Covid-19 impõe novos desafios aos educadores

  • Sala de aulas com alunos na Escola do 1º Ciclo do ensino Secundário nº 5111 em Viana
Luanda - O ano de 2020 tem vindo a impor duros desafios aos diferentes grupos profissionais de todo o Mundo, em particular aos educadores, que procuram contornar as barreiras da Covid-19 e seguir firmes no compromisso de instruir.

(Por Márcia Manaça, jornalista da ANGOP)

Ao longo dos últimos nove meses, falar em aulas afigura-se um bicho-de-sete-cabeças para os profissionais do sector em Angola, que celebram neste domingo (22) o Dia Nacional do Educador, num ambiente de incertezas e temores.

É quase consensual que, por conta da pandemia, o presente ano já pode ser considerado um dos mais complexos para os milhares de docentes, estudantes e encarregados de educação.

Para proteger os professores, alunos e funcionários administrativos, e fazer seguir adiante o ano lectivo, o Executivo impôs novas regras no processo de ensino e aprendizagem.

Entre estas regras figuram a obrigatoriedade do distanciamento físico, redução do tempo de aulas e repartição das turmas em dois grupos.

Procurando sempre melhorar o processo de ensino e de transmissão de conhecimentos, docentes e algumas instituições de ensino, particularmente privadas, apostaram nas plataformas e estratégias de ensino à distância.

Esta inovação fez com que os professores se reinventassem na sua forma de dar aulas e lidar com as dificuldades, como uso regular e frequente das tecnologias de informação (tics).

Apesar da nova rotina, os docentes arregaçaram as mangas, com os olhos na transmissão de conhecimentos e formação dos discentes, tendo como foco a melhoria da qualidade do ensino.

No novo normal, face às restrições impostas pelo Governo, a cada docente do ensino secundário, por exemplo, só pode permanecer 03h30 na sala de aulas, por dia, numa turma com até 20 alunos no máximo. 

Apesar dos altos riscos de contágio e das novas formas provisórias de educação, os docentes do país, tal como os funcionários administrativos, dizem-se prontos para os desafios.

A professora primária Celmira Malungo reconhece que em época de pandemia a sua vida deu uma volta de 360 graus.

Embora tenha tido dificuldades em utilizar as novas ferramentas, reconhece que o seu dia-a-dia tem sido positivo, apesar da Covid-19.

Como professora, diz que sente falta do convívio com os alunos, afirmando que falar para uma câmara é algo totalmente diferente e desfiador.

“Consegui organizar-me e tenho tempo para dedicar a preparação das aulas que ministro no aplicativo zoom. As correções das matérias, bem como para algumas tarefas de casa que anteriormente passavam despercebidas”, afirma.

A pandemia da Covid-19, de acordo com a docente, mudou a forma de leccionar, obrigando ao uso da tecnologia, uma mais-valia que promove conexões com o mundo.

Apesar de não ter havido tempo para se prepararem para as aulas à distância, contribuindo para o aumento do trabalho, a professora considera satisfatório voltar a dar aulas depois dos longos meses de suspensão da actividade lectiva, devido à Covid-19 em Angola.

"Há mais trabalho, porque precisamos de preparar as aulas em um outro formato, mas cada vez mais nos adequamos melhor", diz.

Quem também destaca o aumento do fluxo do trabalho é a professora Maria Carolina.

"Tive que aprender a utilizar ferramentas, sem falar que o formato das actividades feitas à distância é bastante diferente das habituais em sala de aula”, afirma a docente.

Ainda assim, Maria Carolina aponta vantagens, como gerar e agregar informações extras para os estudantes e os professores, proporcionadas pelas novas tecnologias e suas plataformas, pois o mundo está em constante evolução e as tecnologias fazem parte da mesma.

"É possível ensinar sobre um assunto e ir bem além do livro e caderno", aponta.

A maior desvantagem é que o acesso à internet ainda é bastante limitado para alguns alunos, principalmente de baixa renda.

A professora de matemática do ensino superior, Maria de Natividade, faz saber que as aulas do mestrado de matemática, iniciadas em Março de forma presencial, passaram a ser on-line.

A docente afirma terem passado, também, por alguns constrangimentos, até na escolha da plataforma a ser usada, a zoom, dificuldades de rede com estudantes de algumas províncias.

"Tivemos de baixar as propinas para os alunos criarem as condições para acesso ao on-line

ANEP apela para redução dos custos de internet

Entretanto, para ajudar as famílias no processo de ensino à distância, a Associação do Ensino Privado “ANEP” apela ao Estado para baixar os preços do consumo de internet e melhorar o sinal e acesso a mais aparelhos electrónicos.

Para o presidente da ANEP, António Pacavira, o Executivo deve trabalhar com empresários para conseguir fazer chegar a internet a preços baixos até aos mais vulneráveis, permitindo que possam dar continuidade, usando as tecnologias de informação no processo de ensino.

António Pacavira diz que o processo de ensino deve ser inclusivo e nesta fase marcada pela pandemia da Covid-19 o Governo tem a obrigatoriedade de tudo fazer para que todos tenham acesso ao ensino.

Aposta na melhoria

A Educação em Angola tem atravessado momentos de avanços e retrocessos de políticas educativas, o que condiciona a sua evolução e afirmação no cenário regional e internacional.

Apostado em melhorar o processo de ensino e aprendizagem, o Executivo aprovou o novo plano curricular e de manuais, bem como alguns diplomas como a actualização da carreira docente e de salários e categorias.

No seu mais recente discurso sobre o Estado da Nação, o Presidente da República, João Lourenço, pediu melhorias da qualidade ensino, com acções de formação e superação dos docentes, construção de novas infra-estruturas e reabilitação de outras, para melhorar as condições de acomodação de professores e alunos e aumentar a oferta de vagas.

O Chefe de Estado destacou, entre outros, os concursos públicos realizados, nos últimos dois anos, que garantiram o enquadramento de 9.511 docentes, o que permitiu elevar o seu número de 200.674, em 2017, para 210.674, em 2020.

Estão também a ser criadas as condições de atracção e retenção de quadros qualificados nas zonas rurais, mediante diferentes incentivos.

Dados

No início do ano lectivo 2020, foram disponibilizadas 39.844 salas para o pré-escolar e ensino primário.

Para o ensino secundário geral, foram disponibilizadas 16.069 salas de aula para o I ciclo e 11.865salas de aula para o II ciclo.

Nos três níveis de ensino, existem agora 167.032 salas de aula, tendo havido um aumento de mais de 69.348 novas salas de aula em relação ao ano de 2017.

Esse aumento de salas de aula permitiu o ingresso de mais de 3.120.000 alunos, saindo dos 10.600.000 matriculados em 2017 para mais de 13.700.000 alunos matriculados no presente ano lectivo.