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As seitas religiosas, origens e fundamentos


26 Julho de 2020 | 08h41 - Actualizado em 25 Julho de 2020 | 23h06

Panorâmica da Igreja Universal do Reino de Deus em Luanda Foto: Pedro Parente

Luanda - Há vários milhares de anos, tornou-se comum, no Mundo, o surgimento de seitas e novos movimentos religiosos, que perigam, de forma sistemática, a estabilidade das famílias.


(Por João Gomes, Jornalista da ANGOP)

As lutas inter-religiosas, ou entre pessoas que tiveram os mesmos ensinamentos teológicos vêm desde a antiguidade e ocorrem, frequentemente, em vários povos e culturas.

Conforme especialistas, na base dessas rupturas estão variadíssimos factores, mas quase não restam dúvidas de que, na maioria dos casos, se devem a questões económicas e a lutas de poder.

É comum ouvir-se que os promotores de novos movimentos religiosos o façam por hipotética busca do verdadeiro Evangelho, tese que, não sendo unânime, tem fundamentos para vários estudiosos.

Entretanto, se há quem se desassocie de movimentos pela pretensa busca da verdade, existe, por outro lado e em maior frequência, aqueles cuja motivação esteja muito para lá do ensino da "Palavra".

São esses, na essência, que dão corpo às seitas religiosas radicais, movimentos cujo discurso obedece aos "caprichos" do líder fundador da organização e dos seus principais adjuntos.

Regra geral, os líderes das seitas evitam associar-se a igrejas de matriz ortodoxa, ou a alguma comunidade de linhagem protestante, optando por instituições ditas reformistas.

Estudiosos há que apontam, entre as razões fundamentais para o surgimento de novas religiões, movimentos ou seitas, razões essencialmente políticas e económicas.

Na verdade, o desmembramento de igrejas e o surgimento de seitas é um fenómeno social tão antigo quanto a história das próprias instituições religiosas tradicionais.

Remonta ao ano de 1054 uma das mais notáveis ruprutas na história da igreja cristã, o chamado "Grande Cisma", que levou ao surgimento de dois movimentos na Igreja Católica.

Foi nesta altura, que líderes da Igreja de Constantinopla e da e da Igreja de Roma se excomungaram, dando origem à Igreja Católica Apostólica Romana e à Igreja Católica Apostólica Ortodoxa.

Na base da separação estiveram, entre outros factores, disputas eclesiásticas e teológicas, que distanciaram duas igrejas cristãs com profundas raízes culturais e forte influência política.

A história da ruptura na Igreja Católica é só uma amostra de um fenómeno que ganha espaço em todo Mundo, transcendendo, muitas vezes, valores que se deviam limitar ao ensino da palavra de Deus.

É a conhecida problemática da proliferação de seitas religiosas, que crescem aos olhos de todos, motivadas, fundamentalmente, pela fraca interpretação de textos sagrados, por um lado, e pela disputa desenfreada pela liderança das instituições religiosas, por outro. 

Pelo Mundo, são milhares as seitas religiosas, muitas delas no continente africano, que se multiplicam a cada dia, contribuindo para a permanência de crentes no obscurantismo e, em alguns casos, para a criação de grupos radicais ou de verdadeiros centros de lavagem de dinheiro.

Por via das seitas radicais, aumentam os actos de terrorismo, fanatismo e enriquecimento ilícito, deixando o Mundo numa encruzilhada sobre a melhor forma de propagar a mensagem da salvação.

Mas, afinal, o que são seitas religiosas e quais as suas origens e características? O que as difere de uma religião comum, cuja essência seja a teologia da vida eterna?

Em termos científicos, entende-se por seita uma forma de religião estruturalmente em tensão com a sociedade global (que, a dado momento, pode aparecer como um dos pilares da sociedade).

Diferente da religião do tipo Igreja, que tem compromisso com a sociedade e os seus valores, a seita proclama outros valores, dota-se de formas de organização rejeitadas pela sociedade e exige, muitas vezes, dos seus seguidores, uma escolha oposta ao convencionalmente aceite.

De acordo com a enciclopédia "Universalis Carte", na acepção clássica dos termos, Igreja e seita constituem duas maneiras opostas de organização de grupos religiosos, com duas atitudes polarizadas na forma de visar o desejo da salvação.

Em virtude dessa filiação, pode-se distinguir as seitas com origem no cristianismo, judaísmo ou islamismo, as seitas com origem oriental, nomeadamente no budismo, hinduísmo e shintoïsmo, e aquelas ligadas à tradição (ocultismo ou esoterismo ocidental).

Existem também as seitas que inventam novas gnoses (eclectismo, teosófico que pretende conciliar todas as religiões e explicar o seu sentido profundo por meio de um conhecimento esotérico e perfeito das coisas divinas, comunicável por tradição e por iniciação).

A primeira atitude constitutiva desses grupos privilegia a dimensão de intensidade da vida religiosa e exige do crente a afirmação da sua fé, através da ruptura com o passado da sua vida (conversão interna).

Já a segunda atitude, que está na raiz dos grupos religiosos organizados em Igrejas, dá prioridade à dimensão da universalidade e aceita a coexistência no seio de um mesmo corpo religioso de crentes menos engajados ao lado de outros fortemente convencidos e militantes.

Tal repartição representa apenas um interesse limitado, porque não desvenda as verdadeiras características da estrutura interna ou o modo de relação em torno das diferentes seitas.

"Modus operandi" das seitas

Em termos mais simples, "seita" é um conjunto de indivíduos mais ou menos importantes que se afastou de um ensino oficial filosófico, religioso ou político, para criar a própria doutrina.

Normalmente, os responsáveis dos grupos chamados "sectários" são suspeitos de reprimir a liberdade individual no seio do grupo ou de manipular mentalmente os seus membros, muitas vezes apropriando-se dos seus bens e mantendo-os, por diversas maneiras, num estado de submissão psicológica.

No início dos anos 1990, o "Info Secte", o maior centro de estudos das seitas religiosas da América do Norte, com sede em Quebec (Canadá), definiu seita como um movimento altamente manipulador, que explora os seus membros, causando-lhes danos de natureza psicológica, económica ou física.

Relactivamente ao dano psicológico, a instituição explica que o mesmo atinge de forma absoluta o comportamento, os pensamentos e os sentimentos dos adeptos.

Outras técnicas são igualmente utilizadas pelas seitas, a fim de, nomeadamente, transformar o novo aderente num adepto leal e obediente, diz também a fonte.

De acordo com o mesmo centro, a seita reivindica um estatuto especial ou um poder particular, diz-se detentora de uma missão salvadora, vê a sociedade de forma negativa e redutiva, adopta um comportamento enganador e maquilha a realidade com o objectivo de atrair novos adeptos.

Uma das grandes preocupações do grupo é o dinheiro, conforme o "Info-secte", que aponta práticas como a colecta de dinheiro, sob falsas representações, um meio justificado como sendo um fim "nobre".

Outras características são o facto de o líder do grupo não ser detentor de qualquer autoridade superior, tendo os membros a tendência para cortar as relações com as famílias e amigos, abandonar os seus objectivos e as suas actividades anteriores, em troca da sua adesão ao grupo.

Conforme especialistas, nas seitas religiosas são empregues técnicas de manipulação para suprimir as dúvidas a respeito do grupo e do líder (glossolalia, sessões de denunciações, meditações, etc).

Trata-se de um fenómeno bastante comum em todo Mundo, que resulta, na maioria das vezes, da cisão de grupos religiosos por conflitos de interesse, dando origem a novos movimentos religiosos.

Apesar das teorias científicas, nem todas os movimentos religiosos originários de cisões perdem a essência do ensino do Evangelho, em detrimento da teoria da prosperidade ou do fundamentalismo.

Exemplos disso são os defensores do protestantismo que fundaram novos movimentos, sem, contudo, defenderem os princípios das seitas, entre as quais a Igreja Protestante e as Testemunhas de Jeová.

Seitas em Angola

No caso específico de Angola, a problemática das seitas resulta de um fenómeno conhecido como sincretismo religioso, marcado pela fusão entre a religião tradicional e o cristianismo, que deu origem a vários movimentos religiosos, inspirados em Kimpa Vita (séc. XVII).

Entretanto, foi no período de transição política e abertura democrática que se registou o surgimento de um número elevado de seitas religiosas, mercê da abertura política e da Revisão Constitucional.

Isso criou um ambiente favorável para o exercício do direito da liberdade religiosa, de culto e de consciência, que reconhece a igualdade de todos os credos religiosos perante a lei.

A partir de 1992, Angola passou a registar um intenso movimento de cidadãos estrangeiros, maioritariamente do Brasil e da RDC, que deram corpo ao surgimento de várias confissões religiosas, de matriz evangélico-pentecostal. Rapidamente, essas dividiram-se, dando origem às seitas religiosas.

O problema das divisões afectou até aquelas igrejas que se fundamentam no ensino do Evangelho e cujas raízes já vêm desde os primórdios da Independência Nacional, como a Igreja Tocoísta, fundada por Simão Toco, que se divídiu em várias alas, após a morte do profeta angolano, em 1983.

Em 1992, a Igreja viu reconhecidos três grupos diferentes, pelo Estado Angolano.

De igual modo, a Igreja Kimbanguista, também de inspiração africana, sofre com os efeitos negativos da cisão, embora, ao contrário da Tocoísta, tenha apenas uma ala reconhecida pelo Estado.

Como se pode notar, por esses exemplos, é bastante comum o problema das divisões nos movimentos religiosos, sejam eles Igrejas genuinamente fundamentadas no Evangelho ou seitas fundamentalistas.

Angola é um país com um vasto leque de instituições religiosas (mais de 500 legalizadas e várias de ilegais), pelo que, do ponto de vista sociológico, não assustam as rupturas nas direcções das Igrejas.

Elas chegam a todo o tipo de movimentos, até àquelas Igrejas estrangeiras com forte implantação no país, como agora ocorre com a Igreja Universal do Reino e Deus, que vive momentos de "tensão".

A instituição do bispo Edir Macedo assiste a um duro braço-de-ferro entre pastores e bispos brasileiros e angolanos, que brigam pela disputa do património.

O problema já está a ser tratado na Justiça, desde Novembro de 2019.

A esse respeito, cabe às partes esgotarem todos os dispositivos para chegarem a uma plataforma de entendimento, como bons cristãos e defensores do espírito de paz, de verdade e amor.

Todavia, caso se esgotem os caminhos que conduzam à reaproximação das partes, a saída será mesmo a separação, para o bem dos milhares de fiéis dos dois países.

Este não pode ser, jamais, um problema nas relações entre os Governos de Angola e do Brasil.

É, antes, um problema dos fiéis, dos responsáveis e da Justiça, que deverá apurar, com lisura, cada um dos crimes de que são acusados os bispos e pastores, quer os angolanos, quer os brasileiros destacados em Angola.

O país aguarda expectante pela decisão da Justiça, pelo que se encoraja o diálogo entre as partes e a responsabilização dos responsáveis denunciados, caso fiquem provados crimes.

A Igreja Universal do Reino de Deus em Angola é tão bem-vinda quanto outra de matriz angolana ou ocidental, desde que obedeça à Lei e aos fundamentos da Bíblia Sagrada, sem tirar eventuais vantagens financeiras de famílias que se doam a Deus, acreditando na sua Teoria da Prosperidade.

Se assim for, não restam dúvidas de que os angolanos continuarão a acarinhar os brasileiros da Igreja Universal, como de resto vêm fazendo desde 1992.

Diante desse cenário de crise e incertezas, só se exige à instituição do bispo Edir Macedo justiça e lealdade.