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24 Janeiro de 2020 | 17h14 - Actualizado em 27 Janeiro de 2020 | 17h48

Luanda enfrenta conflitos arquitectónicos

Luanda - A cidade de Luanda, capital de Angola, celebra, sábado (25 de Janeiro), 444 anos da sua fundação, sob o espectro do desaparecimento da parte velha, para dar lugar à arquitectura moderna.

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Baía de Luanda com prédios imponentes na actualidade

Foto: Francisco Miudo

Bairro Prenda na cidade de Luanda

Foto: Pedro Parente

(Por Ana Ramos)

Outrora considerada a pérola de África (era das mais belas cidades do continente africano), Luanda enfrenta problemas relacionados com a preservação do seu património histórico, face ao surgimento de edifícios modernos que mudaram a sua arquitectura original/inicial.   

Com o surgimento de novos edifícios, a baixa da cidade perdeu o seu encanto e suas características iniciais, o que suscita abordagens díspares dos citadinos nesta urbe, agora, multi-tiica .

Diante deste quadro, a arquitecta e urbanista do departamento de Estudos e Planeamento Urbano, Maria Alice Mendes Correia, defende a manutenção dos edifícios mais antigos da baixa de Luanda, apesar de muitos se encontrarem em mau estado de conservação.

Na sua óptica, edifícios emblemáticos como a Livraria Lello, o Baleizão, os Correios de Angola, as residências da Avenida dos Restauradores, a Casa Paris, a antiga Direcção dos Serviços Florestais e Floresta da Ilha de Luanda devem ser preservados tanto pelas entidades governamentais, como pelos cidadãos.  

No mesmo diapasão, Carlos Alberto Neto, de 65 anos de idade, recorda, com saudade, o tempo em que os cidadãos conservavam com muito carinho os bens públicos: “antigamente, havia união para se resolver os problemas do prédio e residências nos bairros. Hoje, temos vizinhos novos e outros hábitos”.

Para si, o desafio de mudar a imagem degradante que a cidade apresenta hoje deve partir do Estado. “Administrações municipais, família, escola e comunidade são chamadas a desempenhar um papel preponderante”, afiança o funcionário do Governo Provincial de Luanda, criticando a insensibilidade de muitos cidadãos na preservação do património histórico da capital, ao tentarem, a todo o custo, mudar a imagem do local onde vivem.  

Carlos Alberto Neto, técnico médio principal de 1ª classe, sugere que se incuta nos alunos, a partir do ensino primário, aspectos normativos de convivência em comunidade, para manter uma imagem saudável dos edifícios, bairros, municípios e cidades onde moram.

Lamenta, igualmente, “a perda de hábitos e costumes - como cumprimentar -, o respeito pelos mais velhos a falta de comunicação entre moradores”.

Todavia, esforços, embora ténues, têm sido feitos no sentido de resgatar o património destruído/ perdido e preservar o prestígio da cidade de Luanda, que, em Setembro de 2019, acolheu a Bienal da Paz - Fórum Pan-Africano para a Cultura da Paz -, numa realização do Governo de Angola, em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO). O evento transformou Luanda na “Capital Mundial da Paz e da Amizade”.

Centro do poder político e económico

Por ser o centro do poder político e económico do país, Luanda é “invadida” diariamente por pessoas que procuram melhores oportunidades de vida, que não se encontram noutros lugares.

Por isso, é uma cidade sufocada, com inúmeros problemas de habitação, transportes públicos, saneamento básico, energia eléctrica (com a fraca iluminação a facilitar o aumento da criminalidade), água potável, educação, saúde, construções anárquicas, venda ambulante desordenada e ilegal, poluição sonora, entre outros, cuja resolução consta das prioridades do Governo Provincial de Luanda.

A drenagem é outro problema que deve merecer a atenção das autoridades, para que Luanda deixe definitivamente de enfrentar inundações e as águas da chuva possam percorrer o seu curso sem qualquer constrangimento.

Dados históricos

Em 1575, o capitão português Paulo Dias de Novais desembarcou na Ilha do Cabo, estabelecendo o primeiro núcleo de colonos portugueses - cerca de 700 pessoas, 350 homens de armas, religiosos, mercadores e funcionários públicos.  

Um ano depois (1576), concluindo não ser aquele lugar adequado, avançou para terra firme, fundou a vila de São Paulo da Assunção de Luanda e lançou a primeira pedra para a edificação da igreja dedicada à São Sebastião, onde se encontra hoje o Museu das Forças Armadas.

Trinta anos mais tarde, com o aumento da população europeia e do número de edificações, a vila de São Paulo da Assunção de Luanda tomou forma de cidade, estendendo-se de São Miguel ao largo fronteiriço ao antigo Hospital Maria Pia (actual Josina Machel).  

No período da União Ibérica, em 1618, foi construída a Fortaleza de São Pedro da Barra. A cidade tornou-se no centro administrativo de Angola desde 1627, e, em 1634, construiu-se a Fortaleza de São Miguel de Luanda.

A cidade foi conquistada e esteve sob o domínio da Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, de 1641 a 1648, quando foi recuperada para a Coroa Portuguesa por uma expedição enviada da Capitania do Rio de Janeiro, no Brasil, por Salvador Correia de Sá e Benevides.  

Enquanto apenas um quinto de suas importações eram originárias de Portugal, o restante era do Brasil. O equilíbrio na balança comercial era mantido com o intenso contrabando de escravos. De 1550 a 1850, Luanda foi um importante centro de tráfico de escravos para o Brasil.  

A cidade limitava-se a funções militares, administrativas e de redistribuição. A indústria era praticamente inexistente e a instrução pública pouco evoluída. Naquela época, a moeda usada era denominada Zimbo.

Em 1847, incluindo os edifícios públicos, a cidade contava com 144 casas com primeiro andar, 275 térreas e 1058 cubatas (cabanas de indígenas).

Cidade de degredados, com cerca de cinco mil habitantes, possuía perto de 100 tabernas, pelo que viajantes a qualificavam de moralidade duvidosa.  

Em 1889, o governador Brito Capelo inaugurou um aqueduto que forneceu água potável a cidade, anteriormente escassa, abrindo caminho para o grande crescimento de Luanda, que, em 1872, recebeu o etnónimo de "Paris da África".  

Luanda é a maior e a mais densa cidade de Angola. Inicialmente projectada para uma população a rondar os 900 habitantes, é, hoje, uma cidade superpovoada, com mais de seis milhões, de acordo com censo populacional de 2014.  

A província de Luanda é constituída por nove municípios, designadamente Luanda, Icolo e Bengo, Quiçama, Cacuaco, Cazenga, Viana, Belas,  Kilamba Kiaxi e Talatona. 

A zona central de Luanda está dividida em duas partes: a Baixa de Luanda (a cidade antiga) e a Cidade Alta (nova). O litoral é marcado pela Baía de Luanda, formada pela protecção do litoral continental por meio da Ilha de Luanda e a Baía do Mussulo, ao sul do núcleo urbano principal, formada pela restinga do Mussulo.  

O clima é quente e húmido, mas seco, devido à fria Corrente de Benguela, que impede a condensação da humidade para chuva. Frequentemente, o nevoeiro impede a queda das temperaturas durante a noite, mesmo durante o mês de Junho, que costuma causar secas completas até Outubro.  

Luanda possui uma precipitação anual de 323 milímetros, mas a variabilidade está entre as mais altas do mundo, com um coeficiente superior a 40 por cento. O curto período de chuvas nos meses de Março e Abril depende de uma contra-corrente do Norte, que traz humidade à cidade.

Assuntos Província » Luanda  

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