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16 Agosto de 2019 | 13h57 - Actualizado em 16 Agosto de 2019 | 16h51

Josefa Sacko encoraja jovens mulheres a enfrentar desafios

Luanda - Josefa Sacko é uma angolana que ao longo destes anos vem ganhando notoriedade e aumentando o seu prestígio em organizações internacionais. Em Março, foi eleita uma das cem Pessoas Mais Influentes na Política Climática em 2019, numa lista que inclui políticos, funcionários públicos, académicos e activistas. Actualmente figura da lista inaugural das 100 Mulheres Africanas Mais Influentes.

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Josefa Sacko, comissária para a Economia Rural e Agricultura da Comissão da UA

Foto: Cedida

É sobre o seu percurso, que a actual comissária para a Economia Rural e Agricultura da União Africana (UA) concedeu a seguinte entrevista à Angop:

ANGOP - Qual é o sentimento, depois de ser indicada pela segunda vez, em apenas um ano, como uma das mulheres mais influentes de África?

Josefa Sacko (JS) - Em primeiro lugar gostaria de agradecer a ANGOP pela entrevista. Recebi a notícia com uma grande satisfação. É sempre uma honra quando outras pessoas reconhecem o mérito do nosso trabalho. África tem uma população de aproximadamente 1,2 bilhões de pessoas, onde 52 por cento é feminina. Deste universo, 100 foram escolhidas como mulheres mais influentes do nosso continente. É, para mim, um grande privilégio fazer parte deste “cluster” (grupo).

ANGOP - Como recebeu a notícia da nomeação pela Apolitical e Avance Media?

JS - Quando recebi a notícia da nomeação pela Apolitical, fiquei surpreendida, porque não tinha conhecimento desta instituição. Depois, abri o website da Apolitical para saber mais sobre a instituição e vi que a sua opinião é reconhecida a nível da comunidade internacional e tem credibilidade para avaliar personalidades que fazem a diferença em várias abordagens. Quanto à Avance Media, também não conhecia esta instituição, sendo a nossa edição a inaugural. Senti-me bastante prestigiada.

ANGOP - A Senhora sente que, com o trabalho que desenvolve na Comissão da União Africana, tem estado a inspirar novas gerações de mulheres?

JS - A União Africana é a primeira organização continental a instituir a paridade e, com isso, abre as portas para qualquer mulher na sua área de competência. Eu tento demonstrar às jovens mulheres que nos devemos sentir competentes para desempenhar a tarefa que nos foi confiada, e não ter complexo em relação aos homens. Quando temos competência na nossa profissão, não devemos tremer, mas mostrar resultados daquilo que desenvolvemos.

ANGOP – Sente-se uma pessoa realizada, com a sua chegada à Comissão da Economia Rural e Agricultura da União Africana (UA), depois de ter dirigido, durante 13 anos, a Organização Interafricana do Café?

JS – Sim, sinto-me realizada, por chegar à chefia da Comissão da Economia Rural e Agricultura da UA. Tenho uma grande paixão pelo sector agrário, devido à minha formação profissional. Chegar ao topo de um organismo como a União Africana é, para mim, uma total afirmação na minha carreira. Depois de 13 anos à frente da Organização Interafricana do Café, ganhei muita experiência no domínio das Organizações Intergovernamentais e também na diplomacia. Hoje, estou preparada para assumir qualquer posto nas instituições internacionais vocacionadas para o desenvolvimento.

ANGOP - Enquanto dirigente, em Angola, esperava um dia ocupar esses cargos a nível continental?

JS - Fiz quase toda a minha carreira na função pública; fui chefe de Departamento, directora no Ministério de Agricultura e na Secretaria de Estado do Café.

Devido à guerra e insegurança no nosso país, não tive muita oportunidade de trabalhar no campo. Assim, tendo em conta o meu potencial linguístico, fui proposta para directora do Gabinete de Intercâmbio Internacional da Secretaria de Estado do Café, onde comecei a participar nas negociações dos acordos comerciais da Organização Mundial do Comércio (OMC) e da Organização Internacional do Café, assim como no âmbito da cooperação multilateral, mormente da União Europeia (EU), Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), da SADC, do Banco Africano do Desenvolvimento (BAD), entre outros.

Ganhei bastante experiência nestas abordagens e, realmente, quis ocupar um lugar de destaque tanto na SADC, quanto na UA e nas Nações Unidas.

ANGOP - Como foi parar na Organização Interafricana do Café? Foi por candidatura individual ou por indicação do Governo Angolano?

JS - Fui transferida do Ministério de Agricultura para a ex-Secretaria de Estado do Café, e colocada no Gabinete de intercâmbio internacional, onde era directora de Gabinete. Tinha como mandato participar nas negociações do comércio internacional e dos acordos internacionais sobre as “commodities” em vários fóruns. Quando surgiu o anúncio sobre o posto de secretário-geral da Organização Interafricana do Café, sendo uma organização intergovernamental composta por 25 países africanos produtores de café, o Governo Angolano, na qualidade de Angola ser membro fundador, apresentou a minha candidatura.

ANGOP - Como comissária para a Economia Rural e Agricultura, que políticas traçou para África, em geral, e para Angola, em particular?

JS - Como comissária para a Economia Rural e Agricultura da Comissão da UA, o meu mandato é a implementação das políticas continentais definidas e adoptadas pelos Chefes de Estado e de Governo de África. Ninguém vai inventar a roda, uma vez que existe a agenda 2063 da União Africana que serve de roteiro para a implementação dos programas continentais.

A minha missão é alinhar as políticas e estratégias continentais a nível regional e nacional. No sector que dirijo, temos o programa principal, conhecido por Programa Detalhado de Desenvolvimento da Agricultura em África (PDDAA). Este programa tem sete pilares adaptados à Declaração de Malabo, sendo no seu quadro que emana o meu mandato. (A Declaração de Malabo, aprovada pelos Chefes de Estado e de Governo da UA, em Junho de 2014, deu um novo impulso ao Programa Integrado para o Desenvolvimento da Agricultura em África (CAADP), lançado em 2003).

Em relação a Angola, estamos na fase da domesticação deste programa no plano nacional de investimento. Este plano deve alinhar-se com o PDDAA, para atingir a transformação de Agricultura em África e garantir a auto-suficiência alimentar, reduzir a pobreza, triplicar o comércio intrafricano e criar resiliência no sistema produtivo e alimentar, assim como nas comunidades vulneráveis às alterações climáticas.

ANGOP – O que a União Africana faz para alcançar uma agricultura desenvolvida no continente, capaz de competir com os mercados americanos, asiáticos e europeus?

JS - A relevância da nossa agenda continental 2063, com os seus programas principais para a agricultura reside aí. Temos o PDDAA. Se todos os países africanos investissem 10 por cento no sector agrário, não estaríamos onde estamos hoje. A Declaração de Maputo de 2003 determina que cada Estado Membro da UA deve alocar 10 por cento das despesas públicas ao sector agrário, mas poucos são os países que o fazem. Os que aplicam têm melhor performance, segundo o nosso Relatório Inaugural de 2018 sobre a Performance dos Estados Membros em relação à Declaração de Malabo.

ANGOP - Quais são os grandes projectos da Comissão para que nos próximos 10 anos África possa dar um salto qualitativo e quantitativo na produção agrícola, sem ter necessidade de fazer recurso à importação de alimentos como o arroz e o trigo?

JS - Para invertermos esta tendência, os Estados Membros da UA devem implementar o PDDAA, programa bastante completo, que prevê melhorar a produtividade, diversificar as culturas, para garantir a segurança nutricional, o melhoramento dos solos, a mecanização agrícola, a irrigação, o agro-negócio e a agricultura inteligente. Quanto à redução da factura de importação, que é de cerca de 35 mil milhões de dólares por ano, o meu departamento, junto com o Banco Africano de Desenvolvimento, está a elaborar a iniciativa sobre a agro-indústria, polo-industrial e agro-parques, para o lançamento da auto-suficiência alimentar no domínio do arroz e do trigo.

ANGOP - Pela experiência que acumula, em que segmento da produção agrícola acha que Angola devia tirar melhor proveito?

JS - Angola tem a vantagem comparativa de ter terras aráveis, bacias hidrográficas e clima para alavancar a produção agrícola. A nossa prioridade deve ser a auto-suficiência alimentar e nutricional. A produtividade da nossa força de trabalho depende da disponibilidade da alimentação nutricional.

ANGOP - Em que lugar coloca Angola, comparativamente a outros países, em termos de produção agrícola?

JS - Na cimeira de Chefes de Estado e de Governo, o meu departamento apresentou o primeiro relatório bienal sobre o estatuto dos países em relação ao progresso dos sectores agrícolas e ambientais. Quarenta e sete (47) países submeteram os seus relatórios, tendo sido identificados 43 indicadores sobre a performance agrícola e ambiental destes países. Apenas 20 países estão com bons indicadores em termos de performance e, infelizmente, Angola não consta deste grupo.

ANGOP - Pensa regressar a Angola e ocupar um cargo no aparelho de Estado?

JS - Sou quadro sénior do nosso país e tenho competência em várias áreas do desenvolvimento socioeconómico. Quando terminar o meu mandato, devo regressar ao meu país e colocar-me à disposição do nosso Executivo para exercer qualquer cargo que me possa ser proposto.

ANGOP - Qual é a sua opinião em relação aos programas do Executivo voltados para a agricultura?

JS - Os programas são bastante ambiciosos e prevêem a transformação do sector. Eles devem beneficiar de investimentos e passar para a fase de implementação. Temos que mudar a narrativa e passarmos às acções.

ANGOP - Existem metas para os africanos reduzirem a agricultura de subsistência e evoluírem para uma agricultura mecanizada, voltada para o mercado?

JS – Temos, sim, metas para que o continente possa modernizar a sua agricultura de subsistência. A meta da UA é ter 30 por cento das mulheres rurais com acesso à mecanização em toda cadeia de valores até 2030. A mulher representa 75 por cento da mão-de-obra no sector agrícola, tornando-se importante o seu empoderamento.

ANGOP - África deve, definitivamente, abandonar a agricultura de subsistência ou pode haver uma coexistência de complementaridade?

JS - África é o continente com maiores terras aráveis, cerca de 60 por cento em termos globais. Para podermos alimentar 2.4 mil milhões de pessoas até 2050, devemos modernizar o sector agrícola. A agricultura de subsistência tem um rendimento muito baixo. É necessário capacitar a agricultura familiar com o acesso às sementes, fertilizantes, finanças, tecnologia, título de propriedade e ao mercado.

Perfil

Josefa Leonel Correia Sacko é  agro-economista e uma das principais tecnocratas ao serviço da União Africana.

Antes da sua eleição como Comissária para a Economia Rural e Agricultura, foi Assessora de dois ministros em Angola: do Ambiente e da Agricultura e Desenvolvimento Rural.

Desempenhou o papel de embaixadora de Boa Vontade para as Alterações Climáticas, pelo Ministério do Ambiente, e no Ministério de Agricultura, o de supervisão da Segurança Alimentar, Erradicação da Fome e Redução da Pobreza.

Durante 13 anos, exerceu as funções de secretária-geral da Organização Inter-africana do Café (OIAC), na Costa do Marfim, onde representou 25 países produtores de café no Continente.

Assuntos Sociedade  

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