Sábado, 28 de Novembro de 2020
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Covid-19: A vida dura nos táxis


28 Junho de 2020 | 20h23 - Actualizado em 28 Junho de 2020 | 20h22

Paragem de táxi no município de Viana Foto: Lino Guimaraes

Luanda - Desde a confirmação dos primeiros casos positivos de Covid-19 em Angola, a 21 de Março último, circular nos transportes públicos, particularmente autocarros e táxis, passou a ser decisão difícil para milhares de passageiros, na província de Luanda.


Usar esses "meios rolantes", no actual contexto de pandemia, exige fé e muita determinação, além de fortes medidas de biossegurança, para evitar contaminações.

À semelhança dos hospitais, mercados informais, das igrejas e escolas, os autocarros e táxis estão na lista dos eventuais pontos de contágio mais temidos pela população, que enfrenta um duro dilema: andar a pé ou assumir o risco nos transportes públicos?

Com o aumento de casos positivos em Angola e a adopção, pelo Governo, da Situação de Calamidade Pública, quem sai à rua, para apanhar um autocarro ou táxi, deve ter cuidados redobrados e estar sempre vigilante, a fim de escapar do novo coronavírus.  

Mas, na prática, não é assim tão fácil a vida dos milhares de passageiros que viajam, todos os dias, nos transportes públicos de Luanda, principalmente nos táxis.

Com mais de dez milhões de habitantes, a capital do país ainda tem um reduzido número de transportes públicos, situação que causa enchentes nas paragens.

Actualmente, a frota de Luanda é composta por 290 autocarros públicos, dos quais 120 novos, de todas as empresas de transporte rodoviário regular colectivo urbanos de passageiros.

O número de táxis legalizados está acima de 20 mil, conforme dados das associações de taxistas. Mas, no global, é ainda baixa a oferta para atender a demanda.

A situação agrava-se com a imposição do Governo, aos autocarros e táxis, para preencherem apenas 75 por cento da sua capacidade máxima, o que torna mais lenta a circulação e aumenta o contacto físico entre os passageiros, nas constantes "brigas" por lugares.

Diante do reduzido número de transportes rodoviários urbanos, milhares de pessoas são obrigadas a percorrer quilómetros a pé, sem, contudo, reduzir a “luta” nas paragens de táxis e o consequente aumento do perigo de contágios pelo coronavírus.

Entretanto, apesar dos temores, uma nova realidade começa a animar a sociedade luandense: os taxistas estão mais rigorosos na aplicação das medidas de biossegurança.

Nos dias de hoje, ao abrigo das recomendações do Governo, nenhum passageiro pode usar os transportes públicos sem máscara. A medida é obrigatória em todo o país.

É, em termos práticos, a primeira forma de prevenção de passageiros, motoristas e cobradores, que ficam, permanentemente, expostos a riscos de contágio.

Na capital do país, os taxistas dizem-se prontos continuar a cumprir a orientação.

Para tal, foram criadas equipas de fiscalização que trabalham junto das staffs (homens contratados para organizar a chegada e saída dos táxis), no sentido de sensibilizarem os condutores e cobradores a exigirem, dos passageiros, o uso de máscaras.

"Sem máscaras, ninguém entra, porque a Polícia também vai multar e não vamos ajudar a conter a Covid-19", referem os taxistas, enquanto carregam as viaturas.

Numa ronda às paragens de táxis, a ANGOP constatou que os passageiros são "convidados" a descer das viaturas quando não se fazem acompanhar de máscaras.

Essa realidade é vivida nas paragens dos Congolenses, Multiperfil, Girafa e Mutamba, onde os profissionais dos chamados azuis e branco obrigam, além do uso de máscaras,  a desinfecção das mãos, com água e sabão, germol, álcool em gel ou álcool etílico.

Há, entretanto, quem desinfecte as mãos com vinagre, produto cujas particularidades não se mostram, cientificamente, recomendadas para matar o coronavírus.

Nessa difícil missão de proteger os passageiros, nas paragens de táxi, tudo vale. O importante, para taxistas e passageiros, é ajudar a travar a propagação do vírus.

No município de Viana, por exemplo, além das medidas de biossegurança, como uso obrigatório de mascaras e álcool em gel, tem sido exigida a redução do número de ocupantes, para garantir o distanciamento físico e prevenir eventuais contágios.

Conforme uma fonte da Administração Municipal de Viana, face ao aumento de casos em Luanda, é cada vez mais visível a responsabilidade dos  passageiros.

Entretanto, o cumprimento de todas essas normas de biossegurança, sobretudo da não lotação dos meios, faz aumentar, claramente, a pressão sobre os serviços de táxi.

Conforme o cidadão Yuri Márcio, morador do Talatona, tem sido muito difícil apanhar o táxi, já que eles não podem andar lotados, embora por razões justificadas.

"Mesmo acordando cedo, tenho muitas dificuldades para chegar até à Mutamba. Mas  sei que, enquanto durar a Situação de Calamidade, nem os autocarros, nem os táxis podem ter todos os espaços preenchidos", comenta.

Já o cidadão João Augusto, morador da Vila de Viana, afirma que, mesmo com os novos autocarros e a elevada quantidade de táxis que sai de Viana para outras zonas de Luanda, ainda é difícil apanhar o transporte, por causa das medidas de segurança.

Por isso, a cidadã Margarida Pedro sugere que as pessoas permaneçam em casa e só saiam em caso de extrema necessidade. "Tudo seria muito mais fácil", opina.  

No município do Kilamba Kiaxi, a Direcção de Transportes Tráfego e Mobilidade decidiu reforçar as medidas de segurança, por causa da Covid-19, com a instalação de tambores de água para a lavagem das mãos, nas principais paragens.

Lorena de Castro, responsável do sector dos transportes no município, informou à ANGOP que as medidas foram reforçadas, porque notou-se a falta de cumprimento do distanciamento social nas paragens e um aumento na lotação nos táxis.

Conforme a responsável, depois de um encontro com a Associação de Taxistas, operadoras de transportes públicos e a Polícia Nacional, ficou acordada uma maior fiscalização e sensibilização junto dos passageiros e motoristas.

Lorena Castro lamenta o facto de alguns taxistas ainda violarem, sistematicamente, as medidas de segurança, ultrapassando a cifra de 75 por cento da lotação dos seus veículos, sendo abordados com frequência pela Polícia Nacional.

Elisa Jaime, moradora da circunscrição, diz que cumpre com rigor as medidas de biossegurança, no seu habitual trajecto bairro da Sapú/Kimbango.

Segundo a munícipe, as viaturas ligeiras têm facilitado na circulação, porque existem zonas onde os azuis e brancos não podem entrar, no Kilamba Kiaxi.

Por sua vez, o presidente da Associação dos Taxistas de Luanda (ATL), Manuel Faustino, pede aos utentes de táxis para evitarem a propagação da pandemia, cumprindo com rigor todas as regras impostas pela Situação de Calamidade Pública.

De igual modo, o presidente da Associação de Motoqueiros e Transportadores de Angola (Amotrang), Bento Rafael, apela ao patriotismo, rigor, responsabilidade e espírito de missão, principalmente dos taxistas e cobradores.   

Já o presidente da Associação dos Taxistas de Angola, Bento Inácio, refere que equipas de fiscalização estão criadas e trabalham juntos das Staffs, no sentido de sensibilizar os condutores e cobradores a exigirem dos passageiros, de forma rigorosa, o uso de máscara, por forma a evitar a contaminação do coronavírus (Covid-19).

"O cumprimento do Decreto sobre a Situação de Calamidade Pública é a melhor forma de ajudar o país a controlar a doença", comenta o director de comunicação institucional e imprensa do Ministério do Interior, em Luanda, Hermenegildo de Brito.

Entretanto, uma fonte da Unidade de Trânsito de Luanda disse à ANGOP que alguns taxistas tiveram retidos os documentos pessoais e das viaturas, por excederem os 75 por cento de ocupação, imposto pelo Decreto Presidencial sobre a Calamidade Pública.

Esta desobediência é constatada, principalmente, nas primeiras horas da manhã e fim da tarde, quando as paragens estão lotadas de passageiros que vão e saem do serviço.