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28 Fevereiro de 2020 | 14h46 - Actualizado em 28 Fevereiro de 2020 | 14h43

Mortos no próprio lar, a sangue frio

Luanda - Em plena madrugada de 28 de Outubro de 2019, no interior da própria casa, um acto bárbaro e improvável mudou, radicalmente, a história de "Avó Domingas".

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Martelo simbólico da Justiça

Foto: Foto divulgação

Cena de crime

Foto: Foto divulgação

(Por Francisca Augusto)

O caso, que abalou os moradores do bairro Prenda, "dividiu" a família e acabou na Justiça.

A anciã foi vítima de um tipo de crime que vai ganhando contornos alarmantes em Angola, deixando, frequentemente, dezenas de famílias de "costas viradas".

Aos 65 anos de idade, a cidadã sofreu assassinato a sangue frio, com vários golpes de arma branca, supostamente desferidos por dois familiares próximos.

Avó Domingas teria tido o corpo apunhalado com mais de 10 facadas, um crime cheio de "mistérios", que continua sob investigação policial e do Ministério Público.

Os supostos autores são Miguel e António, netos da vítima, ambos detidos pela Polícia.

Há cinco meses, profissionais de investigação criminal procuram compor as "peças do xadrez", confirmar a participação da dupla e fundamentar a tese de homicídio doloso.

Miguel (28 anos) e António (25 anos) aguardam pelo julgamento na cadeia, ante as fortes acusações da família, que exige justiça e condenação dos dois parentes de sangue.

Avó Domingas vivia com os netos, há vários anos. Com eles partilhava quase tudo:  comida, preocupações, sonhos (…), mas, em poucos segundos, viu todo esse laço "enterrado".

No dia do crime, segundo familiares, a vítima teria aberto a porta aos dois netos, que batiam insistentemente, vindos de uma festa, ao que se narra "embriagados".

Chateada com a prática dos dois, a vítima saiu da cama, abriu a porta e ralhou com a dupla que, furiosa, teria partido "para cima" da avó e, num instante, silenciou-lhe a voz.

"Quando cheguei a casa, já lá estavam os peritos da Polícia. Estavam apenas a avó e os dois meninos, que disseram tratar-se de um assalto", narra o filho da vítima.

Artur Francisco conta que os mesmos, na primeira versão, alegavam ter havido assalto a casa, mas não escutaram barulho ou pedido de socorro da anciã.

Com o passar do tempo, novos dados começaram a revelar-se, e, conforme a fonte, aos poucos, os dois perfilavam entre os principais suspeitos.

"Depois de amostras recolhidas pela Polícia, confessaram que mataram a avó", sustenta o filho da vítima, versão que ainda não é dado adquirido.

Enquanto se compõem as peças do processo-crime, várias perguntas intrigam familiares e a sociedade, sendo uma delas: Porquê, afinal, Avó Domingas foi violentamente morta?

Entre as várias versões narradas à Polícia e ao Ministério Público, uma vai ganhando consistência: a dupla teria matado a vítima para "apoderar-se" da casa.

"A Avó ficou viúva e eles também tinham direitos a casa", narra Artur Francisco.

É esta uma das várias linhas de investigação policial e a principal crença da família.

"A família está completamente destruída, porque a malograda sempre foi o seu pilar. Apelamos para que se faça justiça", desabafa Artur Francisco.

Enquanto a verdade material não é apurada com exatidão, netos e familiares continuam de costas viradas, um sintoma claro de que há famílias angolanas "adoentadas".

Matar por um prato de comida

A desgraça também bateu à porta da família de Manuel Bernardo (nome fictício), 46 anos, acusado de matar o próprio filho, de apenas seis, em 2019.

Segundo familiares, o acusado teria tido o mesmo "modus operandi" dos irmãos Miguel e António, ou seja, com uma faca "perfurou o abdómen" do petiz.

Desta vez, a motivação do crime seria bem mais complexa de entender: falta de comida.

Na versão de familiares, era noite, em pleno bairro Capalanga, município de Viana, quando o suspeito chegou a casa e se apercebeu de que o filho comeu o seu jantar.

Furioso, dizem as testemunhas, o pai chamou a criança que brincava na casa de uma vizinha e, antes de a mesma entrar, advertiu a mãe de que ia matá-la.

"Mal o menino chegou a casa, o pai pegou a faca e perfurou a barriga de paizinho (nome fictício)", conta um familiar que pede anonimato.

À semelhança dos netos Miguel e António, o suposto criminoso encontra-se detido e aguarda pelo julgamento numa das unidades prisionais de Luanda.

Em contrapartida, as marcas de agressão e assassinatos entre pessoas da mesma família não são exclusivas de Luanda. Os relatos de parentes chegam de quase toda a parte do país.

Na província do Huambo, por exemplo, uma cidadã de 26 anos, residente no bairro Cavongue Alto, é acusada de ter assassinado o filho, de sete.

Na base do crime, terá estado uma alegada queixa de furto de telefone.

"Guerra" entre familiares

As três histórias narradas revelam um problema que se começa a agudizar no país, deixando as autoridades sob alerta constante e as famílias de "cabeça-quente".

São os chamados homicídios dolosos em ambiente doméstico, praticados por familiares de sangue ou parentes próximos, nos locais mais improváveis: os próprios lares.

De acordo com especialistas, é um problema que revela o estado de desestruturação das famílias angolanas, ao qual, dizem, deve haver atenção especial do Estado.

Trata-se de crimes que se multiplicam um pouco por todo o país, opondo pais a filhos, irmãos contra irmãos, netos contra avós (…), que se matam sem piedade.

Diariamente, muitos relatos de agressão chegam às autoridades policiais, sendo que vários casos acabam em morte, deixando famílias arrasadas.

As estatísticas da Polícia Nacional comprovam a gravidade do problema.

Números oficiais indicam que, entre Agosto e Outubro de 2019, foram registados 18 mil crimes comuns em todo o país, uma média de seis mil/mês.

Neste período, 3.402 crimes foram praticados por pessoas próximas das vítimas, sendo que 362 casos dizem respeito a homicídios voluntários.

Se comparados aos dados do trimestre anterior, houve aumento de mais de 317 crimes.

Os números da Polícia Nacional referem que, entre os crimes, se destacam as ofensas corporais, os homicídios voluntários, as violações e os raptos.

Especialistas apontam causas

De acordo com especialistas, esses crimes pareciam pouco comuns em Angola, gerando, por isso, questões que inquietam as autoridades, em particular, e a sociedade, em geral.

Afinal, o que passa pela mente de um pai, tio, irmão, filho, neto (…) para chegar ao extremo de tirar a vida de um familiar de sangue, muitas vezes de forma brutal?

Como seguir adiante, depois de um acto hediondo perpetrado por familiares? Como olhar para os sobreviventes, depois de tais ocorrências?

Todos os dias, milhares de angolanos buscam respostas para essas questões, numa altura em que os números revelam um crescimento de casos pelo país.

Manuela Andrade, psicóloga, repudia essas práticas, uma vez que a família é um grupo de pessoas que devem conviver juntas, mesmo quando há os problemas do dia-a-dia.

Já Jorge Van-Dúnem, sociólogo, afirma que a sociedade precisa de trabalhar para promover o amor e o diálogo na vida familiar”. Só assim, diz, haverá menos mortes. 

O académico aponta a falta de emprego e de perspectiva de vida como factores que, por vezes, podem levar o ser humano ao cometimento de crimes hediondos.

Já o padre Cândido Manuel chama atenção para a necessidade de o lar servir de local de formação de pessoas, pelo que encoraja o diálogo e a tolerância.

A propósito, o assistente social Eanes Chisselele acredita que os crimes de homicídio envolvendo pessoas da mesma família acontecem por várias causas, particularmente a pobreza.

"Isso leva as pessoas a encontrarem falsos culpados, recorrendo, por isso, a fontes obscuras, para acusar as crianças, os pais e os avós de feiticeiros e culpados dos males que acontecem", expressa.

Do seu ponto de vista, uma forma de reverter essa situação é a sensibilização social, principalmente das famílias.

"Neste papel, devem estar sociólogos, psicólogos, mas sobretudo a igreja e o Estado, que devem unir-se cada vez mais para traçar planos conjuntos a nível das comunidades", remata.

O encarregado de educação Esmael Silva entende que os casos de crimes hediondos registados nos lares resultam de uma inversão de valores, que se está a perpetuar nas famílias angolanas.

Aponta, entre vários factores motivadores, a falta de afecto dos progenitores para com os filhos, tendo sublinhado a importância de se ensinar o amor ao próximo às crianças, para terem boa conduta.

"Temos de manter o diálogo na família, de forma que os mesmos não se desviem e caiam no vício das drogas, tornando-se psicopatas", comenta.

Esmael Silva lembra que este tipo de crimes (homicídios) já existem há décadas, mas a pouca informação disponível no passado não permitia que todos tomassem conhecimento deles.

"Hoje, com o acesso à informação, tudo vem à tona", expressa.

Para dar resposta ao problema, o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher desenvolve vários programas, com destaque para o projecto "Jango de Valores".

O programa visa sensibilizar as famílias para a necessidade de proteger a pessoa idosa, bem como diminuir a delinquência juvenil e os abusos contra crianças e mulheres (violação).

Apesar de serem entre familiares, essas acções delituosas que desestruturam dezenas de famílias enquadram-se nos crimes de homicídios (voluntários ou involuntários).

Para esse tipo de casos, o Código Penal angolano prevê duras penas, cuja moldura penal pode ir até 24 anos de prisão, podendo haver redução, em função das circunstâncias dos delitos.

Embora sejam penas aparentemente inibidoras, a realidade é que, nos últimos anos, em Angola, há mais familiares a "pisar a risca", interrompendo sonhos de parentes, que perdem a vida de forma repugnante.

Os crimes entre parentes assustam, sobretudo pelo "modus operandi" dos seus praticantes, deixando a sociedade em clima de medo permanente, com uma questão que todos podem fazer, mas ninguém consegue dar resposta imediata: quem será a próxima vítima?

Assuntos Angola  

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