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12 Outubro de 2018 | 08h55 - Actualizado em 12 Outubro de 2018 | 08h55

Escritor José Luís Mendonça quer leitura obrigatória no currículo académico

Luanda - O escritor angolano José Luís Mendonça defende a necessidade de se incluir, nos currículos académicos, a leitura obrigatória, com avaliação de obras de autores nacionais de referência.

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José Luís Mendonça

Foto: António Escrivão

(Por Venceslau Mateus)

Em entrevista à Angop, o autor do romance “O Reino das Casuarinas” afirma que a literatura e o jornalismo são como um sacerdócio e deixa aos candidatos a escritor um alerta: ler, ler e ler até queimar as pestanas.

Angop:  José Luís Mendonça é um nome que desponta na literatura e no jornalismo cultural. Em que área se sente mais à vontade?

José Luís Mendonça (JLM) - Exerço o jornalismo como profissão, na área cultural por excelência. Neste campo, produzo reportagens, recensões e outros artigos, com a mesma paixão pela literatura. Já na esfera social e de intervenção, utilizo os mecanismos puros. Passo a maior parte do tempo a criar poesia e ficção, mais poesia do que ficção, mesmo mentalmente. Sou poeta por natureza. Tudo me comove, até as pedras.

Angop: Até que ponto a escrita literária influencia nos seus textos jornalísticos?

JLM - Um poeta nunca abandona a musa inspiradora. Mesmo na procura de um “gancho” jornalístico, a peça que redijo tem as marcas profundas da poesia, aquela paixão pela arte de escrever e de criar a catarse aristotélica no leitor.

Angop: Pode fazer uma retrospectiva da sua passagem pela Angop e sobre o que levou de bom?

JLM - Passei pela Angop quando ainda funcionava no Kinaxixi, nos anos 80. Tinha ido para lá solicitar uma formação para mim e para três alunos meus (eu era professor de Português na Escola Njinga Mbandi), pois pretendíamos, na altura, fazer uma revista académica, que viria a chamar-se “Criar África”. Em três meses, aprendi as técnicas básicas de jornalismo, isto é, como fazer uma notícia e outras que me foram ensinadas por dois grandes mestres já falecidos, nomeadamente, David Mestre e Manuel Dionísio, aos quais rendo homenagem. O segundo calçava botas à cobói, nunca se esqueceu de mim. Uma das alunas ficou a trabalhar na empresa, tendo beneficiado de bolsa para estudar na Roménia. Mas, continuei no ensino e fui para Cuba dar aulas da mesma disciplina aos formandos.

Angop: Ao longo da sua carreira, escreveu e experimentou vários géneros literários, como a prosa, o romance, a poesia e a ficção policial. Volvidos quase 40 anos de actividade, em que género se sente mais “solto” para debitar os pensamentos?

JLM – Obviamente, no género lírico, a poesia, uma vez que me dá sempre “ganas” de tecer uma boa crónica jornalística sobre os bons e maus costumes.

Angop: Depois de toda essa trajectória, qual a sua grande aspiração enquanto escritor?

JLM - Ser lido pelos estudantes do meu país.

Angop: Sente que o seu pensamento crítico é suficientemente percebido pelos leitores?

JLM - Pelos que me lêem sim. Recebi muitos elogios pelo romance “O Reino das Casuarinas”, alguns de leitores estrangeiros. A Geração 80 pretende fazer um filme baseado no mesmo. Gostaria de ser mais lido e criticado, mas, em Angola, lê-se pouquíssimo. Estamos a cair, cada vez mais, no poço fundo da iliteracia literária, a tender para uma Nação intelectualmente subdesenvolvida.

Angop: Depois do "Angola, me diz ainda", o que está a escrever ou pensa em escrever de novo para brindar os leitores fiéis?

JLM - Aspiro dar à estampa mais algumas obras de poesia, tenho cinco livros esboçados, e também há um romance e duas ou três novelas que já comecei, mas falta-me tempo para concluir todas essas estradas da escrita. Um dia, serei milionário e vou fechar-me numa fazenda só a produzir literatura, tal como Jack London, o autor americano de “Presas Brancas e a Fogueira”, a beber maruvo fresquinho e a comer muito inhame.

Angop: Que mudanças estéticas poderemos encontrar nos seus futuros escritos?

JLM - Muitas. Estou sempre a renovar-me como o diamante no kimberlito, a recriar a nossa realidade histórico-social e cultural com ferramentas ficcionais que vou forjando e deixei a poesia hermética dos anos 80.

Angop: Fez parte da “Geração das Incertezas”, na década de 80, e “bebeu” muito da experiência de emblemáticos poetas, como Agostinho Neto. Olhando para trás, e num tom comparativo, como caracteriza, hoje, a literatura angolana?

JLM - Hoje, a literatura angolana é um “pássaro de seis asas”, um pássaro mítico, cujos olhos são ainda os clássicos, e as principais asas, as da frente. São os escritores que despontaram na década de 80 e alguns em 90, e vão florindo, em muita prosa e pouco verso, coisas novas da nossa literatura.

Angop: Numa entrevista concedida, afirmou que muito do que se escreve hoje, sobretudo em poesia, “é oco e como um boneco de palha”. O que pretendia dizer, exactamente, com essa mensagem crítica?

JLM – Faltou-me fazer menção aos pseudoescritores angolanos, aqueles que nunca chegarão à excelência, por falta de espírito de sacrifício, porque desconhecem completamente a história material (as obras escritas) da história literária nacional. Para além da incompetência linguística, muitos deles não sabem o que é literatura, uma vez que quase nada leram, então, produzem palha. Mesmo que coloquem, como é moda agora, títulos pomposos na capa das obras, lá dentro é tudo oco. Falta-lhes substância literária.

Angop: Volvidos alguns anos, continua a ver a coisa nesse mesmo prisma?

JLM - Está cada vez pior, devido ao nosso sistema de Educação e Ensino, que é outro sector oco e vazio de intelectualidade, onde nada se lê, nem mesmo os manuais escolares.

Angop: O que estaria na base disso? Será apenas a falta de cultura geral e literária?

JLM - Temos o ensino mais pobre e fraco da África Austral e dos Grandes Lagos. Nem a RDC, nem o Congo Brazzaville, a Zâmbia ou a Namíbia se comparam a nós em termos de descalabro pedagógico-didáctico. Esta é a pior herança do “eduardismo”, não é a crise económica.

Angop: Como vê a convivência entre os escritores mais velhos e os mais novos e o que tem faltado, para que não se mantenha a qualidade dos escritos literários de outrora?

JLM - A convivência é bastante salutar. Um jovem de 18 ou 20 anos que almeja ser escritor mas que apenas leu um livro (ou mesmo nenhum) encontra-se já numa fase um pouco avançada para recuar no tempo em que devia ter consumido pelo menos 50 obras. Como não possui o hábito de ler, sente uma tortura enorme em pegar num manual e devorá-lo numa semana ou em três dias, salvo raras e boas excepções de indivíduos que seguem os meus conselhos.

Angop: A esse respeito, a política do livro em Angola já o satisfaz?

JLM - Nem pensar. Não há política nenhuma do livro nem da leitura. O novo Presidente, João Lourenço, criou agora uma Comissão Multissectorial para tratar deste aspecto crucial da nossa vida, do nosso futuro, enquanto Nação inserida no contexto do universal.

Angop: A seu ver, como se podem estimular melhor os hábitos de leitura em Angola?

JLM - Primeiro, há que se aliciar os professores todos para a leitura dos “Clássicos”. Todos os docentes, dos diferentes níveis de ensino, devem lê-los, seja qual for o seu ramo ou disciplina, para atraírem os estudantes.

Segundo, há que se produzir papel em Angola, para baixar o custo do livro, e as alfândegas não podem cobrar impostos sobre as obras literárias e didácticas.

Terceiro, temos de incluir, nos currículos académicos, a leitura obrigatória, com avaliação de certos livros como “Sagrada Esperança” (Agostinho Neto), “Luuanda” (Luandino Vieira), “Quem me Dera ser Onda” (Manuel Rui), “Maka na Sanzala” (Wanhenga Xitu), “Wanga” (Óscar Ribas), “Gente de Meu Bairro” (Jorge Macedo), “A Morte do Velho Kipakaça” (Boaventura Cardoso), “O Segredo da Morta” (António de Assis Júnior), “Angola, Angolê, Angolema” (Arlindo Barbeitos), “Terra Morta” (Castro Soromenho), entre outros. Só (ainda) os clássicos de verdade.

Nós, os da pós-independência, ficaríamos para outra fase, pois há que se estudar e se seleccionar bem quais das nossas obras deverão integrar esta lista, visto que, no afã de querermos ser modernos, por vezes, incorremos a certos modismos que tornam difícil o cesso à leitura por parte dos jovens estudantes.

Angop: Até que ponto a Lei do Mecenato poderá fazer que o livro tenha um preço mais acessível?

JLM - Os mecenas são sempre benfeitores desinteressados dos artistas. Se eles patrocinarem as edições dos bons livros, estes entrarão no circuito comercial a um preço mais acessível ao bolso do potencial leitor, o estudante.

Angop: É impossível dissociar a sua figura da escrita jornalística, sobretudo cultural. Como avalia o jornalismo feito hoje em Angola nesta vertente?

JLM - Em Angola, o jornalismo cultural está uma calamidade. Quem hoje faz recensão  das Artes Plásticas ou da Literatura, ou até do Cinema, com regularidade e precisão na imprensa angolana? Eu e mais um ou outro jornalista directamente vinculado aos órgãos.

Angop: Quais as suas grandes lacunas?

JLM - Não quer dizer que não haja especialistas que dominem essas matérias. Significa apenas que não existem dentro dos órgãos de informação.

Angop: Em várias ocasiões, tem reclamado da falta de jornalistas especializados na crítica literária, como acontece, por exemplo, em Portugal. Como pensa que a classe jornalística nacional vai conseguir ultrapassar esse défice?

JLM - Há que formar os jornalistas, há que criar desks de Cultura, com indivíduos especializados em Literatura, Pintura, Cinema, Teatro, entre outras áreas.

Angop: Isso passaria, necessariamente, por um sistema de ensino mais eficiente?

JLM - Sim. Mas passa também por um trabalho de formação interna em cada órgão, um trabalho metódico e bem dirigido.

Angop: Com as actuais fraquezas da Reforma Educativa e a falta gritante de cultura literária em quase toda a sociedade, é possível ter esses especialistas a médio-prazo?

JLM - Em um ou dois anos, poderemos formar alguns e depois acompanhá-los durante os seus trabalhos. Estes jornalistas, a formar de Cabinda ao Cunene, têm de ser dedicados à causa do jornalismo cultural, pois terão de ler um livro por semana. Tudo passa pela competência linguística, para ser bom nesta área. Para isso, é preciso ler muito, não só obras de escritores nacionais e estrangeiros, mas também revistas e jornais da especialidade. Bem gostaria de me dedicar a esta tarefa, se o Ministério da Comunicação Social me quiser aproveitar.

Angop: Já agora, o que pensa ser necessário para melhor assimilação da Língua Portuguesa e para a expansão das línguas nacionais?

JLM - Qualquer língua se assimila com muita leitura. As línguas nacionais são línguas de cultura. Devemos aprendê-las a nível comunitário, fazer da vida nos bairros verdadeiros centros de estudo das mesmas, com as pessoas que ainda a sabem, e não deixar os nossos jovens consumirem álcool e desbundarem com música tão alta.

Angop: Qual a sua visão sobre as vantagens do Novo Acordo Ortográfico?

JLM - O Novo Acordo Ortográfico (NAO) deve ser ratificado por Angola. Apesar das razões linguístico-culturais invocadas por especialistas, que aprovo, o país ficou ultrapassado por quase quatro décadas de mau ensino, e a juventude, hoje, já escreve à moda da reforma ortográfica de 1990. Fomos muito influenciados pelas novelas e igrejas brasileiras, agora já não podemos continuar a ser o Estado mais lusófono da Lusofonia. Há que sermos pragmáticos.

Angop: Mudando um pouco de tema, disse, numa entrevista, que “Angola é um Estado autoritário”. Como vê hoje o país no novo ciclo político?

JLM - Neste novo ciclo político, o MPLA, que continua a mandar em Angola, pretende fazer uma mudança, mas não pode abdicar da construção da burguesia nacional, capaz de competir com a classe empresarial estrangeira. Este desiderato não foi alcançado pelo anterior regime, pois levaram  o capital todo para o exterior. Esse é o aspecto principal que a nova governação está a encarar. Por isso, está a aproveitar os capitalistas já constituídos para arrancar com o desenvolvimento. Porém, o anterior regime deixou-nos uma herança de autoritarismo sem precedentes, em que a polícia de patrulha também manda parar, desavergonhadamente, um automóvel e exige “gasosa”.

Os governantes não sentem isso na pele como nós, cidadãos comuns. Actualmente, a Polícia (a SIC) pode ir à casa de alguém ou esperar por alguém na rua e levar para um calabouço, por simples suspeita. Isso é que João Lourenço devia corrigir. Já sofremos bastante. Queremos segurança. Que prendam os bandidos e deixem o cidadão honesto em paz!

O facto de se constituir arguidos alguns pesos pesados não significa que o Poder Judicial esteja já independente, nem podia ser de outro modo. Vejo que tudo vai levar tempo.

Angop: Sente que a sociedade está a conviver da melhor forma com essas mudanças?

JLM - Há os intelectuais independentes que analisam o fenómeno da mudança sob um olhar mais académico e existe o povo, em geral, que vê a coisa de forma mais  entusiasta. O que todos queremos é dormir em paz nas nossas casas, sem barulho de música alta todos os dias, com água corrente e energia eléctrica 24 horas, bem como emprego fixo. Enquanto houver tantas zungueiras nas ruas, numa concorrência nunca vista, em que voltam bem à noite para casa, com as bacias cheias de frutas que levaram pela manhã, enquanto a Polícia estiver a dar-nos no coiro e a pedir gasosa, enquanto ligamos para o 112 a reclamar pelo barulho de música House todos as noites no Chamavo, mas as autoridades policiais não aparecem porque o dono do bar é uma alta entidade, enquanto não tivermos os nossos jardins e escolas devolvidos ao seu objecto de lazer e pedagogia, sem comércio dentro dos recintos, creio que não há/haverá ainda mudança plausível.

O Governo tem de ser mais expedito em certas áreas. Cuba, por exemplo, tem um óptimo sistema de Saúde Pública e de Educação Inclusiva. Daí que defendo uma transição lenta. Não temos saúde, não temos educação de qualidade, mas temos uma polícia na rua a dar-nos medo. Há que ter urgência em resolver certas situações dolorosas herdadas do anterior regime.

Angop: Como pensa que o Estado deve actuar, para consolidar a questão da identidade nacional e promover da melhor forma a cultura angolana no estrangeiro?

JLM - É necessário dotar o Ministério da Cultura de uma pessoa ligada a esta área, um indivíduo com amor pela cultura, um africanista de gema, uma pessoa que não tenha vergonha de falar com os escritores e os artistas deste país. Como é possível ter uma Angola onde a cultura visível é apenas o que se faz em Luanda? Depois, há que promover a nossa inserção cultural no contexto africano. Infelizmente, estamos voltados para o Brasil, Europa e América do Norte. Não conhecemos os nossos irmãos zambianos, namibianos ou congoleses. Somos uma ilha cultural na África Austral. Temos de fazer uma diplomacia do Renascimento Cultural Africano, preconizada por Agostinho Neto, Viriato da Cruz,  Mário Pinto de Andrade, entre outros, que actuaram sob o lema “Vamos Descobrir Angola”, sob égide do Pan-Africanismo.

Angop: A actuação da sociedade tem vindo a ser bastante questionada por alguns círculos políticos, por suposta colagem ao partido governante. Vê algum fundamento nisso?

JLM – Temos de analisar bem a situação angolana. O anterior regime criou uma situação social a que chamo “armadilha do desemprego”. Ao não investir em indústrias e serviços amplos no país, ao descurar a agricultura, o antigo Executivo engendrou uma teia de dificuldades de colocação de cidadãos que necessitam de ingressar no mercado do trabalho. Qual foi a saída? Ou te manténs de bico calado e tens umas sobras do regime, ou aplaudes o que está mal e sobes para uma carreira qualquer, até embaixador ou ministro podias ser, ou reclamas e ficas a passar fome. Até os partidos na oposição, excepto o Bloco Democrático, caíram nessa armadilha. Mas também não tinham como sobreviver. Se não estivessem na Assembleia Nacional ou nas FAA, ainda por cima saídos das matas, o que é que iam jantar? Só os revús se imolaram e se sacrificaram sem medo. Palmas para eles!

Angop: Como pensa que a sociedade civil deve actuar nesse novo quadro político?

JLM - Claro que há e houve os moderados, tais como: as vozes críticas de escritores que nunca tiveram medo, associações como a Chá de Caxinde e ONG, como a ADRA, que sempre lutaram pela dignidade humana do povo angolano. A ADRA nunca recebeu subsídios do Governo, por causa dessa sua postura. A sociedade civil deve unir esforços para denunciar violações dos direitos humanos, como o faz Rafael Marques. O Executivo precisa dessas vozes críticas para melhorar.

Angop: Tem criticado a falta de preservação da história das metrópoles. Continua insatisfeito com a forma como urbanizam as cidades do país?

JLM – Decidi-me a fazer um boicote cultural contra o Shopping Fortaleza. Nunca hei-de pôr lá os meus pés. E apelo a todas as mulheres e homens de cultura para se juntarem a mim. Continuarei a lutar pela devolução dos nossos jardins à edilidade, pela criação de bibliotecas em cada parcela de bairro e jardins públicos para as crianças ao lado dessas bibliotecas.

Angop: A realização das autarquias, já anunciadas pelo Executivo, responderá, finalmente, ao seu clamor de ver uma Angola sustentada, que assente o seu desenvolvimento na comunidade, ou seja, nos municípios?

JLM - É. Luto para que os ministros passem a morar (ainda que só em pensamento) nos musseques.

Angop:  De maneira global, o que prevê para Angola e quais os principais desafios?

JLM - Os desafios são tão grandes, que o Presidente João Lourenço não pode contar só com a equipa do MPLA para governar. Se analisarmos bem a nossa situação actual, quase tudo está mal e deve ser corrigido. A única coisa que foi bem feita por José Eduardo dos Santos, com recurso aos melhores quadros técnicos do país, foi a “acumulação primitiva do capital” (que, em termos históricos, é um insulto contra  a memória dos nossos antepassados levados como escravos para o Brasil). Então, vamos melhorar o que foi bem feito? E o resto? Sugiro que o Mandatário da Nação se socorra das ONG, como a Pastoral da Criança e a ADRA, expanda o seu trabalho, com fundos do Estado, para acudir as populações carenciadas dos musseques. É preciso notar que o actual Governo tem, no seu seio, quase todas as figuras do anterior. O que é que alguém que apoiou com unhas e dentes o anterior regime tem para dar a uma nova governação apostada em mudar os ventos da história? Pelo menos que se agregue a esta governação o contributo e o esforço meritório da sociedade civil, representada em ONG credíveis, não aquelas criadas para encher os bolsos dos próprios fundadores.

Angop:  Para terminar, e em espécie de rodapé, que mensagem deixa aos jovens jornalistas e escritores?

JLM - Só uma mensagem e a mesma de sempre: ler, ler e ler até queimar as pestanas. A literatura e o jornalismo são como um sacerdócio. Por isso, grandes escritores mundiais e certos jornalistas que levantaram o escândalo Watergate nos EUA só se tornaram grandes porque nem tempo tiveram para constituir família, uns e outros ficaram anos a investigar, com paciência, muitas situações.  Não estraguem as literaturas. É preciso muito sacrifício, apenas para dominar a língua, quanto mais para conhecer a fundo as técnicas de escrita literária e jornalística.

Perfil

José Luís Mendonça, licenciado em Direito pela Universidade Católica de Angola, é jornalista de profissão, actualmente vinculado às Edições Novembro, E.P., onde exerce o cargo de director e editor-chefe do Jornal Cultura, periódico quinzenal angolano de Artes & Letras.

Em 2005, foi contemplado com o Prémio “Notícias Gerais da Lusofonia”, no concurso CNN-Multichoice Jornalista Africano. No mesmo ano, o Ministério da Cultura atribuiu-lhe o galardão “Angola Trinta Anos”, na disciplina de Literatura, no âmbito das comemorações do 30.º aniversário da Independência Nacional, pela obra poética “Um Voo de Borboleta no Mecanismo Inerte do Tempo”.

Ganhou o Prémio Nacional de Cultura e Artes na categoria de Literatura, em 2015, devido à singularidade do estilo e ao valor cultural das temáticas tratadas, tendo instituído o amor como guia da sua produção literária, em torno da qual percorrem diversos temas, entre os quais as relações entre os povos e o poder político, para além de, no conjunto da sua obra poética, associar a política e a ideologia, as interacções que a história recente de Angola levanta, as tradições populares e o maravilhoso, bem como a preservação do ambiente.

É autor de vários livros de poesia, dos quais o romance “O Reino das Casuarinas”.  

Assuntos Literatura  

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