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27 Junho de 2020 | 10h43 - Actualizado em 28 Junho de 2020 | 13h54

Sob tensão, IURD "avança" dividida

Luanda - A crise na Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), em Angola, ganhou novos contornos, nos últimos dias, com a troca de acusações e agressões físicas entre pastores e bispos angolanos e brasileiros, sete meses depois do primeiro sinal de mal-estar entre as partes.

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Interior da Igreja Universal no Morro Bento, em Luanda

Foto: Domingos Cardoso

Panorâmica do templo da Igreja Universal no Alvalade, em Luanda

Foto: Pedro Parente

(Por Óscar Silva, jornalista da ANGOP)

Só numa semana, relatos de confrontos entre representantes das duas alas foram registados, em várias províncias do país, onde a parte angolana assumiu o controle de dezenas de templos.

Na base do problema, segundo os pastores angolanos, estão várias irregularidades cometidas pelos bispos brasileiros, entre as quais uma suposta evasão de divisas para o exterior do país.

Outro problema que agudiza a crise de liderança na IURD, segundo a parte angolana, é a suposta exigência da prática da vasectomia aos pastores angolanos.

Os angolanos denunciam que essa prática resulta de uma orientação do líder fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, Bispo Edir Macedo, acusação que a parte brasileira já refutou.

Na verdade, a crise já se arrasta desde 28 de Novembro de 2019, altura em que 300 fiéis angolanos, entre pastores e bispos, acusaram, pela primeira vez, a ala brasileira.

À época, assinaram uma petição e denunciaram as supostas práticas à Procuradoria Geral da República (PGR), que instaurou um processo-crime, ainda sem resultados.

O grupo de bispos e pastores angolanos anunciou o seu rompimento com a direcção brasileira e com o bispo Edir Macedo, denunciando, em comunicado, entre outras práticas, uma pretensa venda de mais de metade do património da IURD Angola "sem consulta prévia".

Depois de sete meses à espera de respostas às suas pretensões, por parte das autoridades, os mesmos "endureceram o tom", no início desta semana, invadindo vários templos.

Segundo o seu porta-voz, pastor Jimi Cardoso, as instalações da igreja foram tomadas, para que a IURD cumpra, efectivamente, com o seu papel social enquanto parceira do Estado.

A ala angolana diz ter sob controle 42 por cento das instalações da Igreja Universal, em Luanda, Benguela, Huambo, Malanje, Namibe, Lunda Norte e Cuanza Sul, de um total de 270  templos erguidos pelo país. Quanto a outro tipo de património, ainda pouco se sabe.

Os bispos brasileiros já repudiaram o facto e consideram tratar-se de "ataques xenófobos" perpetrados por alegados ex-pastores angolanos desta igreja, cuja sede está no Brasil.

Em um comunicado divulgado na sua página do Facebook, a IURD sublinha que é oficialmente reconhecida em Angola desde 17 de Julho de 1992, e acusa os ex-pastores angolanos de "práticas e desvio de condutas morais e, em alguns casos, criminosas".

Diante desse clima de tensão, a Polícia Nacional colocou agentes junto aos templos da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), a fim de acautelar eventuais confrontos.

Segundo Nestor Goubel, porta-voz da polícia, o Comando provincial de Luanda tem estado a acompanhar esta situação, em toda a extensão da província.

Sem infra-estruturas sociais

Entretanto, o pastor angolano Jimi Cardoso afirma que um outro factor na base da crise de liderança na IURD é o facto de a congregação deter 270 templos a nível nacional, mas não possuir, actualmente, qualquer infra-estrutura social, como escolas e hospitais.

"A IURD em Angola não tem cumprido o seu papel como parceira do Estado, visto que, até ao momento, não tem nenhuma escola de raiz, universidade ou posto médico", lamenta.

Afirma que são arrecadados, regulamente, valores monetários consideráveis nos cultos e em outras sessões espirituais, "que não beneficiam o povo angolano".

Jimi Cardoso rebate as acusações de "rebelião", adiantando que a parte angolana sentiu necessidade de reprimir as más práticas dos bispos brasileiros, para poder cumprir com os propósitos da igreja no país.

"O nosso propósito é pregar a palavra, pacificar os espíritos, manter a parceria com o Estado, contribuir para o desenvolvimento dos cidadãos e permitir que as famílias tenham solidez".

Afirma, ainda, que a actual liderança da IURD não tem aplicado os estatutos da congregação, acusando os brasileiros de promoverem a evasão fiscal, com a retirada ilícita de divisas dos cofres da instituição em Angola para posterior envio para Brasil.

Em recentes declarações à Agência Lusa, o pastor Silva Matias afirmou que "há um conflito interno muito grande na Universal", razão pela qual optaram uma ruptura com a parte brasileira.

Dados estatísticos da IURD apontam para a existência de 512 pastores em Angola, dos quais 419 angolanos, 65 brasileiros, 24 moçambicanos e quatro são-tomenses.

Silva Matias reafirmou que foram constatados "inúmeros crimes cometidos pela gestão brasileira", apontando, além do branqueamento de capitais, supostas práticas de racismo.

Em reação, a porta-voz da parte  brasileira, Ivone Teixeira, considerou "infundidas e despidas de objectividade" todas as acusações feitas pela parte angolana.

Quanto à evasão fiscal, disse ser um assunto que espera ver resolvido, brevemente, tendo em conta a abertura de um processo na PGR.

"A missão da igreja é ganhar almas e não fazer negócios", sustentou.

A direcção da IURD reitera que todas as acusações foram arquitectadas por ex-pastores desvinculados da instituição, por desvio moral, de condutas e até por práticas criminosas.

Governo espera conclusão do processo

O problema da IURD está a ser acompanhado pelo Governo angolano, que espera pela conclusão do processo-crime promovido pela PGR e pelo Serviço de Investigação Criminal (SIC).

Em Janeiro do ano em curso, o director do Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos, Francisco Castro Maria, havia admitido a possibilidade de se encerrarem as actividades da IURD, caso venham a ser comprovadas as acusações que pesam contra a hierarquia da igreja.

Abordado sobre os novos desenvolvimentos registados esta semana, o responsável disse que ainda não se pode pronunciar, tendo em conta que o caso está em sede da Comissão Interministerial para o Acompanhamento do Exercício da Liberdade de Religião.

"Por outro, compete aos órgãos de justiça que estão a investigar as acusações, mormente a PGR e o SIC, a apresentarem o resultado do seu trabalho", reforçou.

Investigação em curso

Até ao mês de Janeiro último, o processo encontrava-se em fase de instrução preparatória e sob segredo de justiça, conforme anunciou, à epoca, o director do Gabinete de Comunicação Institucional e Imprensa do Ministério do Interior, Waldemar José.

Segundo o oficial, o caso seria encaminhado para julgamento, tão logo terminasse a investigação.

Afirmou que, das acusações feitas e que constam nas cartas dos bispos, pastores e obreiros, "há matérias suficientes para se despoletar um processo-crime, por se tratar de crimes públicos".

Entretanto, o Procurador Geral da República, Helder Pitta Grós, anunciou, esta quinta-feira, que a PGR já "está a trabalhar" num novo processo-crime que envolve pastores angolanos e brasileiros da IURD em Angola, assente nas desavenças registadas essa semana.

A ANGOP sabe que os advogados da parte brasileira apresentaram uma outra queixa-crime a esse órgão do Estado, na sequência da tomada à força de templos, na segunda-feira.

Esta não é a primeira vez que a Igreja Universal do Reino de Deus é investigada pelas autoridades angolanas. Em 2013, o Governo instaurou um inquérito à IURD, na sequência da realização de uma actividade de vigília, designada "O Dia do Fim", no Estádio Nacional da Cidadela.

A mesma ocorreu a 31 de Dezembro de 2012 e resultou na morte de 16 pessoas e mais de 120 feridos, o que levou à suspensão temporária das actividades da igreja.

Era propósito da liderança da IURD, à época dos factos, promover uma vigília para decretar o fim de  doença, miséria, desemprego, feitiçaria, inveja, problemas na família, separação, dívidas e outros males.

O caso foi a julgamento em 2015, tendo como réus seis pastores brasileiros, todos absolvidos, por falta de provas que os responsabilizasse pela tragédia do culto do "Dia do Fim".

Estiveram no banco dos réus os pastores José Augusto Dias, João António Bartolomeu, Felmer Amarildo Vitomba Batalha, Maurício do Amaral Filipe, Manuel do Rosário Mendes e Hérmogenes Barcelos Neto, este último julgado à revelia.

Na sequência da tragédia, o Governo angolano havia interditado todos os cultos e demais actividades da IURD e de outras seis igrejas evangélicas não legalizadas.   

Desde então, as autoridades orientaram que a IURD estivesse sujeita a fiscalização permanente da PGR, dos ministérios do Interior, da Justiça e Direitos Humanos e da Cultura.

Se, por altura da tragédia de 2012, os seguidores de Edir Macedo saíram unidos e fortalecidos, os factos mostram que, oito anos depois, o quadro é bem diferente e mais complexo.

A "guerra", dessa vez, é pela disputa da liderança, num braço-de-ferro em que tem valido quase tudo: golpes, ofensas e uso de materiais letais, como armas de fogo.

Em causa está a defesa de um vasto património eclesial, que comporta luxuosos templos em vários cantos do país, em particular na província de Luanda.

Os pastores angolanos dizem-se determinados em acabar com aquilo que chamam de "injustiças e discriminação" dos bispos brasileiros e a dar novo rumo à igreja no país.

Face às divergências e à falta de entendimento entre as partes, já há quem fale na "angolanização" da Igreja Universal em Angola, que ainda promete fazer rolar muita "tinta de baixo da ponte".

Por agora, a polémica está instalada e os actores aguardam pela posição do Governo, que promete pronunciar-se no seu devido tempo, pondo fim a uma crise que já vai ganhando dimensão internacional.

A ANGOP sabe que, enquanto se aguarda, a direcção da Igreja Universal do Reino de Deus vai manter encerrados todos os seus locais de culto, para evitar ataques aos responsáveis brasileiros e aos fiéis.

Até à resolução final do Governo angolano, fiéis e responsáveis ficam privados de cultuar e gerar receitas para uma congregação que absolve "perto de 22 por cento das divisas de Angola", conforme revelação de uma fonte próxima ao "Dossier Igreja Universal".  

Enquanto a resolução não chega, as sociedades de Angola e do Brasil esperam para ver como o Estado angolano vai gerir a crise na IURD, instituição religiosa registada no Ministério da Justiça, sob o número 26, e publicado no Diário da República em 17 de Julho, I Série, número 28.

Uma nota final para dizer que os conflitos inter-religiosos pelo mundo, gerados pelas mais diversas razões, são milenares, conforme reza a história, pelo que não seria de todo uma novidade a "angolanização" da IURD, em caso do endurecimento das posições entre as partes.

Assuntos Angola  

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