Foi necessário resiliência para estarmos em Tóquio – Telma Silva

  • Telma Silva - chefe de missão de Angola aos Jogos Paralímpicos
Luanda - A sétima presença de Angola em Jogos Paralímpicos, obrigou a várias démarches face às dificuldades decorrentes da crise financeira mundial, agravada pela pandemia da Covid-19, que quase custou o cancelamento do evento.

Por Marcelino Camões

Numa entrevista à ANGOP, sobre a participação de Angola na competição que inicia dia 24 no Japão, Telma Silva, Chefe da missão ao certame, escalpelizou os aspectos organizativos e às várias etapas de inscrições junto do Comité Organizador.

A responsável do Comité Paralímpico Angolano abordou questões até então desconhecidas, desde as causas que estiveram na base da não participação em provas qualificativas às dificuldades de pistas apropriadas no país.

Segundo afirmou, treinar em pistas de cinza para competir em tartan obriga a uma rápida adaptação a que os atletas angolanos já estão habituados, e recorreu ao exemplo de José Sayovo, que se tornou referência dos Jogos Paralímpicos saindo da mesma cantera.

Telma Silva fala dos valores alocados para o evento, nomeadamente Kz 66 milhões disponibilizados pelo Ministério da Juventude e Desportos, e mais Kz 18 milhões obtidos por via do patrocinador BP-Angola, no quadro de uma parceria que iniciou em 2012.

Pronunciou-se sobre as dificuldades encontradas, considerando o CPA uma instituição experimentada em ultrapassar barreiras pela especificidade do seu objecto social, voltado para a inserção e reinserção na sociedade da pessoa com deficiência pela via do desporto.

Eis a íntegra da entrevista:

ANGOP: Previstos para 2020, mas apenas este ano terão lugar, o processo de participação de Angola nos jogos foi difícil devido à Covid-19?

Telma Silva (TS): Foi um processo que envolveu a inscrição quantitativa dos atletas, em um link enviado pelo Comité Organizador, seguido da etapa de participações em provas internacionais para a obtenção das marcas estabelecidas pelo Comité Paralímpico Internacional (IPC).

A inscrição foi feita com o número de atletas e quantas modalidades cada Comité Paralímpico Nacional pretende competir. A princípio, Angola inscreveu na lista longa o atletismo, a natação, o halterofilismo e o judo.

Mas em 2019 e 2020 tivemos dificuldades financeiras para participar em provas internacionais licenciadas pelo IPC para obtenção e validação das marcas, situação agravada com à pandemia da Covid -19, que obrigou a transferência dos jogos  para 2021.

Assim, o processo de qualificação parou e retomou-se apenas este ano (2021), só com a modalidade de atletismo, cuja inscrição longa previa 12 atletas, seis masculinos e igual número em femininos.

Devido à falta de verbas em tempo útil, Angola não conseguiu participar no meeting da Tunísia, Marrocos, Brasil e França, sendo que as únicas marcas homologadas pela organização foram obtidas na prova de Dubai, em 2019.

No desporto paralímpico, a classificação médica-desportiva é o primeiro requisito e só depois as marcas, situação que também ficou comprometida com a ausência nas provas qualificativas, além da questão das verbas, diminuindo ainda mais o leque de atletas elegíveis.

ANGOP: Fale sobre a natação, judo e halterofilismo inicialmente previstas para os jogos?

Telma Silva (TS): Sim, nos temos um atleta do judo que reside no Brasil e inscrevemo-lo na Federação Mundial Para Atletas Visuais (IBIZA). Já tínhamos o processo avançado para o Campeonato do Mundo que não foi disputado em Londres´2020 devido à pandemia.

No halterofilismo previa-se a presença numa prova qualificativa na Nigéria, igualmente em 2020, o que também não aconteceu, tal como às competições de natação.

ANGOP: À Covid-19 e a dificuldade financeira acabaram por inviabilizar as perspectivas de conquista de marcas -  Como o atletismo sobreviveu?

Telma Silva (TS): Sobreviveu devido a participação no meeting de Dubai, em finais de 2019. O fundista deficiente motor, Manuel Jaime, tem a marca necessária, sendo actualmente o 16 º colocado no Ranking do IPC nos 1.500 metros. Portanto, participará por mérito e não por convite.

A atleta Juliana Moko, deficiente visual total, também tem as marcas exigidas homologadas oficialmente nos 100, 200 e 400 metros, ao contrário de Regina Dumbo, também visual, que dependia de um convite que não se efectivou.

Dumbo não terminou a prova dos 400 metros no Dubai por causa de uma lesão, numa especialidade onde, contava-se, iria atingir as marcas necessárias.  

ANGOP: Comente o estágio decorrido em Jamor, Portugal?

Telma Silva (TS): O estágio foi possível no âmbito da cooperação entre Angola e Portugal, após solicitação ao Ministério da Juventude e Desportos, que viabilizou o processo com algumas despesas livres de pagamento.

Para nós, o mais importante neste estágio foi a adaptação à pista de tartan do Centro de estágio do Jamor, já que em Angola a selecção treina, geralmente, em pistas de cinza. A adaptação a uma pista de tartan impunha-se.

ANGOP: Quando se trabalha numa organização desportiva desta dimensão, a realidade angolana demonstra que a situação financeira dificulta muito – como foi com o CPA?

Telma Silva (TS): Como sabe, com à Covid -19 as economias mundiais foram afectadas e em Angola não foi diferente. Mas o CPA, como sempre, optou por uma gestão criteriosa dos poucos recursos à disposição.

Temos um patrocinador a BP-Angola que disponibiliza um valor anual no âmbito de um acordo de suporte a alguns atletas com retorno publicitário. Foi com estes valores que se enquadrou a preparação da selecção de atletismo.

ANGOP: Está a falar de que valores em relação ao atribuído pela BP-Angola e pelo Ministério da Juventude e Desportos?

Telma Silva (TS): O Ministério da Juventude e Desportos atribuiu uma verba de kz 66 milhões, para a preparação e participação nos jogos, e a BP-Angola disponibilizou kz 18 milhões para a preparação.

ANGOP: Estes valores são suficientes ou recorreu-se a outros patrocínios?

Telma Silva (TS): Como disse, estamos em período de crise financeira e o CPA teve de adaptar o plano para os jogos dentro do orçamento disponível. Fizemos os ajustes necessários e tem, até agora, servido.

Realizamos a preparação, compramos os equipamentos, pagamos os bilhetes de passagens, vamos pagar as ajudas de custos, então eu penso que não podemos pedir mais do que o Estado pode dar.

ANGOP: O valor atribuído pelo MJD era o previsto?

Telma Silva (TS): Não, o valor previsto era mais alto, mas não sei no momento especificar o valor inicial solicitado ao Ministério porque contemplava todas as modalidades inicialmente previstas. Mas com o existente é possível uma participação com a dignidade que o país merece.

ANGOP: Como é composta a delegação de Angola?

Telma Silva (TS): É composta por sete integrantes. Um chefe de delegação, António Manuel da Luz, um chefe de missão, Telma Silva, um treinador, José António Manuel, fisioterapeuta, Constância Tomas, os atletas, Manuel Jaime, Juliana Moko e seu atleta guia Abel Espírito Santos.

Regina Dumbo e o técnico-adjunto Domingos Sapalo, que integraram o grupo no estágio em Portugal, regressam ao país no dia 24, depois da não confirmação do convite para a velocista por parte do IPC.

ANGOP: Angola sempre participou nos jogos por via de convites ou por qualificação?

Telma Silva (TS): A primeira vez, em 1996, nos EUA, foi por sistema de convite, mas depois obteve-se sempre a qualificação por mérito dos resultados desportivos.

ANGOP: O que se pode esperar desta presença em Tóquio?

Telma Silva (TS): Estes atletas estão a ser preparados para a edição de Paris em 2024. São estreantes, ainda muito jovens, mas pelo trabalho realizado, o objectivo é que passem das eliminatórias. O objectivo não é medalhar, mas não colocamos de parte o factor surpresa.

ANGOP: O treino, agora com a cientificação também ao nível do desporto adaptado, exige conhecimento e tecnologia que Angola ainda não tem – com que base o CPA pensa ser possível medalhar em Paris´2024?

Telma Silva (TS): Apesar de no pais não existir ainda pistas apropriadas para a prática do atletismo e carecer de materiais tecnológicos usados em outras realidades, a principal convicção é o valor humano, o nível de treinamento a que estão sujeitos.

Foi assim que surgiu José Sayovo e outras referências do atletismo nacional e é assim que trabalha o Comité Paralímpico Angolano, na base da resiliência.

POR DENTRO

Telma Albertina da Cruz Silva - Filha de Alberto Silva e Eugenia da Cruz Silva

Formação – Licenciada em direito, pela Faculdade Católica de Angola, em 2016

Data de ingresso no Comité Paralimpico Angolano - 1992

Posição na instituição – Secretária-geral adjunta

Presenças em Jogos Paralímpicos - Quatro

Chefe de Missão - Duas vezes, nas edições do Rio de Janeiro´20216 e agora Tóquio´2020

Tempos livres - Com o trabalho diário intenso, assistir bonecos animados, para relaxar, além de algumas séries

Religião - Católica

País de sonho - Angola. Em 15 dias fora do país já já sinto necessidade de regressar

Desejo - Com capacidade de maior decisão triplicaria os apoios ao CPA. Todos os dias tenho atletas à porta da minha sala pedindo ajudas urgentes. Sinto-me incapaz de satisfaze-los a todos.

 

Por Marcelino Camões

Numa entrevista à ANGOP, sobre a participação de Angola na competição que inicia dia 24 no Japão, Telma Silva, Chefe da missão ao certame, escalpelizou os aspectos organizativos e às várias etapas de inscrições junto do Comité Organizador.

A responsável do Comité Paralímpico Angolano abordou questões até então desconhecidas, desde as causas que estiveram na base da não participação em provas qualificativas às dificuldades de pistas apropriadas no país.

Segundo afirmou, treinar em pistas de cinza para competir em tartan obriga a uma rápida adaptação a que os atletas angolanos já estão habituados, e recorreu ao exemplo de José Sayovo, que se tornou referência dos Jogos Paralímpicos saindo da mesma cantera.

Telma Silva fala dos valores alocados para o evento, nomeadamente Kz 66 milhões disponibilizados pelo Ministério da Juventude e Desportos, e mais Kz 18 milhões obtidos por via do patrocinador BP-Angola, no quadro de uma parceria que iniciou em 2012.

Pronunciou-se sobre as dificuldades encontradas, considerando o CPA uma instituição experimentada em ultrapassar barreiras pela especificidade do seu objecto social, voltado para a inserção e reinserção na sociedade da pessoa com deficiência pela via do desporto.

Eis a íntegra da entrevista:

ANGOP: Previstos para 2020, mas apenas este ano terão lugar, o processo de participação de Angola nos jogos foi difícil devido à Covid-19?

Telma Silva (TS): Foi um processo que envolveu a inscrição quantitativa dos atletas, em um link enviado pelo Comité Organizador, seguido da etapa de participações em provas internacionais para a obtenção das marcas estabelecidas pelo Comité Paralímpico Internacional (IPC).

A inscrição foi feita com o número de atletas e quantas modalidades cada Comité Paralímpico Nacional pretende competir. A princípio, Angola inscreveu na lista longa o atletismo, a natação, o halterofilismo e o judo.

Mas em 2019 e 2020 tivemos dificuldades financeiras para participar em provas internacionais licenciadas pelo IPC para obtenção e validação das marcas, situação agravada com à pandemia da Covid -19, que obrigou a transferência dos jogos  para 2021.

Assim, o processo de qualificação parou e retomou-se apenas este ano (2021), só com a modalidade de atletismo, cuja inscrição longa previa 12 atletas, seis masculinos e igual número em femininos.

Devido à falta de verbas em tempo útil, Angola não conseguiu participar no meeting da Tunísia, Marrocos, Brasil e França, sendo que as únicas marcas homologadas pela organização foram obtidas na prova de Dubai, em 2019.

No desporto paralímpico, a classificação médica-desportiva é o primeiro requisito e só depois as marcas, situação que também ficou comprometida com a ausência nas provas qualificativas, além da questão das verbas, diminuindo ainda mais o leque de atletas elegíveis.

ANGOP: Fale sobre a natação, judo e halterofilismo inicialmente previstas para os jogos?

Telma Silva (TS): Sim, nos temos um atleta do judo que reside no Brasil e inscrevemo-lo na Federação Mundial Para Atletas Visuais (IBIZA). Já tínhamos o processo avançado para o Campeonato do Mundo que não foi disputado em Londres´2020 devido à pandemia.

No halterofilismo previa-se a presença numa prova qualificativa na Nigéria, igualmente em 2020, o que também não aconteceu, tal como às competições de natação.

ANGOP: À Covid-19 e a dificuldade financeira acabaram por inviabilizar as perspectivas de conquista de marcas -  Como o atletismo sobreviveu?

Telma Silva (TS): Sobreviveu devido a participação no meeting de Dubai, em finais de 2019. O fundista deficiente motor, Manuel Jaime, tem a marca necessária, sendo actualmente o 16 º colocado no Ranking do IPC nos 1.500 metros. Portanto, participará por mérito e não por convite.

A atleta Juliana Moko, deficiente visual total, também tem as marcas exigidas homologadas oficialmente nos 100, 200 e 400 metros, ao contrário de Regina Dumbo, também visual, que dependia de um convite que não se efectivou.

Dumbo não terminou a prova dos 400 metros no Dubai por causa de uma lesão, numa especialidade onde, contava-se, iria atingir as marcas necessárias.  

ANGOP: Comente o estágio decorrido em Jamor, Portugal?

Telma Silva (TS): O estágio foi possível no âmbito da cooperação entre Angola e Portugal, após solicitação ao Ministério da Juventude e Desportos, que viabilizou o processo com algumas despesas livres de pagamento.

Para nós, o mais importante neste estágio foi a adaptação à pista de tartan do Centro de estágio do Jamor, já que em Angola a selecção treina, geralmente, em pistas de cinza. A adaptação a uma pista de tartan impunha-se.

ANGOP: Quando se trabalha numa organização desportiva desta dimensão, a realidade angolana demonstra que a situação financeira dificulta muito – como foi com o CPA?

Telma Silva (TS): Como sabe, com à Covid -19 as economias mundiais foram afectadas e em Angola não foi diferente. Mas o CPA, como sempre, optou por uma gestão criteriosa dos poucos recursos à disposição.

Temos um patrocinador a BP-Angola que disponibiliza um valor anual no âmbito de um acordo de suporte a alguns atletas com retorno publicitário. Foi com estes valores que se enquadrou a preparação da selecção de atletismo.

ANGOP: Está a falar de que valores em relação ao atribuído pela BP-Angola e pelo Ministério da Juventude e Desportos?

Telma Silva (TS): O Ministério da Juventude e Desportos atribuiu uma verba de kz 66 milhões, para a preparação e participação nos jogos, e a BP-Angola disponibilizou kz 18 milhões para a preparação.

ANGOP: Estes valores são suficientes ou recorreu-se a outros patrocínios?

Telma Silva (TS): Como disse, estamos em período de crise financeira e o CPA teve de adaptar o plano para os jogos dentro do orçamento disponível. Fizemos os ajustes necessários e tem, até agora, servido.

Realizamos a preparação, compramos os equipamentos, pagamos os bilhetes de passagens, vamos pagar as ajudas de custos, então eu penso que não podemos pedir mais do que o Estado pode dar.

ANGOP: O valor atribuído pelo MJD era o previsto?

Telma Silva (TS): Não, o valor previsto era mais alto, mas não sei no momento especificar o valor inicial solicitado ao Ministério porque contemplava todas as modalidades inicialmente previstas. Mas com o existente é possível uma participação com a dignidade que o país merece.

ANGOP: Como é composta a delegação de Angola?

Telma Silva (TS): É composta por sete integrantes. Um chefe de delegação, António Manuel da Luz, um chefe de missão, Telma Silva, um treinador, José António Manuel, fisioterapeuta, Constância Tomas, os atletas, Manuel Jaime, Juliana Moko e seu atleta guia Abel Espírito Santos.

Regina Dumbo e o técnico-adjunto Domingos Sapalo, que integraram o grupo no estágio em Portugal, regressam ao país no dia 24, depois da não confirmação do convite para a velocista por parte do IPC.

ANGOP: Angola sempre participou nos jogos por via de convites ou por qualificação?

Telma Silva (TS): A primeira vez, em 1996, nos EUA, foi por sistema de convite, mas depois obteve-se sempre a qualificação por mérito dos resultados desportivos.

ANGOP: O que se pode esperar desta presença em Tóquio?

Telma Silva (TS): Estes atletas estão a ser preparados para a edição de Paris em 2024. São estreantes, ainda muito jovens, mas pelo trabalho realizado, o objectivo é que passem das eliminatórias. O objectivo não é medalhar, mas não colocamos de parte o factor surpresa.

ANGOP: O treino, agora com a cientificação também ao nível do desporto adaptado, exige conhecimento e tecnologia que Angola ainda não tem – com que base o CPA pensa ser possível medalhar em Paris´2024?

Telma Silva (TS): Apesar de no pais não existir ainda pistas apropriadas para a prática do atletismo e carecer de materiais tecnológicos usados em outras realidades, a principal convicção é o valor humano, o nível de treinamento a que estão sujeitos.

Foi assim que surgiu José Sayovo e outras referências do atletismo nacional e é assim que trabalha o Comité Paralímpico Angolano, na base da resiliência.

POR DENTRO

Telma Albertina da Cruz Silva - Filha de Alberto Silva e Eugenia da Cruz Silva

Formação – Licenciada em direito, pela Faculdade Católica de Angola, em 2016

Data de ingresso no Comité Paralimpico Angolano - 1992

Posição na instituição – Secretária-geral adjunta

Presenças em Jogos Paralímpicos - Quatro

Chefe de Missão - Duas vezes, nas edições do Rio de Janeiro´20216 e agora Tóquio´2020

Tempos livres - Com o trabalho diário intenso, assistir bonecos animados, para relaxar, além de algumas séries

Religião - Católica

País de sonho - Angola. Em 15 dias fora do país já já sinto necessidade de regressar

Desejo - Com capacidade de maior decisão triplicaria os apoios ao CPA. Todos os dias tenho atletas à porta da minha sala pedindo ajudas urgentes. Sinto-me incapaz de satisfaze-los a todos.