Terça, 01 de Dezembro de 2020
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Venda de frutas muda vida de mulheres


07 Setembro de 2020 | 15h00 - Actualizado em 08 Setembro de 2020 | 20h39

Vendedora de frutas em Benguela Foto: José Honório

Benguela - Na província de Benguela, localizada na zona centro-sul do país, quase ninguém fica indiferente ao sacrifício de dezenas de mulheres que se posicionam, diariamente, sentadas ou deitadas no chão, debaixo de sol abrasador, em frente ao complexo DT AGRO.


(Por José Honório, jornalista da ANGOP)

Trata-se de "um gigante" do Perímetro Agrícola da Catumbela, onde 80 hectares, outrora abandonados, estão agora explorados com extensas plantações de banana, maracujá e papaia.

O investimento inicial da infra-estrutura está avaliado em quase nove milhões dólares.

Avelina Nolongolo é uma das "heroínas anónimas" que corre em busca desta produção, a cada manhã, para comercializar nas ruas da cidade de Benguela.

A cidadã fugiu das dificuldades no bairro da Graça e começou a vender frutas quando tinha 17 anos de idade, pouco depois de dar à luz o primeiro dos seus quatro filhos.

Hoje, com 22 anos, diz respirar de alívio porque, embora as vendas tenham baixado, já consegue alimentar a família com os proventos da venda de frutas do DT AGRO.

Para ter acesso aos produtos, Avelina levanta-se às cinco horas da manhã e só voltar por volta das 18 horas, a fim de assegurar o pão das suas crianças.

Sem bancadas para vender, reclama do facto de os fiscais da administração municipal de Benguela estarem sempre "em pé de guerra" com as zungueiras, dificultando as vendas.

De segunda a sexta-feira, Antónia Margarida, 38 anos, apanha o táxi na Catumbela e segue para Benguela. A DT-AGRO é o destino final.

Mas, antes de entrar no negócio de frutas, no Lobito, Margarida recorda que chegou a vender petróleo em garrafas e cana-de-açúcar, para sustentar os seus filhos.

Desde que descobriu uma fonte de renda nas frutas, como laranja, maça, tangerina, pêra, banana e mamão, diz que tudo mudou e até conseguiu construir uma casa na zona Alta do Bairro São Pedro, na Catumbela, que, infelizmente, desabou com a chuva, em 2019.

Do campo, ora no Cavaco, ora no Kawango, onde a produção agrícola começa a ganhar força, embora sem a mesma "pujança" do passado, as frutas de Benguela são sujeitas a um rigoroso processo de selecção, antes de seguirem para o mercado informal.

Elas (frutas) saem do campo para a mesa do consumidor pelas mãos dessas revendedoras, que não medem esforços quando em causa estiver a sobrevivência e a distribuição de produtos que, aos poucos, inundam o mercado de Benguela.

Luanda, Lubango e as províncias do Leste, nomeadamente as Lundas Norte e Sul, são os principais destinos da vasta diversidade de frutas “made in Benguela”.

Governador compara fruticultores a "revús"

A retoma do cultivo de frutas não deixa indiferente o governador provincial de Benguela, Rui Falcão, que, ao lado de peritos da Agricultura, inspeccionou, há dias, como andaria a produção na Fazenda Hermalina Lda., no bairro do Kawango.

Depois de ouvir como tudo começou, Rui Falcão utilizou a expressão “revú” para destacar o exemplo dos empreendedores locais, como Henrique Miguel, que trabalham em força no campo, em tempos de crise financeira e de pandemia.

"Está aí um exemplo espectacular do que deve ser um revú (…), aquele que transforma as dificuldades em oportunidades", exprimiu Rui Falcão.

Rui Falcão recusa, no entanto, a ideia de que os terrenos aráveis a Norte da cidade de Benguela estejam abandonados e desafia quem queira trabalhar para avançar.

"Depende da capacidade de iniciativa das pessoas. Há uns que se sentam e reclamam. Há outros que vão para o terreno e trabalham", comentou.

Entretanto, tranquiliza os empreendedores interessados em investir na agricultara, e  promete que a água do canal de irrigação do açude do Rio da Catumbela voltará às áreas agricultáveis tão logo for resolvida a 3ª Fase do Projecto de Águas de Benguela (PAB).