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IURD: Vinte e oito anos de pregação em Angola


26 Julho de 2020 | 08h40 - Actualizado em 25 Julho de 2020 | 22h28

Parte frontal da Igreja Universal no Morro Bento, em Luanda Foto: Domingos Cardoso

Luanda - Influente no contexto "doméstico" e internacional, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), criada em 1977, no Brasil, implantou-se em Angola em 1992.


(Por Venceslau Mateus, Jornalista da ANGOP) 

São, exactamente, 28 anos de actividade religiosa neste país africano, marcados por rezas, rituais de cura, ofertas e oferendas, que atraem, todos os dias, milhares de fiéis.

A organização de Edir Macedo ganhou espaço num contexto de transição política em Angola, marcado pelo surgimento do multipartidarismo, depois de 17 anos sob regime de partido único. 

Era, pois, um contexto político e social difícil para os angolanos (desgastados com a guerra, iniciada em 1975), que começava a sentir-se, amiúde, os efeitos da Lei de Liberdade Religiosa. 

Angola assistia aos primeiros passos de um movimento de liberdade religiosa, depois de várias décadas de actividades clandestinas, levadas a cabo por alguns movimentos protestantes e messiânicos, entre os quais a Igreja Kimbaguista, a Igreja Tocoísta e as Testesmunhas de Jeová. 

Em Angola, os primeiros reconhecimentos de organizações religiosas terão sido feitos ao abrigo do Decreto Executivo nº 9/87, de 24 de Janeiro, do Ministério da Justiça. 

Por via desse instrumento jurídico, foram reconhecidas a Igreja Evangélica do Sudoeste de Angola, a Igreja Evangélica Congregacional de Angola, Igreja Católica, Igreja Metodista Unida, a Igreja Evangélica de Angola e a Igreja Evangélica Reformada de Angola. 

De igual modo, as autoridades angolanas reconheciam, no mesmo Decreto, a Igreja de Jesus Cristo sobre a Terra (Kimbanguista), Assembleia de Deus Pentecostal, Igreja Adventista do Sétimo Dia, Convenção Baptista de Angola e União de Igrejas Evangélicas de Angola. 

Em 1991, um Decreto Executivo Conjunto nº 46/91, do Ministério da Justiça e da então Secretaria de Estado da Cultura, conformava o processo de reconhecimento das igrejas e organizações religiosas à Lei Constitucional revista, com a ampliação dos direitos fundamentais dos cidadãos. 

Surgiam, então, os primeiros sinais consistentes do exercício de liberdade de religião e consciência. 

Por via dessa maior abertura política, em 1992, o governo reconheceria, através de vários decretos, 29 igrejas, incluindo três alas da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo (Tocoístas), as Testemunhas de Jeová e a Congregação Cristã de Amizade Afro-Europeia. 

Foi nesse contexto de lutas pela afirmação, depois de várias décadas com as igrejas a cultuar em regime de clandestinidade, que surgiu a Igreja Universal do Reino de Deus.

A legalização da ingreja de Edir Macedo no país começou com o Decreto Executivo conjunto nº 46/91, do Ministério da Justiça e da então Secretaria de Estado da Cultura, que revogava o Decreto Executivo 18/80, de 21 de Abril e os artigos 2º e 3º do Decreto Executivo nº 9/87, de 24 de Janeiro. 

A 17 de Julho de 1992, através do Diário da República I Série nº 28, era reconhecida, oficialmente, a Igreja Universal do Reino de Deus, e outras cinco denominações religiosas: a Igreja Aecojecri da Nova Teologia em África "Ceifa", a Missão Evangélica Internacional Carismática, a Igreja de Jesus Cristo do Espírito de Verdade "Bisma", a Igreja Evangélica do Espírito Santo em Angola, bem como a Missão Evangélica da Reconciliação em Angola. 

Conforme o assento nº 26, que estabelece o registo da organização, a Igreja Universal do Reino de Deus era legalizada pela Justiça angolana, com o intuito de "levar a mensagem do Reino de Deus". 

Lê-se no Assento de Registo da Organização Religiosa, a que a ANGOP teve acesso, que os fundamentos essenciais da doutrina da Igreja são "princípios de fé e práticas pelas quais se orienta a Igreja Universal do Reino de Deus, conforme fundamento nas escrituras sagradas". 

A Igreja Universal é uma denominação cristã evangélica e neopentecostal, que se tornou o maior e mais representativo grupo neopentecostal brasileiro, com cerca de oito milhões de seguidores espalhados pelo Mundo. 

Segundo estudos, trata-se de uma das maiores organizações religiosas do Brasil, que, apesar da forte aceitação, está frequentemente envolvida em controvérsias.

À semelhança do Brasil, a expansão da IURD em Angola foi rápida e considerável. 

Em 28 anos, construiu mais de duas centenas de templos no país, alguns deles luxuosos, ao que se diz "com o dinheiro dos dízimos e das contribuições dos fiéis". 

Informações oficiosas dão conta de que a Igreja Universal tem, actualmente, 270 templos no país.

A IURD tem 512 pastores, dos quais 419 angolanos, 65 brasileiros, 24 moçambicanos e quatro são-tomenses. 

A Comissão de Reforma, criada pelos bispos e pastores angolanos, na sequência de desavenças com os responsáveis brasileiros afectos a Edir Macedo, diz ter o controlo da maioria dos templos, o que os bispos brasileiros consideram ter sido feito à força e à margem da Lei. 

Conforme denúncias do bispo Valente Bezerra Luiz, a "IURD obtém no país uma das suas mais exuberantes receitas: USD 80 milhões ao ano". 

Bezerra Luiz era o vice-presidente da IURD em Angola, antes do começo dos protestos, em 2019, contra as supostas práticas criminais dos responsáveis brasileiros.  

Actualmente, é apontado como o novo líder da instituição em Angola, que pondera adotar uma nova designação para se demarcar da direcção de Edir Macedo: Igreja de Angola. 

Bezerra Luiz, que falava ao jornal O País, em fevereiro último, denunciou que "boa parte do dinheiro recolhido nos templos da IURD" sai de Angola por estradas, via Namíbia, para a África do Sul. É, afirma, por esses caminhos que chega ao Brasil ou a outras partes do mundo.  

A igreja vive, actualmente, uma das suas mais difíceis etapas em Angola, com troca de acusações entre responsáveis angolanos e brasileiros e várias denúncias pelo meio.   

De realçar que apenas 81 confissões religiosas são reconhecidas oficialmente em Angola, país que fez aprovar nova Lei sobre o Exercício da Actividade Religiosa, em Janeiro último, no Parlamento. O novo texto exige 60 mil assinaturas para a formalização de uma igreja. 

A Constituição da República consagra a laicidade do Estado, havendo, por esse primado, separação entre o Estado e as Igrejas, pelo que o diferendo na Igreja Universal está a ser dirimido nas instâncias judiciais. 

Esta não é a primeira vez que a Igreja Universal do Reino de Deus é investigada pelas autoridades angolanas. Em 2013, o Governo instaurou um inquérito à IURD, na sequência da realização de uma actividade de vigília, designada "O Dia do Fim", no Estádio Nacional da Cidadela. 

Apesar da forte implementação em território angolano, a instituição religiosa, com cerca de 500 mil fiéis em Angola, não têm nenhuma infra-estrutura social (hospitais, escolas gerais, médias nem universidades).