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25 Outubro de 2019 | 16h37 - Actualizado em 25 Outubro de 2019 | 16h36

Sem ajuda seríamos vítimas mortais da seca

Luanda - À semelhança do Cuando Cubango, Huíla, Benguela e Namibe, a província do Cunene vive uma severa seca, desde Outubro de 2018, que já afectou, directamente, mais de 800 mil pessoas e acima de um milhão de cabeças de gado.

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Britadeira para a construção de barragens no Cunen

Foto: TARCISIO VILELA

Ajuda alimentar para o Cunene

Foto: JOSÉ CACHIVA

 (Por Moisés da Silva e Luísa Dani)

Trata-se da mais devastadora seca dos últimos 25 anos nessa localidade do Sul de Angola, com repercussões em sectores da vida produtiva e económica local.

Para falar sobre o impacto desse fenómeno e sobre os apoios conseguidos, o vice-governador para os Serviços Técnicos e Infra-Estruturas do Cunene, Édio Gentil José, concedeu uma entrevista à ANGOP, em que ressalta a pronta resposta do Governo e da sociedade civil.

Angop - Senhor vice-governador, concluído praticamente um ciclo de seca absoluta iniciada em Outubro de 2018, que quadro nos pode apresentar sobre o fenómeno na província do Cunene?

EGJ - O quadro da seca está a conhecer dias melhores. Por esta altura, estamos com uma cifra acima de 800 mil pessoas e mais de um milhão e 100 cabeças de gado bovino afectadas. Mas, devido à aprovação de um “programa de emergência”, decretado pelo Presidente da República, temos alguns apoios do Governo Central, que estão a permitir mitigar esses efeitos da seca. O quadro deste programa resume-se na adjudicação de uma verba de 3.9 mil milhões de kwanzas, que serviu para a aquisição de reservatórios, camiões-cisterna e recuperação de furos de água, que ajudaram a diminuir a vulnerabilidade de uma parte das pessoas. Consideramos que, numa primeira fase, estes valores serviram os meses de Maio, Junho à data presente.

Também sabemos que, do ponto de vista ambiental, vamos enfrentar desafios maiores, se considerarmos que, nos meses de Outubro e Novembro, as temperaturas serão mais elevadas. Portanto, as populações ainda vão enfrentar desafios maiores no concernente ao clima e ao ambiente. Mas até agora, não temos registos de perdas humanas.

Angop – E, neste momento, entre os municípios, qual o mais e o menos afectado?

EGJ – Os municípios mais afectados são os distantes dos centros urbanos, principalmente o do Curoca, que dista 300 quilómetros da cidade de Ondjiva, em seguida, se olharmos para o agregado populacional, o do Cuanhama (com um total de 451 mil pessoas), e depois o do Ombandjia. O menos afectado é o do Cuvelai, porque tem influência do clima da Huíla e do Cuando Cubango.

Angop – Para além das famílias e do gado assolados, que outros prejuízos foram provocados pela seca?

EGJ – A questão da seca torna-se transversal e afecta, directamente, o sector social. A título de exemplo, há absentismo nas escolas, sobretudo nas do ensino primário. Temos, principalmente no município do Curoca, quatro escolas completamente sem alunos, uma vez que as famílias se movimentaram para salvar os seus animais e os menores as seguiram. Temos um total de 413 escolas directamente afectadas, e o nível de absentismo anda à volta de 30 por cento. O número de crianças que vai à escola hoje é reduzido, devido aos efeitos da fome e da pastorícia. Neste quesito, importa dizer que vamos conhecer doenças do foro hídrico, como a má nutrição e diarreias, associadas à falta de higiene. Isso vai fazer que as famílias conheçam outras patologias, por falta de água.

Angop – Qual é o grau de implementação dos programas emergentes aprovados pelos governos central e provincial, para salvaguardar as vidas?

EGJ - Nesta altura, temos, no âmbito do programa de emergência, adjudicados 3.9 mil milhões de kwanzas, completamente esgotados. Serviram, fundamentalmente, para a primeira fase de emergência, permitindo a aquisição de 450 reservatórios de cinco e 10 metros cúbicos; de 30 camiões, dos quais 26 cisternas e quatro de carga sólida; e da recuperação de 171 pequenos sistemas de captação de água (….). Precisamos de passar para uma segunda fase (…). Já fizemos uma solicitação ao Executivo, no sentido de reforçar as verbas para as outras necessidades que, certamente, vamos enfrentar durante os meses que se avizinham (Novembro e Dezembro), os mais desafiantes do ponto de vista do combate à fome e à seca a nível da região.

Angop - Como foram distribuídos e quais são os pontos estratégicos em que foram colocados os reservatórios a que se refere?

EGJ - O critério de distribuição de reservatório passou pela intensidade populacional. Numa primeira fase, identificaram-se as povoações com maior aglomerado populacional, distribuindo-se pelos seis municípios e 20 comunas da província com o apoio dos camiões-cisterna.

Angop – Por é que só agora estão a ser reabilitados os furos de água, sabendo-se que o Cunene já se debate com a seca há muito.

EGJ - Só agora estão a ser reabilitados os furos de água porque, a 22 de Fevereiro deste ano, o Presidente da Republica, através de um despacho, declarou estado de calamidade, mobilizando todas as instituições do Governo a prestar atenção especial a esta situação. Por outro lado, foi pelo facto de 2019 receber uma seca que não se compara às dos anos anteriores. Estamos a falar da seca mais agressiva dos últimos 25 anos no Cunene, razão pela qual se está a prestar maior atenção, mas o Executivo tem outras acções, quer dentro do Ministério da Energia e Águas quer dentro das administrações municipais, a fim de se mitigarem, de uma forma mais sustentável, os seus efeitos na vida das populações.

Angop - A distribuição de um camião-cisterna por cada uma das 20 comunas da província também fazia parte das acções do “plano de emergência”. Essa intenção chegou a ser materializada?

EGJ - Os camiões não vieram todos ao mesmo tempo, foram chegando de acordo com a capacidade dos prestadores de serviço, e, em virtude dessa disponibilidade, foi-se distribuindo para onde havia mais carência. Na primeira fase, recebemos 10 de marca Iveco, e o Chefe de Estado, quando esteve cá, entregou duas cisternas para a comuna de Ombala-Yo-Mungo. Posteriormente foram distribuídos para as outras comunas. Na segunda, chegaram mais sete e, recentemente, outros nove e agora estão a chegar os tractores.

Angop – Com isso, ainda existe algum município que não beneficiou de um camião?

EGJ – A distribuição foi feita dado o número de comunas. Estamos hoje com a cobertura das 20 comunas. A maior parte delas já tem camiões, excepto algumas do município do Cuvelai, como já me referi, e uma no município do Ombadjia.

Creio que seja a comuna do Humbe que ainda não tem. Mas um camião-cisterna por cada comuna não é suficiente, se olharmos para a realidade delas. Temos aqui comunas muito extensas que têm dimensões de pequenos países na Europa. Um camião-cisterna com 20 metros cúbicos ou 10 mil litros de água para distribuir não é factível. Vai deixar água, mas de forma periódica. Se deixar agora, talvez só daqui a três dias volte para este ponto, pois há muitas áreas para atender, e muito distantes. Um aspecto que deve ser referenciado aqui é o “modus vivendi” da nossa comunidade. Por causa da prática da pecuária, é muito isolado. O meu vizinho fica a 10 ou 15 quilómetros da minha casa. Então, levar a água para as pessoas que estão concentradas num único ponto acaba por ser mais fácil e mais barato do que levar às que estão isoladas. Gasta-se mais tempo, mais combustível, e os acessos não são fáceis. É preciso compreender-se esses aspectos.

Angop – Neste caso, precisar-se-iam quantos camiões-cisternas para atender à demanda?

EGJ - A solução não passa por camiões-cisternas. Temos de os compreender como algo de emergência. Passa por fazer as pessoas ficarem próximas dos pontos de distribuição de água, porque os camiões aqui funcionam como uma extensão desses sistemas. Não é uma situação sustentável.

Angop – E como é controlada a distribuição de água?

EGJ – Nós, em parceria com o Unicef, procurámos instalar uma espécie de geo-refereciamento destes meios, uma espécie de GPS que nos permite controlar a frota, em que ponto se está a distribuir a água e com que regularidade. E vamos percebendo que algumas dificuldades existem. Por exemplo, o ponto onde os camiões fazem o enchimento está, às vezes, muito distante de onde vai fazer a distribuição. Da girafa ao ponto de distribuição, há circunstâncias em que se consomem 200 quilómetros, e esse percurso de ida e volva só permite cada camião fazer duas viagens por dia.

Angop – Mas há alguns habitantes neste troço Humbe/Chiúlo que se queixam de nunca ter recebido água nem reservatórios, confirma?

EGJ - Penso que a palavra nunca é um bocado excessiva. A verdade é que, no caso da comuna do Humbe, a administração não recebeu camião, como acabei de me referir. Mas há uma combinação de esforços. Dos cinco que o município devia ter, permitiria passar, talvez, por todos os cantos. E aqui não podemos falar… a comuna! Se calhar, algumas povoações dessas comunas não receberam água. Mas há um plano de distribuição que deve ser observado, e as administrações municipais e comunais estão orientadas a, ali onde houver mais carência e mais pessoas concentradas, fazer chegar água.

Angop – A propósito da construção das barragens, o concurso público para o efeito realizou-se de 3 de Abril a 3 de Maio. Quais as empresas vencedoras e quando é que começam os trabalhos?

EGJ – No dia 3 de Abril, houve a publicação dos valores disponíveis, e, em Maio, a abertura dos concursos. O Chefe de Estado esteve no Cunene, nos dias 3 e 4, e 41 empresas concorreram para a execução destas importantes obras estruturantes. De lá para cá, o Ministério tem estado a trabalhar na avaliação técnica das propostas apresentadas, que visam fundamentalmente avaliar o valor orçamental das propostas e do seu cronograma de execução. Temos informações de que, no mês de Agosto, foram conhecidas as primeiras empresas às quais foram adjudicadas essas obras. Estamos a referir-nos a três lotes entregues ou consignados, numa primeira fase, às empresas Sinohidro, GHCB e CRBC e ao consórcio Omatapalo /Mote Gil. Essas instituições estão à espera da celebração dos contratos e do lançamento da primeira pedra, que pensamos vir a ocorrer, o mais tardar, neste mês. O sector também está a trabalhar na selecção das empresas de fiscalização, que é uma importante componente para aferir as obrigações contratuais que o dono da obra vai impor nos cadernos de encargo aos empreiteiros e, depois, velar pela qualidade, o respeito dos prazos.

Angop - Qual é o valor orçado?

EGJ - O valor inicial definido pelo Presidente da República como um “down payment” (valor contratual) são 200 milhões de dólares. Contudo, acreditamos que deve estar muito acima disso. Não estamos com dados precisos, porque cada empresa tem um orçamento, e o somatório destes orçamentos é que perfaz o orçamento geral desta obra. Estou seguro de que esta verba não está nem na metade do que vai ser gasto para esta importante obra.

Angop – Disse que as empresas seleccionadas estão à espera da celebração dos contratos e do lançamento da primeira pedra para o arranque dos trabalhos, mas pudemos constatar que, pelo menos no Cuvelai, já estão montados um estaleiro e uma britadeira, além de o perímetro visado estar a ser desbravado…

EGJ – Sim. As empresas são essas que acabei de referir e algumas começaram a mobilizar-se, já que há um cronograma rigoroso a ser obedecido. Haverá muita mobilidade pela envergadura dessas obras, e nós tomámos boa nota e achámos positivo, uma vez que isso vai fazer que os trabalhos cumpram com o tempo definido contratualmente, entre dois a três anos. Mas até lá, o que for feito para beneficiar a população deverá ser apoiado e enaltecido.

Angop - O que deverá fazer, especificamente, cada uma dessas empresas aos lotes a si atribuídos?

EGJ - O trabalho é para o caso do transvaze - o desvio de caudal do rio Cunene, como o próprio nome diz, a fim de se criar um grande armazenamento de água com a fonte deste e, a partir deste grande armazenamento de água, fazer-se um percurso com canais nas áreas onde há mais carência, que é a região de Ombala-Yo-Mungo e do Chiedi. Para outras situações, deve-se aproveitar a bacia hidrográfica do Cuvelai, que tem rios intermitentes muito importantes e fazer-se uma grande albufeira, bem como barrar a água em grandes quantidades de metros cúbicos e depois de ela estar concentrada, a partir dos canais, fazê-la chegar a áreas onde há dificuldades. Isso vai fazer também que, no caso do Cuvelai, haja algum reperfilamento dessas águas, pois são dispersas. Durante um período, são superficiais, mas depois são subterrâneas e voltam a abrir um curso que, no período das cheias, é muito difícil de se gerir.

Angop – E, neste particular, quais os projectos de vulto do Governo Provincial do Cunene?

EGJ - Dos 3.9 mil milhões de kwanzas alocados à província, o Governo da Província do Cunene não fez a aquisição de bens alimentares. Tivemos instituições públicas e governos províncias que juntaram o pouco que tinham e fizeram, nestes primeiros quatro a cinco meses em que estamos afectados pela seca, que as famílias tivessem alguma coisa para pôr na mesa.

O Governo Central já começou a dar respostas. Chegaram da Protecção Civil, como órgão nacional, 250 toneladas de bens que estão a ser distribuídas, designadamente arroz, feijão, milho, óleo, sabão, fardo, água mineral, entre outras coisas. Neste momento, estamos perto de duas mil toneladas já distribuídas.

Angop - Se não houvesse mobilização da sociedade civil em termos de apoios com bens alimentares, ocorreriam mortes humanas?

EGJ- Acreditamos que sim. Se não houvesse essa mobilização do Governo e da sociedade civil, teríamos mortes e outras situações muito complicadas de se gerir, já que as famílias estão muito vulneráveis. E sem essas assistências, podiam conhecer contornos muito difíceis, de modo que o Governo tem esse dever e obrigação de agradecer a todas as pessoas, a todas as forças vivas que contribuíram para minimizar os efeitos severos que essa seca tem estado a causar no seio das famílias.

Angop - A quantidade de apoios que a província recebeu até agora já vai ao encontro da meta estabelecida pelo Governo?

EGJR- Não, porque, em termos de seca e abastecimento de água, temos noção de que precisamos de mais meios no terreno. Precisamos de mais furos operantes, mais chimpacas abertas. Em termos de bens alimentares, tínhamos um plano de cerca de 17 mil toneladas por mês e ainda estamos muito longe dos números fornecidos até ao momento. É preciso que haja mais disponibilidade, e devemos precaver-nos, visto que estamos a entrar na fase derradeira. Depois vamos entrar na quadra festiva, e as famílias precisam de ter alguma reserva para poder atravessar esse período de carência.

Angop - Já houve algum país da África Austral solidário com essa seca?

EGJ- Já. Temos tido muitas ajudas. Hoje, temos de fazer uma grande lista, sob pena de ofender países, instituições e pessoas singulares que fizeram essas doações. Mas temos um conjunto de países da África Austral que, nalgumas reuniões da SADC, põem esse assunto sobre a mesa e, talvez a seu nível, vão fazer uma contribuição.

Angop - Dado o agudizar da seca no Cunene, pessoas vandalizaram respiratórios da conduta de água, no troço Xangongo/Ondjiva. Como olha para esta questão?

EGJ - Realmente é uma questão pertinente, e gostaria de fazer um histórico sobre esta importante obra. Há mais de duas décadas que Governo tem estado a aproveitar a água do rio Cunene, para fazer chegar onde houver mais pessoas concentradas. Portanto, esta conduta tira água do Xangongo para Ondjiva, num troço de 97 quilómetros. Depois há uma extensão que vai até Anhanga, mais 30 quilómetros; uma outra que vai até Namacunde (mais 40 quilómetros); outra extensão que vai até Oihole e ainda do outro lado há uma extensão que vai a Humbe. Estamos a falar de um número aproximado de 170 quilómetros de conduta de água.

Do ponto de vista orçamental, o Governo, por via do Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), fez um investimento que ronda os 220 milhões de dólares, para que tivéssemos esse sistema em funcionamento. Esse sistema está a ser usado desde 2014, e há um impacto considerado na vida das famílias, sobretudo na cidade de Ondjiva, onde há maior número de pessoas aglomeradas. Hoje, podemos ter água nas torneiras e nos chuveiros, graças a este investimento.

É verdade que não devemos só olhar para a cidade de Ondjiva. Ao longo dessa conduta, estão as comunidades do meio rural. É assim que, na concessão desse projecto, foram construídos 37 pequenos sistemas de captação de água. Só neste troço Xangongo/Ondjiva estão 19 pequenos desses sistemas, e depois há seis até Anhanga, outros seis até Namacunde, e também outros que estão na linha do Oihole. A verdade é que, destes 37 sistemas, 28 encontram-se inoperantes, só nove estão operacionais, devido a actos de vandalismos. No meio entre Xangongo e Ondjiva, estes pequenos sistemas foram colocados num intervalo de sete em sete quilómetros e, se hoje passarmos por lá, se não é a bomba que foi roubada, é o painel ou a vedação, é a torneira ou maciço que foi levado. É uma questão, às vezes, de manutenção. Aqui apelamos à comunidade para ter um sentimento de pertença por estes bens que o Governo coloca à disposição dela, dado que o seu estado inoperante também influencia a vandalização da conduta. Temos casos de um total de 27 ventosas, ao longo desta conduta, completamente destruídas. Temos a fibra óptica que está constantemente a ser cortada, além de roturas. São despesas acrescidas, já que a empresa de Água e Saneamento do Cunene tem que estar a repor. É verdade que o Executivo deve criar condições para, ao longo desta conduta, haver mais ramais, derivações para mais distribuição de água. 

Angop – Há algum programa do Governo Provincial para a recuperação destes 28 pequenos furos de capacitação que se encontram neste percurso?

EGJ – Sim, no âmbito do programa de emergência, muitos deles estão alistados para serem recuperados. Neste momento, no âmbito da recuperação dos furos, estamos a trabalhar em 120, dos 171. 107 já estão a jorrar água, ou seja, foram feitas limpezas e ensaios de caudal e instaladas bombas artesianas (….). 26 furos começaram a ser reinaugurados e entregues à população. Estes últimos a que acabou de se referir estão no âmbito desta grande recuperação que o Governo tem feito, visto que se encontram em áreas de concentração pessoal.

Angop – Quando começa, efectivamente, o desassoreamento das chimpacas (reservatórios de água a céu aberto) e a abertura de novas?

EGJ - Temos um total de 190 espalhadas ao longo da província, das quais 54 estão inoperantes. Na segunda fase do programa de emergência, há necessidade do desassoreamento, de limpeza e construção de novas chimpacas. Felizmente, o Executivo, através do Ministério da Agricultura e Florestas, disponibilizou tractores, retroescavadora, pás niveladoras e camiões basculantes que vão ajudar no desassoreamento e na abertura de novas. Elas foram sempre um meio de retenção de água para o abeberamento do gado. Então, ao lado delas, vamos meter pequenos sistemas de tratamento de água, para haver uma clara separação, para o gado e para as pessoas. O Cunene tem a vantagem, sobretudo na parte Leste, de ter a Bacia do Cuvelai, de ter muita água subterrânea e corredores tradicionais que permitem a sua contenção nesses reservatórios naturais até à próxima estação chuvosa.

Angop - Aquando da sua visita, em Maio, ao Ombala Yu Mungo, em Ombadja, o Presidente da Republica prometeu reforçar a ajuda financeira à província. Estas verbas foram já disponibilizadas?

EGJ – O que podemos informar é que o Presidente fez, de uma forma muito pertinente, a entrega dos 3.9 mil milhões de kwanzas, como já nos referimos. Numa segunda fase, haverá um reforço. E ele disse que vamos conhecer desafios maiores. A nível do Governo da província, também estamos a fazer diligências, no sentido de haver um reforço financeiro para o programa da seca, que envolve a manutenção de todo esse sistema que está a ser implementado, a abertura de mais furos de água e a aquisição de mais camiões. João Lourenço está informado e sensível a esta situação. Não é por acaso que esteve cá. Acreditamos que haverá resposta do Executivo Central em curto espaço de tempo.

Angop - Os criadores de gado, a nível da província, já chegaram ao desespero, estando muito destes a abater o próprio gado, sobretudo o desfalecido. O que isso representa para o senhor e para a província?

EGJ – (…) Temos de olhar aqui para o gado como um factor nuclear da vida dessas pessoas. No meio urbano, olhamos o gado como carne para o talho. Mas, no meio rural, o gado é o leite, uma importante faceta da dieta alimentar; é a atracão animal que permite a prática da agricultura de subsistência; é o estrume; é um símbolo de honra e de prestígio destas famílias; é a moeda para os momentos como as festas do Efiko (festa da puberdade), do nascimento de crianças, de casamentos, e também usado para os momentos mais tristes, nos óbitos. Por conseguinte, é o banco desta população, e, por isso, existe uma grande resistência cultural desta população em vender o gado. Neste momento, há esse desespero, já que os dias estão cada vez mais longos para estas famílias e, além disso, os desafios são maiores. Temos pessoas que têm estado a assistir mais de 90 por cento do seu património e capital que é gado morto. E, naturalmente, entram em desespero, pois, do ponto de vista económico, ficam desfalcados. Isso acarreta problemas sociais e da própria segurança destas famílias. É preciso também destacar um importante exercício que o Ministério da Agricultura está a desenvolver, que tem a ver com a compra (e o ministro da Agricultura esteve aqui recentemente) deste gado à população.

Ao invés de a população ver o gado desfalecer, pode, eventualmente, vender ao Ministério e esse fazer uma engorda e dar outro destino, e as pessoas terem pelo menos dinheiro para reforçar os currais em épocas mais chuvosas ou mais estáveis. Assistimos a essa frustração com alguma preocupação. Por exemplo, para quem tem 400 cabeças e vê-se no dia de hoje com 30 ou 40, é um desespero muito grande.  

Angop – Devido ao agudizar da seca, os óbitos também deixaram de obedecer aos habituais rituais, na medida em que os falecidos estão a ser enterrados no mesmo dia e sem “honras”?

EGJ – Sim, isso são aspectos que, do ponto de vista cultural, beliscam profundamente a dignidade dessas famílias. Quer dizer que um efiko, sem o abate de uma cabeça, para uma família, é desprestigiante, da mesma forma que é o funeral. A festa de despedida de um ente querido, sem sacrificar um animal, é desprestigiante. É só para nós vermos o nível de vulnerabilidade que as pessoas estão a atravessar. Isso do ponto de vista cultural. Do ponto de vista humanitário, são pessoas que estão a pedir algo para meter na mesa para comer (claro que não vão ter condições de matar uma cabeça para situações de festas ou de tristezas. Já não têm). São pessoas não assalariadas que dependem disso para viver. E com estas mortes consecutivas, com essas movimentações para zonas de transumância, não têm o que colocar na mesa, muito menos para celebrar.

Angop - O gado está a emigrar em transumância para outras províncias e para a Namíbia. Que implicância tem na economia do Cunene?

EGJ - Temos de dizer que é o contrário. O gado da Namíbia é que está a vir para aqui, porque, se nós visitarmos o Chimolo e o Ondova, vamos perceber que uma grande parte destes animais provém deste país vizinho que tem problemas muito severos, se calhar até mais agudos do que os nossos, como, por exemplo, a questão da seca, sobretudo o Norte da Namíbia, por causa do deserto do Kalahari. Temos, sim, uma grande parte do nosso efectivo bovino na província da Huíla, sobretudo na área do Mulondo, que é um dos principais corredores de transumância, onde temos um total de 64 mil cabeças até ao momento. E observam-se, todos os dias, pastos a diminuir, poços de água a escassearem e há esse movimento contínuo para as outras áreas. Do ponto de vista de constrangimentos, ficamos fora da nossa área de conforto; temos de nos submeter a outras realidades e isso faz que as famílias reduzam nos meios rurais. Casas que eram de 16 pessoas passaram a ser apenas de cinco. E só ficam aquelas que têm mesmo de cuidar da residência, a exemplo das senhoras que dificilmente vão para a transumância; as crianças com menos de cinco anos que não têm capacidade de se movimentar; os idosos que têm de cuidar também dos outros animais domésticos que ficam. E isso traz muitos constrangimentos.

Angop - E como fica a dieta alimentar das famílias neste quesito?

EGJ- A dieta alimentar é essa que o Governo vai tentando, a seu nível, fazer chegar às pessoas mais vulneráveis. Fica muito sofrida, pois visitámos as casas e os celeiros que estão vazios. Sabe-se que o Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA) considerou esse ano improdutivo. É só nós estarmos no meio rural para perceber que as lavras e o celeiro nada têm. Muitas das populações no meio rural estão a alimentar-se de frutos silvestres, de uma caça quase inexistente. Então, tudo escasseia e torna-se mais difícil. E há até aspectos da vida doméstica que são beliscados. Existem pais que deixam as suas casas por seis meses e só regressam em caso de chuva ou crescimento de capim nas suas zonas de conforto. Por conseguinte, isso tem muitas implicações directas na vida das famílias, em geral, e das pessoas, em particular. Só o município do Cuvelai e um pouco do Norte da Cahama é que têm algum pasto. E o desafio é colocar pontos de água onde tiver pasto.

Angop - Havia um projecto de distribuição de feno e de sal mineral. Como anda o processo?

EGJ- Esse projecto estava a ser desenvolvido pelo Ministério da Agricultura e também um pouco no âmbito de doações de algumas empresas (…). Nesse momento já não estamos a receber nem feno nem sal. E ainda temos a questão das vacinas, nutrientes para os próprios animais e medicamentos para o gado que faz longas distâncias. Há aqui uma série de esforços que devem ser combinados para, efectivamente, atenuarmos os efeitos nefastos da seca que assola o Cunene. O gado está tão debilitado, que especialistas agrónomos não aconselham a serem vacinados, por causa de uma dose de peso que deve ser respeitada para o gado suportar aquela vacina. O que está a ser feito é colocar-se o gado em engorda para, depois de ganhar um peso aceitável, receber essa vacina!

Angop - Sendo o gado a principal riqueza dos habitantes e maior activo económico do Cunene, o que se perspectiva para a província, este ano, em termos de receitas?

EGJ- Só de gado bovino temos um efectivo que anda à volta de um milhão e 100 mil cabeças (1.100.000.00), em média. Primeiro, é preciso dizer que essa movimentação dos animais é tradicional, uma vez que, de tempo em tempo, os criadores procuram por outras áreas, porque o pasto vai escasseando aí próximo das suas zonas de concentração. Então, eles vão buscando o pasto mais distante, sobretudo aqueles que não morrerem, que depois voltam. A transumância é um movimento de ida e volta. É claro que vamos ter algumas baixas do ponto de vista do rendimento das famílias, mas acreditamos que a natureza também faz esse repovoamento. Depois vêm os períodos de chuva e de reprodução, e esse número vai-se repondo. Já tivemos outras secas, e a cifra de animais vai variando, entre mais alta e mais baixa. As taxas de mortalidade e natalidade respondem a essa questão colocada. Da mesma forma que vão morrendo, depois vão nascendo outros.

Angop – Como ficou a intenção do Ministério da Agricultura e Florestas de  comprar algumas cabeças para levar à engorda, a fim de salvar o gado mais fragilizado?

EGJ- Já há esforços. E a visita do então ministro da Agricultura e Florestas, Marcos Nhunga, demonstrou isso. O Ministério tem cerca de 300 milhões de kwanzas (300,000.000), exclusivamente para o Cunene fazer, numa primeira fase, a aquisição de duas mil cabeças de gado. E sei que já há uma selecção de animais. Os esforços estão a ser feitos para com os criadores, a fim de haver esses pagamentos. Existem algumas modalidades que precisam de ser acertadas, mas acreditamos que isso está em bom caminho, já que o organismo já tem essa verba consigo, porém, duas mil cabeças é um número muito reduzido, se se ter em conta que a província já perdeu mais de 30 mil. Logo, é necessário que haja um plano mais ambicioso de compra desses animais, visto que todos os dias os bois vão morrendo.

Angop – Existem relatos de atropelamentos e roubos de gados por ocasião da transumância?

EGJ- Sim, a esses corredores, vem gente de todas as paragens. Na Cahama, visitámos vários aglomerados de animais, num total de pelo menos 20 mil cabeças, de diferentes criadores, provenientes de várias áreas. E há sempre amigos do alheio ou oportunistas que fazem das suas.

 Angop – Mudando de assunto, o Cunene já começou a beneficiar da rubrica especial no OGE, para dar corpo aos programas de emergência de combate à seca e à fome?

EGJ - Fizemos a revisão, a análise e a aprovação do orçamento da província para o próximo ano e percebemos que está alocada no valor de 1.5 mil milhões de kwanzas. Este valor vai servir para mitigar os efeitos da seca, mas o Governo da Província já escreveu para o Ministério das Finanças, a fim de atender à solicitação que o governador local fez ao mais alto mandatário de que, sendo a situação da seca recorrente e cíclica, era necessário inserir no OGE da região, pelo menos até que as barragens estejam concluídas (num período de três anos), uma verba e/ou programa específico para o apoio às situações da seca e da fome. Fizemos um levantamento, uma proposta que, só para o sector da seca, anualmente, para um horizonte de 10 meses, seriam necessários cinco mil milhões de kwanzas, e outros cinco mil milhões para a questão da fome. Não vimos isso refletido no OGE para 2020, ficámos preocupados e fizemos diligências para o Executivo rever essas rubricas orçamentais, porque, senão, vamos ter sempre as mesmas situações os efeitos repetirem-se.

 Angop - E qual foi o feedback que recebeu?

EGJ - Sabemos que o Presidente da República tem uma agenda muito dinâmica, tem estado fora, e esses despachos obedecem a uma apreciação atenta do Chefe de Estado, e só depois é que teremos retorno.

 Angop - Mas do ponto de vista da aplicabilidade, esse dinheiro destinar-se-ia para acções paliativas ou definitivas?

EGJ- Certamente para acções mais sustentáveis, já que poderíamos tornar-nos mais resilientes e adaptados à realidade da seca, porque a nossa proximidade com o deserto do Kalahari nos dois lados (Angola e Namibe) nos diz que as alterações climáticas vão aumentar.

Angop – Que dados nos pode adiantar sobre a pretensão da construção da Estação Meteorológica autónoma, com tecnologia moderna, para monitorar em tempo real a situação climática da província?

EGJ- A Estação Meteorológica está no programa. Era preciso instalarmos um sistema de alerta rápido para vermos os níveis e outras coisas. É necessário estudar-se o clima e a meteorologia dessa região Sul do país, fazer-se um trabalho mais aturado de prospecção das águas subterrâneas, para que se facilite a  identificação dos aquíferos, lençóis freáticos e o nível de águas superficiais e subterrânea, bem como uma análise mais profunda do microclima da região.

Angop – A chuva já começou a cair no Cunene, embora timidamente. Face a isso, há alguma estratégia no sentido de contrariar as cheias que se prevêem para outros momentos?

EGJ- A estratégia é um bocado mais ambiciosa, passa por plano de contingência que deve ser articulado também com o próprio Governo Central, por causa do nível de investimento. Mas, nós, para a situação das cheias como tal, ainda não estamos a pensar com profundidade, visto que estamos perante um quadro completamente diferente, que é o da seca. Mas caso ocorra, como aconteceu em 2008 e 2009, o Governo tem sempre um papel de intervenção preponderante para acudir a população.

Angop – Então como encara os próximos tempos para o Cunene?

EGJ – Numa perspectiva de esperança para as comunidades que estão a atravessar esta difícil situação. Os meses que se avizinham serão mais difíceis. Devemos estar mais resilientes, mais alinhados e devemos também (a nosso nível) colaborar mais, quer como cidadãos individuais quer como instituição do Estado, privadas, associações, igrejas, autoridades tradicionais, entre outras. Temos a certeza de que juntos vamos apresentar melhores soluções para essa situação. A população deve conservar o pouco que está a ser feito pelo Estado e pelas instituições privadas, a fim de que a própria comunidade assuma o papel de liderança, para enfrentar esses efeitos. Há que agradecer a todas as pessoas que têm colaborado, doando o pouco que têm aos que quase ou nada possuem. 

Assuntos Sociedade  

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