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Covid-19: Ventilador, bomba da salvação


21 Outubro de 2020 | 08h56 - Actualizado em 21 Outubro de 2020 | 00h54

Maternidade Augusto NGangula ganha ventiladores Foto: Luís Nascimento

Luanda - Diariamente, cresce o número de cidadãos infectados pelo novo coronavírus no país, aumentando a pressão sobre o Sistema Nacional de Saúde e a necessidade de reforço de equipamentos vitais na luta contra a pandemia: os ventiladores.


(Por Moisés da Silva, editor da ANGOP)

Desde o surgimento da pandemia, em Novembro de 2019, na China, a salvação de milhares de pacientes tem dependido muito dos ventiladores, apesar de outros factores concorrerem para o tratamento desta doença silenciosa.

Como já se comprovou cientificamente, estes aparelhos são a última esperança para grande parte dos pacientes graves com o Sars-CoV-2 (vírus), visto que ajudam na oxigenação, constituindo, para alguns doentes críticos, um  diferencial no binómio vida/morte.

Trata-se de equipamentos de tamanha e indispensável utilidade nos cuidados de doentes respiratórios agudos, em escassez pelo mundo, desde o começo da pandemia, o que leva muitos governos a solicitarem a sua produção junto de indústrias automóveis.

Em miúdos, um ventilador mecânico é uma pequena máquina (cara) usada para auxiliar a respiração de pessoas com doenças respiratórias graves, com impacto nos pulmões, como a pneumonia ou a Covid-19.

O seu preço varia de mercado para mercado, sendo que, em Angola, por exemplo, ronda entre os 15 e 18 milhões de kwanzas.

"Ventilar um doente é caríssimo, e uma unidade de cuidados intensivos, sem os custos dos medicamentos, com o seu ventilador, em qualquer parte do mundo, não fica a menos de 2.500 dólares, isto é, mais de um milhão de kwanzas por dia", fez saber a ministra da Saúde, Sílvia Lutucuta, numa conferência de imprensa, em Maio.

Dado o propagar da doença pelo país e o contágio entre pessoas de risco, a aquisição contínua de ventiladores, quer invasivos, quer não-invasivos, tem sido a preocupação da Comissão Multissectorial de Prevenção e Combate à Pandemia, que adquiriu, de Março a Junho, 52 ventiladores localmente e 300 no exterior.

Segundo a também porta-voz da referida Comissão Multissectorial, em Angola, após o surgimento da Covid-19, os preços começaram em 15 milhões de kwanzas e chegaram aos 18 milhões, enquanto no mercado internacional variam entre 17 mil e 500 dólares e  50 mil dólares, entre de baixa, média ou alta gama.

Actualmente, o país tem instalado um referencial mínimo de 1000 (mil) ventiladores, entre invasivos e não-invasivos, em todos os hospitais e centros de tratamento da Covid-19, fruto de aquisições e doações, com vista a socorrer os doentes críticos.

Distribuição pelo país

De acordo com a titular do sector da Saúde, em conferência de imprensa recente sobre a Situação de Calamidade Pública em Angola, para além dos ventiladores já instalados (pelo menos 700), o Governo tem um número considerável deste equipamento, por montar ou reforçar eventuais défices nos hospitais.

A estratégia passa por distribuir, consoante o número de infectados, evolução da pandemia, densidade demográfica e quantidade de unidades hospitalares, a cada uma das 18 províncias. Em princípio, Luanda, com nove municípios e mais de 7 milhões de habitantes, detém a maior cifra: mais de 100.

Entre as várias unidades de Luanda equipadas com este aparelho, destacam-se os centros da Zona Económica Especial (30 ventiladores), Clínica Girassol (25), bem como as maternidades Augusto Ngangula e Lucrécia Paim, Hospital Geral e Sanatório, com cinco aparelhos cada. Constam do lote as clínicas Sagrada Esperança e Multiperfil.

Embora seja inquestionavelmente uma "bomba de oxigénio" e um eficaz "salva-vidas", há a destacar o facto de algumas localidades com doentes graves e estáveis não terem sido contempladas com este equipamento, a exemplo do Moxico, Namibe, Huambo, Cuanza Sul, Uíge, Lunda Sul e Lunda Norte.

Entre os beneficiários, destaca-se o Cunene, com 11 ventiladores mecânicos, instalados nas unidades sanitárias de referência, nomeadamente: Hospital Geral de Ondjiva (seis) e o da Cahama (cinco). A Lunda Sul tem 43 mecânicos, distribuídos pelos principais hospitais locais. 

O Cuanza Norte tem 10 ventiladores, todos invasivos, cinco adquiridos pelo MINSA, cuja montagem está condicionada pela falta de rampa de oxigénio.

Do total dos meios, oito foram para o hospital de campanha do Morro de Binda, enquanto o hospital provincial e o sanatório beneficiaram de um ventilador cada.

Malanje conta com 18 ventiladores, todos instalados no único centro de tratamento de casos da Covid-19 da Cahala, ao passo que o Bengo tem 14, dos quais 4 invasivos e 10 não-invasivos, não havendo previsão de recepção de novos aparelhos para ambas as províncias do Norte de Angola. No Bengo, nenhum foi instalado.

O Hospital Central do Lubango (na Huíla) tem capacidade para internar 31 doentes com Covid-19, dos quais 18 com ventilação mecânica em simultâneo (a capacidade anterior era de 26 doentes e ventilar 13 em simultâneo, mas em Agosto ganhou mais cinco camas com os seus respectivos aparelhos).

Já o Hospital Sanatório do Lubango, o Centro de Saúde da Quilemba, o INEMA, as unidades de saúde de Quilengues, Gambos e Humpata receberam (também em Agosto), cada uma, camas com ventilador mecânico acoplado. Nessa província do Sul do país, não existe qualquer hospital de campanha, mas, sim, centros de quarentena.

No Bié, existem 35, dos quais 12 montados no recém-inaugurado Hospital Provincial Walter Strangway, três no município do Cunhinga, 19 nos Serviços de Tratamento da Covid-19, na municipalidade do Cuito, sendo que, a nível de outros municípios, há apenas salas de isolamento, sem cuidados intensivos. Benguela tem 17 ventiladores.

Funcionamento e vitalidade

Para alguns doentes em estado particularmente grave, os ventiladores poderão ser a diferença entre a vida e a morte, numa altura em que, devido à excessiva procura, está a escassear no mercado mundial, diminuindo a capacidade de tratamento dos pacientes críticos com Covid-19 (cada vez crescente) com esse apoio respiratório.

Sem acesso aos ventiladores, muitos pacientes que poderiam sobreviver à doença continuarão a morrer, visto ser função deste transportar o ar para dentro do paciente e também fornecer até cem por cento (100%) de oxigénio, ou seja, quantidade a mais de que o ser humano precisa para respirar normalmente.

Para a aplicação, o doente é acalmado e é-lhe administrado um relaxante muscular, por um anestesista, antes de ser entubado. O tubo é colocado pela boca até à traqueia e depois ligado ao ventilador, que bombeia ar e oxigénio até aos pulmões, podendo os médicos ajustarem a velocidade e a quantidade de oxigénio.

Se o doente precisar de ficar ventilado durante muito tempo, será melhor fazer-se uma traqueostomia, ou seja, abrir um buraco na garganta, para que o tubo chegue directamente à traqueia. Conforme especialistas, esta opção não traz problemas a longo-prazo (porque o buraco fecha) e permite que os doentes fiquem conscientes.

Para os médicos tomarem a decisão de ligar um doente a um ventilador, precisam de identificar sinais de falha respiratória grave nos visados. "Por norma, a velocidade de respiração aumenta, as pessoas ficam aflitas, o CO2 (dióxido de carbono) no sangue sobe e podem até ficar confusas", revelam investigações actuais em face da pandemia.

O dióxido de carbono é um composto químico constituído por dois átomos de oxigénio e um átomo de carbono. É também conhecido como gás carbónico, constituído por moléculas de geometria linear e de carácter apolar. O mesmo foi descoberto em 1754 pelo cientista escocês Joseph Black, tendo como ponto de ebulição - 78,46 ºC.

Geralmente, um adulto normal respira cerca de 15 vezes por minuto, mas um com falha respiratória grave pode atingir até 28 vezes por minuto – um sinal que precisa de auxílio externo para sobreviver. Antes de recorrer aos ventiladores, os médicos devem tentar outras formas de regularizar os níveis de oxigénio do doente.

Para estes casos, a primeira saída é a forma não-invasiva, como a utilização de botijas de oxigénio. E mesmo que se recorra ao método invasivo, nem sempre é eficaz para se salvar vidas humanas, a julgar pelos 5.616 mortos a nível mundial (até 4 de Outubro), vinculando os EUA, Inglaterra, França, Portugal, Itália, Brasil, China e África do Sul.  

Quando essa missão se revela impossível e o médico responsável determina que é necessário um ventilador, começa-se a luta contra o tempo. Numa situação crítica, os médicos têm apenas cerca de 30 minutos para ligar o paciente a um ventilador. E no caso da Covid-19, os doentes podem ficar ventilados durante várias semanas.

Oxigénio mundial

A necessidade imperativa dos ventiladores, em todo o mundo (incluindo os países mais desenvolvidos), advém do facto de que pelo menos cinco por cento dos pacientes com Covid-19 acabam por sofrer da síndrome do desconforto respiratório agudo (SDRA), realidade mais frequente em países predominantemente frios (até -10 graus célsius).

"É a resposta inflamatória excessiva (dos pulmões) à infecção, neste caso viral, por coronavírus. Um tipo de membrana é criada e o oxigénio não consegue passar, o que, por sua vez, provoca insuficiência respiratória", explicou à BBC Oriol Roca, médico associado do Serviço de Medicina Intensiva do Hospital Vall d'Hebron, em Barcelona.

Já o médico Ferran Morell, ex-chefe do Serviço de Pneumologia do mesmo hospital, afirma ser "uma condição para a qual não há cura", sendo que, na sua opinião, "a única solução é colocar os pacientes em ventilação mecânica e esperar que a sorte esteja do seu lado e que o organismo reaja".

De acordo com explicações médicas, esses dispositivos (ventiladores) fazem isso de duas maneiras: fornecendo ao paciente mais oxigénio do que o ar ao seu redor  e/ou trabalhando como uma bomba capaz de superar a resistência da membrana que impede a sua passagem, apesar de muitos sobreviverem à sorte.

"Em condições normais, respiramos porque o diafragma contrai e deixamos entrar o ar nos pulmões. Mas, quando há inflamação, esse processo, que em condições normais usa muito pouca energia, torna-se muito mais difícil para o paciente e pode acabar por esgotá-lo", salientam os especialistas do Hospital Vall d'Hebron.

Contudo, e conforme a pesquisa, nem os sistemas de saúde dos países mais desenvolvidos e prósperos estão equipados com a quantidade de ventiladores que a Covid-19 pode exigir, daí que governos de todo o mundo apelam às indústrias, sobretudo do ramo automóvel, para fabricarem esses "salva-vidas".

O problema, segundo revelações, já levou médicos italianos e espanhóis a terem de tomar a excruciante decisão de quais pacientes conectar a essas máquinas e quais não, o que inúmeras vezes resulta na morte desses indivíduos.

"Estamos com um problema sério, nunca antes visto, anteriormente inimaginável, e a verdade é que estamos também a assistir a isto com uma preocupação extrema", afirmou à BBC Mundo Gustavo Zabert, pneumologista da Clínica Pasteur em Neuquén, da Argentina, e presidente da Associação Latino-Americana do Tórax.

Complexidade e especificidade

Como noutras partes, e diferente de muitos países, Angola começou, desde muito cedo, a gizar estratégias para contrariar o vírus Sars Cov2, muito antes dos dois primeiros casos, a 21 de Março, com a implementação de hospitais de campanha.

São unidades de referência, construídas ou criadas pela Comissão Multissectorial de Prevenção e Combate à Pandemia, com elevados custos, para cuidar de casos positivos da doença, com a maior segurança possível, quer para os pacientes, quer para os técnicos de saúde, com equipamentos de última geração.

Com estas infra-estruturas, todas munidas de ventiladores invasivos e não-invasivos, pretende-se não apenas enfrentar a ameaça da Covid-19, mas também "criar-se capacidade para o país nunca mais ser surpreendido, caso surjam outras endemias, epidemias e pandemias, segundo o Presidente da República, João Lourenço.

Na qualidade de epicentro da doença em Angola (desde Março), Luanda absorve o maior número de hospitais especializados para o tratamento do novo coronavírus (mais de cinco), ao contrário de outras províncias que detêm um cada.

Sem revelar o número de pacientes que já recuperam com o tratamento de ventiladores no país, a ministra da Saúde referiu, recentemente, que a estratégia de tratamento aos doentes tem mudado nos últimos tempos e que usam ventiladores invasivos apenas aos pacientes que estiverem em situações críticas.

A governante esclareceu, na ocasião, que actualmente se tem optado mais pela ventilação não-invasiva e a mudança de posição do doente, colocando-se-lhe de barriga para baixo (posição prona), por se acreditar que são as áreas posteriores do pulmão que precisam de ser ventiladas.      

Com esse método, avançou a porta-voz da Comissão Multissectorial de Prevenção e Combate à Covid-19, as autoridades sanitárias do país e internacionais têm tido sucesso na recuperação da maior parte dos doentes críticos, reduzindo a taxa de mortalidade.

"A recuperação de um paciente sob ventilação invasiva é muito complicada, por estar já na fase três da doença, uma situação que muita das vezes é irreversível, culminando em óbito. Por esta razão, quando se recupera um paciente nessa condição, as pessoas fazem festa, por ser um facto quase inédito", sublinhou.

Explicou ainda que nem sempre os doentes críticos são submetidos à ventilação mecânica invasiva, por causa da complexidade desse tratamento.

Neste particular, a ANGOP constatou que, ainda assim, Angola conseguiu recuperar 2.436 cidadãos em estado crítico, desde o primeiro dia de Abril até 4 de Outubro, período em que o país contabilizava 5.370 casos positivos, 193 óbitos e 2.751 activos.