descartá-las rapidamente, sem se cansarem delas! Procuro produzir uma música que possa renovar-se. Como se trata de arte, tem o condão de se renovar. Trata-se de um tempo de maturação.

ANGOP - Quem são as suas grandes influências?

WB - Desde criança, sempre ouvi muita música da região Bakongo, música dos dois Congos. Fui buscar também alguma inspiração à música dos “Jacksons Five” e da música sacra. Por ter tocado em bares durante muitos anos, acabei por ter uma universidade vasta, porque tocávamos todos os ritmos.

ANGOP - Do seu repertório, que música mais lhe chamou atenção ao longo da carreira?

WB - Todas as minhas músicas são queridas, foram produzidas com todo o carinho, mas o destaque recai para “Velha Chica”. Trata-se de uma música que deixou de ser pertença de Waldemar Bastos, é uma música que todos os angolanos sentem e vivem, que transcendeu no mercado internacional. É o carimbo do baú de Waldemar Bastos.

ANGOP - Onde se enquadra a família no dia-a-dia de Waldemar Bastos? 

WB - A minha família é a minha preocupação número um e tem sido sempre assim, uma vez que também sentiram na pele o calvário pelo qual passei. Os meus filhos e a minha mulher, que são angolanos, porque nasceram em Angola, sentiram-se rejeitados pelos seus compatriotas. Foi praticado um mal que não só me atingiu. Um dos meus sonhos é ver a minha família viver com dignidade no nosso país.

ANGOP - Como vive actualmente?

WB - Vivo só da minha música. Felizmente, consigo tirar rendimentos necessários para viver só da música. Há uns anos, no princípio da fuga do país, ensaiámos um negócio:  um restaurante que só servia comida angolana, em Portugal. Teve um tempo de vida de sete anos. Depois disto e do sucesso alcançado musicalmente, passámos a viver apenas com os dividendos da minha música.

ANGOP - O que representa, para si, o mecenato.

WB - O mecenato é muito importante, pois é necessário que a arte e a cultura sejam incentivadas, por serem um dos caminhos que levam um povo à evolução e a posicionar-se perante as demais nações. O mecenato vai contribuir para que os mecenas possam investir na cultura, por meio de benefícios fiscais. Leva as empresas, as instituições e os empresários a participarem no processo de valorização, promoção e preservação da cultura.

ANGOP - Mesmo vivendo fora do país, continua a cantar o dia-a-dia angolano?

WB – Não me pergunte quando volto, porque nunca saí de Angola. Fisicamente saí, mas espiritualmente não. Estive sempre na alma dos angolanos. O que canto é fruto das pesquisas e do trabalho de investigação que faço sobre o “modus vivendi” dos angolanos.

ANGOP - Que músico mais admira no mercado angolano?

WB - Espero não magoar ninguém, mas, sem sombra para dúvidas, é Teta Lando, dado que é uma referência no mercado musical angolano e um artista que cantou coisas muito profundas sobre Angola.

ANGOP - Em 1999, o jornal norte-americano “New York Times” considerou o seu disco “Black Light” uma das melhores obras da época. Que significado teve?

WB - Um grande incentivo que serviu para descolar musicalmente. Durante muitos anos, estive a patinar em Portugal, e, quando aparece o David Byrne, ex-Talking Heads, e me leva para os EUA, a minha vida musical muda radicalmente. Este reconhecimento é muito importante, visto que levou o meu nome a outros patamares. Aumentou a curiosidade do espectáculo “Bizz Musical” e abriu portas para vender a “minha pitanga”.

ANGOP - Mudando o foco, nasceu na capital da província do Zaire, cidade de M'banza Kongo. Quando lá esteve a ultima vez?

WB – Saí de M'banza Kongo em tenra idade, portanto não conheço a terra onde nasci. É uma situação que quero corrigir o mais rápido possível, neste meu regresso. Em termos espirituais, tenho de beijar o solo da minha terra.

Poucos sabem, mas, durante a minha carreira, sempre toquei uma guitarra de Mbanza Kongo. É um legado que me foi passado espiritualmente.

ANGOP - O que veio à sua alma quando soube que M'banza Kongo tinha entrado na lista restrita da UNESCO como Património Mundial?

WB - Uma enorme explosão de satisfação. Merecidamente. M'banza Kongo é uma terra mística. Tenho muito orgulho de ser desta capital e, nesta fase, estou disponível para ajudar. Tenho a certeza de que, muito brevemente, serei chamado para dar a minha contribuição ao processo de afirmação desta cidade.

ANGOP - Quem é Waldemar Bastos fora dos palcos?

WB – É uma pessoa normalíssima, ligada à dimensão espiritual, que gosta de ler e de apreciar a natureza.

Por dentro

Waldemar dos Santos Alonso de Almeida Bastos, conhecido como Waldemar Bastos, nasceu em M'Banza Kongo, capital da província do Zaire, a 4 de Janeiro de 1954.

É um músico e compositor que combina o afro-pop, fado e influências brasileiras.

Começou por cantar com uma idade muito precoce, utilizando instrumentos do seu pai. Após a independência, em 1975, emigrou para Portugal.

Waldemar Bastos considera a sua música reflexo da própria vida. Os seus temas fazem apelo à fraternidade universal. Ao longo dos mais de 40 anos de carreira, foi distinguido com um Diploma de Membro Fundador da União dos Artistas e Compositores (UNAC-SA) e com Prémio Award, em 1999, pela World Music.

O jornal “New York Times” considerou, em 1999, o seu disco “Black Light” uma das melhores obras da época.

Discografia

1983: Estamos Juntos (EMI Records Ltd)

989: Angola Minha Namorada (EMI Portugal)

1992: Pitanga Madura (EMI Portugal)

1997: Pretaluz [blacklight] (Luaka Bop)

2004: Renascence (World Connection)

2008: Love Is Blindness (2008)

2012: Classics of my soul (2012)

Assuntos Angola   Angop   Música  

Leia também
  • 22/02/2019 20:45:29

    "Estamos a vencer a batalha contra corrupção"

    Luanda - A directora nacional de prevenção e combate à corrupção, Inocência Pinto, declarou, em Luanda, que o órgão tem sabido liderar o processo de investigação de crimes económicos e financeiros, sublinhando que estão a vencer a batalha contra este mal.

  • 16/02/2019 21:58:46

    "Temos de humanizar os cuidados de saúde"

    Luanda - A ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, reconhece que o país ainda tem longo caminho pela frente, em termos de humanização dos cuidados de saúde, mas assegura aos angolanos que, a partir deste ano, o sector conhecerá melhorias na prevenção e no tratamento de doenças.

  • 17/01/2019 18:51:38

    Angola: Construções ilegais na orla marítima poderão ser derrubadas - João Baptista

    Luanda - As autoridades angolanas estão apostadas em acabar com a anarquia na orla marítima e inviabilizar, através da "Operação Mar Seguro", construções definitivas, circulação de embarcações em mau estado técnico e poluição nas praias do país.