Angop - Agência de Notícias Angola PressAngop - Agência de Notícias Angola Press

Ir para página inicial
Luanda

Max:

Min:

Página Inicial » Notícias » Sociedade

15 Março de 2020 | 18h45 - Actualizado em 16 Março de 2020 | 18h14

Mussulo, uma ilha, uma península, nem sempre um paraíso

Luanda - Sol ardente, água morna, praia limpa e serena é o "perpétuo" cenário da Ilha do Mussulo, um encanto natural que atrai muitos turistas, sobretudo em fins-de-semana, em oposição às precárias condições das suas populações.

Envia por email

Para compartilhar esta notícia por email, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Corrigir

Para reportar erros nos textos das matérias publicadas, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

1 / 1

Complexo escolar 9044 da comuna do Mussulo

Foto: Rosário dos Santos

Casa precária no Mussulo

Foto: Rosário dos Santos

Por Moisés da Silva

À primeira vista é de um “paraíso”, tendo em conta a vasta extensão de areia branca, o verde dos coqueiros ao longo dos seus 75 quilómetros de extensão, as luxuosas casas e os aprazíveis restaurantes e resorts à beira mar, que “disfarçam” a existência de casebres e uma vida “nada boa”.

Essa é a imagem do Prior, uma das nove povoações do Mussulo, por sinal a zona mais movimentada e principal ponto turístico dessa península que, paradoxalmente, não tem estradas, água potável, energia eléctrica nem serviços de táxi. É um bairro pequeno, monótono e pobre, com apenas duas escolas da primária e primeiro ciclo de ensino e um único hospital público.

No local, apenas veículos motorizados à tracção conseguem circular. Não há supermercados nem uma praça de venda, o que leva os moradores a gastarem mil kwanzas/dia, no mínimo, para a travessia de barco em busca de alimentos, água, gasolina para geradores, entre outros bens e serviços, incluindo emprego e formação média e superior.

A falta de iluminação pública, recintos desportivos, biblioteca, centros de formação profissional, entre outros atractivos extra-praia, é outro aspecto que não abona a localidade, fazendo muitos jovens (homens e mulheres) enveredam por práticas abomináveis.

O Prior alberga a Administração Comunal, o Comando dos Bombeiros, a Polícia Fiscal e a Capitania, instituições que garantem o funcionamento de todo arquipélago e a ordem e segurança marítima.

Mas tal como as demais povoações da ilha, o bairro carece projectos específicos e exequíveis, compatíveis com as suas características, particularidades e complexidades, por exemplo grupo geradores, projectos específicos e exequíveis, defende o administrador comunal do Mussulo, Francisco de Lemos.

Investimentos chegam à “conta gotas” 

Trinta e três resorts, sete restaurantes e 56 cantinas são os estabelecimentos de referência em todo esse espaço, que, ainda este ano, pode ganhar a primeira biblioteca (na povoação do Prior), com milhares de livros com variedade temática, num investimento da empresária Isabel Maria Pontes.  

“A intenção é contribuir para o nível de conhecimento da comunidade, fomentar o gosto pela leitura e inibir a população de atravessar o mar para ter acesso a determinados conteúdos académicos ou científicos”, argumentou a luso-angolana residente na localidade há 20 anos.

A propósito, o administrador louvou a iniciativa e disse receber esporadicamente solicitações de empresários angolanos e estrangeiros, para investir muito mais na área da restauração, pelo que apela a projectos voltados também à cultura, saúde, educação e pescas.

Reconheceu que, pelo tempo de existência de impetuoso interesse turístico, o Mussulo está “atrasado”. É altura de se requalificar essa circunscrição, transformando-a em verdadeira vila turística que dê dignidade aos habitantes.

“Para vitalização da península, precisamos ter aqui estradas, saneamento básico, energia eléctrica, água potável, lojas, recintos desportivos e culturais, uma ponte entre as duas margens do mar, institutos médios, universidades e hospitais de referência”, enumerou.

De acordo com o administrador (nomeado para o cargo em Novembro), as estradas são essenciais para unir todas as comunidades locais, tendo em conta que, “infelizmente a mobilidade na circunscrição ainda é um grande transtorno tanto para as autoridades tanto para as populações”.

Francisco de Lemos augura que o Mussulo venha a ser um “paraíso de facto”, num futuro breve, através de acções e esforços combinados do Governo Central, do Provincial de Luanda, das administrações municipal do Talatona e comunal, assim como das próprias comunidades.

Neste momento, informou, está-se a implementar um projecto de combate à pobreza, consubstanciada na terraplenagem de estradas, atribuição de instrumentos e sementes agrícolas a famílias camponesas, enquadramento de jovens em cursos técnicos, sobretudo ligados à pesca, na Cefopesca.

De igual modo, acrescentou, a Administração está a instalar/abrir furos em alguns pontos para facilitar a distribuição de água às comunidades, numa altura em que os próprios habitantes estão a despertar para se inserir no mercado do emprego e contornar as adversidades sociais.     

Monotonia assola moradores

Os moradores vivem diariamente na monotonia. Os homens ocupam os tempos livres jogando “Não te irrites”, carta, xadrez, dama e futebol em espaços arenosos e debaixo de intenso sol/calor. Já as mulheres se limitam a trançar-se e à qualquer venda.    

“A ilha tem como maior atractivo o mar, mas os seus acessos não são tão adequados. E em termos de infra-estruturas, qualidade de vida e emprego é nula, daí que a maioria dos rapazes se dedica à pesca e ao “barco-taxi”, enquanto as senhoras arrojam-se em pequenos negócios”, explicou.

Outros perdem-se nas drogas, no álcool e noutro tipo de vida repudiável, segundo Paulo Benjamim, que apela à construção de centros de formação técnico-profissional e de infra-estruturas que fomentem o emprego e entretêm idosos e crianças.

Por sua vez, Carlos Clemente exorta a Administração a promover iniciativas que facilitam a inclusão social dos jovens.

Lamenta a inexistência de salas de eventos culturais e de pontos de venda de jornais para se inteirarem sobre Angola e o Mundo.

Para este povo, as noites são sofríveis por causa da escuridão que se instala todos os dias a partir das 19h00, inibindo-os de saírem de casa. Uma monotonia e tanto, agravada com a proibição de se atravessar o mar no período nocturno e quando chove.

A falta de bancos e outras instituições financeiras é outro transtorno para os moradores, que talvez seja resolvido com a materialização do “Plano Director” para essa localidade. Tudo depende de dinheiro e condições técnicas, desde 2019.

Segundo o administrador comunal, esse Plano (em estudo pelo GPL) vai ajudar a dirimir a imagem contrastante à parte litoral e ao interior do Mussulo, onde há casas soterradas e áreas a resistirem à desertificação graças a fortes cortinas de coqueiros e plantas Casuarinas e Tamarix.  

“Uma ilha como essa, se tivesse energia e água canalizada seria uma mais-valia. Porém, vamos trabalhar para transformar o Mussulo num recinto de consolo de orgulhar a todos os angolanos, com serviços integrados e novos motivos de atracção de turistas”, confortou Francisco de Lemos.

Turismo é chamariz e vanguarda

Entre os motivos para embarcar neste recanto de paz e diversão, o turismo centraliza as atenções, movimentando, em média, aos finais de semana (sexta-feira, sábado e domingo), 15 mil visitantes, ávidos de mergulhar nas águas calmas da baía e relaxar na areia branca.

“Sobre o Mussulo não se pode só falar de problemas, pois, é uma zona balnear adorável com um potencial muito forte para o turismo. É uma ilha que tem como principais atractivos as praias, todas elas muito interessantes e atraentes”, descreveu o seu gestor.

Além da prática de desportos aquáticos (natação, surf, corrida ou passeio de motos, lanchas e jet ski), a apetência da exposição ao sol ardente e calor intenso, devidamente bronzeado, influência muitas pessoas a afluírem a este local singular e convidativo.

Em virtude da tranquilidade, da história e outras particularidades da ilha, o turismo religioso, académico e cultural também vão ganhando corpo, através de peregrinações, excursões para investigações científicas, piqueniques, bem como para gravação de vídeos clipes e documentários.

Tornou-se no “pólo turístico” mais aprazível e concorrido da metrópole de Angola, acolhendo pessoas de todas idades e sexo, algumas das quais com preferência pela “Ponta”, um cabo de areia arredondado, com lagoas de água do mar, feitos piscinas naturais.

É uma área de lazer e recreação, onde muitos aproveitam praticar futebol de praia, voleibol, exercícios físicos, desportos acrobáticos e de luta (judo, Capoeira, karaté, Jiu Jitsu e Tai Kwandó), assim como andar de Moto 4 na areia ou aventurar-se em canoagem, iates ou barcos à vela.

Garcia Júnior, frequentador assíduo do local, qualifica o Musssulo como “lugar sem igual, comparado a muitos encantos naturais mundiais”,  onde  passa a maior parte do tempo livre com a família, quebrando a rotina semanal.

“É um bom sítio para se espairecer, comer e conviver com a família e amigos. Mas é claro que precisa de mais investimentos, regulação dos preços exorbitantes nos albergues, resorts e restaurantes, o que de certo modo, afugenta turistas”, expressou o funcionário público.

Segundo apurou a Angop, um prato dos mais baratos, a exemplo do bitoque, custa sete mil kwanzas; um refrigerante, 800 a mil kwanzas; copo de fino normal, AKZ 1400; água pequena, 500 kwanzas; a diária em quartos de casal e de solteiro, 65 e 40 mil kwanzas, respectivamente.

Uma Ilha histórica e peculiar

O Macoco, Buraco, Cambache, Farol, Mussulo Centro, Tapo, a Ponta da Barra e a Contra Costa são as restantes povoações dessa zona de relaxe, composta por três ilhas e um ilhéu: a Ilha da Cazanga (ou Ilha dos Padres), a Ilha do Desterro, a Ilha da Quissanga e o Ilhéu dos Pássaros.

Cinco escolas públicas asseguram a educação/formação de cerca de dois mil 661 alunos no presente ano lectivo, da primeira à nona classe. Estas instituições de ensino estão distribuídas pelo Buraco (nº 9042), Zanga (9043), Prior (9044), Ponta da Barra (9045) e Mussulo Centro (9046).

Na região existem escolas privadas, quatro postos médicos e um centro de saúde razoáveis, que dependem de mão-de-obra externa. São professores, médicos e enfermeiros que mensalmente gastam pelo menos 30 mil kwanzas entre o táxi e a travessia até ao serviço e vice-versa.  

Também chamada de Fundão da Bumba, “a Baia do Mussulo” é um “acidente geográfico” localizado em frente às cidades de Luanda, Talatona e Belas, na parte ocidental do país, a cerca de 20 quilómetros a sul do centro da capital, com uma relevante história.

Nesse sistema insular, segundo testemunhos, desenrolou-se uma parte importante do tráfico negreiro da região de Luanda: Tanto a Ilha dos Padres (Cazanga) como a Ilha do Desterro serviram de prisão e centro de tortura de escravos africanos, até ao século XIX (19).

E mais tarde, com a oficialização da abolição da escravatura por Portugal, em 1869, estes lugares transformaram-se em esconderijo aos traficantes que continuaram a enviar, durante um tempo, escravos angolanos para o outro lado do mar (Oceano Atlântico), mormente para a América.

Apesar de não ter uma data simbólica de comemoração, contabiliza quatro séculos de existência, tantos quantos tem a província de Luanda, que no dia 25 de Janeiro do presente ano assinalou 444 anos.

Como em qualquer ilha, a costa do Mussulo joga um papel importante na economia local. Os Akwa Zanga (gentes do mar) têm na pesca a principal fonte de subsistência: enquanto os homens fazem-se ao mar em embarcações, as mulheres dedicam-se à salga do peixe, e a ÁguaGeste à recolha do lixo.

No todo, a comuna do Mussulo, que se esmera para ascender a Património Mundial da Humanidade, conta com cerca de 12 mil 694 habitantes, entre nativos e oriundos do Uíge, Bié, Zaire, Cuanza Sul, Cuanza Norte, Huambo, da Huila, de Benguela, Malanje e Cabinda.   

É um verdadeiro oásis que atrai qualquer classe e nacionalidade, e com muito potencial por se explorar, particularmente no seu interior, onde as condições de habitabilidade e a segurança pública devem ser melhoradas para combinar com o vislumbrar do seu cordão litoral.

Assuntos Turismo  

Leia também
  • 31/10/2019 16:22:18

    Lunda Norte quer rentabilização da lagoa de Carumbo

    Dundo - Os participantes no primeiro workshop de consulta pública para a transversão da lagoa de Carumbo, uma das sete maravilhas de Angola, promovido pelo Ministério do Ambiente, recomendaram, nesta quinta-feira, ao governo, políticas para rentabilizar o local, tendo em conta o seu potencial turístico.

  • 27/04/2017 05:58:43

    Huíla: Governo agenda actividades culturais e turísticas para promover província

    Lubango - O governo provincial da Huíla vai realizar actividades culturais e turísticas para promover a imagem da província, durante a realização do campeonato africano de Boxe da Zona IV, que se inicia nesta quinta-feira, na cidade do Lubango.

  • 06/09/2015 13:22:32

    Angola: Peregrinação à Muxima representa turismo religioso - diz gestor hoteleiro

    Muxima - A peregrinação ao Santuário da Muxima, sita na vila com o mesmo nome, município da Quiçama, a cerca de 120 quilómetros a leste da cidade capital, Luanda, representa actualmente um turismo religioso que deve se ter em conta, face a diversificação da economia angolana, admitiu hoje, domingo, um dos responsáveis hoteleiros desta circunscrição Jerónimo de Almeida.