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Controladores de Tráfego Aéreo "enfrentam" covid-19 e salvam vidas


20 Outubro de 2020 | 01h07 - Actualizado em 20 Outubro de 2020 | 14h50

Avião da TAAG voando sob monitoramento dos Controladores do Tráfego Aéreo Nacional, em época de covid-19 Foto: Joaquina Bento

Luaanda - O Mundo confronta-se, há oito meses, com a pandemia da Covid-19, que surgiu na cidade chinesa de Wuhan, em Novembro de 2019, envolvendo várias forças e acções e o engajamento de profissionais de distintos segmentos da sociedade, entre os quais os Controladores de Tráfego Aéreo.


Estes são parte dos “herois invisíveis” que lutam contra essa doença, mas quase ofuscados ou com mérito roubado pelos pilotos quando o assunto é aviação e viagens de avião, o meio de transporte mais usado em períodos de crises pandémicas mundiais  ou calamidades naturais, por causa das ajudas humanitárias em que se engajam.

Para o caso concreto desta fase do novo coronavírus, que também afecta gravemente Angola, com mais de seis mil infectados, os pilotos e todos os intervenientes da aviação, têm sido verdadeiros “testas de ferro” em missões de resgate de cidadãos, transportação de alimentos, medicamentos, equipamentos, materiais e médicos.

Entretanto, quer na aviação civil quer na militar, e até mesmo em outras de "recreação e lazer", os Controladores de Tráfego Aéreo desempenham um papel de realce, na qualidade de responsáveis por gerir, organizar e monitorar o tráfego de aeronaves no espaço aéreo, a fim de prevenir colisões, como aconteceu por muito tempo.

E a importância desses profissionais está bem vincada nesse período em que a orientação é “Ficar em Casa” ou sob isolamento social, para se evitar a propagação do vírus Sars Cov-2. Ao contrário de muitos especialistas que, por força da pandemia deixaram de trabalhar presencialmente, estes enfrentam a pandemia e salvam vidas.

Hoje, neste dia 20, o Mundo inteiro rende homenagem aos Controladores de Tráfego Aéreo pela data a si dedicada internacionalmente, num mês em que os voos comerciais começam a ressurgir timidamente, com as principais companhias e “potencias” mundiais a desafiarem o apelidado inimigo invisível e letal.

Neste ano, a classe comemora a efeméride sob os “estragos da Covid-19”, com os controladores angolanos a provarem ao planeta que estão prontos para participar de desafios e/ou missões internacionais, como vêm fazendo, desde Março, monitorando os aviões que entram e saem do país, sobretudo os da companhia nacional TAAG.

O profissional em acção

Instituida em 1979, a efeméride sobre o Controlador de Tráfego Áéreo (também conhecido internacionalmente pelo acrónimo ATCO, do inglês Air Traffic Controller) tem como função emitir autorizações de decolagem e aterragem aos pilotos de modo rápido, ordenado e seguro, e dar suporte, em, caso de problema, no voo.

É uma profissão bastante exigente, com um nível de responsabilidade muito elevado, requerendo uma selecção e a preparação rigorosa dos profissionais, pois uma falha ou distracção pode significar a perda simultânea de centenas de vidas humanas.

No exercício das funções, o controlador assume literalmente a navegação da aeronave, transmitindo instruções de velocidade, proa e altitudes a serem observadas pelo piloto, com o objectivo de evitar acidentes por colisões entre aviões ou entre aeronaves e outros obstáculos.

Segundo especialistas, além da segurança dos passageiros e tripulantes, a actuação do controlador, seja adequada ou inadequada, pode representar, respectivamente, economia ou prejuízo para as companhias aéreas e para a aviação geral (civil e militar).

A responsabilidade destes torna-se maior pelo facto de o avião deixar de ser um transporte somente de pessoas a passeio, transformando-se no mais importante meio de transporte. Pois as crises do sector aéreo podem afectar a vida política, comercial e social de um país.

São profissionais da “linha da frente”, com a tamanha importância e relevância social em tempos de crises e fenomenos, que tudo dão e fazem em nome de vidas humanas, como são os casos dos jornalistas, médicos, forças de defesa e segurança, pilotos, camionistas, navegadores marítimos, dentre outras indispensáveis nesses momentos de pandemia.

Origem da efeméride

A data foi institucionalizada devido a um decreto da sentença de morte contra um controlador considerado culpado de um acidente de aviação ocorrido em 1978, no Zagreb (pronúncia croata) ou Zagrebe - capital da Croácia -, aquando da colisão de duas aeronaves, provocando a morte de cerca de duas centenas de pessoas.

Na altura, os peritos concluíram que uma das causas do acidente foi erro humano, devido às péssimas condições de trabalho dos controladores de tráfego aéreo.

Desde então, este dia tem sido de respeito, gratidão e homenagens a esses profissionais, em reconhecimento aos serviços prestados continuamente em prol da actividade aérea, cuja história da aviação civil em Angola começou em 1918, com o sobrevoo de dois aviões em parte do território nacional.

A propósito da efeméride, o presidente da Associação Angolana dos Controladores de Tráfego Aéreo (AACTA), Nuno Kakumba Francisco, adiantou (no ano passado) que no país a actividade é exercida por 111 profissionais, que têm a missão de garantir a segurança do espaço aéreo nacional.

Em declarações à Angop, o presidente da AACTA salientou que “os profissionais da classe enfrentam inúmeras dificuldades no exercício da profissão, por causa da falta de refrescamento regular, aliada a péssimas condições de trabalho”.

Para este especialista, além da melhoria das condições de trabalho que se impõem, os gestores para a navegação aérea devem ser transversalmente capacitados, por formas a desenvolverem cultura e sensibilidade aeronáutica.

“Apesar de o espaço aéreo nacional ser seguro para a aviação com aeronaves de pequeno e de grande portes, temos que perceber que o factor crítico de sucesso para a prestação do serviço de controlo de tráfego é as comunicações VHF e VHFER nos órgãos de controlo”, alertou.

A data em Angola

É mais uma oportinidade para profunda relexão, tendo-se em conta que a luta actual é a reestruturação do espaço aéreo nacional, a sua divisão em sub-regiões de informação de voo, mediante o realinhamento e implementação de novas rotas.

Essa reestruturação, de acordo com o presidente da Associação Angolana dos Controladores de Tráfego Aéreo (AACTA), Nuno Kakumba Francisco, deve ser ajustada à demanda do tráfego, com vista a rentabilizar o serviço e evitar-se custos operacionais desnecessários.

Na óptica deste controlador de tráfego aéreo, o país deve rever as políticas do sector aéreo e adequá-las à realidade actual, tendo em vista que a aviação civil é uma actividade com elevado grau de complexidade e que existe para facilitar o transporte de passageiros, cargas e correios.

“São serviços públicos que envolvem tecnologia muito cara, pelo que devem ser rentáveis e sustentáveis. Logo, a reestruturação deve abranger também a cultura organizacional das empresas do ramo, que devem estar comprometidas com o desenvolvimento do sector”, disse.

Por considerar vital no intercâmbio entre povos e para as trocas comerciais, o presidente da Associação Angolana de Controladores de Tráfego Aéreo pedira ao Executivo para prestar maior atenção ao sector aéreo, primando por investimentos mais sérios.

“No país, infelizmente esta profissão não é valorizada, talvez por nunca ter havido uma paralisação dos serviços por via reivindicativa. Conhecemos bem o impacto que causaria e acredito que passaria a ser levada mais a sério. Nós trabalhamos em condições inaceitáveis”, expressou.

Segundo Nuno Kakumba Francisco, os quadros carecem de refrescamento, além de que continuam a operar em frequências bastante ruidosas, dificultando, sobremaneira, o exercício da profissão, de operação 24 horas por dia, e que requer dos técnicos Paz de Espírito.

A Associação Angolana de Controladores de Tráfego Aéreo (AACTA) foi proclamada a 14 de Dezembro de 1991 e conta com 120 membros filiados, que objectivam atingir níveis de desenvolvimento e sustentabilidade com referências positivas no contexto nacional e internacional, em termos de segurança na navegação aérea.

Tem como objectivo defender e representar os interesses dos seus associados, estreitar os laços de solidariedade entre controladores nacionais e estrangeiros, promover o desenvolvimento cultural e científico dos membros e sua filiação nas associações internacionais congéneres.

A AACTA é membro da Federação Internacional das Associações de Controladores de Tráfego Aéreo (IFATCA), o que lhe permite o intercâmbio cultural e cientifico com todas as associações filiadas.