“Angola deve investir forte num sistema de gestão de resíduos” – Pesquisador angolano     

  • Emanuel Fernando Zeferino, Engenheiro industrial angolano, residente na África do sul
Luanda – O pesquisador angolano Emanuel Fernando Zeferino defendeu, em entrevista à ANGOP, que o Governo angolano deve investir fortemente num sistema de gestão de resíduos.  

Por:  Venceslau Mateus

“Se não investirmos nisso, poderemos construir quantos hospitais quisermos, não teremos capacidade, porque, na dinâmica da saúde pública, precisamos de encontrar um equilíbrio entre a gestão de resíduos e os hospitais”, disse.

Emanuel Zeferino sublinhou que um país com um bom sistema de gestão de resíduos terá menos doenças e, por conseguinte, menos despesas nos sistemas de saúde.   

Para o caso específico da capital, o especialista afirma que o problema de Luanda não consiste em adjudicar um concurso a uma empresa gestora de resíduos, mas sim partir para soluções sustentáveis.  

“Luanda precisa de encomendar um estudo de pesquisa para as melhores soluções em sistemas de gestão de resíduos, que vão não só responder às suas necessidades de hoje, mas também às futuras”, sublinhou.  

Para o entrevistado, a questão dos resíduos sólidos não é uma doença crónica, com a qual os angolanos terão de viver para sempre.  

“Se dermos o passo certo, iremos curar as nossas feridas, ou seja, iremos sair vitoriosos”, disse o especialista na entrevista, na qual na qual discorre, igualmente, por outros assuntos  actuais e de interesse.  

Leia a entrevista na íntegra.  

ANGOP – É pesquisador-assistente no Centro de Pesquisas de Manufacturação Avançada da Universidade Tecnológica de Tshwane, na África do Sul. Como ingressou neste projecto?    

Emanuel Zeferino (EZ)  – Emanuel Zeferino Gostaria de começar por agradecer à ANGOP, por me ter feito convite para esta entrevista, facto que mostra que tem valorizado os casos de sucesso dos angolanos, mesmo na diáspora.    

Para responder à pergunta, na época eu era orgulhosamente um estudante da Universidade de Tecnologia de Tshwane, que, há muitos anos, é a melhor em tecnologia a nível de África. Durante a minha vida académica, fui-me destacando e despertei o interesse do chefe do Departamento de Engenharia Industrial da mesma instituição.    

No terceiro ano, fomos obrigados a estagiar por um ano na indústria, e o meu então chefe de departamento, o professor Khumbulani Mpofu, convidou-me para fazer parte da sua equipa de pesquisadores, que estava focada num projecto industrial com a Gibela Rail, a primeira empresa de fabricação de comboios de passageiros na África do Sul. Juntei-me à equipa e participei dos estágios finais do estabelecimento dessa empresa de manufactura e do estágio inicial do estabelecimento do que é chamado de Gibela Research Chair, que se concentra no fomento da pesquisa para a revitalização da indústria ferroviária na África do Sul.    

Foi assim que ingressei no Centro de Pesquisas e comecei a minha trajectória de investigação em manufacturação avançada.      

ANGOP  – Esta é uma área pouco conhecida em Angola. Em concreto, o que faz no Centro de Pesquisas de Manufacturação Avançada?    

EZ  – A competição industrial em todos os sectores continua a aumentar a uma grande velocidade, em todo o mundo. Muitos países que eram capazes de fornecer uma variedade de produtos no mercado, tanto interno como externo, perderam esta possibilidade, principalmente para empresas da China, da Alemanha ou de outras economias competitivas. O mercado é global, e ninguém pode ficar isolado. Os países que dominam a arte da manufactura enxuta e têm produtos competitivos, seja no preço, como no caso da China, ou na qualidade, como no caso do Japão ou da Alemanha, continuarão a liderar se os outros não acordarem. São necessários esforços aturados (pesquisas) para se manter um país competitivo neste mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo.    

No Centro de Manufacturação Avançada, estudamos em várias disciplinas. A África do Sul pode manter as suas empresas manufactureiras competitivas e emergir em áreas onde outros países já conquistaram o mercado. Hoje, as velhas formas de fabricação de diversos produtos já não satisfazem a procura. Desenvolvemos máquinas avançadas, estudamos uma manufacturação eficiente e mais limpa e modelos de treinamento para a força de trabalho sul-africana, conduzimos estudos de optimização e desenvolvemos novos sistemas de manufacturação e logística a serem implantados, desenvolvemos e incubamos novos produtos que surgem na África do Sul e no mercado global. Vários estudos e experiências relacionadas com sistemas de manufactura, principalmente no sector dos transportes, que é o nosso núcleo de negócios, são conduzidos por este centro e servem de solução para muitas organizações no país, assim como para o Governo sul-africano, a fim de se preservarem empregos existentes e criarem-se novos.     

ANGOP  – O   que significa, para si, integração num centro de pesquisa com esta magnitude?    

EZ  – Isto tem um grande significado para mim. Acordo todos os dias com a consciência de que tenho a grande obrigação de dar o meu melhor contributo para a sociedade. Sei que, se o meu projecto não vincar, falharei com o país, com a África e o mundo, em geral. O emprego das pessoas depende do sucesso das coisas que faço diariamente e, portanto, a sua felicidade e vida dependem também de mim. O Governo sul-africano atribui milhões de rands, todos os anos, aos vários projectos que dirigimos, e também trabalhamos com financiamento internacional. Esses fundos precisam de ser convertidos directa ou indirectamente para diminuir a pobreza e o desemprego no país. Carregamos uma responsabilidade enorme e muito pesada, mas é da mesma forma muito gratificante receber esta confiança e estar entre alguns dos melhores cérebros de África e ser respeitado entre eles como um dos seus melhores recursos. Para além disso, tem um significado maior quando a pessoa interage com alguns dos melhores cérebros do mundo em projectos cooperativos com outros países, como a Alemanha, a China e os Estados Unidos da América, para citar apenas alguns.    

ANGOP – Quais foram, numa primeira fase, em concreto, os principais obstáculos que encontrou durante a sua trajectória, até chegar à instituição?     

EZ – Foram muitos, como aprender a língua, bem como a integração na sociedade. Para dar um exemplo, a África do Sul tem uma política de emprego rígida: dar oportunidades a um estrangeiro é quase impossível e precisa de justificações sérias. Um momento muito difícil foi quando decidi inscrever-me no estágio, durante o meu segundo ano na universidade. A regra da Faculdade Técnica era clara: no terceiro ano, o estudante é obrigado a fazer um estágio e só se tiver uma boa classificação no segmento da indústria estará apto para voltar e concluir o último. Fui de tal forma um bom aluno, ao ponto de não ter partido só de mim a iniciativa de me candidatar, mas ter sido também recomendado a algumas empresas por alguns dos meus professores. Infelizmente, eu era chamado para entrevistas por algumas das melhores empresas da África do Sul, mas, quando se apercebessem de que eu era estrangeiro, a candidatura não avançava. O argumento era de que os estágios eram financiados pelo Governo e que esses fundos se destinavam, exclusivamente, a jovens sul-africanos. Graças a Deus, duas empresas autorizaram-me, mas, naquela mesma altura, fui convidado pelo professor para fazer parte da equipa de pesquisas. Era um projecto mais ambicioso, e eu avancei.     

ANGOP  – É o único angolano a trabalhar no projecto ou tem conhecimento de outros ao serviço do mesmo centro?    

EZ  – Infelizmente, sou o único angolano no centro e não conheci outro na comunidade de pesquisas com a qual trabalhei. A certa altura, recomendei outro angolano, que concluiu o mesmo curso, porém a sua candidatura não foi aceite, porque não cumpria com todos os requisitos. Seria bom tê-los, porque os meus colegas perguntam sempre, em tom de brincadeira: “onde estão os seus irmãos”?    

ANGOP  – Por que razão considera que poucos angolanos consigam aceder aos grandes centros de pesquisa mundial, como foi o seu caso? Onde reside o problema?    

EZ – Acredito que tenha a ver com a falta de referências. Embora existam alguns investigadores, em Angola são poucos os que são reconhecidos internacionalmente ou que deram um contributo significativo para o corpo do conhecimento. É uma pena, porque todas as potências globais são baseadas na pesquisa, pois é onde uma nação obtém conhecimento sobre o seu passado, presente e direcções para o futuro. Para além disso, as nossas televisões, rádios e jornais não noticiam sobre os poucos angolanos exemplares na comunidade científica. Literalmente, não os conhecemos, e esta falta de divulgação tem feito que o país valorize menos a carreira e o conhecimento científico. Na África do Sul, por exemplo, existem vários fundos disponíveis para projectos que promovem pesquisas, ciência e tecnologia, a que os pesquisadores podem aceder para os seus projectos promocionais, como workshops, entre outros.    

No meu caso, tal como afirmei nas minhas respostas, não era o meu plano inicial, mas acabei por fazer investigação e apaixonei-me.    

Os angolanos, em geral, não sonham em ser pesquisadores, porque não conhecem ninguém que tenha feito uma carreira de sucesso e seja conhecido apenas por isso. Portanto, o problema consiste na falta de referência e promoção. Por outro lado, Angola não investe muito em pesquisas, o que torna o campo menos atraente para as pessoas. Também não podemos ignorar a falta de esforço, nos últimos anos, dos reitores das universidades e de todos os ministérios que deveriam investir em pesquisas. Existem vários fundos disponíveis, internacionalmente, para as pesquisas. É hora de fazermos grandes esforços de ter acesso a eles, para promovermos a pesquisa. 

ANGOP  – Um dos maiores problemas dos Estados africanos é a fuga de cérebros. Depois desta oportunidade na África do Sul, Angola poderá, algum dia, beneficiar dos resultados das suas pesquisas sobre a produção de componentes de aeronáutica?   

EZ – Falando em fuga de cérebros, embora eu não possa divulgar os números, durante a nossa pesquisa para a indústria aeroespacial, descobrimos que um grande grupo de cérebros sul-africanos na indústria aeroespacial havia deixado o país para trabalhar para os Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e alguns outros países, quando a África do Sul se decidiu a fechar uma das suas maiores e mais bem estabelecidas fábricas de estruturas aeronáuticas. Essas descobertas levaram ao surgimento deste projecto, que estou a liderar actualmente, para reter os cérebros restantes e transmitir habilidades à nova geração.    

Quanto à pergunta, a minha pesquisa não se resume apenas na fabricação de componentes aeroespaciais. Este é apenas o projecto actual, que estou a liderar desde 2019. Antes desse, tinha liderado vários outros, como o desenvolvimento do plano da primeira fábrica de aprendizagem para a indústria automóvel, também na África do Sul. É um vasto conhecimento e experiência que estou a adquirir e, por mais que Angola não possa beneficiar directamente dos projectos aeroespaciais, onde quer que seja necessária a minha perícia no país, terei todo o prazer em contribuir. Devemos ser como soldados prontos para a guerra, embora a nossa guerra não seja mais com armas de fogo, mas com evidências científicas que levarão o país adiante.   

ANGOP – Como avalia o estado de desenvolvimento do segmento da Engenharia Industrial em Angola?    

EZ – O estado de desenvolvimento da Engenharia Industrial em Angola ainda é precário.  Eu conheço algumas universidades que oferecem diploma nessa área, não ouvi falar de formações de pós-graduação, e há pouca pesquisa a ser feita na área, se houver alguma. No entanto, sei que existem pessoas com grande empenho em fazer de Angola um dos países líderes na área da Engenharia Industrial no continente. Tenho contacto com algumas delas, desde o ano passado, e partilharam o interesse em desenvolver essa área.    

Em termos de indústria, a situação é ainda pior, uma vez que são poucas as empresas que aplicam os princípios da Engenharia Industrial, seja na indústria de transformação ou de serviços. Princípios enxutos básicos, como limpeza (5S), manutenção produtiva total ou programação adequada, para mencionar apenas alguns, não conseguimos implementá-los nas nossas organizações. Como consequência, a produtividade é muito baixa, e as empresas incorrem em custos elevados, não atendendo à qualidade ou ao prazo de entrega, bem como credenciamentos básicos como o da organização de padrão internacional (ISO). Precisamos de desenvolver excelentes engenheiros industriais, para que as nossas empresas se tornem mais competitivas no mercado da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) ou mesmo no mercado africano, em geral, com a abertura da Área Livre de Comércio Africano (ALCA).    

ANGOP  – Uma vez a Engenharia Industrial ser, ainda, incipiente,  em Angola, que caminhos aponta para se alterar o quadro?    

EZ  – Colaboração para a capacitação, tanto para o sector de serviços e manufactura, quanto na área académica. Existem várias organizações internacionais, de igual modo em África (nas quais faço parte de algumas), que foram criadas para conectar engenheiros industriais de todo o mundo e para ajudar as indústrias a melhorarem o seu desempenho, mesmo a nível do país, para a melhoria da produtividade. Precisamos de conectar os nossos engenheiros industriais à rede global, para que possam trocar experiências. Estamos agora na 4.ª Revolução Industrial, e a única coisa que permanece constante é a mudança, porque até a velocidade em que essa mudança acontece muda a cada dia. Os engenheiros industriais precisam de estar equipados com as ferramentas mais actuais para se manterem relevantes.    

Todos os anos, temos perto de três projectos internacionais no nosso centro de pesquisa que administramos com pesquisadores de outros países. Angola tem de começar a fazer isso. Para além da colaboração, precisamos de aumentar a conscientização da indústria e do Governo sobre os benefícios dos princípios da Engenharia Industrial nas suas operações, bem como conscientizar os jovens, a fim de que possam escolher esse ramo, quando ingressarem nas universidades.    

ANGOP  – Sem um parque industrial, podemos falar de Engenharia Industrial?     

EZ – Um parque industrial é apenas um conceito de “clusterização” industrial. Podemos ter empresas a operar separadamente fora de um parque industrial. Esse é o caso de Angola, e é assim em todo o mundo. A Engenharia Industrial existe sem parques industriais. Penso que também seja importante reiterar que os engenheiros industriais não trabalham apenas no ambiente de manufactura, também trabalham em vários outros sectores. O Governo dos Estados Unidos e o Governo japonês, por exemplo, empregam muitos engenheiros industriais para optimizar as suas cadeias de suprimentos e outros processos no exército. Muitos dos meus colegas da universidade foram financiados pelo exército sul-africano, como uma estratégia para ter engenheiros industriais no exército, para fins de logística, cadeia de suprimentos e de outras estratégias militares importantes.    

A maioria dos bancos, na África do Sul e nos Estados Unidos, está a dar empregos a engenheiros industriais; a maioria das empresas de logística (portos, companhias ferroviárias e aéreas) tem engenheiros industriais em todos os departamentos. Os engenheiros industriais nada mais são do que solucionadores de problemas, aprendem desde projectos mecânicos, optimização de processos até estratégias de gerenciamento de negócios, com recurso à matemática e estatística. Geralmente, os engenheiros industriais são bons gestores de empresas. Entre outras instituições, alguns exemplos são Henry Ford (fundador da Ford) e Tim Cook (CEO da Apple).    

ANGOP  – E em relação ao processo de investigação aplicada?    

EZ  – A pesquisa aplicada é a chave para sustentar um país, uma empresa. Ela responde a todas as questões relevantes para explicar fenómenos práticos que afectam o meio socioeconómico e ambiental e ajuda a prever ocorrências futuras. É a pesquisa aplicada que resolve os problemas mais urgentes do mundo, países ou comunidades. A pesquisa que está a ser feita actualmente, como a que fiz em questões de Covid-19, é para responder às questões mais pertinentes relativas à situação actual e recomendar acções a serem tomadas para melhores resultados. Esse é o poder da pesquisa aplicada. Por exemplo, recentemente, tivemos a seca no Cunene. É importante que sejam feitas pesquisas aplicadas para perceber quais são as causas da falta de chuvas naquela região e prever a sua recorrência, para estarmos prontos antes da próxima seca e prevenirmos perdas na agricultura entre outras.   

As universidades e os institutos de pesquisa precisam de ser altamente financiados para a pesquisa aplicada em vários campos, senão corremos o risco de nunca podermos, realmente, resolver os nossos problemas mais prementes, como a fuga de cérebros.    

ANGOP  – Mudando de foco, é licenciado em Engenharia Industrial. Esta foi uma opção de recurso ou desejo de criança?    

EZ – Era uma segunda opção. Estudei Petroquímica durante o meu ensino médio no Instituto Politécnico do Lobito, e vim para a África do Sul, para estudar Engenharia Química. Quando me candidatei para estudar na universidade, já não havia vagas no Departamento de Engenharia Química. Foi assim que me aceitaram para a minha segunda opção, mas eu poderia mudar no ano seguinte. No entanto, apaixonei-me pela Engenharia Industrial e nunca mais quis mudar. 

ANGOP  – Afinal, de que se ocupa um engenheiro industrial?    

EZ  – A Engenharia Industrial é vasta, contudo a principal responsabilidade de um engenheiro industrial é optimizar processos, reduzindo o custo e o tempo de produção, e melhorar a qualidade de um produto ou serviço. Isso é feito de várias formas. Enquanto a empresa tiver os custos de produção reduzidos ao mínimo possível, o tempo de produção reduzido ao mínimo e o produto ou serviço saindo com a melhor qualidade possível, o profissional será um engenheiro industrial feliz.    

As ferramentas usadas por engenheiros industriais incluem desenho mecânico para melhorar o desenho de produtos ou ferramentas de trabalho; modelagem e simulação de sistemas, para encontrar oportunidades de melhoria de processos; análise de dados, para encontrar oportunidades de melhorias; gestão de projectos, pois o engenheiro poderá gerir projectos; pesquisa de operações, para gerir qualquer tipo de operação; projecto de sistemas, para saber como projectar um sistema de produção ou serviço; contabilidade de custos, para analisar custos e muito mais, incluindo todas as ferramentas de gestão e liderança.    

Um engenheiro industrial pode liderar um projecto muito complexo, que envolve uma abordagem multidisciplinar. Ele é treinado em várias disciplinas, para que saiba o que está a acontecer, seja em construção, manufacturação, instituição governamental, como em optimização de sistemas de distribuição de água ou electricidade ou mesmo sistemas de gerenciamento de resíduos. No entanto, a actividade principal de um engenheiro industrial, conforme declarado acima, é a optimização.    

ANGOP  – Que valências pode trazer para o desenvolvimento tecnológico de Angola?     

EZ – Pergunta interessante e muito semelhante a uma de entrevista de emprego.  Espero que a ANGOP me contrate depois de responder a esta pergunta! Eu fui exposto a tecnologias de ponta, como realidade virtual, tecnologia de manufactura aditiva, tecnologia de processamento de polímeros compostos e estou a conduzir uma pesquisa, na qual proponho uma estrutura futurística  para um sistema de manufactura sábia no sector de manufactura de transportes. Sei que os leitores querem saber de que se trata. É o último nível de manufactura que uma organização pode alcançar, que abrange o aprendizado de máquina e inteligência artificial para o processamento de metadados, processo de que derivam sabedoria para operações de manufactura, incluindo a interacção social humana. O mesmo conceito é usado para sistemas de gestão de cidades inteligentes. Sei que ainda é confuso, mas, por agora, é o quão longe posso ir, até que as descobertas científicas sejam divulgadas. De referir que já existem alguns pesquisadores que investigaram este tópico e já há matéria científica disponível.    

Todo este conhecimento que adquiri e que ainda tenho adquirido pode servir bem para aconselhar sobre a melhor forma de transferir algumas tecnologias para Angola e que políticas o Governo pode implementar para promover e regular o uso de tecnologias e também servir como conhecimento a ser transferido para a vasta comunidade empresarial e outras comunidades, principalmente para aqueles que têm apetite pelo avanço da tecnologia.    

Também conduzi o desenvolvimento da proposta de plano agora aprovada, de estabelecimento da primeira fábrica de aprendizagem para a indústria automóvel. A fábrica de aprendizagem é o novo conceito utilizado para a transferência de tecnologia, provando ser a forma mais eficiente de desenvolver tecnologias e transferência de habilidades (know-how). Angola deve usar projectos semelhantes, para requalificar e capacitar os nossos jovens, bem como transmitir o aprendizado às nossas pequenas empresas.    

ANGOP  – Publicou, recentemente, um artigo sobre a gestão da pandemia e deu uma avaliação bastante positiva ao modo como Angola tem tomado medidas preventivas e de combate à Covid-19. Quer aprofundar mais sobre o assunto?    

EZ  – Sim, obrigado! Angola tem fortes relações económicas com a China. Muitos angolanos vão regularmente à China para comprar produtos consumidos pelo mercado angolano, e vemos muitos chineses em Angola trabalhar nos vários projectos financiados pela China e outros que escolheram Angola para ser a sua casa. Portanto, há alto tráfego entre os dois países. Dado que o primeiro caso da Covid-19 foi identificado na China, Angola foi identificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos países que seriam gravemente afectados no continente africano.    

Nenhum país teve capacidade para responder à gravidade desta pandemia, com pesquisas, mostrando um número de reprodução básica (Ro) com média de 3,28 e mediana de 2,79.    

Apesar dos poucos incidentes enfrentados na fase inicial, durante o início da pandemia em Angola, o país começou a reerguer-se e administrou bem a situação. Os nossos números de casos positivos são muito controláveis. Precisamos de felicitar a equipa responsável pelos resultados das políticas implementadas e, também, a população, que tem colaborado com estas medidas. Ninguém sabia como controlar esta pandemia. Todos estamos a aprender e devemos aprender rápido.    

Recebi algumas informações de que Angola está a localizar instalações de quarentena nas suas várias fronteiras terrestres, o que é muito bom. No entanto, também temos fronteiras marítimas e aéreas. É importante que não as descuidemos. Para além disso, apesar de localizar instalações de quarentena perto de fronteiras ser um factor crítico para o sucesso, ao lado desse factor estão outros, como a acessibilidade, a segurança, o custo, a proximidade de instalações médicas bem equipadas, a presença de profissionais bem treinados, a hospitalidade e outros que podem ser encontrados no artigo. Todos esses são factores conflituantes, que têm pesos diferentes na tomada de decisões e têm uma ordem de prioridade. Com as ferramentas matemáticas adequadas, conforme apresentadas no artigo, pode-se chegar a uma melhor decisão.    

Apesar disso, obviamente para chegar às minhas descobertas, tive de apresentar muito conhecimento sobre a Covid-19 e sobre a situação pandémica, em geral. Recomendo que a Comissão Multissectorial de Combate à Covid-19 aproveite o vasto conhecimento que apresento no artigo, para que sirva de fonte de conhecimento para melhor gerenciar a pandemia e para nos prepararmos para as ocorrências futuras.    

Outro ponto fundamental que apresento no artigo é que um sistema eficaz de monitoramento de pacientes com Covid-19 oferecerá melhores resultados no cumprimento das medidas de quarentena, tanto institucionais quanto domésticas do que as leis rigorosas.  

ANGOP  – Vivendo na África do Sul, qual julga ser a causa principal da subida exponencial de infectados, num país até com um índice de desenvolvimento maior que o de Angola?       

EZ  – A principal questão em torno do crescimento exponencial no caso da África do Sul foi a falta de cumprimento das medidas decretadas. As pessoas não cumpriram com as medidas de distanciamento físico, o uso de máscaras, entre outras. Esse comportamento, observado em várias províncias, resultou no aumento massivo de pessoas infectadas.    

No início da pandemia, a África do Sul conseguiu virar a curva para uma redução significativa por meio da implementação de leis rígidas. Depois de ter conquistado algum sucesso, relaxou nas medidas de bloqueio, e isso resultou num ressurgimento. Para além disso, a fusão da nova variante, identificada pela primeira vez nesse país, foi um factor importante nos altos números de contágio. Felicito as autoridades sul-africanas pelas medidas actualmente implementadas. Os casos estão a diminuir, e há mais consciência por parte das pessoas, como resultado de um programa de conscientização bem planificado.    

 

ANGOP – Para finalizar, o que recomendaria aos angolanos, no sentido de manterem limpas as suas cidades, principalmente Luanda, a capital, que vive, neste momento, uma situação de autêntico sufoco, nesta matéria?   

EZ – Investir num forte sistema de gestão de resíduos é crucial. Se não investirmos nisso, poderemos construir quantos hospitais quisermos, não teremos capacidade, porque, na dinâmica da saúde pública, precisamos de encontrar um equilíbrio entre a gestão de resíduos e os hospitais. Um país com um bom sistema de gestão de resíduos terá menos doenças e, por conseguinte, menos despesas nos sistemas de saúde. A análise de custo-benefício mostrará que há grandes benefícios em manter as nossas cidades limpas.  

Luanda precisa de uma intervenção urgente para melhorar a situação e vejo que o Governo reuniu-se com a sociedade, recentemente, e criou um programa de emergência, ao mesmo tempo de deu garantias de que, para o caso específico de Luanda, será feito um concurso público, a partir de Março próximo. A medida será boa para a situação em que Luanda se encontra, embora, não sustentável, a longo prazo. O problema de Luanda não consiste em adjudicar um concurso a uma empresa gestora de resíduos. Precisamos de soluções sustentáveis e temos ferramentas para nos ajudar nisso. Antes que uma empresa de gestão de resíduos possa operar, as infra-estruturas básicas precisam estar disponíveis e essas são infra-estruturas de longo prazo que estão sob a responsabilidade dos gestores das cidades.  

Luanda tem que localizar estrategicamente as suas infra-estrutura de gestão de resíduos para vencer esta luta. Deve localizar estrategicamente as fábricas de processamento de resíduos. Uma má localização de uma fábrica de processamento de resíduos torna difícil a intensa logística necessária. Precisamos de localizar estrategicamente os nossos aterros, para uma melhor gestão dos nossos resíduos. A selecção de um espaço ideal para o estabelecimento de um aterro é importante, na medida em que fica muito cara a sua deslocalização. Por isso é que, quando tivermos que analisar esta matéria, precisamos ter uma capacidade tecnológica concebida para um horizonte temporal de até 100 anos, no mínimo, e contarmos com o crescimento demográfico para o mesmo período. 

Luanda precisa de encomendar um estudo de pesquisa para as melhores soluções em sistemas de gestão de resíduos, que vão não só responder às suas necessidades de hoje, mas também às futuras. E isso é possível. A nossa equipa fez um estudo dessa dimensão e natureza uma cidade inteligente em fase de planeamento, na África do Sul. 

A produção de resíduos é um problema dinâmico e precisamos de pensamento sistémico, dinâmica de sistema e simulação de sistema para nos ajudar a resolver o problema. Cinco anos depois, a produção de resíduos e a sua composição em Luanda serão diferentes das de hoje, para não falar em 30 ou mais anos depois. Temos que simular como será num determinado horizonte temporal e fazer uma previsão com alto nível de confiança e baixa margem de erro usando ferramentas de simulação cientificamente aceitáveis.  

Isso nos ajudará, até, a seguir as políticas certas, que determinarão que produtos poderão ser substituídos, como Kigali substituiu o uso do plástico pelo papel e muitos países tributam mais em produtos de determinado material do que os que são biodegradáveis ou de menos poluição.   

Falamos de imposto de carbono e outros impostos em vigor em muitos países. Além disso, precisamos de impulsionar e promover a economia circular. Este é o mais recente conceito de gestão de resíduos, no qual os produtos não são descartados mas integrados nos sistemas naturais. O mundo está a começar a usar este modelo. Bom será que Angola abrace esse desafio. Não é muito cedo para começar. Este é, realmente, o tempo certo para Angola começar. Claro que o homem está por dentro de todos esses estudos. É necessário desenvolver estudos de educação bem concebidos, que tragam uma mudança real na mentalidade dos luandenses, no que aos resíduos diz respeito. Elaborados por especialistas, esses programas têm impacto psicológico nas pessoas. Vamos dar o passo certo e resolver a questão pela raiz. A questão dos resíduos sólidos não é uma doença crónica, com a qual teremos de viver para sempre. Se dermos o passo certo, iremos curar as nossas feridas, ou seja, iremos sair vitoriosos.  

ANGOP  – Quem é Emanuel Zeferino?    

EZ  – Sou filho de Angola, da terra das Acácias Rubras, e hoje conhecido pela sua contribuição na investigação científica. Sou cristão assíduo e engenheiro industrial com experiência na fabricação de plásticos, de componentes ferroviárias e comboios e na indústria aeronáutica. Na filantropia, sou co-fundador de um programa que oferece aulas de tutória a um abrigo para meninas vítimas de abuso, pois acredito na educação e nos abrigos. Elas não têm ninguém para as ajudar a fazer os seus deveres de casa, como têm as crianças que vivem com os pais.    

Amo futebol e sou adepto da Académica do Lobito. Enfim, muito sucintamente, esse sou eu.      

“Se não investirmos nisso, poderemos construir quantos hospitais quisermos, não teremos capacidade, porque, na dinâmica da saúde pública, precisamos de encontrar um equilíbrio entre a gestão de resíduos e os hospitais”, disse.

Emanuel Zeferino sublinhou que um país com um bom sistema de gestão de resíduos terá menos doenças e, por conseguinte, menos despesas nos sistemas de saúde.   

Para o caso específico da capital, o especialista afirma que o problema de Luanda não consiste em adjudicar um concurso a uma empresa gestora de resíduos, mas sim partir para soluções sustentáveis.  

“Luanda precisa de encomendar um estudo de pesquisa para as melhores soluções em sistemas de gestão de resíduos, que vão não só responder às suas necessidades de hoje, mas também às futuras”, sublinhou.  

Para o entrevistado, a questão dos resíduos sólidos não é uma doença crónica, com a qual os angolanos terão de viver para sempre.  

“Se dermos o passo certo, iremos curar as nossas feridas, ou seja, iremos sair vitoriosos”, disse o especialista na entrevista, na qual na qual discorre, igualmente, por outros assuntos  actuais e de interesse.  

Leia a entrevista na íntegra.  

ANGOP – É pesquisador-assistente no Centro de Pesquisas de Manufacturação Avançada da Universidade Tecnológica de Tshwane, na África do Sul. Como ingressou neste projecto?    

Emanuel Zeferino (EZ)  – Emanuel Zeferino Gostaria de começar por agradecer à ANGOP, por me ter feito convite para esta entrevista, facto que mostra que tem valorizado os casos de sucesso dos angolanos, mesmo na diáspora.    

Para responder à pergunta, na época eu era orgulhosamente um estudante da Universidade de Tecnologia de Tshwane, que, há muitos anos, é a melhor em tecnologia a nível de África. Durante a minha vida académica, fui-me destacando e despertei o interesse do chefe do Departamento de Engenharia Industrial da mesma instituição.    

No terceiro ano, fomos obrigados a estagiar por um ano na indústria, e o meu então chefe de departamento, o professor Khumbulani Mpofu, convidou-me para fazer parte da sua equipa de pesquisadores, que estava focada num projecto industrial com a Gibela Rail, a primeira empresa de fabricação de comboios de passageiros na África do Sul. Juntei-me à equipa e participei dos estágios finais do estabelecimento dessa empresa de manufactura e do estágio inicial do estabelecimento do que é chamado de Gibela Research Chair, que se concentra no fomento da pesquisa para a revitalização da indústria ferroviária na África do Sul.    

Foi assim que ingressei no Centro de Pesquisas e comecei a minha trajectória de investigação em manufacturação avançada.      

ANGOP  – Esta é uma área pouco conhecida em Angola. Em concreto, o que faz no Centro de Pesquisas de Manufacturação Avançada?    

EZ  – A competição industrial em todos os sectores continua a aumentar a uma grande velocidade, em todo o mundo. Muitos países que eram capazes de fornecer uma variedade de produtos no mercado, tanto interno como externo, perderam esta possibilidade, principalmente para empresas da China, da Alemanha ou de outras economias competitivas. O mercado é global, e ninguém pode ficar isolado. Os países que dominam a arte da manufactura enxuta e têm produtos competitivos, seja no preço, como no caso da China, ou na qualidade, como no caso do Japão ou da Alemanha, continuarão a liderar se os outros não acordarem. São necessários esforços aturados (pesquisas) para se manter um país competitivo neste mundo volátil, incerto, complexo e ambíguo.    

No Centro de Manufacturação Avançada, estudamos em várias disciplinas. A África do Sul pode manter as suas empresas manufactureiras competitivas e emergir em áreas onde outros países já conquistaram o mercado. Hoje, as velhas formas de fabricação de diversos produtos já não satisfazem a procura. Desenvolvemos máquinas avançadas, estudamos uma manufacturação eficiente e mais limpa e modelos de treinamento para a força de trabalho sul-africana, conduzimos estudos de optimização e desenvolvemos novos sistemas de manufacturação e logística a serem implantados, desenvolvemos e incubamos novos produtos que surgem na África do Sul e no mercado global. Vários estudos e experiências relacionadas com sistemas de manufactura, principalmente no sector dos transportes, que é o nosso núcleo de negócios, são conduzidos por este centro e servem de solução para muitas organizações no país, assim como para o Governo sul-africano, a fim de se preservarem empregos existentes e criarem-se novos.     

ANGOP  – O   que significa, para si, integração num centro de pesquisa com esta magnitude?    

EZ  – Isto tem um grande significado para mim. Acordo todos os dias com a consciência de que tenho a grande obrigação de dar o meu melhor contributo para a sociedade. Sei que, se o meu projecto não vincar, falharei com o país, com a África e o mundo, em geral. O emprego das pessoas depende do sucesso das coisas que faço diariamente e, portanto, a sua felicidade e vida dependem também de mim. O Governo sul-africano atribui milhões de rands, todos os anos, aos vários projectos que dirigimos, e também trabalhamos com financiamento internacional. Esses fundos precisam de ser convertidos directa ou indirectamente para diminuir a pobreza e o desemprego no país. Carregamos uma responsabilidade enorme e muito pesada, mas é da mesma forma muito gratificante receber esta confiança e estar entre alguns dos melhores cérebros de África e ser respeitado entre eles como um dos seus melhores recursos. Para além disso, tem um significado maior quando a pessoa interage com alguns dos melhores cérebros do mundo em projectos cooperativos com outros países, como a Alemanha, a China e os Estados Unidos da América, para citar apenas alguns.    

ANGOP – Quais foram, numa primeira fase, em concreto, os principais obstáculos que encontrou durante a sua trajectória, até chegar à instituição?     

EZ – Foram muitos, como aprender a língua, bem como a integração na sociedade. Para dar um exemplo, a África do Sul tem uma política de emprego rígida: dar oportunidades a um estrangeiro é quase impossível e precisa de justificações sérias. Um momento muito difícil foi quando decidi inscrever-me no estágio, durante o meu segundo ano na universidade. A regra da Faculdade Técnica era clara: no terceiro ano, o estudante é obrigado a fazer um estágio e só se tiver uma boa classificação no segmento da indústria estará apto para voltar e concluir o último. Fui de tal forma um bom aluno, ao ponto de não ter partido só de mim a iniciativa de me candidatar, mas ter sido também recomendado a algumas empresas por alguns dos meus professores. Infelizmente, eu era chamado para entrevistas por algumas das melhores empresas da África do Sul, mas, quando se apercebessem de que eu era estrangeiro, a candidatura não avançava. O argumento era de que os estágios eram financiados pelo Governo e que esses fundos se destinavam, exclusivamente, a jovens sul-africanos. Graças a Deus, duas empresas autorizaram-me, mas, naquela mesma altura, fui convidado pelo professor para fazer parte da equipa de pesquisas. Era um projecto mais ambicioso, e eu avancei.     

ANGOP  – É o único angolano a trabalhar no projecto ou tem conhecimento de outros ao serviço do mesmo centro?    

EZ  – Infelizmente, sou o único angolano no centro e não conheci outro na comunidade de pesquisas com a qual trabalhei. A certa altura, recomendei outro angolano, que concluiu o mesmo curso, porém a sua candidatura não foi aceite, porque não cumpria com todos os requisitos. Seria bom tê-los, porque os meus colegas perguntam sempre, em tom de brincadeira: “onde estão os seus irmãos”?    

ANGOP  – Por que razão considera que poucos angolanos consigam aceder aos grandes centros de pesquisa mundial, como foi o seu caso? Onde reside o problema?    

EZ – Acredito que tenha a ver com a falta de referências. Embora existam alguns investigadores, em Angola são poucos os que são reconhecidos internacionalmente ou que deram um contributo significativo para o corpo do conhecimento. É uma pena, porque todas as potências globais são baseadas na pesquisa, pois é onde uma nação obtém conhecimento sobre o seu passado, presente e direcções para o futuro. Para além disso, as nossas televisões, rádios e jornais não noticiam sobre os poucos angolanos exemplares na comunidade científica. Literalmente, não os conhecemos, e esta falta de divulgação tem feito que o país valorize menos a carreira e o conhecimento científico. Na África do Sul, por exemplo, existem vários fundos disponíveis para projectos que promovem pesquisas, ciência e tecnologia, a que os pesquisadores podem aceder para os seus projectos promocionais, como workshops, entre outros.    

No meu caso, tal como afirmei nas minhas respostas, não era o meu plano inicial, mas acabei por fazer investigação e apaixonei-me.    

Os angolanos, em geral, não sonham em ser pesquisadores, porque não conhecem ninguém que tenha feito uma carreira de sucesso e seja conhecido apenas por isso. Portanto, o problema consiste na falta de referência e promoção. Por outro lado, Angola não investe muito em pesquisas, o que torna o campo menos atraente para as pessoas. Também não podemos ignorar a falta de esforço, nos últimos anos, dos reitores das universidades e de todos os ministérios que deveriam investir em pesquisas. Existem vários fundos disponíveis, internacionalmente, para as pesquisas. É hora de fazermos grandes esforços de ter acesso a eles, para promovermos a pesquisa. 

ANGOP  – Um dos maiores problemas dos Estados africanos é a fuga de cérebros. Depois desta oportunidade na África do Sul, Angola poderá, algum dia, beneficiar dos resultados das suas pesquisas sobre a produção de componentes de aeronáutica?   

EZ – Falando em fuga de cérebros, embora eu não possa divulgar os números, durante a nossa pesquisa para a indústria aeroespacial, descobrimos que um grande grupo de cérebros sul-africanos na indústria aeroespacial havia deixado o país para trabalhar para os Emirados Árabes Unidos, Reino Unido e alguns outros países, quando a África do Sul se decidiu a fechar uma das suas maiores e mais bem estabelecidas fábricas de estruturas aeronáuticas. Essas descobertas levaram ao surgimento deste projecto, que estou a liderar actualmente, para reter os cérebros restantes e transmitir habilidades à nova geração.    

Quanto à pergunta, a minha pesquisa não se resume apenas na fabricação de componentes aeroespaciais. Este é apenas o projecto actual, que estou a liderar desde 2019. Antes desse, tinha liderado vários outros, como o desenvolvimento do plano da primeira fábrica de aprendizagem para a indústria automóvel, também na África do Sul. É um vasto conhecimento e experiência que estou a adquirir e, por mais que Angola não possa beneficiar directamente dos projectos aeroespaciais, onde quer que seja necessária a minha perícia no país, terei todo o prazer em contribuir. Devemos ser como soldados prontos para a guerra, embora a nossa guerra não seja mais com armas de fogo, mas com evidências científicas que levarão o país adiante.   

ANGOP – Como avalia o estado de desenvolvimento do segmento da Engenharia Industrial em Angola?    

EZ – O estado de desenvolvimento da Engenharia Industrial em Angola ainda é precário.  Eu conheço algumas universidades que oferecem diploma nessa área, não ouvi falar de formações de pós-graduação, e há pouca pesquisa a ser feita na área, se houver alguma. No entanto, sei que existem pessoas com grande empenho em fazer de Angola um dos países líderes na área da Engenharia Industrial no continente. Tenho contacto com algumas delas, desde o ano passado, e partilharam o interesse em desenvolver essa área.    

Em termos de indústria, a situação é ainda pior, uma vez que são poucas as empresas que aplicam os princípios da Engenharia Industrial, seja na indústria de transformação ou de serviços. Princípios enxutos básicos, como limpeza (5S), manutenção produtiva total ou programação adequada, para mencionar apenas alguns, não conseguimos implementá-los nas nossas organizações. Como consequência, a produtividade é muito baixa, e as empresas incorrem em custos elevados, não atendendo à qualidade ou ao prazo de entrega, bem como credenciamentos básicos como o da organização de padrão internacional (ISO). Precisamos de desenvolver excelentes engenheiros industriais, para que as nossas empresas se tornem mais competitivas no mercado da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC) ou mesmo no mercado africano, em geral, com a abertura da Área Livre de Comércio Africano (ALCA).    

ANGOP  – Uma vez a Engenharia Industrial ser, ainda, incipiente,  em Angola, que caminhos aponta para se alterar o quadro?    

EZ  – Colaboração para a capacitação, tanto para o sector de serviços e manufactura, quanto na área académica. Existem várias organizações internacionais, de igual modo em África (nas quais faço parte de algumas), que foram criadas para conectar engenheiros industriais de todo o mundo e para ajudar as indústrias a melhorarem o seu desempenho, mesmo a nível do país, para a melhoria da produtividade. Precisamos de conectar os nossos engenheiros industriais à rede global, para que possam trocar experiências. Estamos agora na 4.ª Revolução Industrial, e a única coisa que permanece constante é a mudança, porque até a velocidade em que essa mudança acontece muda a cada dia. Os engenheiros industriais precisam de estar equipados com as ferramentas mais actuais para se manterem relevantes.    

Todos os anos, temos perto de três projectos internacionais no nosso centro de pesquisa que administramos com pesquisadores de outros países. Angola tem de começar a fazer isso. Para além da colaboração, precisamos de aumentar a conscientização da indústria e do Governo sobre os benefícios dos princípios da Engenharia Industrial nas suas operações, bem como conscientizar os jovens, a fim de que possam escolher esse ramo, quando ingressarem nas universidades.    

ANGOP  – Sem um parque industrial, podemos falar de Engenharia Industrial?     

EZ – Um parque industrial é apenas um conceito de “clusterização” industrial. Podemos ter empresas a operar separadamente fora de um parque industrial. Esse é o caso de Angola, e é assim em todo o mundo. A Engenharia Industrial existe sem parques industriais. Penso que também seja importante reiterar que os engenheiros industriais não trabalham apenas no ambiente de manufactura, também trabalham em vários outros sectores. O Governo dos Estados Unidos e o Governo japonês, por exemplo, empregam muitos engenheiros industriais para optimizar as suas cadeias de suprimentos e outros processos no exército. Muitos dos meus colegas da universidade foram financiados pelo exército sul-africano, como uma estratégia para ter engenheiros industriais no exército, para fins de logística, cadeia de suprimentos e de outras estratégias militares importantes.    

A maioria dos bancos, na África do Sul e nos Estados Unidos, está a dar empregos a engenheiros industriais; a maioria das empresas de logística (portos, companhias ferroviárias e aéreas) tem engenheiros industriais em todos os departamentos. Os engenheiros industriais nada mais são do que solucionadores de problemas, aprendem desde projectos mecânicos, optimização de processos até estratégias de gerenciamento de negócios, com recurso à matemática e estatística. Geralmente, os engenheiros industriais são bons gestores de empresas. Entre outras instituições, alguns exemplos são Henry Ford (fundador da Ford) e Tim Cook (CEO da Apple).    

ANGOP  – E em relação ao processo de investigação aplicada?    

EZ  – A pesquisa aplicada é a chave para sustentar um país, uma empresa. Ela responde a todas as questões relevantes para explicar fenómenos práticos que afectam o meio socioeconómico e ambiental e ajuda a prever ocorrências futuras. É a pesquisa aplicada que resolve os problemas mais urgentes do mundo, países ou comunidades. A pesquisa que está a ser feita actualmente, como a que fiz em questões de Covid-19, é para responder às questões mais pertinentes relativas à situação actual e recomendar acções a serem tomadas para melhores resultados. Esse é o poder da pesquisa aplicada. Por exemplo, recentemente, tivemos a seca no Cunene. É importante que sejam feitas pesquisas aplicadas para perceber quais são as causas da falta de chuvas naquela região e prever a sua recorrência, para estarmos prontos antes da próxima seca e prevenirmos perdas na agricultura entre outras.   

As universidades e os institutos de pesquisa precisam de ser altamente financiados para a pesquisa aplicada em vários campos, senão corremos o risco de nunca podermos, realmente, resolver os nossos problemas mais prementes, como a fuga de cérebros.    

ANGOP  – Mudando de foco, é licenciado em Engenharia Industrial. Esta foi uma opção de recurso ou desejo de criança?    

EZ – Era uma segunda opção. Estudei Petroquímica durante o meu ensino médio no Instituto Politécnico do Lobito, e vim para a África do Sul, para estudar Engenharia Química. Quando me candidatei para estudar na universidade, já não havia vagas no Departamento de Engenharia Química. Foi assim que me aceitaram para a minha segunda opção, mas eu poderia mudar no ano seguinte. No entanto, apaixonei-me pela Engenharia Industrial e nunca mais quis mudar. 

ANGOP  – Afinal, de que se ocupa um engenheiro industrial?    

EZ  – A Engenharia Industrial é vasta, contudo a principal responsabilidade de um engenheiro industrial é optimizar processos, reduzindo o custo e o tempo de produção, e melhorar a qualidade de um produto ou serviço. Isso é feito de várias formas. Enquanto a empresa tiver os custos de produção reduzidos ao mínimo possível, o tempo de produção reduzido ao mínimo e o produto ou serviço saindo com a melhor qualidade possível, o profissional será um engenheiro industrial feliz.    

As ferramentas usadas por engenheiros industriais incluem desenho mecânico para melhorar o desenho de produtos ou ferramentas de trabalho; modelagem e simulação de sistemas, para encontrar oportunidades de melhoria de processos; análise de dados, para encontrar oportunidades de melhorias; gestão de projectos, pois o engenheiro poderá gerir projectos; pesquisa de operações, para gerir qualquer tipo de operação; projecto de sistemas, para saber como projectar um sistema de produção ou serviço; contabilidade de custos, para analisar custos e muito mais, incluindo todas as ferramentas de gestão e liderança.    

Um engenheiro industrial pode liderar um projecto muito complexo, que envolve uma abordagem multidisciplinar. Ele é treinado em várias disciplinas, para que saiba o que está a acontecer, seja em construção, manufacturação, instituição governamental, como em optimização de sistemas de distribuição de água ou electricidade ou mesmo sistemas de gerenciamento de resíduos. No entanto, a actividade principal de um engenheiro industrial, conforme declarado acima, é a optimização.    

ANGOP  – Que valências pode trazer para o desenvolvimento tecnológico de Angola?     

EZ – Pergunta interessante e muito semelhante a uma de entrevista de emprego.  Espero que a ANGOP me contrate depois de responder a esta pergunta! Eu fui exposto a tecnologias de ponta, como realidade virtual, tecnologia de manufactura aditiva, tecnologia de processamento de polímeros compostos e estou a conduzir uma pesquisa, na qual proponho uma estrutura futurística  para um sistema de manufactura sábia no sector de manufactura de transportes. Sei que os leitores querem saber de que se trata. É o último nível de manufactura que uma organização pode alcançar, que abrange o aprendizado de máquina e inteligência artificial para o processamento de metadados, processo de que derivam sabedoria para operações de manufactura, incluindo a interacção social humana. O mesmo conceito é usado para sistemas de gestão de cidades inteligentes. Sei que ainda é confuso, mas, por agora, é o quão longe posso ir, até que as descobertas científicas sejam divulgadas. De referir que já existem alguns pesquisadores que investigaram este tópico e já há matéria científica disponível.    

Todo este conhecimento que adquiri e que ainda tenho adquirido pode servir bem para aconselhar sobre a melhor forma de transferir algumas tecnologias para Angola e que políticas o Governo pode implementar para promover e regular o uso de tecnologias e também servir como conhecimento a ser transferido para a vasta comunidade empresarial e outras comunidades, principalmente para aqueles que têm apetite pelo avanço da tecnologia.    

Também conduzi o desenvolvimento da proposta de plano agora aprovada, de estabelecimento da primeira fábrica de aprendizagem para a indústria automóvel. A fábrica de aprendizagem é o novo conceito utilizado para a transferência de tecnologia, provando ser a forma mais eficiente de desenvolver tecnologias e transferência de habilidades (know-how). Angola deve usar projectos semelhantes, para requalificar e capacitar os nossos jovens, bem como transmitir o aprendizado às nossas pequenas empresas.    

ANGOP  – Publicou, recentemente, um artigo sobre a gestão da pandemia e deu uma avaliação bastante positiva ao modo como Angola tem tomado medidas preventivas e de combate à Covid-19. Quer aprofundar mais sobre o assunto?    

EZ  – Sim, obrigado! Angola tem fortes relações económicas com a China. Muitos angolanos vão regularmente à China para comprar produtos consumidos pelo mercado angolano, e vemos muitos chineses em Angola trabalhar nos vários projectos financiados pela China e outros que escolheram Angola para ser a sua casa. Portanto, há alto tráfego entre os dois países. Dado que o primeiro caso da Covid-19 foi identificado na China, Angola foi identificada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como um dos países que seriam gravemente afectados no continente africano.    

Nenhum país teve capacidade para responder à gravidade desta pandemia, com pesquisas, mostrando um número de reprodução básica (Ro) com média de 3,28 e mediana de 2,79.    

Apesar dos poucos incidentes enfrentados na fase inicial, durante o início da pandemia em Angola, o país começou a reerguer-se e administrou bem a situação. Os nossos números de casos positivos são muito controláveis. Precisamos de felicitar a equipa responsável pelos resultados das políticas implementadas e, também, a população, que tem colaborado com estas medidas. Ninguém sabia como controlar esta pandemia. Todos estamos a aprender e devemos aprender rápido.    

Recebi algumas informações de que Angola está a localizar instalações de quarentena nas suas várias fronteiras terrestres, o que é muito bom. No entanto, também temos fronteiras marítimas e aéreas. É importante que não as descuidemos. Para além disso, apesar de localizar instalações de quarentena perto de fronteiras ser um factor crítico para o sucesso, ao lado desse factor estão outros, como a acessibilidade, a segurança, o custo, a proximidade de instalações médicas bem equipadas, a presença de profissionais bem treinados, a hospitalidade e outros que podem ser encontrados no artigo. Todos esses são factores conflituantes, que têm pesos diferentes na tomada de decisões e têm uma ordem de prioridade. Com as ferramentas matemáticas adequadas, conforme apresentadas no artigo, pode-se chegar a uma melhor decisão.    

Apesar disso, obviamente para chegar às minhas descobertas, tive de apresentar muito conhecimento sobre a Covid-19 e sobre a situação pandémica, em geral. Recomendo que a Comissão Multissectorial de Combate à Covid-19 aproveite o vasto conhecimento que apresento no artigo, para que sirva de fonte de conhecimento para melhor gerenciar a pandemia e para nos prepararmos para as ocorrências futuras.    

Outro ponto fundamental que apresento no artigo é que um sistema eficaz de monitoramento de pacientes com Covid-19 oferecerá melhores resultados no cumprimento das medidas de quarentena, tanto institucionais quanto domésticas do que as leis rigorosas.  

ANGOP  – Vivendo na África do Sul, qual julga ser a causa principal da subida exponencial de infectados, num país até com um índice de desenvolvimento maior que o de Angola?       

EZ  – A principal questão em torno do crescimento exponencial no caso da África do Sul foi a falta de cumprimento das medidas decretadas. As pessoas não cumpriram com as medidas de distanciamento físico, o uso de máscaras, entre outras. Esse comportamento, observado em várias províncias, resultou no aumento massivo de pessoas infectadas.    

No início da pandemia, a África do Sul conseguiu virar a curva para uma redução significativa por meio da implementação de leis rígidas. Depois de ter conquistado algum sucesso, relaxou nas medidas de bloqueio, e isso resultou num ressurgimento. Para além disso, a fusão da nova variante, identificada pela primeira vez nesse país, foi um factor importante nos altos números de contágio. Felicito as autoridades sul-africanas pelas medidas actualmente implementadas. Os casos estão a diminuir, e há mais consciência por parte das pessoas, como resultado de um programa de conscientização bem planificado.    

 

ANGOP – Para finalizar, o que recomendaria aos angolanos, no sentido de manterem limpas as suas cidades, principalmente Luanda, a capital, que vive, neste momento, uma situação de autêntico sufoco, nesta matéria?   

EZ – Investir num forte sistema de gestão de resíduos é crucial. Se não investirmos nisso, poderemos construir quantos hospitais quisermos, não teremos capacidade, porque, na dinâmica da saúde pública, precisamos de encontrar um equilíbrio entre a gestão de resíduos e os hospitais. Um país com um bom sistema de gestão de resíduos terá menos doenças e, por conseguinte, menos despesas nos sistemas de saúde. A análise de custo-benefício mostrará que há grandes benefícios em manter as nossas cidades limpas.  

Luanda precisa de uma intervenção urgente para melhorar a situação e vejo que o Governo reuniu-se com a sociedade, recentemente, e criou um programa de emergência, ao mesmo tempo de deu garantias de que, para o caso específico de Luanda, será feito um concurso público, a partir de Março próximo. A medida será boa para a situação em que Luanda se encontra, embora, não sustentável, a longo prazo. O problema de Luanda não consiste em adjudicar um concurso a uma empresa gestora de resíduos. Precisamos de soluções sustentáveis e temos ferramentas para nos ajudar nisso. Antes que uma empresa de gestão de resíduos possa operar, as infra-estruturas básicas precisam estar disponíveis e essas são infra-estruturas de longo prazo que estão sob a responsabilidade dos gestores das cidades.  

Luanda tem que localizar estrategicamente as suas infra-estrutura de gestão de resíduos para vencer esta luta. Deve localizar estrategicamente as fábricas de processamento de resíduos. Uma má localização de uma fábrica de processamento de resíduos torna difícil a intensa logística necessária. Precisamos de localizar estrategicamente os nossos aterros, para uma melhor gestão dos nossos resíduos. A selecção de um espaço ideal para o estabelecimento de um aterro é importante, na medida em que fica muito cara a sua deslocalização. Por isso é que, quando tivermos que analisar esta matéria, precisamos ter uma capacidade tecnológica concebida para um horizonte temporal de até 100 anos, no mínimo, e contarmos com o crescimento demográfico para o mesmo período. 

Luanda precisa de encomendar um estudo de pesquisa para as melhores soluções em sistemas de gestão de resíduos, que vão não só responder às suas necessidades de hoje, mas também às futuras. E isso é possível. A nossa equipa fez um estudo dessa dimensão e natureza uma cidade inteligente em fase de planeamento, na África do Sul. 

A produção de resíduos é um problema dinâmico e precisamos de pensamento sistémico, dinâmica de sistema e simulação de sistema para nos ajudar a resolver o problema. Cinco anos depois, a produção de resíduos e a sua composição em Luanda serão diferentes das de hoje, para não falar em 30 ou mais anos depois. Temos que simular como será num determinado horizonte temporal e fazer uma previsão com alto nível de confiança e baixa margem de erro usando ferramentas de simulação cientificamente aceitáveis.  

Isso nos ajudará, até, a seguir as políticas certas, que determinarão que produtos poderão ser substituídos, como Kigali substituiu o uso do plástico pelo papel e muitos países tributam mais em produtos de determinado material do que os que são biodegradáveis ou de menos poluição.   

Falamos de imposto de carbono e outros impostos em vigor em muitos países. Além disso, precisamos de impulsionar e promover a economia circular. Este é o mais recente conceito de gestão de resíduos, no qual os produtos não são descartados mas integrados nos sistemas naturais. O mundo está a começar a usar este modelo. Bom será que Angola abrace esse desafio. Não é muito cedo para começar. Este é, realmente, o tempo certo para Angola começar. Claro que o homem está por dentro de todos esses estudos. É necessário desenvolver estudos de educação bem concebidos, que tragam uma mudança real na mentalidade dos luandenses, no que aos resíduos diz respeito. Elaborados por especialistas, esses programas têm impacto psicológico nas pessoas. Vamos dar o passo certo e resolver a questão pela raiz. A questão dos resíduos sólidos não é uma doença crónica, com a qual teremos de viver para sempre. Se dermos o passo certo, iremos curar as nossas feridas, ou seja, iremos sair vitoriosos.  

ANGOP  – Quem é Emanuel Zeferino?    

EZ  – Sou filho de Angola, da terra das Acácias Rubras, e hoje conhecido pela sua contribuição na investigação científica. Sou cristão assíduo e engenheiro industrial com experiência na fabricação de plásticos, de componentes ferroviárias e comboios e na indústria aeronáutica. Na filantropia, sou co-fundador de um programa que oferece aulas de tutória a um abrigo para meninas vítimas de abuso, pois acredito na educação e nos abrigos. Elas não têm ninguém para as ajudar a fazer os seus deveres de casa, como têm as crianças que vivem com os pais.    

Amo futebol e sou adepto da Académica do Lobito. Enfim, muito sucintamente, esse sou eu.