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26 Julho de 2020 | 08h40 - Actualizado em 25 Julho de 2020 | 22h46

Principais causas da cisão na IURD

Luanda - A crise na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) em Angola resulta de profundas divergências entre pastores e bispos angolanos e brasileiros sobre a gestão dessa instituição religiosa, com a ala angolana a queixar-se de humilhações, injustiças e discriminação.

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Huíla: Templo da IURD no Lubango

Foto: José Filipe

Instalado em 28 de Novembro de 2019, com a divulgação de um manifesto crítico à direcção da igreja no Brasil, o conflito agudizou-se em Junho deste ano, quando pastores e bispos de ambas alas se envolveram numa intensa troca de acusações e agressões físicas.

Desde a ocorrência, registada em diversas províncias do país, a parte angolana assumiu o controlo de dezenas de templos. 

Na altura em que se deu o primeiro sinal da crise, 320 pastores e bispos acusaram a ala brasileira de várias irregularidades e, a partir daí, a situação degenerou num braço-de-ferro pela liderança da IURD no país. 

Dos principais factores do conflito saltam à vista, segundo o manifesto, a exigência da prática da vasectomia aos pastores angolanos, abortos forçados, racismo, alienação de mais de metade do património da igreja, branqueamento de capitais, e evasão de divisas para o exterior do país. 

O manifesto denuncia ainda a falsificação da acta de eleição de órgãos sociais da IURD, a emissão de procurações com plenos poderes a cidadãos brasileiros para exercer actos reservados à assembleia geral.  

Constam ainda das acusações a proibição às mulheres de pastores de terem acesso à formação académico-científica e técnico-profissional, irregularidades no pagamento da segurança social e falta de projecto de desenvolvimento pastoral em formação teológica específica.  

Outro motivo evocado é o incumprimento do papel social. A título de exemplo, o pastor Jimi Cardoso, porta-voz da parte angolana, afirma que a congregação detém 270 templos a nível nacional, mas não possui qualquer infra-estrutura social, como escolas e hospitais. 

"A IURD em Angola não tem cumprido o seu papel como parceira do Estado, visto que, até ao momento, não tem nenhuma escola de raiz, universidade ou posto médico", ressaltou, em recente entrevista à ANGOP, realçando que são arrecadados, regularmente, valores monetários consideráveis nos cultos e em outras sessões espirituais, "que não beneficiam o povo angolano". 

A parte angolana, liderada pelo bispo Valente Bizerra, vice-presidente da congregação, denuncia que essa prática resulta de uma orientação do líder fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, bispo Edir Macedo, e, por isso, segundo Jimi Cardoso, as instalações da igreja foram tomadas para que a IURD cumpra, efectivamente, com o seu papel social enquanto parceira do Estado. 

O pastor revela que a parte angolana tem o controlo de 42 por cento das instalações da igreja, designadamente em Luanda, Benguela, Huambo, Malanje, Namibe, Lunda Norte e Cuanza Sul, de um total de 270 templos de luxo erguidos pelo país. 

Critérios de distribuição de bens materiais

Embora a evasão de divisas para o Brasil seja uma das maiores preocupações, a ilação que se pode tirar dos diversos pronunciamentos públicos dos pastores, bispos e fiéis é de que a questão de fundo tem a ver com os critérios de atribuição de privilégios e regalias. 

Os angolanos queixam-se de desigualdades e favorecimento aos brasileiros, a quem são destinadas as melhores igrejas, remunerados com bons salários e dados carros modernos, de acordo com Jimi Cardoso. 

Esta versão parece ter sustentação, havendo quem alvitre que a prática da vasectomia  (método contraceptivo para homens) para evitar que os pastores angolanos tenham filhos, algo contra o princípio divino da procriação, é uma estratégia que visa reduzir gastos com enormes agregados familiares.  

De acordo com o porta-voz da parte angolana, numa entrevista ao Jornal de Angola, a partir do momento em que a IURD começou a tornar-se próspera, quanto ao número de seguidores e aos bens materiais, implementou-se a prática da vasectomia como um meio de coacção para o pastor que quisesse casar ou ascender no seu ministério, uma vez que "a Igreja tem níveis ou escalões de pastores".

Na óptica de Jimi Cardoso, a necessidade de se evitar o rombo nos cofres da IURD com uma elevada despesa com agregados familiares extensos, pode estar na base da decisão,  porquanto é mais fácil mover um casal do que uma família com filhos, tendo em conta que o trabalho dos missionários envolve deslocações para outras localidades.

Perante essas acusações, os bispos brasileiros defendem-se, alegando tratar-se de ataques xenófobos perpetrados por supostos ex-pastores angolanos desvinculados da instituição, por desvio moral, de conduta e práticas criminosas. 

Garantem que a IURD não discrimina ninguém, todos são iguais e têm os mesmos direitos, e que quando o objectivo do pastor deixa de ser o de ganhar almas e passa a ser o de olhar para si mesmo, acontece o que se está a verificar, acusando a ala reformadora como um grupo que almeja ter o controlo da igreja com propósitos escusos. 

Por via da TV Record Angola, a parte brasileira diz tratar-se de uma “campanha” pública contra a liderança brasileira, acusando os angolanos de agredir pastores e suas esposas, bem como funcionários da igreja. 

Contornos político-diplomáticos 

O caso ganhou contornos político-diplomáticos e dimensão nacional e internacional.

É que a IURD possui um forte lobby no Brasil e em Angola e tem exercendo "chantagem" e a sua influência sobre o poder político brasileiro, e não só, no sentido de pressionar as autoridades angolanas a intervirem.  

Na sua ofensiva, a liderança da IURD no Brasil optou, inclusive, pela “diabolização” dos pastores angolanos, assim como do Estado angolano, denegrindo grosseiramente a sua imagem.

É neste contexto que a diplomacia brasileira, senadores e congressistas, bem como a família do Presidente Jair Bolsonaro decidiram envolver-se num assunto de cariz meramente sócio-cultural, tomando contornos políticos, com a intervenção dos dois Estados. 

Face às divergências e à falta de entendimento entre as partes, já há quem fale na "angolanização" da Igreja Universal em Angola, mas, por agora, aguarda-se pelo resultado de uma petição e denúncia feitas à Procuradoria Geral da República (PGR), há sete meses. 

O problema da IURD em Angola, que conta com 512 pastores, dos quais 419 angolanos, 65 brasileiros, 24 moçambicanos e quatro são-tomenses, está a ser acompanhado pelo Governo angolano, que espera pela conclusão do processo-crime promovido pela PGR e pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC). 

Uma coisa é certa, a soberania de um país não pode ser posta em causa por caprichos de quem quer que seja. Ademais, existe um princípio basilar de que nenhuma religião que se implante num determinado país deve impor a sua cultura e valores, pisoteando e descaracterizando a identidade cultural do seu povo. 

Histórico de investigações 

Não é a primeira vez que a IURD é investigada pelas autoridades angolanas.  

Em 2013, na sequência da morte de 16 pessoas e do ferimentos de mais de 120 outras numa vigília realizada em 31 de Dezembro de 2012, no Estádio da Cidadela, em Luanda, foi instaurado um inquérito a essa instituição e determinada a suspensão temporária das suas actividades.

Denominada "O Dia do Fim", a vigília tinha como finalidade decretar o fim de vários problemas sociais,  como doenças, miséria, desemprego, feitiçaria, inveja, problemas familiares, separação de casais, dívidas e afins.

Seis pastores brasileiros indiciados foram julgados em 2015, acabando todos por ser  absolvidos, por falta de provas sobre sua responsabilidade na tragédia. 

A Igreja Universal do Reino de Deus tem um histórico considerável de escândalos no Brasil e noutras partes do Mundo, como na Bélgica, Estados Unidos da América, Reino Unido, Madagáscar, Zâmbia e São Tomé e Príncipe, alguns deles julgados, inclusive, em tribunais comuns.

Dentre as acusações mais frequentes destacam-se actividades ilegais, incluindo lavagem de dinheiro, evasão de divisas e subalternização dos pastores, bispos e fiéis dos países em que a igreja se instala, numa atitude desafiadora e desrespeitosa das leis locais.

O princípio de que quem mais dinheiro colecta recebe prémios, como casas maiores e luxuosas, carros melhores, faz igualmente parte das acusações, assim como a extração de dinheiro dos seguidores para enriquecer líderes brasileiros, ao invés de ajudar pessoas carenciadas.

Em todos os escândalos, as autoridades dos países em que os mesmos ocorreram posicionaram-se de forma a proteger os legítimos interesses públicos, em detrimento dos particulares, e, ao agir assim, procuraram apenas garantir a soberania dos respectivos Estados.

É, pois, esse o mesmo caminho que Angola pode vir a seguir, se estiver em causa a defesa da sua soberania. Afinal, o princípio constitucional da laicidade não dá a nenhuma organização religiosa, seja ela qual for, o direito de impor regras ao Estado. 

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