Angop - Agência de Notícias Angola PressAngop - Agência de Notícias Angola Press

Ir para página inicial
Luanda

Max:

Min:

Página Inicial » Notícias » Saúde

03 Junho de 2020 | 19h05 - Actualizado em 04 Junho de 2020 | 12h27

Covid-19: O descaso perigoso

Luanda - Quando o perigo se aproxima e o risco de morte bate à porta, a primeira providência deve ser, imediatamente, a prevenção. Desde a meninice, aprendi, com um velho provérbio popular, que "mais vale prevenir do que remediar".

Envia por email

Para compartilhar esta notícia por email, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

Corrigir

Para reportar erros nos textos das matérias publicadas, preencha os dados abaixo e clique em Enviar

1 / 1

Cidadãos de Luanda fazem comércio sem obedecer às medidas de biossegurança

Foto: Pedro Parente

Cidadãos aglomeram-se no Mercado do Peixe, em Cacuaco, sem cumprir com o distanciamento social, em época de Covid-19

Foto: Pedro Parente

(Por Elias Tumba, editor-chefe da ANGOP)

A prevenção é, nada mais, nada menos, do que um conjunto de acções levadas a cabo, para proteger o indivíduo de um mal ou dano. Em outras palavras, pode-se entender como o conjunto de práticas de análise e controlo dos riscos, desenvolvidas de forma continuada.

A palavra prevenção deve fazer parte do léxico de cada um, em todos os momentos da vida, quanto mais não seja, agora que o mundo atravessa uma das piores crises sociais e económicas desde a II Guerra Mundial, causada pelo novo coronavírus (Covid-19).

Com o surgimento "desse agente invisível", que já infectou mais de 6,5 milhões de pessoas em todo o mundo, deixando um rasto de mais de 300 mil mortos, prevenir passa a ser, em todas as latitudes e circunstâncias, uma obrigação dos Estados.

Conforme especialistas, a verdadeira prevenção "assenta no combate ao risco", ou seja, na sua origem, pelo que "não se trata de combater os efeitos do risco, mas o factor que origina o próprio risco". Por isso, considera-se um processo sempre inacabado.

É por essa via que se busca uma eficácia cada vez maior no combate ao risco, no caso específico, à pandemia, mediante a qual se poderão obter resultados animadores ou desastrosos, caso esse princípio de saúde venha a ser negligenciado pelas sociedades.

No caso específico de Angola, a prevenção contra o novo coronavírus impõe-se, não havendo espaço para descasos e acções descoordenadas que podem levar ao caos.

Desde finais de Março último, altura em que surgiu o primeiro caso positivo de Covid-19 no país, as autoridades desenvolvem um trabalho didáctico intenso, levando às comunidades mensagens diárias sobre como se pode evitar a contaminação.

Mas, volvidos três meses, a mensagem junto do povo ainda não teve a eficácia desejada, isto é, quase não impacta nas comunidades, sobretudo aquelas dos bairros periféricos.

A estratégia do Executivo passa por encorajar a lavagem ou desinfecção constante das mãos, com água e sabão ou álcool em gel, para além do uso de máscaras e do distanciamento físico, práticas fundamentais na estratégia de prevenção e combate à pandemia.

O apelo à lavagem das mãos com água e sabão já até se "reproduz", de forma quase automática, na mente de grande parte dos cidadãos, sobretudo os das grandes cidades.

Trata-se, pois, de uma questão de higiene pessoal e colectiva, a qual nenhum Estado, nessa altura, deve negligenciar, sob pena de acarretar um pesado fardo de infectados.

Entretanto, muitas questões se colocam a esse respeito, tendo em conta que várias  sociedades do "primeiro mundo" cumpriram com alguns desses pressupostos, mas, ainda assim, fracassaram na estratégia de prevenção, estando com altas taxas de mortes.

Nesses países, com excelentes condições de saneamento básico e alto nível de instrução, os sistemas de saúde colapsaram, apesar dos reiterados apelos para os cuidados permanentes com as mãos, para o uso de máscaras e para o distanciamento físico.

Nos casos vertentes, particularmente dos EUA, do Brasil e da Itália, bastou um simples descaso da situação, por parte das sociedades, na fase inicial da pandemia, para o caos se instalar.

Diante dessa constatação, fica claro que a estratégia para se contornar o vírus não passa só por mandar lavar as mãos com água e sabão ou desinfectar com álcool em gel.

No mesmo sentido, também não passa por apelar ao uso de máscaras, para o distanciamento entre as pessoas ou ensinar a usar lenço na hora de tossir e espirrar.

A prática demonstra que todos esses passos são fundamentais para travar a propagação do vírus, mas só se tornam eficazes se cumpridos de forma rigorosa e disciplinada.

O segredo está numa combinação de factores, que vão desde as medidas sanitárias até ao lado mais pessoal do indivíduo: a consciência. É aí que Angola tem grandes desafios.

A questão da falta de consciência, de responsabilidade e amor ao próximo afigura-se, por essa altura, o maior factor de risco para a proliferação da Covid-19, em Angola.

A consciência é tão importante quanto lavar as mãos com permanência, sendo que a falta de uma pode condicionar a outra, se esse binómio não for bem equacionado.

Se, por um lado, a prática de lavar e desinfectar as mãos foi tão bem acolhida pela sociedade, por outro, o mesmo já não se pode dizer em relação à observância regular do uso de máscaras.

Este é um problema com o qual Angola se debate, numa altura em que faz o desconfinamento gradual, para salvar a economia, já bastante fragilizada, desde a crise petrolífera de 2014.

O recurso a esse meio de prevenção (máscara) no país é cada vez mais necessário, atendendo à iminente contaminação comunitária, que, a julgar pelas más práticas observadas nas ruas e nos estabelecimentos públicos, pode vir a ocorrer bem antes do que se desejaria.

Infelizmente, essa é a realidade, ainda que muito nos custe admitir. Para comprovar isso, basta andar pelos subúrbios de Luanda, pelos mercados informais, pelas paragens de táxi e de autocarros, para ver o descaso da população.

Quem anda pelo país, com os "olhos abertos", facilmente nota que as máscaras, em muitos casos, não existem, e, quando existem, são usadas de forma inadequada.

Dos mercados às instituições públicas, nota-se gente que não se importa em partilhar o mesmo espaço com outras pessoas, sem, ao menos, cobrir o rosto.

É triste ver que grande parte das pessoas usa a máscara abaixo do queixo, enquanto outros protegem a boca, mas deixam o nariz descoberto e vulnerável à contaminação.

Mas, afinal, qual a razão de a OMS ter recomendado o uso de máscaras e de o Governo o ter tornado obrigatório em locais públicos, ao abrigo do Decreto Presidencial que dá corpo à Situação de Calamidade Pública, em vigor desde 26 de Maio?

A resposta a essa pergunta é bastante simples - o vírus pode ter como porta de entrada, no corpo humano, três órgãos importantes: a boca, o nariz e os olhos.

Na maioria das vezes, é pela boca e pelo nariz que encontra "terreno fértil" para se alojar no organismo, causando, em pouco tempo, sintomas que podem levar à morte.

Por isso, para aqueles que negligenciam esse equipamento, saibam que de nada valerá lavar as mãos de minuto a minuto, se saírem à rua sem máscaras ou usá-las de forma inadequada em aglomerados populacionais, ou seja, com a boca e o nariz descobertos.

Nessas situações, de extremo risco, bastará um espirro na face ou perto dela, por algum cidadão infectado, para todo trabalho de prevenção individual (lavagem das mãos) ir por terra.

O uso de máscaras é tão importante quanto ter as mãos limpas e simboliza amor ao próximo que, dessa forma, pode ser protegido da contaminação.

O equipamento não precisa de ser usado 24/24 horas, só em instituições públicas, em locais de grande circulação, ou diante de cidadãos suspeitos ou infectados.

Outra nota que precisa de ser suficientemente explicada à população é como o coronavírus pode contaminar pelos olhos, visto que até os mais precavidos e prevenidos cidadãos (leigos) não têm como manter as vistas encobertas.

Ante essa realidade, o Executivo deve instruir sobre o que se precisa de ser feito, para não ser por esse importantíssimo órgão do corpo humano que a sociedade se venha a infectar em massa, jogando por terra todo um trabalho de dois  meses, aparentemente de sucesso.

Digo aparentemente, porque o país já tem dezenas de assintomáticos controlados pelo Estado, podendo, eventualmente, haver centenas, quiçá até milhares, espalhados pelas ruas, sem se quer apresentarem qualquer quadro suspeito.

Face a essas incógnitas, o sentimento de responsabilidade pessoal deve imperar. Doravante, todos devem desconfiar de todos, não importando o grau de parentesco ou familiaridade. Ao simples sinal suspeito, o recurso à máscara terá de ser imediato, até em casa.

Diante de quadros suspeitos em domicílio, deve-se comunicar às autoridades competentes o quadro clínico dos ente-queridos, para eventuais testes de despistagens, sobretudo nessa fase de cacimbo em que começam a surgir gripes, tosses e resfriados em massa.

Toda a combinação de gripe, tosse, falta de ar (prolongada) ou outros sintomas associado à Covid-19, nessa altura, deve ser suspeita e passível de avaliação.

Só assim, o país poderá cortar a cadeia de transmissão local e evitar a comunitária, particularmente entre os vizinhos, familiares, parentes, colegas e visitantes ocasionais, que partilham cama e mesa, sem saber que o vírus pode estar bem perto.

É essa, a meu ver, a nova abordagem que as autoridades precisam de fazer, para despertar a sociedade sobre o facto de que o país corre um sério risco, se o povo continuar a brincar.

Queira-se ou não aceitar, aquilo que se assiste nas ruas, especialmente na capital, leva a afirmar que a maior parte dos cidadãos está a negligenciar a Covid-19.

Se, a tempo, o Governo não reverter essa tendência, pagará um fardo pesado, pelo que  precisa, urgentemente, de alterar a sua abordagem junto da população, saindo do mero lavar as mãos permanentemente, com água e sabão, e usar máscaras.

Precisa, antes, de endurecer o discurso e dizer as coisas tal como são, mostrando à população que o coronavírus mata e não poupa todos aqueles que o negligenciam.

Foi assim na Itália, nos EUA, no Brasil e em outros Estados que, só depois de se verem em apuros, olharam com os olhos de ver para o vírus.

A mudança de abordagem justifica-se ainda mais agora, que já se sabe haver em Luanda, dezenas de cidadãos assintomáticos, que se misturam com outros milhares, nas praças, nos táxis, autocarros, nas fábricas, indústrias e na rua.

Aparentemente, os assintomáticos deviam ser um grupo com o qual ninguém se devia preocupar. Mas, no caso da Covid-19, não é bem assim. Eles sã os piores multiplicadores do vírus, contaminando em cadeia milhares de humanos.

Diante disso, a atenção aos assintomáticos deve ser redobrada, para reduzir a cadeia de  contaminação, sob pena de causarem um contágio tão grande, capaz de levar o sistema de saúde à saturação, como já se vê na Europa, América e na Ásia.

É sobre esses que o Estado angolano deve dedicar especial atenção, aumentando o mais rápido possível a testagem aleatória nas comunidades e nas unidades hospitalares de referência, e não só, sobretudo aos pacientes acometidos com doenças respiratórias.

Só com essa combinação de factores o povo perceberá, de forma objectiva, que não basta lavar as mãos e usar máscara para vencer a Covid-19.

É preciso muito mais: força de vontade, responsabilidade pessoal, amor ao próximo e, acima de tudo, o cumprimento escrupuloso das normas impostas pelo Governo.

Sem isso, serão favas contadas e Angola não precisa de favas. O país precisa de acções, de medidas duras e "draconianas", se necessário for, para ganhar essa guerra.

O Estado deve fazer a sua parte, fiscalizando o povo nas suas "transgressões", afinando a sua mensagem sobre como se contrai o vírus e punindo quando tiver de punir. Não pode haver relaxamento. A luta é de todos nós. Só assim sairemos vitoriosos.

Leia também
  • 03/06/2020 23:46:17

    COVID-19: Síntese Nacional

    Luanda - Angola manteve, pelo terceiro dia consecutivo, o registo de 86 casos positivos do novo coronavírus (covid-19).

  • 03/06/2020 19:12:25

    Covid-19: Angola há 72 horas sem novos casos positivos

    Luanda - Pelo terceiro dia consecutivo, o quadro epidemiológico angolano mantém-se inalterado, com o registo de 86 casos positivos de covid-19.

  • 03/06/2020 17:37:57

    COVID-19: Casos positivos no Kwango redobram atenção da Lunda Norte

    Dundo - Os dois casos positivos confirmados da covid-19, na província do Kwango, República Democrática do Congo (RDC), que faz fronteira com os municípios do Cuilo, Caungula e Cuango, Lunda Norte (Angola), obriga o governo local a redobrar a atenção nessas circunscrições.