Memórias do Desporto em Luanda

  • Selecção Nacional de Futebol (Arquivo)
Luanda – A cidade capital de Angola, Luanda, tal como o foi antes da proclamação da independência nacional, a 11 de Novembro de 1975, e, depois dessa data, continua a ser o centro de maior relevância do desporto, com o futebol a comandar a audiência dos espectadores.  

Por: Fernando Mateus

No período colonial, o racismo era visível nos recintos desportivos, até nos próprios clubes, apesar de que os seus estatutos não admitissem o uso destas barreiras de ‘’cor’’.

Neste capítulo estavam o Sport Luanda e Benfica, o FC de Luanda e o Sporting Clube de Luanda, espécies de filiais das agremiações portuguesas, o Benfica de Lisboa, FC Porto e Sporting Club de Portugal, ainda que, nalguns casos, atletas mestiços, jovens de ambos os sexos de destacadas famílias de ditos “assimilados”, integrassem, também, tais clubes.

De acordo com informações recolhidas à época, estes clubes não admitiam jogadores negros nos seus planteis, até meados dos anos de 1950.

Os mesmos dados revelam que até os jogadores de futebol mestiços só veriam ser aceites a partir dos fins da década de 1940. Curiosamente, na então chamada “metrópole”, os clubes de futebol já aceitavam jogadores mestiços e negros, desde os anos 1940.

Por sua vez, o Ferroviário de Angola, também conhecido como clube do Bungo, nome dado a um subúrbio de Luanda, seria apelidado pejorativamente de “clube dos contratados”, numa explícita associação aos negros, que eram os que preenchiam a condição de contratados, apesar de haver, entre os seus atletas, alguns jogadores de raça branca pobres.

Da mesma forma, o Clube Atlético de Luanda, fundado em 1924, e que, mais tarde, nos anos 1960, seria conhecido como o “clube dos terroristas”, pelo facto de por lá terem passado alguns dos futuros dirigentes da luta anticolonial, era conhecido nos anos de 1950 como o “clube dos mulatos”.

Destaca-se, entre outros, naquela formação, Demóstenes de Almeida, o famoso atleta dos anos 1920 e 1930, que, nos anos 1940, 1950 e 1960, se destacaria como treinador e dirigente, sem nunca ter sido apresentado como negro.

Dados pesquisados pela ANGOP indicam que Luanda tinha, já na era colonial, uma segunda divisão de futebol, composta, em 1954, por oito clubes: o Grupo Desportivo Os Malhôas (que nesse mesmo ano muda de nome para Marcelo Império FC), FC Vila Clotilde, Atlético Sport Aviação (ASA), Grupo Desportivo Vasco da Gama, Desportivo União de S. Paulo, Clube Sport Marítimo de Luanda, São Paulo FC e Ferroviário.

Dos luandenses, neste mesmo ano, faziam parte da primeira divisão o FC de Luanda, o Sport Luanda e Benfica, o Sporting Clube de Luanda, o Clube Ferroviário de Angola e o Clube Atlético de Luanda.

Alguns desses clubes apresentavam clivagens raciais mais acentuadas, em especial os “clubes da baixa” ou “clubes dos brancos”, como apresentado anteriormente.

Ainda assim, os anos de 1950 foram marcados por um cenário de acentuada mutação, facto que ilustrado pela integração de jogadores mestiços e negros em equipas tradicionalmente reservadas até então a cidadãos de pele branca.

O futebol constituía uma paixão extraordinária para os luandenses, na era colonial, que, vendo brilhar jogadores de renome, como Areias, Domingos Inguila, Joaquim Dinis (Brinca na Areia), Chico Ventura, Kiferro, Ginguma e outros nomes sonantes, parte deles transitou para a fase de liberdade após a proclamação da independência nacional.

Eram, à época, grandes partidas de futebol, entre as equipas da Escola Perdida, Calumbundo, Juba Calumbundo e Juba Escola, que movimentavam multidões.

Naquele tempo, as equipas de referência eram o Asa, Sporting de Luanda, Benfica, Maxinde, Sporting do Rangel, Ginásio, São Paulo Futebol Club e Maianga.

Já depois da independência nacional, em 1975, começaram a surgir as agremiações Desportivas, como o 1º de Agosto, Progresso do Sambizanga, Académica Social Escola do Zangado, Vitória do Sambizanga, Bangú FC, Diabos Verdes (Leões), Grupo Desportivo da TAAG (ASA), Petro de Luanda, Ferroviário, entre outros.

Esses clubes “desfilavam” em vários recintos pelados e no relvado dos Coqueiros e da Cidadela, com a presença massiva de espectadores, sem descriminação racial.

À época, outras modalidades desportivas, como o basquetebol, andebol, a natação, desporto de lutas, ciclismo, xadrez, atletismo, voleibol, ténis de campo e ténis de mesa, também entraram em evidência, sem qualquer restrição aos seus praticantes e dirigentes.

Luanda tinha, na época colonial e nas duas primeiras décadas do pós-independência, várias infra-estruturas desportivas, mas muitas delas “sucumbiram” ao tempo.

Actualmente, a capital do país conta com novos recintos desportivos, como os estádios 11 de Novembro, 22 de Junho, França Ndalu, pavilhões, outras tantas quadras de salão, piscinas para a prática de natação, que dão vida ao desporto da capital do país.

Depois da independência nacional e com uma saúde financeira segura, muitas empresas sedeadas em Luanda constituíam as suas agremiações Desportivas, com particular foco no futebol, nos casos da Sociborda, Epigel, Bolama, Imavest, GD da ETP, Secil Marítima, Edipesca, Fata, entre outros, que disputavam os provinciais de infantis (Caçulinhas da Bola), juvenis, juniores, primeira e segunda divisões em seniores.

Nas décadas de 70 e 80, respectivamente, Luanda participava nos campeonatos nacionais de primeira e segunda divisões com várias equipas, com destaque para o 1º de Agosto (primeiro campeão nacional – vulgo  Girabola), Progresso do Sambizanga, Diabos Verdes, Desportivo da TAAG e Petro de Luanda.

Deste lote de equipas faziam desfilar nomes de referência no relvado dos estádios dos Coqueiros e Cidadela e no pelado de São Paulo, como Daniel Ndunguidi, Napoleão Brandão, Carlos Alves, Luís Cão, Salviano, Praia, Eduardo André, Adriano Panzo, Jesus, Lufemba, Abel Campos, Manuel Loth, Rola, Juju, Eduardo Machado e Vata.       

Os adeptos percorriam quilómetros, saídos dos musseques do Sambizanga, Cazenga, Marçal, Rangel, Cacuaco e Viana em períodos diurnos e nocturnos, para ver a brilhar estas estrelas do futebol, de uma longa lista que não se consegue concluir.

Na verdade, o desporto, em Luanda, sempre foi uma realidade presente, animando os habitantes da capital do país e de outras regiões de Angola.

As marcas e os feitos dos protagonistas estão registadas em alguns trabalhos de pesquisa, mas importa que devem continuar a ser publicados em livro, para preservar a memória colectiva dos luandenses e demonstrar que, afinal, a cidade sempre teve vida.

Por: Fernando Mateus

No período colonial, o racismo era visível nos recintos desportivos, até nos próprios clubes, apesar de que os seus estatutos não admitissem o uso destas barreiras de ‘’cor’’.

Neste capítulo estavam o Sport Luanda e Benfica, o FC de Luanda e o Sporting Clube de Luanda, espécies de filiais das agremiações portuguesas, o Benfica de Lisboa, FC Porto e Sporting Club de Portugal, ainda que, nalguns casos, atletas mestiços, jovens de ambos os sexos de destacadas famílias de ditos “assimilados”, integrassem, também, tais clubes.

De acordo com informações recolhidas à época, estes clubes não admitiam jogadores negros nos seus planteis, até meados dos anos de 1950.

Os mesmos dados revelam que até os jogadores de futebol mestiços só veriam ser aceites a partir dos fins da década de 1940. Curiosamente, na então chamada “metrópole”, os clubes de futebol já aceitavam jogadores mestiços e negros, desde os anos 1940.

Por sua vez, o Ferroviário de Angola, também conhecido como clube do Bungo, nome dado a um subúrbio de Luanda, seria apelidado pejorativamente de “clube dos contratados”, numa explícita associação aos negros, que eram os que preenchiam a condição de contratados, apesar de haver, entre os seus atletas, alguns jogadores de raça branca pobres.

Da mesma forma, o Clube Atlético de Luanda, fundado em 1924, e que, mais tarde, nos anos 1960, seria conhecido como o “clube dos terroristas”, pelo facto de por lá terem passado alguns dos futuros dirigentes da luta anticolonial, era conhecido nos anos de 1950 como o “clube dos mulatos”.

Destaca-se, entre outros, naquela formação, Demóstenes de Almeida, o famoso atleta dos anos 1920 e 1930, que, nos anos 1940, 1950 e 1960, se destacaria como treinador e dirigente, sem nunca ter sido apresentado como negro.

Dados pesquisados pela ANGOP indicam que Luanda tinha, já na era colonial, uma segunda divisão de futebol, composta, em 1954, por oito clubes: o Grupo Desportivo Os Malhôas (que nesse mesmo ano muda de nome para Marcelo Império FC), FC Vila Clotilde, Atlético Sport Aviação (ASA), Grupo Desportivo Vasco da Gama, Desportivo União de S. Paulo, Clube Sport Marítimo de Luanda, São Paulo FC e Ferroviário.

Dos luandenses, neste mesmo ano, faziam parte da primeira divisão o FC de Luanda, o Sport Luanda e Benfica, o Sporting Clube de Luanda, o Clube Ferroviário de Angola e o Clube Atlético de Luanda.

Alguns desses clubes apresentavam clivagens raciais mais acentuadas, em especial os “clubes da baixa” ou “clubes dos brancos”, como apresentado anteriormente.

Ainda assim, os anos de 1950 foram marcados por um cenário de acentuada mutação, facto que ilustrado pela integração de jogadores mestiços e negros em equipas tradicionalmente reservadas até então a cidadãos de pele branca.

O futebol constituía uma paixão extraordinária para os luandenses, na era colonial, que, vendo brilhar jogadores de renome, como Areias, Domingos Inguila, Joaquim Dinis (Brinca na Areia), Chico Ventura, Kiferro, Ginguma e outros nomes sonantes, parte deles transitou para a fase de liberdade após a proclamação da independência nacional.

Eram, à época, grandes partidas de futebol, entre as equipas da Escola Perdida, Calumbundo, Juba Calumbundo e Juba Escola, que movimentavam multidões.

Naquele tempo, as equipas de referência eram o Asa, Sporting de Luanda, Benfica, Maxinde, Sporting do Rangel, Ginásio, São Paulo Futebol Club e Maianga.

Já depois da independência nacional, em 1975, começaram a surgir as agremiações Desportivas, como o 1º de Agosto, Progresso do Sambizanga, Académica Social Escola do Zangado, Vitória do Sambizanga, Bangú FC, Diabos Verdes (Leões), Grupo Desportivo da TAAG (ASA), Petro de Luanda, Ferroviário, entre outros.

Esses clubes “desfilavam” em vários recintos pelados e no relvado dos Coqueiros e da Cidadela, com a presença massiva de espectadores, sem descriminação racial.

À época, outras modalidades desportivas, como o basquetebol, andebol, a natação, desporto de lutas, ciclismo, xadrez, atletismo, voleibol, ténis de campo e ténis de mesa, também entraram em evidência, sem qualquer restrição aos seus praticantes e dirigentes.

Luanda tinha, na época colonial e nas duas primeiras décadas do pós-independência, várias infra-estruturas desportivas, mas muitas delas “sucumbiram” ao tempo.

Actualmente, a capital do país conta com novos recintos desportivos, como os estádios 11 de Novembro, 22 de Junho, França Ndalu, pavilhões, outras tantas quadras de salão, piscinas para a prática de natação, que dão vida ao desporto da capital do país.

Depois da independência nacional e com uma saúde financeira segura, muitas empresas sedeadas em Luanda constituíam as suas agremiações Desportivas, com particular foco no futebol, nos casos da Sociborda, Epigel, Bolama, Imavest, GD da ETP, Secil Marítima, Edipesca, Fata, entre outros, que disputavam os provinciais de infantis (Caçulinhas da Bola), juvenis, juniores, primeira e segunda divisões em seniores.

Nas décadas de 70 e 80, respectivamente, Luanda participava nos campeonatos nacionais de primeira e segunda divisões com várias equipas, com destaque para o 1º de Agosto (primeiro campeão nacional – vulgo  Girabola), Progresso do Sambizanga, Diabos Verdes, Desportivo da TAAG e Petro de Luanda.

Deste lote de equipas faziam desfilar nomes de referência no relvado dos estádios dos Coqueiros e Cidadela e no pelado de São Paulo, como Daniel Ndunguidi, Napoleão Brandão, Carlos Alves, Luís Cão, Salviano, Praia, Eduardo André, Adriano Panzo, Jesus, Lufemba, Abel Campos, Manuel Loth, Rola, Juju, Eduardo Machado e Vata.       

Os adeptos percorriam quilómetros, saídos dos musseques do Sambizanga, Cazenga, Marçal, Rangel, Cacuaco e Viana em períodos diurnos e nocturnos, para ver a brilhar estas estrelas do futebol, de uma longa lista que não se consegue concluir.

Na verdade, o desporto, em Luanda, sempre foi uma realidade presente, animando os habitantes da capital do país e de outras regiões de Angola.

As marcas e os feitos dos protagonistas estão registadas em alguns trabalhos de pesquisa, mas importa que devem continuar a ser publicados em livro, para preservar a memória colectiva dos luandenses e demonstrar que, afinal, a cidade sempre teve vida.