Fracasso 'Mar Verde' levou Spínola a defender solução política para Guiné

  • Bandeira da Guiné Bissau
Bissau - O fracasso do golpe de Estado que Portugal apoiou na Guiné-Conacri, em 1970, para impedir ataques do PAIGC, levou António de Spínola a defender uma solução política para a guerra na Guiné, segundo uma obra recentemente publicada.

Após o insucesso da operação secreta com o nome de código "Mar Verde", em 22 de Novembro de 1970, o governador e comandante-chefe das Forças Armadas na então colónia portuguesa concluiu: "Não é na Guiné que esta guerra se ganha, mas é na Guiné que a podemos começar a perder".

"Devemos assim excluir, de uma vez para sempre, a veleidade de ganharmos militarmente a guerra que enfrentamos (...). O problema só se poderá resolver no campo político", assumiu Spínola, governador entre 1968 e 1973, citado pelos autores do livro "Ataque a Conakry - história de um golpe falhado" (Fronteira do Caso, Março de 2021).

Portugal travou uma guerra nas suas antigas colónias de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau entre 1961 e 1974.

Quando a "Mar Verde" teve lugar, o regime colonialista era liderado por Marcello Caetano, desde 1968, que aprovou a operação "insistindo apenas que não [se] deixassem vestígios em Conacri que pudessem comprometer Portugal".

No livro, os investigadores e autores José Matos e Mário Matos e Lemos relatam os preparativos e o decorrer da operação, bem como as consequências para Portugal, sobretudo a condenação internacional e o aumento das acções dos independentistas.

A situação na actual Guiné-Bissau era desfavorável às forças portuguesas já antes da operação "Mar Verde", com a então colónia a ser facilmente atacada por artilharia pesada a partir dos países vizinhos como o Senegal e a Guiné-Conacri.

Foi nessa altura que Spínola (1910-1996) descobriu que "havia um movimento de dissidentes guineenses dispostos a derrubar [o Presidente] Sékou Touré" e pensou "numa operação em maior escala para derrubar o ditador e instalar em Conacri um regime mais moderado, e favorável aos interesses portugueses", pode ler-se na obra.

Na madrugada de 22 de Novembro de 1970, seis navios de guerra portugueses com cerca de 300 homens cercaram Conacri, capital da República da Guiné, na costa ocidental africana, tendo como comandante o oficial português Alpoim Calvão (1937-2014), então com 33 anos.

"O objectivo principal da invasão era promover um golpe de Estado na antiga colónia francesa e derrubar o regime do Presidente Sékou Touré, que apoiava os guerrilheiros do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), que lutavam pela independência da Guiné portuguesa", escrevem os investigadores.

Os invasores também pretendiam "destruir os meios navais que os guerrilheiros e a Marinha tinham no porto de Conacri, capturar o líder do partido [PAIGC] Amílcar Cabral, e resgatar o grupo de [26] militares portugueses encarcerados numa prisão à ordem do PAIGC".

O ataque foi preparado em segredo na ilha de Soga, no arquipélago guineense dos Bijagós, onde foram treinados 200 exilados da Guiné-Conacri.

Na preparação, segundo os autores, os organizadores depararam-se com várias vicissitudes, como a falta de mapas actualizados da cidade, de tal forma que "vão valer-se de tudo para recolher informação desde revistas a folhetos turísticos".

A operação foi preparada com cuidado também para "disfarçar o envolvimento" de Portugal, que para isso comprou "armas na Bulgária".

Chegados a Conacri, "a progressão pela cidade não foi fácil" e houve "desorientação relativamente à localização dos alvos", como quando se enganaram na casa onde pensavam que estava Sékou Touré e foram ter à residência do arcebispo.

Outro insucesso foi o ataque à rádio nacional Voz da Revolução, também "devido à desorientação da equipa encarregada de tomar esse objectivo".

Também no caso da sede do PAIGC, no bairro onde Amílcar Cabral residia, falhou o objectivo de capturar o líder independentista porque este não estava na capital guineense.

Quanto aos êxitos, contam-se apenas a libertação dos presos e a destruição dos navios no porto.

Segundo os autores, "é igualmente importante enquadrar esta operação na estratégia global de Spínola e perceber que o golpe falhado (...) inviabilizou definitivamente qualquer possibilidade de eliminar as vantagens que o partido de Cabral tinha na Guiné-Conacri".

A partir daí, acrescentam, "Spínola percebe que não havia qualquer hipótese de alcançar uma solução negocial que permitisse pacificar a colónia".

A operação não teve o sucesso esperado e "Portugal foi severamente criticado pela comunidade internacional".

O Conselho de Segurança da ONU enviou uma comissão de inquérito a Conacri e o relatório final foi analisado e votado.

Portugal foi condenado com um pedido de indemnização por danos causados, mas não foram impostas sanções económicas ao país.

No terreno, a situação foi-se degradando para o lado português, uma vez que o PAIGC "continuava a contar com fortes apoios internacionais, seja em termos de armamento, seja em financiamento, seja em conselheiros militares" e como resultado as mortes causadas atingem um novo recorde em 1973.

Os autores descreveram a operação recorrendo a diversos arquivos, a testemunhos publicados pelos intervenientes e a outras obras sobre o tema, uma vez que escrevem que o processo oficial do “Mar Verde" foi destruído.

 

Após o insucesso da operação secreta com o nome de código "Mar Verde", em 22 de Novembro de 1970, o governador e comandante-chefe das Forças Armadas na então colónia portuguesa concluiu: "Não é na Guiné que esta guerra se ganha, mas é na Guiné que a podemos começar a perder".

"Devemos assim excluir, de uma vez para sempre, a veleidade de ganharmos militarmente a guerra que enfrentamos (...). O problema só se poderá resolver no campo político", assumiu Spínola, governador entre 1968 e 1973, citado pelos autores do livro "Ataque a Conakry - história de um golpe falhado" (Fronteira do Caso, Março de 2021).

Portugal travou uma guerra nas suas antigas colónias de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau entre 1961 e 1974.

Quando a "Mar Verde" teve lugar, o regime colonialista era liderado por Marcello Caetano, desde 1968, que aprovou a operação "insistindo apenas que não [se] deixassem vestígios em Conacri que pudessem comprometer Portugal".

No livro, os investigadores e autores José Matos e Mário Matos e Lemos relatam os preparativos e o decorrer da operação, bem como as consequências para Portugal, sobretudo a condenação internacional e o aumento das acções dos independentistas.

A situação na actual Guiné-Bissau era desfavorável às forças portuguesas já antes da operação "Mar Verde", com a então colónia a ser facilmente atacada por artilharia pesada a partir dos países vizinhos como o Senegal e a Guiné-Conacri.

Foi nessa altura que Spínola (1910-1996) descobriu que "havia um movimento de dissidentes guineenses dispostos a derrubar [o Presidente] Sékou Touré" e pensou "numa operação em maior escala para derrubar o ditador e instalar em Conacri um regime mais moderado, e favorável aos interesses portugueses", pode ler-se na obra.

Na madrugada de 22 de Novembro de 1970, seis navios de guerra portugueses com cerca de 300 homens cercaram Conacri, capital da República da Guiné, na costa ocidental africana, tendo como comandante o oficial português Alpoim Calvão (1937-2014), então com 33 anos.

"O objectivo principal da invasão era promover um golpe de Estado na antiga colónia francesa e derrubar o regime do Presidente Sékou Touré, que apoiava os guerrilheiros do PAIGC (Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde), que lutavam pela independência da Guiné portuguesa", escrevem os investigadores.

Os invasores também pretendiam "destruir os meios navais que os guerrilheiros e a Marinha tinham no porto de Conacri, capturar o líder do partido [PAIGC] Amílcar Cabral, e resgatar o grupo de [26] militares portugueses encarcerados numa prisão à ordem do PAIGC".

O ataque foi preparado em segredo na ilha de Soga, no arquipélago guineense dos Bijagós, onde foram treinados 200 exilados da Guiné-Conacri.

Na preparação, segundo os autores, os organizadores depararam-se com várias vicissitudes, como a falta de mapas actualizados da cidade, de tal forma que "vão valer-se de tudo para recolher informação desde revistas a folhetos turísticos".

A operação foi preparada com cuidado também para "disfarçar o envolvimento" de Portugal, que para isso comprou "armas na Bulgária".

Chegados a Conacri, "a progressão pela cidade não foi fácil" e houve "desorientação relativamente à localização dos alvos", como quando se enganaram na casa onde pensavam que estava Sékou Touré e foram ter à residência do arcebispo.

Outro insucesso foi o ataque à rádio nacional Voz da Revolução, também "devido à desorientação da equipa encarregada de tomar esse objectivo".

Também no caso da sede do PAIGC, no bairro onde Amílcar Cabral residia, falhou o objectivo de capturar o líder independentista porque este não estava na capital guineense.

Quanto aos êxitos, contam-se apenas a libertação dos presos e a destruição dos navios no porto.

Segundo os autores, "é igualmente importante enquadrar esta operação na estratégia global de Spínola e perceber que o golpe falhado (...) inviabilizou definitivamente qualquer possibilidade de eliminar as vantagens que o partido de Cabral tinha na Guiné-Conacri".

A partir daí, acrescentam, "Spínola percebe que não havia qualquer hipótese de alcançar uma solução negocial que permitisse pacificar a colónia".

A operação não teve o sucesso esperado e "Portugal foi severamente criticado pela comunidade internacional".

O Conselho de Segurança da ONU enviou uma comissão de inquérito a Conacri e o relatório final foi analisado e votado.

Portugal foi condenado com um pedido de indemnização por danos causados, mas não foram impostas sanções económicas ao país.

No terreno, a situação foi-se degradando para o lado português, uma vez que o PAIGC "continuava a contar com fortes apoios internacionais, seja em termos de armamento, seja em financiamento, seja em conselheiros militares" e como resultado as mortes causadas atingem um novo recorde em 1973.

Os autores descreveram a operação recorrendo a diversos arquivos, a testemunhos publicados pelos intervenientes e a outras obras sobre o tema, uma vez que escrevem que o processo oficial do “Mar Verde" foi destruído.