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15 Janeiro de 2020 | 15h14 - Actualizado em 15 Janeiro de 2020 | 16h09

O "calvário" dos compositores

Luanda - Quem ouve uma canção de sucesso, nem sempre se dá conta que por detrás desse trabalho está um profissional muitas vezes ofuscado: o compositor.

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Barceló de Carvalho "Bonga".

Foto: Rosário dos Santos

(Por: Francisca Augusto e Nelson Pascoal)

O compositor é o profissional que cria a letra ou a melodia de uma canção, obedecendo regras como a conexão da melodia com a letra, que resulta num processo complexo.

Em Angola, são muitos os nomes que despontam na composição, desde a antiga à nova geração, sendo, assim, difícil fazer uma selecção sem que faltem autores importantes.

Desde os primórdios da independência nacional, são vários, no país, os profissionais que se dedicam à composição, num mercado cada vez mais exigente, onde se escreve sobre quase tudo, às vezes sem o rigor estético recomendado.

Segundo o músico Kyaku Kyadaff, a falta de rigor pode estar associada a vários factores, sublinhando que nem sempre é fácil o processo de composição de um tema.

“No princípio, eu sentia algumas dificuldades e era necessário controlar as palavras, a introdução da espiritualidade da letra e saber qual o público-alvo a atingir? Esses factores levavam muito tempo de reflexão e de leitura”, afirma.

Para atingir os objectivos, Kyaku Kyadaff teve de trabalhar, por muito tempo, a leitura e análise dos problemas sociais. Hoje, o artista não leva muito tempo para compor.

“Há momentos em que levo 30 minutos para compor uma música e há músicas que levam um dia e outras dois anos”, reforça o artista, que fala sobre os desafios da classe, numa altura em que se celebra o Dia Internacional do Compositor (15 de Janeiro).

Outro problema que tira o sono aos compositores é a falta de reconhecimento, por parte dos intérpretes, que chegam às paradas do sucesso e ignoram a génese das canções.

"Um dos grandes problemas no processo da composição é o facto de muitos intérpretes não reconhecerem os compositores", adverte Kyaku Kyadaff.

Do seu ponto de vista, as composições nunca devem ser “vendidas”, porque são um património, ou seja, uma propriedade intelectual de quem as concebe.

Letras desprotegidas

Apesar de o mercado angolano estar repleto de bons compositores, a falta de registo das composições afigura-se um dos principais problemas, comprometendo a arrecadação de receitas de quem usa o talento e a veia criadora para produzir uma letra.

Em Angola, são vários os compositores cujas letras não estão registadas oficialmente, perdendo, por isso, a possibilidade de “brigar” na justiça em caso de litígio.

“Muitos, mesmo não sendo autores das letras, apresentam-se como legítimos proprietários, aproveitando-se da ineficácia da Lei dos direitos autorais”, denuncia Kyaku Kyadaff, autor de vários temas de sucesso, como “Entre Sete Sete e Rosas”.

A União Nacional dos Artistas e Compositores (UNAC) afirma que tem consciência desse problema e está a desenvolver os esforços, junto das organizações nacionais e internacionais, para a implementação dos direitos autorais no país.

“Quanto mais organizada estiver a actividade do artista, mais valorizados são os criadores e mais rendimento entra para os cofres do Estado, através dos impostos”, expressa o compositor e também secretário-geral da UNAC, João Alexandre.

O responsável encoraja os colegas a registarem as obras e pagarem as quotas junto da UNAC, para verem, futuramente, benefícios, através da cobrança dos direitos autorais.

A esse respeito, o director nacional dos direitos de autores e conexos, Barros Licença, afirma que recebem vários casos de conflitos, envolvendo compositores e intérpretes.

Em caso de conflitos, explica, é acautelado o direito do compositor, desde que devidamente provado, embora haja situações em que sugerem entendimento pacífico.

A composição é, na verdade, a “alma da música”. Quando feita com rigor, pode ter um alcance profundo e intemporal, mas ao contrário tem um efeito passageiro.

Compor um tema é mais do que escrever uma música, é criar a própria música, com destaque para o ritmo (cadência/harmonia).

Segundo alguns críticos, em Angola, tendo em conta o produto final, a qualidade das composições nem sempre tem sido boa, principalmente na última década.

Em causa, afirmam, está o imediatismo e ânsia do sucesso, que leva muitos artistas a descurarem a qualidade, apresentando trabalhos sem rigor técnico.

Contudo, no meio de muita carência, alguns se destacam músicos, como Felipe Zau, Felipe Mukenga, Teta Lando, Paulo Flores, Kyaku Kyadaff, Bonga, Matias Damásio, Heavy C, Dodó Miranda, Eduardo Paím, Euclides da Lomba, Rosa Roque, entre outros.

Estes, só para citar alguns, fazem parte de um vasto grupo que encanta com as suas composições, quer interpretadas por si, quer por outros cantores, mas, nem sempre sentem, na prática, as vantagens de compor (contrapartida financeira).

Os problemas dos compositores estão à vista de todos e impõem grandes desafios a quem tem a missão de tornar efectiva a defesa dos direitos autorais.

No dia dedicado ao compositor, fica uma certeza: Angola já tem compositores de mãos-cheias, mas um longo caminho deve ser percorrido, para que estes profissionais vivam da arte de compor e de ceder letras que podem levar um músico às paradas do sucesso.

Assuntos Cultura   Música  

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