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11 Outubro de 2017 | 11h12 - Actualizado em 11 Outubro de 2017 | 11h34

Obesidade - O "virus" da auto-estima

Luanda - Números que assustam, especialistas em busca de novos remédios e pacientes em desespero para ganhar a "guerra" contra a balança. As estatísticas da obesidade já exigem respostas rápidas e perfilam, ano após ano, como um problema grave de saúde pública em Angola.

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Obesidade é hoje um problema de saúde pública

Foto: Pedro Parente

(Por Eurídice Vaz da Conceição)

O problema afecta mais de 641 milhões de adultos no mundo, quase 13 porcento da população, e pode chegar a 20 porcento nos próximos anos. A obesidade é uma doença multifactorial que precisa de ser tratada em vários aspectos, principalmente o emocional.

Quando atinge a fase mais avançada, tem no preconceito, estigma social e na baixa estima alguns dos principais sinais. Esta condição leva milhares de pessoas a "fugir" da sociedade e, em casos mais extremos, a perder a vontade de viver, devido à discriminação.

A ex-estudante Eufrásia de Sousa conhece bem essas reacções e desde cedo entrou para as estatísticas. Com 39 anos de idade, sempre teve corpo robusto. Nasceu com 6 quilogramas e aos 8 anos já pesava 60, um sinal de alerta que o tempo veio confirmar.

Eufrásia de Sousa nunca foi uma adolescente como as outras e, várias vezes, sentia-se rejeitada na hora das brincadeiras. Perdeu a guerra contra a balança e chegou a atingir 190 kg, antes de buscar o socorro especializado.

"Está a ser uma grande batalha. Ainda sinto muita vergonha de estar ao lado das pessoas, mas estou confiante que vou conseguir recuperar a auto-estima", confessa.

A obesidade é para a jovem mais do que um sinal de risco. Ao longo dos anos, causou-lhe danos no coração, diabete e também problema de ansiedade. A doença condiciona-lhe a prática de actividades que já foram de rotina, como limpar a casa de uma só vez.

Vencida pelo peso, tem hoje dificuldades de andar em transportes públicos, porque ocupa muito espaço e paga mais caro que outros clientes. O que poderia ser alternativa, os táxis, constituem também problemas no dia-a-dia, porque Eufrásia não cabe nos bancos dos carros.

Uma vida de desafios e superação diária

Em casa está frequentemente a depender de familiares para desenvolver actividades que várias vezes já chegou a fazer sozinha. A determinação de vencer a luta contra a balança e o estigma social têm sido processo lento, mas que já demonstram alguns resultados.

Actualmente, Eufrásia de Sousa reduziu um pouco o peso, mas não o suficiente, estando com 170 kg, ainda acima do desejado. Para voltar a equilibrar e dominar o corpo, está a ser acompanhada por nutricionista, cardiologista e neurologista.

É com esse trio que faz uma rigorosa dieta e procura manter a predisposição para a prática de exercícios físicos. A obesidade não é um problema exclusivo de Eufrásia de Sousa.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), um em cada oito adultos é obeso. Este número aumentou desde 1975 e as previsões apontam que, até 2025, um em cada cinco cidadãos possam sofrer de obesidade.

A OMS aponta a obesidade como um dos maiores problemas de saúde pública no mundo. A projecção é que, em 2025, perto de 2,3 bilhões de adultos estejam com sobrepeso e mais de 700 milhões se tornem obesos.

Segundo o médico endocrinologista Paulo Cambita, a obesidade é uma doença crónica caracterizada por excesso de gordura corporal que prejudica a saúde. Explica que ela coincide com o aumento de peso, mas nem todo aumento de peso está relacionado à obesidade.

"A título de exemplo, muitos atletas são pesados, devido à massa muscular", argumenta.

Além dos maus hábitos, o médico cita o aumento da expectativa de vida como outro factor para o crescimento do número de casos da doença. Estudos mostram que a população tem vivido mais tempo e isso faz com que as pessoas fiquem mais expostas aos agentes de risco.

"Em 90 porcento dos casos, o cancro aparece em decorrência dos péssimos hábitos de vida, como obesidade, sedentarismo, tabagismo, exposição aos raios solares sem protecção e má alimentação. Por isso, torna-se imperioso adoptar uma rotina saudável, para prevenir a obesidade", acrescenta.

De acordo com o médico, quanto maior for o índice de massa corporal (IMC) de uma pessoa, maior a hipótese de morrer precocemente e de desenvolver doenças do tipo diabetes melito, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares.

Paulo Cambita explica que isso não significa que quanto mais magro melhor, pois o índice de mortalidade também aumenta em indivíduos com IMC muito baixo, especialmente por causa de doenças infecciosas e dos pulmões.

"O ideal é manter-se entre as faixas de 50 a 60 kg. O IMC não é indicador suficiente da gravidade do problema de peso em excesso, pois o tipo de distribuição dessa gordura pelo organismo também é importante", reforça.

Segundo o especialista, durante as consultas diárias chega a atender pelo menos 10 pacientes com obesidade, alguns dos quais com obesidade mórbida. Nesse combate contra a balança, nem todos têm más memórias.

A história de Diego Rocha, estudante universitário de  23 anos, impressiona pela velocidade com que conseguiu perder 50 kg em apenas 5 meses. Superou o quadro de obesidade mórbida, saindo dos 131kg para 81kg. A rápida metamorfose foi conquistada em 2014.

No primeiro mês, o emagrecimento foi de 15kg e nos quatro restantes de 35kg. À medida que ia seguindo plano alimentar e de exercícios orientados por profissionais, Diego também estudava artigos científicos sobre alimentação.

No fim do processo, criou uma tabela, recomendada posteriormente por um grupo de nutricionistas. Com essa determinação, tornou-se um caso de superação. "Quando estava acima do peso, estava constantemente cansado, indisposto e bastante stressado”.

“Quando a pessoa não está verdadeiramente disposta a mudar os hábitos de vida, qualquer coisa se transforma em problema intransponível. É preciso adoptar uma rotina de exercícios e hábitos alimentares mais saudáveis", aconselha.

Durante vários anos, Diego viveu bastante oprimido e já pensou em suicidar-se. A ajuda da família foi fundamental para a busca de socorro especializado. Com medicação e sem cirurgia, mantém o ponteiro da balança controlado.

A nutricionista Mariana de Almeida recomenda alimentação controlada para evitar a obesidade, propensa de um regime alimentar desregrada. Aponta o stress, a falta de exercícios físicos, o uso de alimentos inadequados como causas de obesidade, sobretudo para pessoas com mais de 30 anos.

"A população deve praticar actividades físicas regularmente e com orientação de um profissional optar por exercícios aeróbicos (pedalar, correr, caminhar, nadar, fraccionar a alimentação diária). É importante realizar mais refeições com menor quantidade em cada, dar preferência às frutas, antes do almoço e do jantar", aconselha.

Sugere que se evitem frituras e se dê preferência aos alimentos grelhados, cozidos ou assados, reduzindo o consumo de bebidas alcoólicas, pois fornecem apenas calorias vazias, além de recomendar alimentos naturais, no lugar de industrializados e enlatados.

A OMS refere que a população está cada vez mais sedentária e, com isso, crescem os números da obesidade e a preocupação dos profissionais de saúde em combatê-la e, consequentemente, em prevenir as diversas disfunções causadas pelo excesso de peso.

A obesidade é uma doença crónica, de difícil tratamento, que pode ser resultado de herança genética, fisiológica, sedentarismo, excesso de alimentos ou alimentação inadequada, devido a transtornos alimentares.

A prevenção tem três factores principais: reeducação alimentar, aumento ou prática de actividade física e mudança no estilo de vida. Em alguns casos, pode haver necessidade de intervenção medicamentosa e, nos mais severos, a realização de cirurgias é necessária.

O baixo consumo de frutas e verduras aumenta o risco de problemas cardíacos, alguns tipos de cancro e obesidade.

Hoje assinala-se o Dia Mundial de Combate à Obesidade (11 de Outubro).

Assuntos Saúde  

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