Gastaríamos menos com o lixo se a população colaborasse – Administrador de Saurimo

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Saurimo - O administrador municipal de Saurimo, Neves Romão, afirmou à ANGOP que a administração que dirige gastaria menos com o lixo se os munícipes colaborassem mais na gestão dos resíduos sólidos e os colocassem nos contentores em horários estabelecidos, para facilitar a sua recolha.

Por: Silvina Lembeno e Emitódio Mualilo

Neves Romão, engenheiro de Construção Civil, disse que a administração gasta com as operadoras 100 milhões de Kwanzas/mês, para assegurar o saneamento básico do município de Saurimo. A 28 do mês em curso a cidade de Saurimo completa 65 anos desde que ascendeu a esta categoria, em 1956.

Na entrevista conduzida pelos jornalistas Silvina Lembeno e Emitódio Mualilo, o administrador, no cargo há quase dois anos, considerou que apesar da “grande” melhoria registada nos últimos dois anos, ainda há zonas, sobretudo periféricas, que carecem destes serviços.

O administrador, que é casado e nasceu em Saurimo há 49 anos, disse que para atingir a excelência e transformar a localidade num dos municípios mais limpos de Angola, a administração precisa investir mais de Akz 100 milhões, para reforçar e aquisição de meios de recolha, armazenamento e gestão dos resíduos sólidos.

Ainda nesta entrevista, Neves Romão, que se define como um cidadão comprometido com a sua pátria, fala da necessidade de construção de um aterro sanitário, pretensão até agora “frustrada”, pela escassez de verbas, o que leva a administração a negociar com os seus parceiros um possível financiamento.

Eis a entrevista na íntegra:

ANGOP - Senhor administrador, Saurimo comemora 65 anos.Como pode caracterizar, hoje, este município?

Neves Romão (NR) - Passados 15 anos de paz, Saurimo, hoje, tem outra vida, outra dinâmica, com o alargamento de vários serviços essenciais, sobretudo nos sectores da educação, saúde, energia, saneamento básico e água.

Hoje, podemos afirmar que temos um Saurimo que orgulha os seus munícipes, que vai marcando passos rumo ao desenvolvimento sustentável.

ANGOP - Como imagina Saurimo daqui a cinco anos?

NR - Sonho com um Saurimo cada vez mais harmonioso, organizado, onde os nossos filhos tenham uma escola e serviços de saúde condignos, que os nossos bairros sejam organizados e requalificados, com acesso a água potável, energia e que a agricultura seja sustentável.

Queremos um município industrializado, com um pólo universitário, mais iluminado, com serviços de saúde humanizados, com todas as ruas asfaltadas, requalificadas e com uma centralidade que venha a responder aos problemas de habitabilidade da juventude.

ANGOP - O saneamento básico sempre foi uma marca de Saurimo. Qual o actual ponto de situação?

NR - Temos actualmente mais de 30 empresas a assegurarem a melhoria do saneamento básico do nosso município e controlamos 200 contentores espalhados por vários pontos da cidade. Gastamos em média 100 milhões de kwanzas/mês para manter Saurimo cada vez mais limpa.

Saurimo, nos últimos anos, está a mudar de visual. Temos mais espaços verdes, mas a nossa insatisfação é que a nossa população não preserva os bens que colocamos à sua disposição. Se estivermos todos focados no mesmo caminho e comprometidos com a mudança da imagem da cidade, iremos ter Saurimo cada vez mais limpa e organizada.

Nós gastamos 10 milhões de kwanzas/mês para cuidar dos espaços verdes e gostaríamos imenso que a população nos ajudasse a preservar esses lugares.

Mas, apesar da melhoria que se vai registando nos últimos dois anos, com a extinção de focos de lixo que anteriormente representavam uma ameaça à Saúde Pública, ainda há zonas que carecem destes serviços, sobretudo, nas zonas rurais e nós pretendemos nos próximos anos, com os esforços envidados, levar os serviços de saneamento até ao último bairro.

ANGOP - Os valores empregues mensalmente para o saneamento básico são suficientes?

NR - Teríamos menos gastos com o lixo se a população tivesse outro nível de consciência, se colaborasse na gestão do lixo produzido nas suas residências. Só para terem uma noção, a administração precisa de mais 100 milhões de kwanzas para atender a demanda, principalmente na periferia.

Precisamos neste momento de mais 600 contentores, porque os actuais 200 não satisfazem a necessidade. Mas estamos a trabalhar, buscando parceiros privados, para continuarmos a melhorar o saneamento básico e manter a cidade de Saurimo limpa.

ANGOP - Onde é depositado o lixo?

NR - Saurimo não tem um aterro sanitário. Temos é uma lixeira improvisada a céu aberto, na localidade de Camundambala, a seis quilómetros do centro da cidade, onde é depositado. Mas, existe um projecto em carteira para construirmos um entulho sanitário e estamos à procura de financiamento para o efeito, mas estamos esperanços os que a situação seja ultrapassada.

ANGOP - Referiu-se a vandalização dos bens públicos. Isso é recorrente no município?

NR - Infelizmente é (…). Só para ter uma ideia, recentemente recuperamos 60 chafarizes, com um investimento de 30 milhões de kwanzas, mas infelizmente já foram vandalizados 50 e actualmente estão a funcionar apenas dez.

Agora somos obrigados a gizar outros programas com alguns parceiros sociais para que possamos voltar a recuperá-los.

ANGOP - O que faz a administração para combater este fenómeno?

NR - Temos estado a envolver os coordenadores de bairros, as autoridades tradicionais, num trabalho conjunto com a Polícia Nacional, para nos ajudar a preservar estes e outros equipamentos sociais e responsabilizar os autores de tais actos.

ANGOP - E qual o ponto de situação do sector das águas?

NR - O actual sistema de captação, tratamento e distribuição de água não satisfaz a demanda. Por isso, temos apostado na construção de furos de água e chafarizes, para aproximarmos este serviço dos cidadãos. A cidade de Saurimo precisa de água e encontrar soluções através de investidores, que possam financiar a construção de um novo sistema de captação e distribuição do precioso líquido com maior capacidade.

Neste processo está incluído a construção, ainda este ano, da nova Estação de Tratamento de Água (ETA) da cidade de Saurimo, num projecto concebido entre os rios Luachimo e Chicapa, que consumirá cerca de 22 milhões de dólares.

Recentemente fomos brindados com seis novas bombas, deste número três de elevação e igual número para captação, bem como a instalação de um pára-raios, num investimento de Akz 300 milhões, cedidos pela empresa Sociedade Mineira de Catoca, que tem sido um grande parceiro.

O actual Centro de Captação, Tratamento e Distribuição de Água de Saurimo tem uma capacidade de 200 metros cúbicos, que atende a mais de 40 mil consumidores, dos 442 mil 437 existentes.

ANGOP - O sector da energia também enfrenta o mesmo problema?

NR - Sim (…), porque ainda dependemos de centrais térmicas para assegurar o fornecimento de energia eléctrica à cidade de Saurimo.Eisso envolve muitos gastos, sobretudo com os combustíveis e sua manutenção.

Quando estamos sem combustível temos tido restrições no fornecimento de energia. Posso resumir que viver de fontes alternativas não é a via mais segura para termos energia regular, porque estamos a ter sempre problemas de combustível para abastecer os nossos grupos geradores.

Estamos agora a trabalhar no sentido de ainda este ano concluirmos a expansão da rede de distribuição de energia eléctrica, sobretudo nos bairros periféricos.

ANGOP - Qual deve ser a solução?

NR- Temos que partir para a construção de uma barragem, para termos energia regular e remeter as centrais térmicas para um segundo plano (…).

A propósito, o Governo da Lunda-Sul aprovou o projecto de construção do aproveitamento hidro-eléctrico do Chicapa-II, localizado na zona norte do município de Saurimo, que terá uma execução público-privada e começará a ser construído no próximo ano, com o fim de melhorar a distribuição de energia na região.

ANGOP - Saurimo detém uma das maiores minas do mundo que é a Sociedade Mineira de Catoca. Está satisfeito com a participação deste subsector no desenvolvimento do município?

NR - O município tem a quarta maior mina de diamante do mundo e nos próximos anos terá a maior do Mundo, que é o Luaxe. Devo dizer que o contributo do subsector dos diamantes ainda não vai de encontro às expectativas da população, precisamos de mais acções.

Catoca tem apenas alguns programas que considero intermitentes.Não posso dizer que a mesma contribui a 100% para o desenvolvimento do município, mas tem promovido algumas iniciativas, que não satisfazem na plenitude as expectativas da população.

Temos estado a dialogar agora com a Fundação Brilhante, o braço social da Endiama, pelo que acreditamos que haverá mais dinâmica e temos fé que nos próximos tempos sentiremos mais os efeitos da comparticipação das empresas mineiras no desenvolvimento de Saurimo.

ANGOP - Há quase quatros anos foi lançada a primeira pedra para a construção de um Pólo Industrial em Saurimo. Como anda este processo?

NR - É uma situação preocupante, uma vez que os nossos investidores não aparecem para ocupar o espaço preparado. Aproveitamos esta oportunidade para apelar aos empresários nacionais e estrangeiros no sentido de nos ajudarem a concretizar este desafio, que é o da industrialização de Saurimo, investindo no espaço criado para o Pólo de Desenvolvimento da região.

Daí que há necessidade de se construir a barragem hidro-chicapa II, para atrair mais investidores para o sector industrial, porque não será possível contar com a fonte alternativa das centrais térmicas.

ANGOP - E qual o ponto de situação da indústria em Saurimo?

NR - Para além da indústria diamantífera não temos outras de grande dimensão. Tivemos agora a felicidade de termos aqui o Pólo de Desenvolvimento Diamantífero e acreditamos que a sua inauguração despertará o interesse de mais investidores.

ANGOP - O que dizer sobre a agricultura?

NR - A nossa população vive mais da agricultura familiar. Existem esforços por parte da administração, no sentido de evoluirmos para uma agricultura mecanizada, porque sentimos uma maior vontade por parte das associações e cooperativas agrícolas em melhorarem a produção.

Podemos aqui afirmar que os níveis de produção ainda não são os desejados, por isso é que temos estado a trabalhar, apoiando os camponeses para que o aumento da nossa produção seja um facto nos próximos anos.  

ANGOP - Que apoios a administração presta aos camponeses?

NR - Nos últimos anos temos potenciado os nossos camponeses com kits que permitem dinamizar a agricultura familiar, e isso tem estado a contribuir para o aumento da nossa produção. Temos três tractores que apoiam os camponeses na preparação da terra.

Nos últimos 12 meses distribuimos mais de 12 mil kits de trabalho e sementes a 20 cooperativas totalmente organizadas, que produzem mandioca, milho e hortícolas.

No âmbito da campanha agrícola 2020-2021 estão a ser cultivados  cinco mil hectares.

ANGOP - Como avalia o sector social?

NR - Temos um sector social em crescimento, com o alargamento das redes sanitária e escolar, sobretudo. A saúde, por exemplo, é um dos sectores que nos últimos anos evoluiu bastante com a construção de infra-estruturas. Em todas as vias principais que dão acesso à nossa cidade estão cobertas de unidades sanitárias, as sedes comunais têm hospitais e os bairros também têm postos e centros. Acredito que o processo de humanização dos serviços de saúde e a sua aproximação à população está no bom caminho.

Arede sanitária do município de Saurimo é composta por 44 unidades hospitalares, sendo um hospital municipal, sete centros de saúde, um hospital pediátrico e 35 postos, com um total de 150 camas, que têm melhorado a assistência médica e medicamentosa às populações.

Reconhecemos alguma dificuldade que tem a ver com a aquisição de medicamentos e estamos preocupados com a Malária, doenças diarreicas e respiratórias agudas e com o VIH/SIDA, que nos últimos anos sentimos que está a propagar-se ao nível do nosso município.

No sector da Educação, temos estado a conseguir diminuir significativamente o número de crianças fora do sistema normal de ensino com o aumento de salas de aulas em quase todas as povoações. Neste ano lectivo, matriculamos 153 mil 849 crianças, e contamos com mil 524 professores, 76 escolas e 569 salas de aulas no ensino primário, só para citar esse nível.

O desafio é continuar a alargar a rede escolar e sanitária, bem como aproximar cada vez mais estes serviços aos cidadãos.

Por outro lado, o município de Saurimo conta com duas unidades de ensino superior, nomeadamente o Instituto Superior Politécnicos da Lunda Sul da Universidade “Lueji A N'konde” (público) e o Instituto Superior Politécnico Lusíadas da Lunda Sul (privado), e uma escola agrária, na comuna do Mona Quimbundo.

ANGOP - Como avalia o Programa de Combate a Fome e a Pobreza?

NR - O Programa de Combate a Fome e a Pobreza tem sido um grande benefício para a nossa população que vive em extrema pobreza. É assim que nos últimos anos temos desenvolvido várias acções que consomem Akz 300 milhões anuais.

Entretanto, a execução de projectos enquadrados no Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PIDLCP) está a contribuir para a melhoria da qualidade de vida das populações, no município de Saurimo.

Sendo que os Akz 300 milhões cabimentados para o presente ano estão a ser empregues  na aquisição de imputes e insumos agrícolas, saneamento básico, construção e conclusão de escolas com 12 salas de aulas, reparação de vias de acesso, sarjetas, passeios, instalação de moagem, bem como a reabilitação e apetrechamento do lar de Mona Quimbundo, que alberga 120 alunos.

O programa inclui ainda a reabilitação de mercados e postos de saúde, construção de uma estação de serviços para apoiar 25 jovens lavadores de carros, na aldeia de Saulimbo, aquisição de carteiras para as escolas do ensino primário, nas localidades do Nanguanza e Zorró (Saurimo), entre outros.

ANGOP - E como vai a implementação do PIIM?

NR - Temos neste momento 32 projectos em execução, no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), em Saurimo, que já consumiram cerca de 2,3 mil milhões, correspondendo a uma execução financeira na ordem dos 59,53 por cento.

O município de Saurimo apresentou 40 projectos e destes foram aprovados mais de 32 que estão estimados em 4,5 mil milhões  de kwanzas e a execução física dos projectos ronda os 60 e 70 porcento.

Temos três projectos já concluídos e acredito que ainda este mês teremos mais alguns para colocar a disposição da população.

ANGOP - De concreto, o que é que está ser feito?

NR - Estão em construção quatro unidades sanitárias, 11 escolas, um edifício administrativo autárquico e sete sistemas de água potável, requalificação do tapete asfáltico e de passeios do centro urbano, terraplanagem do troço Saurimo/Sombo, reabilitação do hospital do Luavur, três postos de saúde, nos bairros Txizainga, Manalto e Mulombe, bem como a reabilitação de balneários públicos, expansão da rede de energia eléctrica e iluminação pública, para além do projecto de saneamento básico.

ANGOP - Como avalia o funcionamento dos mercados?

NR - Nesta altura, temos cinco mercados que precisam de mais organização.Atendendo o nível de negócio que é feito, estamos a criar associações de vendedores, porque temos tido muitas dificuldades no saneamento básico nesses mercados e a população comercial não ajuda na limpeza.

ANGOP - Qual é o rendimento destes mercados?

NR - As receitas arrecadadas variam. Vive-se uma fase pandémica que restringiu as vendas, mas temos uma facturação mensal na ordem dos dois milhões de kwanzas/mês.

E está a ser feito a requalificação do mercado do Candembe, situado nos arredores da cidade de Saurimo, com obras de construção de novas naves e alpendres, parques de estacionamento e estruturas para o saneamento básico, entre outros trabalhos.

Os trabalhos, orçados em 31 milhões de kwanzas, financiados pelo PIIM, estão em curso desde Abril deste ano e visam a ampliação e a melhoria da infra-estrutura, que depois das obras, passará a albergar quatro mil vendedores, contra os actuais três mil.

ANGOP - Pode, por favor, falar-nos sobre o funcionamento dos cemitérios?

NR - Esta é uma das grandes preocupações, porque o antigo cemitério foi desactivado há mais de 20 anos e temos apenas um a funcionar, que é o cemitério do 14, que também está a chegar a fase de saturação, uma vez que os espaços já são escassos.

Temos uma parte reservada para fazer uma requalificação, mas as dificuldades financeiras não nos permitem já a sua execução.

Lamentavelmente, a nossa população insiste em enterrar os seus entes queridos em cemitérios impróprios, acto que está a ser banido paulatinamente pelas autoridades.

ANGOP- O que nos pode dizer sobre a construção de casas em zonas de risco?

NR - A construção em zonas de risco tem-nos preocupado bastante, uma vez que a nossa população não acata os conselhos que temos estado a passar. É um dilema preocupante que na época chuvosa nos tem custado vidas.

ANGOP - O que a administração faz para inverter o quadro?

NR - Para inverter o quadro nós distribuímos terrenos e chapas de zinco, mas a nossa população, depois de receber estes apoios, mantém-senas zonas de risco. Agora estamos a envolver os nossos coordenadores de bairros, para desencorajar a população a permanecer nestas zonas e construírem as suas residências nos terrenos já cedidos.

ANGOP - E o que dizer sobre a ocupação ilegal de terrenos e o programa de auto-construção dirigida?

NR - Este fenómeno diminuiu bastante por causa de algumas medidas e conta agora com o envolvimento da própria comunidade, particularmente dos coordenadores dascomissões de bairro. Podemos afirmar que esta situação já não nos tem criado muitas dificuldades.

Sobre a auto-construção dirigida, actualmente distribuímos lotes de terra, mas o que se passa é que os cidadãos beneficiadosrejeitam construir por falta de serviços sociais básicos como a electricidade e a água, pelo que preferem deixar os passos e ir procurar outras zonas com acesso a estes serviços. Nos últimos dois anos, por exemplo, distribuímos mais de dois mil lotes para a auto-construção dirigida, nas zonas do Nhama, Txizainga e Muanguês, e grande parte destes terrenos não estão a ser aproveitados.

ANGOP - Que medidas estão a ser adoptadas?

NR - Estamos a expropriar terrenos que foram entregues há mais de três anos, como manda a Lei daTerra. Estes terrenos serão entregues àqueles cidadãos que desejam construir suas residências. Até ao momento, já retiramos mais de 30 terrenos e vamos continuar.

Por isso, apelamos os cidadãos que detêm terrenos no sentido de começarem a utilizá-los, construindo algumas infra-estruturas, sob pena de serem expropriados.

ANGOP - A circulação de pessoas e bens contribui para o desenvolvimento económico duma sociedade. Qual o estado das vias secundárias e terciárias de Saurimo?

NR - Saiba que o município de Saurimo só tem vias secundárias e temos cerca de 200 quilómetros por reabilitar, principalmente as ruas dos bairros periféricos que clamam de alguma intervenção. Estávamos a desenvolver um trabalho de reabilitação das ruas dos bairros periféricos, em que foram beneficiados os bairros da Juventude, Terra-Nova, Santo António e Candembe, para este processo suspenso por falta de financiamento.

Enquanto não tivermos financiamento, vamos fazendo alguns trabalhos paliativos de tapa buraco, até as zonas de difícil acesso.

ANGOP - Quer acrescentar algo que não tenha sido abordado na entrevista?

NR - Apenas gostaria de apelar a população no sentido de continuar a contribuir para o desenvolvimento do município e a proteger-se da Covid-19, cumprindo todas as medidas de prevenção, que se consubstanciam no uso da máscara facial, a lavagem das mãos com água e sabão, álcool em gel e o distanciamento físico, porque a pandemia está mesmo a matar.

Perfil de Saurimo

Saurimo com mais de 530 mil habitantes, foi a capital da província da Lunda, dividida em duas (Lunda Norte e Lunda Sul), em 1978. É limitado a Norte pelos municípios de Lucapa e Cambulo, a Este pela República Democrática do Congo, a Sul pelo município de Dala e a Oeste pelos municípios de Cacolo e Lubalo.

É constituído pelas comunas de Saurimo, Mona-Quimbundo e Sombo, por 140 aldeias, das quais 61 já unificadas, e 16 povoações.

Possui um subsolo rico em minérios, designadamente diamantes, manganês, ferro e madeira. A população, na sua maioria, é da etnia Côkwe, também a língua nacional mais falada na circunscrição.

Até ao fim da administração portuguesa, o seu nome foi cidade Henrique de Carvalho, em homenagem a Henrique Augusto Dias de Carvalho, o primeiro explorador da região da Lunda.

A rodovia EN-230A é a principal ligação terrestre da cidade ao resto do território nacional, ligando-a a Cacolo (Oeste) e Muriege (Leste). Outra via importante é a EN-180, que a liga ao Lucapa (Norte) e Dala (Sul). No entanto, carecem de intervenção, pois estão esburacadas.

A cidade é servida pelo Aeroporto Deolinda Rodrigues e conta com três operadoras aéreas, sendo uma estatal (TAAG) e duas privadas (Flay e SJL). Estas últimas também possuem as rotas Luanda/Saurimo/Moxico e Dundo.

Por: Silvina Lembeno e Emitódio Mualilo

Neves Romão, engenheiro de Construção Civil, disse que a administração gasta com as operadoras 100 milhões de Kwanzas/mês, para assegurar o saneamento básico do município de Saurimo. A 28 do mês em curso a cidade de Saurimo completa 65 anos desde que ascendeu a esta categoria, em 1956.

Na entrevista conduzida pelos jornalistas Silvina Lembeno e Emitódio Mualilo, o administrador, no cargo há quase dois anos, considerou que apesar da “grande” melhoria registada nos últimos dois anos, ainda há zonas, sobretudo periféricas, que carecem destes serviços.

O administrador, que é casado e nasceu em Saurimo há 49 anos, disse que para atingir a excelência e transformar a localidade num dos municípios mais limpos de Angola, a administração precisa investir mais de Akz 100 milhões, para reforçar e aquisição de meios de recolha, armazenamento e gestão dos resíduos sólidos.

Ainda nesta entrevista, Neves Romão, que se define como um cidadão comprometido com a sua pátria, fala da necessidade de construção de um aterro sanitário, pretensão até agora “frustrada”, pela escassez de verbas, o que leva a administração a negociar com os seus parceiros um possível financiamento.

Eis a entrevista na íntegra:

ANGOP - Senhor administrador, Saurimo comemora 65 anos.Como pode caracterizar, hoje, este município?

Neves Romão (NR) - Passados 15 anos de paz, Saurimo, hoje, tem outra vida, outra dinâmica, com o alargamento de vários serviços essenciais, sobretudo nos sectores da educação, saúde, energia, saneamento básico e água.

Hoje, podemos afirmar que temos um Saurimo que orgulha os seus munícipes, que vai marcando passos rumo ao desenvolvimento sustentável.

ANGOP - Como imagina Saurimo daqui a cinco anos?

NR - Sonho com um Saurimo cada vez mais harmonioso, organizado, onde os nossos filhos tenham uma escola e serviços de saúde condignos, que os nossos bairros sejam organizados e requalificados, com acesso a água potável, energia e que a agricultura seja sustentável.

Queremos um município industrializado, com um pólo universitário, mais iluminado, com serviços de saúde humanizados, com todas as ruas asfaltadas, requalificadas e com uma centralidade que venha a responder aos problemas de habitabilidade da juventude.

ANGOP - O saneamento básico sempre foi uma marca de Saurimo. Qual o actual ponto de situação?

NR - Temos actualmente mais de 30 empresas a assegurarem a melhoria do saneamento básico do nosso município e controlamos 200 contentores espalhados por vários pontos da cidade. Gastamos em média 100 milhões de kwanzas/mês para manter Saurimo cada vez mais limpa.

Saurimo, nos últimos anos, está a mudar de visual. Temos mais espaços verdes, mas a nossa insatisfação é que a nossa população não preserva os bens que colocamos à sua disposição. Se estivermos todos focados no mesmo caminho e comprometidos com a mudança da imagem da cidade, iremos ter Saurimo cada vez mais limpa e organizada.

Nós gastamos 10 milhões de kwanzas/mês para cuidar dos espaços verdes e gostaríamos imenso que a população nos ajudasse a preservar esses lugares.

Mas, apesar da melhoria que se vai registando nos últimos dois anos, com a extinção de focos de lixo que anteriormente representavam uma ameaça à Saúde Pública, ainda há zonas que carecem destes serviços, sobretudo, nas zonas rurais e nós pretendemos nos próximos anos, com os esforços envidados, levar os serviços de saneamento até ao último bairro.

ANGOP - Os valores empregues mensalmente para o saneamento básico são suficientes?

NR - Teríamos menos gastos com o lixo se a população tivesse outro nível de consciência, se colaborasse na gestão do lixo produzido nas suas residências. Só para terem uma noção, a administração precisa de mais 100 milhões de kwanzas para atender a demanda, principalmente na periferia.

Precisamos neste momento de mais 600 contentores, porque os actuais 200 não satisfazem a necessidade. Mas estamos a trabalhar, buscando parceiros privados, para continuarmos a melhorar o saneamento básico e manter a cidade de Saurimo limpa.

ANGOP - Onde é depositado o lixo?

NR - Saurimo não tem um aterro sanitário. Temos é uma lixeira improvisada a céu aberto, na localidade de Camundambala, a seis quilómetros do centro da cidade, onde é depositado. Mas, existe um projecto em carteira para construirmos um entulho sanitário e estamos à procura de financiamento para o efeito, mas estamos esperanços os que a situação seja ultrapassada.

ANGOP - Referiu-se a vandalização dos bens públicos. Isso é recorrente no município?

NR - Infelizmente é (…). Só para ter uma ideia, recentemente recuperamos 60 chafarizes, com um investimento de 30 milhões de kwanzas, mas infelizmente já foram vandalizados 50 e actualmente estão a funcionar apenas dez.

Agora somos obrigados a gizar outros programas com alguns parceiros sociais para que possamos voltar a recuperá-los.

ANGOP - O que faz a administração para combater este fenómeno?

NR - Temos estado a envolver os coordenadores de bairros, as autoridades tradicionais, num trabalho conjunto com a Polícia Nacional, para nos ajudar a preservar estes e outros equipamentos sociais e responsabilizar os autores de tais actos.

ANGOP - E qual o ponto de situação do sector das águas?

NR - O actual sistema de captação, tratamento e distribuição de água não satisfaz a demanda. Por isso, temos apostado na construção de furos de água e chafarizes, para aproximarmos este serviço dos cidadãos. A cidade de Saurimo precisa de água e encontrar soluções através de investidores, que possam financiar a construção de um novo sistema de captação e distribuição do precioso líquido com maior capacidade.

Neste processo está incluído a construção, ainda este ano, da nova Estação de Tratamento de Água (ETA) da cidade de Saurimo, num projecto concebido entre os rios Luachimo e Chicapa, que consumirá cerca de 22 milhões de dólares.

Recentemente fomos brindados com seis novas bombas, deste número três de elevação e igual número para captação, bem como a instalação de um pára-raios, num investimento de Akz 300 milhões, cedidos pela empresa Sociedade Mineira de Catoca, que tem sido um grande parceiro.

O actual Centro de Captação, Tratamento e Distribuição de Água de Saurimo tem uma capacidade de 200 metros cúbicos, que atende a mais de 40 mil consumidores, dos 442 mil 437 existentes.

ANGOP - O sector da energia também enfrenta o mesmo problema?

NR - Sim (…), porque ainda dependemos de centrais térmicas para assegurar o fornecimento de energia eléctrica à cidade de Saurimo.Eisso envolve muitos gastos, sobretudo com os combustíveis e sua manutenção.

Quando estamos sem combustível temos tido restrições no fornecimento de energia. Posso resumir que viver de fontes alternativas não é a via mais segura para termos energia regular, porque estamos a ter sempre problemas de combustível para abastecer os nossos grupos geradores.

Estamos agora a trabalhar no sentido de ainda este ano concluirmos a expansão da rede de distribuição de energia eléctrica, sobretudo nos bairros periféricos.

ANGOP - Qual deve ser a solução?

NR- Temos que partir para a construção de uma barragem, para termos energia regular e remeter as centrais térmicas para um segundo plano (…).

A propósito, o Governo da Lunda-Sul aprovou o projecto de construção do aproveitamento hidro-eléctrico do Chicapa-II, localizado na zona norte do município de Saurimo, que terá uma execução público-privada e começará a ser construído no próximo ano, com o fim de melhorar a distribuição de energia na região.

ANGOP - Saurimo detém uma das maiores minas do mundo que é a Sociedade Mineira de Catoca. Está satisfeito com a participação deste subsector no desenvolvimento do município?

NR - O município tem a quarta maior mina de diamante do mundo e nos próximos anos terá a maior do Mundo, que é o Luaxe. Devo dizer que o contributo do subsector dos diamantes ainda não vai de encontro às expectativas da população, precisamos de mais acções.

Catoca tem apenas alguns programas que considero intermitentes.Não posso dizer que a mesma contribui a 100% para o desenvolvimento do município, mas tem promovido algumas iniciativas, que não satisfazem na plenitude as expectativas da população.

Temos estado a dialogar agora com a Fundação Brilhante, o braço social da Endiama, pelo que acreditamos que haverá mais dinâmica e temos fé que nos próximos tempos sentiremos mais os efeitos da comparticipação das empresas mineiras no desenvolvimento de Saurimo.

ANGOP - Há quase quatros anos foi lançada a primeira pedra para a construção de um Pólo Industrial em Saurimo. Como anda este processo?

NR - É uma situação preocupante, uma vez que os nossos investidores não aparecem para ocupar o espaço preparado. Aproveitamos esta oportunidade para apelar aos empresários nacionais e estrangeiros no sentido de nos ajudarem a concretizar este desafio, que é o da industrialização de Saurimo, investindo no espaço criado para o Pólo de Desenvolvimento da região.

Daí que há necessidade de se construir a barragem hidro-chicapa II, para atrair mais investidores para o sector industrial, porque não será possível contar com a fonte alternativa das centrais térmicas.

ANGOP - E qual o ponto de situação da indústria em Saurimo?

NR - Para além da indústria diamantífera não temos outras de grande dimensão. Tivemos agora a felicidade de termos aqui o Pólo de Desenvolvimento Diamantífero e acreditamos que a sua inauguração despertará o interesse de mais investidores.

ANGOP - O que dizer sobre a agricultura?

NR - A nossa população vive mais da agricultura familiar. Existem esforços por parte da administração, no sentido de evoluirmos para uma agricultura mecanizada, porque sentimos uma maior vontade por parte das associações e cooperativas agrícolas em melhorarem a produção.

Podemos aqui afirmar que os níveis de produção ainda não são os desejados, por isso é que temos estado a trabalhar, apoiando os camponeses para que o aumento da nossa produção seja um facto nos próximos anos.  

ANGOP - Que apoios a administração presta aos camponeses?

NR - Nos últimos anos temos potenciado os nossos camponeses com kits que permitem dinamizar a agricultura familiar, e isso tem estado a contribuir para o aumento da nossa produção. Temos três tractores que apoiam os camponeses na preparação da terra.

Nos últimos 12 meses distribuimos mais de 12 mil kits de trabalho e sementes a 20 cooperativas totalmente organizadas, que produzem mandioca, milho e hortícolas.

No âmbito da campanha agrícola 2020-2021 estão a ser cultivados  cinco mil hectares.

ANGOP - Como avalia o sector social?

NR - Temos um sector social em crescimento, com o alargamento das redes sanitária e escolar, sobretudo. A saúde, por exemplo, é um dos sectores que nos últimos anos evoluiu bastante com a construção de infra-estruturas. Em todas as vias principais que dão acesso à nossa cidade estão cobertas de unidades sanitárias, as sedes comunais têm hospitais e os bairros também têm postos e centros. Acredito que o processo de humanização dos serviços de saúde e a sua aproximação à população está no bom caminho.

Arede sanitária do município de Saurimo é composta por 44 unidades hospitalares, sendo um hospital municipal, sete centros de saúde, um hospital pediátrico e 35 postos, com um total de 150 camas, que têm melhorado a assistência médica e medicamentosa às populações.

Reconhecemos alguma dificuldade que tem a ver com a aquisição de medicamentos e estamos preocupados com a Malária, doenças diarreicas e respiratórias agudas e com o VIH/SIDA, que nos últimos anos sentimos que está a propagar-se ao nível do nosso município.

No sector da Educação, temos estado a conseguir diminuir significativamente o número de crianças fora do sistema normal de ensino com o aumento de salas de aulas em quase todas as povoações. Neste ano lectivo, matriculamos 153 mil 849 crianças, e contamos com mil 524 professores, 76 escolas e 569 salas de aulas no ensino primário, só para citar esse nível.

O desafio é continuar a alargar a rede escolar e sanitária, bem como aproximar cada vez mais estes serviços aos cidadãos.

Por outro lado, o município de Saurimo conta com duas unidades de ensino superior, nomeadamente o Instituto Superior Politécnicos da Lunda Sul da Universidade “Lueji A N'konde” (público) e o Instituto Superior Politécnico Lusíadas da Lunda Sul (privado), e uma escola agrária, na comuna do Mona Quimbundo.

ANGOP - Como avalia o Programa de Combate a Fome e a Pobreza?

NR - O Programa de Combate a Fome e a Pobreza tem sido um grande benefício para a nossa população que vive em extrema pobreza. É assim que nos últimos anos temos desenvolvido várias acções que consomem Akz 300 milhões anuais.

Entretanto, a execução de projectos enquadrados no Programa Integrado de Desenvolvimento Local e Combate à Pobreza (PIDLCP) está a contribuir para a melhoria da qualidade de vida das populações, no município de Saurimo.

Sendo que os Akz 300 milhões cabimentados para o presente ano estão a ser empregues  na aquisição de imputes e insumos agrícolas, saneamento básico, construção e conclusão de escolas com 12 salas de aulas, reparação de vias de acesso, sarjetas, passeios, instalação de moagem, bem como a reabilitação e apetrechamento do lar de Mona Quimbundo, que alberga 120 alunos.

O programa inclui ainda a reabilitação de mercados e postos de saúde, construção de uma estação de serviços para apoiar 25 jovens lavadores de carros, na aldeia de Saulimbo, aquisição de carteiras para as escolas do ensino primário, nas localidades do Nanguanza e Zorró (Saurimo), entre outros.

ANGOP - E como vai a implementação do PIIM?

NR - Temos neste momento 32 projectos em execução, no âmbito do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), em Saurimo, que já consumiram cerca de 2,3 mil milhões, correspondendo a uma execução financeira na ordem dos 59,53 por cento.

O município de Saurimo apresentou 40 projectos e destes foram aprovados mais de 32 que estão estimados em 4,5 mil milhões  de kwanzas e a execução física dos projectos ronda os 60 e 70 porcento.

Temos três projectos já concluídos e acredito que ainda este mês teremos mais alguns para colocar a disposição da população.

ANGOP - De concreto, o que é que está ser feito?

NR - Estão em construção quatro unidades sanitárias, 11 escolas, um edifício administrativo autárquico e sete sistemas de água potável, requalificação do tapete asfáltico e de passeios do centro urbano, terraplanagem do troço Saurimo/Sombo, reabilitação do hospital do Luavur, três postos de saúde, nos bairros Txizainga, Manalto e Mulombe, bem como a reabilitação de balneários públicos, expansão da rede de energia eléctrica e iluminação pública, para além do projecto de saneamento básico.

ANGOP - Como avalia o funcionamento dos mercados?

NR - Nesta altura, temos cinco mercados que precisam de mais organização.Atendendo o nível de negócio que é feito, estamos a criar associações de vendedores, porque temos tido muitas dificuldades no saneamento básico nesses mercados e a população comercial não ajuda na limpeza.

ANGOP - Qual é o rendimento destes mercados?

NR - As receitas arrecadadas variam. Vive-se uma fase pandémica que restringiu as vendas, mas temos uma facturação mensal na ordem dos dois milhões de kwanzas/mês.

E está a ser feito a requalificação do mercado do Candembe, situado nos arredores da cidade de Saurimo, com obras de construção de novas naves e alpendres, parques de estacionamento e estruturas para o saneamento básico, entre outros trabalhos.

Os trabalhos, orçados em 31 milhões de kwanzas, financiados pelo PIIM, estão em curso desde Abril deste ano e visam a ampliação e a melhoria da infra-estrutura, que depois das obras, passará a albergar quatro mil vendedores, contra os actuais três mil.

ANGOP - Pode, por favor, falar-nos sobre o funcionamento dos cemitérios?

NR - Esta é uma das grandes preocupações, porque o antigo cemitério foi desactivado há mais de 20 anos e temos apenas um a funcionar, que é o cemitério do 14, que também está a chegar a fase de saturação, uma vez que os espaços já são escassos.

Temos uma parte reservada para fazer uma requalificação, mas as dificuldades financeiras não nos permitem já a sua execução.

Lamentavelmente, a nossa população insiste em enterrar os seus entes queridos em cemitérios impróprios, acto que está a ser banido paulatinamente pelas autoridades.

ANGOP- O que nos pode dizer sobre a construção de casas em zonas de risco?

NR - A construção em zonas de risco tem-nos preocupado bastante, uma vez que a nossa população não acata os conselhos que temos estado a passar. É um dilema preocupante que na época chuvosa nos tem custado vidas.

ANGOP - O que a administração faz para inverter o quadro?

NR - Para inverter o quadro nós distribuímos terrenos e chapas de zinco, mas a nossa população, depois de receber estes apoios, mantém-senas zonas de risco. Agora estamos a envolver os nossos coordenadores de bairros, para desencorajar a população a permanecer nestas zonas e construírem as suas residências nos terrenos já cedidos.

ANGOP - E o que dizer sobre a ocupação ilegal de terrenos e o programa de auto-construção dirigida?

NR - Este fenómeno diminuiu bastante por causa de algumas medidas e conta agora com o envolvimento da própria comunidade, particularmente dos coordenadores dascomissões de bairro. Podemos afirmar que esta situação já não nos tem criado muitas dificuldades.

Sobre a auto-construção dirigida, actualmente distribuímos lotes de terra, mas o que se passa é que os cidadãos beneficiadosrejeitam construir por falta de serviços sociais básicos como a electricidade e a água, pelo que preferem deixar os passos e ir procurar outras zonas com acesso a estes serviços. Nos últimos dois anos, por exemplo, distribuímos mais de dois mil lotes para a auto-construção dirigida, nas zonas do Nhama, Txizainga e Muanguês, e grande parte destes terrenos não estão a ser aproveitados.

ANGOP - Que medidas estão a ser adoptadas?

NR - Estamos a expropriar terrenos que foram entregues há mais de três anos, como manda a Lei daTerra. Estes terrenos serão entregues àqueles cidadãos que desejam construir suas residências. Até ao momento, já retiramos mais de 30 terrenos e vamos continuar.

Por isso, apelamos os cidadãos que detêm terrenos no sentido de começarem a utilizá-los, construindo algumas infra-estruturas, sob pena de serem expropriados.

ANGOP - A circulação de pessoas e bens contribui para o desenvolvimento económico duma sociedade. Qual o estado das vias secundárias e terciárias de Saurimo?

NR - Saiba que o município de Saurimo só tem vias secundárias e temos cerca de 200 quilómetros por reabilitar, principalmente as ruas dos bairros periféricos que clamam de alguma intervenção. Estávamos a desenvolver um trabalho de reabilitação das ruas dos bairros periféricos, em que foram beneficiados os bairros da Juventude, Terra-Nova, Santo António e Candembe, para este processo suspenso por falta de financiamento.

Enquanto não tivermos financiamento, vamos fazendo alguns trabalhos paliativos de tapa buraco, até as zonas de difícil acesso.

ANGOP - Quer acrescentar algo que não tenha sido abordado na entrevista?

NR - Apenas gostaria de apelar a população no sentido de continuar a contribuir para o desenvolvimento do município e a proteger-se da Covid-19, cumprindo todas as medidas de prevenção, que se consubstanciam no uso da máscara facial, a lavagem das mãos com água e sabão, álcool em gel e o distanciamento físico, porque a pandemia está mesmo a matar.

Perfil de Saurimo

Saurimo com mais de 530 mil habitantes, foi a capital da província da Lunda, dividida em duas (Lunda Norte e Lunda Sul), em 1978. É limitado a Norte pelos municípios de Lucapa e Cambulo, a Este pela República Democrática do Congo, a Sul pelo município de Dala e a Oeste pelos municípios de Cacolo e Lubalo.

É constituído pelas comunas de Saurimo, Mona-Quimbundo e Sombo, por 140 aldeias, das quais 61 já unificadas, e 16 povoações.

Possui um subsolo rico em minérios, designadamente diamantes, manganês, ferro e madeira. A população, na sua maioria, é da etnia Côkwe, também a língua nacional mais falada na circunscrição.

Até ao fim da administração portuguesa, o seu nome foi cidade Henrique de Carvalho, em homenagem a Henrique Augusto Dias de Carvalho, o primeiro explorador da região da Lunda.

A rodovia EN-230A é a principal ligação terrestre da cidade ao resto do território nacional, ligando-a a Cacolo (Oeste) e Muriege (Leste). Outra via importante é a EN-180, que a liga ao Lucapa (Norte) e Dala (Sul). No entanto, carecem de intervenção, pois estão esburacadas.

A cidade é servida pelo Aeroporto Deolinda Rodrigues e conta com três operadoras aéreas, sendo uma estatal (TAAG) e duas privadas (Flay e SJL). Estas últimas também possuem as rotas Luanda/Saurimo/Moxico e Dundo.