Escritor João Melo contra excessos identitários

  • Escritor João Melo
Luanda – O escritor João Melo defendeu o papel da literatura na denúncia da violência e desigualdade, que têm crescido “exponencialmente nas últimas quatro décadas".

O escritor angolano concedeu uma entrevista, publicada no último domingo no The Portuguese-American Journal (PAJ), um blog interactivo dedicado à herança luso-americana, com o objetivo de informar e oferecer uma visão sobre a experiência dessa comunidade.

Questionado sobre como a literatura pode contribuir para debater a desigualdade e a violência, alertou para que se tenha cuidado a fim de não se “alimentar a tendência para a polarização, os novos tribalismos e os excessos identitários", em suma, o “apartheid politicamente correcto”.

"Outro cuidado, obviamente, é continuar a ser literatura, ou seja, não se transformar em ensaio, manifesto ou, pior ainda, mero panfleto”, disse.

João Melo considerou ser paradoxal o papel da arte na sociedade, uma vez que "pode ajudar a curar os males da sociedade, como a agravá-los. O que se passa actualmente com a desinformação, as fake news, as teorias negacionistas, a manipulação digital e outras manifestações e procedimentos é muito preocupante".

Eis a entrevista:

P: Você é angolano. Como é que isso contribui para formatar o seu trabalho criativo?

R: Os lugares a que pertencemos, assim como a conjuntura histórica com a qual estamos imbricados e as experiências que vivenciamos, pessoais ou coletivas, acabam sempre por deixar marcas naquilo que escrevemos. Mesmo quando queremos escapar delas. Como sabe, Angola é um país africano que, depois de ter sido colonizado por Portugal durante cinco séculos, se tornou independente há cerca de 46 anos. A história angolana pós-independência é também repleta de factos marcantes, como as invasões externas que enfrentou, a guerra civil que sofreu, a fracassada tentativa de implantação do socialismo, o advento da democracia e outros. O facto de ser angolano e de ter vivido a maior parte da minha vida em Angola está, portanto, visivelmente marcado na minha literatura. Além disso, faço parte de uma família de nacionalistas, algumas das quais, como o meu pai, foram autênticas personagens da história do país. Eu próprio estive envolvido, até há pouco, com a política angolana, o que me deu um conhecimento que me permite criticar o funcionamento do sistema político e o comportamento das elites angolanas, como tenho feito, sobretudo na ficção. Por outro lado, Angola, como o prova a história do Atlântico, é um país ligado ao mundo desde há muitos séculos e os angolanos contribuíram para a formação de várias outras nações, incluindo os Estados Unidos (sabia que há notícia da presença de angolanos em Jamestown?). Acresce, finalmente, que a humanidade vive hoje um processo de globalização a que Angola não pode escapar. Portanto, essa minha experiência “internacional”, digamos assim, a que nenhum ser humano escapa atualmente, pode também ser encontrada na minha literatura. Entretanto, tem de ser dito que as nossas experiências, por mais extraordinárias que sejam, não bastam para fazer literatura. Como sabemos, literatura é linguagem. Por isso, esforço-me, seja na poesia seja na ficção, por fazer literatura acima de tudo. Mas não literatura “neutra”, coisa em que não acredito, absolutamente.

P: Pode descrever a sua infância em Angola?

R: Considero que tive uma infância normal, tendo em conta as circunstâncias históricas do meio em que nasci e cresci. O meu pai, que era perseguido pelas autoridades coloniais portuguesas, deixou-nos quando eu tinha seis anos de idade, para se juntar aos nacionalistas que combatiam de armas na mão pela independência de Angola. Durante algum tempo, portanto, eu e um irmão vivemos com a nossa mãe em casa dos meus avós, pais dela, onde também viviam os nossos tios. Dois desses tios eram igualmente nacionalistas e, ao mesmo tempo, escritores e artistas plásticos. Esses dois tios estiveram muito presentes naquele período, excepto quando passavam umas temporadas nas prisões portuguesas. Essas experiências não podiam deixar de marcar-me, de qualquer forma. Mais tarde, a minha mãe casou-se novamente e fomos morar para um bairro destinado a funcionários públicos, onde fiquei até aos meus 15 anos de idade. O meu padrasto era um homem culto e muito lido, apesar de severo, tendo contribuído também para o meu gosto pela leitura. Portanto, posso dizer que a minha infância sempre foi rodeada de livros e de referências culturais em geral. Por outro lado, lembro-me também das veladas conversas que os mais idosos (tios, primos, etc.) tinham sobre a situação política de Angola, ainda submetida, na altura, à dominação colonial portuguesa. Quando chegou a adolescência, o mesmo tipo de conversas começou também a acontecer entre nós, os mais jovens, já entrados no ensino secundário. É curioso que, nos últimos tempos, essas reminiscências estejam a assomar-me à cabeça com perfeita nitidez e insistência.

P: Quando e como começou a escrever?

R: Comecei a escrever no ano de 1970, aos 15 anos de idade. Poesia, claro. Tudo aconteceu depois de eu ter feito uma viagem de comboio entre Luanda, a capital, e a cidade de Malanje, cerca de 400 quilómetros a noroeste, onde fora passar as minhas primeiras férias com a minha avó paterna. Não tenho nenhuma explicação racional para isso. A verdade é que a paisagem que pude apreciar durante essa viagem me impressionou de tal maneira, que, quando regressei a casa, comecei a escrever sem parar. Felizmente para os leitores, tudo o que escrevi naquela idade foi parar ao caixote do lixo, excepto um poema, que conseguiu sobreviver até hoje.

P: Publicou um poema seu acerca de LornaBreen, um dos primeiros médicos a sucumbir por causa da Covid, no ultimo número da revistaGavea-Brown. O que o levou a prestar-lhe esse tributo?

R: Como disse atrás, a humanidade está toda conectada. É a globalização. Acontece que tomei conhecimento, através do noticiário internacional, do que tinha acontecido com essa médica americana e o facto impressionou-me de tal maneira, que, de repente, vi-me diante de uma folha de papel escrevendo esse poema. Saiu-me quase de um jato. Aproveito para dizer que estive alguns anos em que praticamente só escrevi e publiquei ficção, mas em 2020, primeiro ano da pandemia da covid 19, fui como que compelido a regressar à poesia. Voltei, pois, a escrever poesia e fi-lo tão febrilmente que terminei um novo livro, depois de muitos anos. Chamado “Diário do Medo”, o livro deve sair este ano em português. O poema para LornaBreen faz parte do mesmo. Para mim, tudo isto mostra como a poesia é algo visceral e essencial. Poesia talvez seja a nossa única hipótese de salvação.

P: A literatura produzida nos países de língua portuguesa em geral não é traduzida para o inglês e também, consequentemente, não é publicada nos Estados Unidos. Por que razão? O que se poderá fazer a respeito disso? Como construir pontes?

É uma pergunta difícil de responder. A concorrência é brutal. Há muita gente a escrever, em todo o mundo e em todas as línguas, mas quem escreve em inglês parte em grande vantagem, pois essa é a língua hegemónica globalmente. Por exemplo, o interesse internacional crescente pelas literaturas africanas está a ser puxado pelo boom da literatura nigeriana. Mas as editoras anglófonas teriam muito a ganhar, acredito, se pesquisassem e apostassem mais nas várias literaturas em língua portuguesa, afinal a sexta língua mais falada do mundo, cobrindo uma realidade pluri-geográfica e pluri-cultural tão vasta, pelo menos, como o próprio inglês. Lembre-se que o português também é falado em todos os cinco continentes. Não tenho dúvidas: o espanto que Harold Bloom teve quando conheceu a obra de Saramago ou que a crítica norte-americana experimentou recentemente, ao re-descobrir Machado de Assis, pode acontecer novamente, se outros autores de língua portuguesa, incluindo africanos, forem traduzidos e publicados em inglês.

P: Costuma traduzir o seu próprio trabalho para inglês? E já alguma vez traduziu poesia ou ficção de inglês para português?

R: Nem uma coisa nem outra. No plano da ficção, trabalho sobretudo com o grande tradutor americano Clifford E. Landers, conhecido pela tradução de grandes escritores brasileiros. Ele organizou, inclusive, um livro de contos meus, que traduziu com o título “AndSuddenlytheFlowersWhitered”. Está atualmente à procura de um editor anglófono. Enquanto isso, alguns contos foram publicados, nos EUA, em vários sites e revistas literárias, como WordsWithoutBorders, CatamaranLiterary Reader, Chicago QuarterlyReview e Ellery Queen MysteryMagazine. Quanto à poesia, tenho pouquíssimos textos traduzidos para inglês. O poema “LornaBreen”, publicado na revista Gávea-Brown, foi traduzido por Greice Holleran. Uma belíssima tradução! O poeta e tradutor americano IndranAmirthanaygam, nascido no Sri Lanka (onde há reminiscências da língua portuguesa...), traduziu também alguns poemas meus, lidos no seu canal de poesia no Youtube. Mas estou entusiasmado com a possibilidade de qualquer deles traduzir mais poesia minha. 

P: Quais os principais  jornais literários existentes em Portugal e nos restantes países de língua portuguesa, incluindo Angola?

R: Não conheço essa realidade em todos os países de língua portuguesa. Mas posso dizer que o Brasil é o país onde o maior número de suplementos, jornais e revistas literárias continua a resistir. Em Portugal, o mais conhecido e resiliente é o Jornal de Letras, uma publicação quinzenal, mas posso mencionar também a revista de poesia Nervo. Em Angola, só há um: a gazeta Lavra & Oficina, editada pela União de Escritores Angolanos. Entretanto, nos últimos tempos, têm surgido no espaço de língua portuguesa uma série de blogs, sites e revistas literárias digitais.

P: Acredita que escrever é um acto constante de desfazer e refazer?

R: Com certeza. Em geral, a literatura lida, desde os seus primórdios, com uma série de temas fundamentais para toda a humanidade, como o amor, ódio, alegria, tristeza, raiva, desespero, esperança, fuga, resistência, luta e outros. Sob um prisma mais estrito, do próprio processo de escrita, há como que uma reelaboração permanente. Daí o recurso a técnicas como a intertextualidade, diálogo entre níveis de linguagem, paródia e outros, que, no nosso tempo, o pós-modernismo tem levado ao extremo. Por fim, creio que todos os autores, uns mais do que outros, estão permanentemente a auto-revisar e reescrever a sua obra. Ultimamente, eu próprio estou envolvido, depois de 50 anos de atividade literária, na revisão e reorganização da minha poesia. Vou fazer o mesmo com os contos.

P: Em que medida pode a literatura ajudar a curar a sociedade?

R: Já fui mais otimista. Hoje, creio que a arte tanto pode ajudar a curar os males da sociedade, como a agravá-los. O que se passa atualmente com a desinformação, as fakenews, as teorias negacionistas, a manipulação digital e outras manifestações e procedimentos é muito preocupante.

P: Como é que a literatura pode contribuir para debater a desigualdade e a violência?

R: Mesmo que a literatura não possa, por si só, mudar o mundo, não deve, na minha opinião, deixar de reflectir e denunciar a violência e a desigualdade, que têm crescido exponencialmente nas últimas quatro décadas, com o neoliberalismo, e tendem a agravar-se, com a expansão da extrema direita em todo o mundo. A boa literatura tem de ser incómoda. Mas é preciso cuidado para não alimentar a tendência para a polarização, os novos tribalismos e os excessos identitários, em suma, o “apartheid politicamente correto”. Outro cuidado, obviamente, é continuar a ser literatura, ou seja, não se transformar em ensaio, manifesto ou, pior ainda, mero panfleto.

P: Onde, quando e com que frequência costuma escrever? Para si, a escrita é um processo formal e orgânico?

R: Nunca fui muito organizado para escrever. Antes de me reformar da vida pública, escrevia ocasionalmente e sem ritmo definido. Assim, tinha períodos mais produtivos e outros em que praticamente nada escrevia. Embora já tenha escrito poesia em mesas de bar, sempre escrevi principalmente em casa e à noite. Agora que me dedico exclusivamente à escrita, tenho tempo e condições para escrever durante mais horas e também de maneira mais organizada. Mas ainda estou em busca de uma rotina. Tenho muitas ideias e planos, mas preciso de estabelecer uma rotina para leva-los a cabo.

P: Na sua opinião, que artista ou escritor angolano merece o mais amplo e profundo reconhecimento?

R: Há três manifestações artísticas angolanas que merecem um maior reconhecimento global: música, literatura e artes plásticas. Quero citar aqui três nomes, representando cada uma dessas áreas: Waldemar Bastos (músico), infelizmente falecido em 2020; Luandino Vieira (escritor), autor fundante que revolucionou o uso da língua portuguesa na literatura, articulando-a de maneira inovadora com as línguas africanas faladas em Angola, e que há muito – digo-o sem receio - merece o Nobel de Literatura; e António Ole (artista plástico). Mas há muitos outros, nesses e noutros domínios.

P: O que destaca no trabalho do moçambicano Mia Couto?

R: O diálogo entre modernidade e a tradição africana, a recriação da língua portuguesa e a sua linguagem poética.

P: Pode descrever o trabalho e os temas que os outros escritores angolanos estão a tratar?

R: A literatura angolana é muito urbana (afinal, a taxa de urbanização do país ultrapassa os 60%) e luandense. Há uma série de temas, como a memória do passado colonial, a guerra pós-independência, as questões identitárias, o fracasso das utopias, a crítica às elites contemporâneas e à atual governação que são comuns a vários autores. O resgate da história pré-colonial e dos seus “heróis” começa também a ser explorado por alguns autores. Como a grande maioria da população é jovem, os autores mais novos tendem também a escrever sobre as suas próprias vivências e problemas, que são semelhantes aos problemas de todos os outros jovens, em todo o mundo. Temas como a ecologia, as relações homossexuais e outros começam a aparecer também nos textos desses autores.

P:  Como se diferencia o seu trabalho da escrita dos demais autores de língua portuguesa, nomeadamente no plano dos temas e do respetivo tratamento?

R: Não me sinto confortável para falar de mim próprio nesses termos. Como poeta, sou herdeiro de uma linhagem tradicional da poesia angolana, de forte pendor social, mas penso ter contribuído igualmente para a sua renovação estética, através da introdução do erotismo e do experimentalismo. Como ficcionista, creio que uma das diferenças será o humor, em todas as suas variantes. Na verdade, o humor é, para mim, uma espécie de cosmovisão, uma maneira de ver e, sobretudo, de poder enfrentar as misérias do mundo. A propósito, lembro-me sempre da frase de um grande autor africano, segundo o qual para nós, africanos, o humor é uma forma de resistência... Outra diferença será o estilo assumidamente pós-moderno de narrar, utilizando técnicas como o diálogo entre diferentes níveis de linguagem, o pastiche, a narração interrompida, os desfechos múltiplos ou abertos e a intervenção explícita do narrador (e às vezes até do autor), resultando de tudo isso uma construção inesperada.

Obra do escritor

Vencedor do Prémio Nacional da Cultura 2009 pelo conjunto da sua obra literária, João Melo é habitualmente publicado em Angola e Portugal, mas tem igualmente livros saídos no Brasil, Itália e Cuba.

Tem ainda poemas e contos publicados em várias antologias, revistas e sites literários em inglês, francês, alemão, árabe e mandarim.

No princípio deste ano, um dos seus contos – “O meu primeiro milhão de dólares” – foi publicado em inglês no site nigeriano Olongo África (www.olongoafrica.com), traduzido pelo norte-americano Cliff E. Landers, tradutor habitual de vários escritores brasileiros.

“A morte é sempre pontual”, outro conto de João Melo, também traduzido por Landers, sairá no próximo verão europeu na revista Catamaran Literary Review, publicada em Santa Cruz da Califórnia, nos Estados Unidos.

Essa revista já publicou anteriormente duas outras estórias do escritor angolano.

O autor tem  mais de vinte livros, entre poesia, contos e um ensaio sobre jornalismo.

Em 2020, publicou, em Portugal, “O dia em que Charles Bossangwa chegou à América”, o seu sétimo livro de contos, que continua a aguardar editor em Angola.

 

O escritor angolano concedeu uma entrevista, publicada no último domingo no The Portuguese-American Journal (PAJ), um blog interactivo dedicado à herança luso-americana, com o objetivo de informar e oferecer uma visão sobre a experiência dessa comunidade.

Questionado sobre como a literatura pode contribuir para debater a desigualdade e a violência, alertou para que se tenha cuidado a fim de não se “alimentar a tendência para a polarização, os novos tribalismos e os excessos identitários", em suma, o “apartheid politicamente correcto”.

"Outro cuidado, obviamente, é continuar a ser literatura, ou seja, não se transformar em ensaio, manifesto ou, pior ainda, mero panfleto”, disse.

João Melo considerou ser paradoxal o papel da arte na sociedade, uma vez que "pode ajudar a curar os males da sociedade, como a agravá-los. O que se passa actualmente com a desinformação, as fake news, as teorias negacionistas, a manipulação digital e outras manifestações e procedimentos é muito preocupante".

Eis a entrevista:

P: Você é angolano. Como é que isso contribui para formatar o seu trabalho criativo?

R: Os lugares a que pertencemos, assim como a conjuntura histórica com a qual estamos imbricados e as experiências que vivenciamos, pessoais ou coletivas, acabam sempre por deixar marcas naquilo que escrevemos. Mesmo quando queremos escapar delas. Como sabe, Angola é um país africano que, depois de ter sido colonizado por Portugal durante cinco séculos, se tornou independente há cerca de 46 anos. A história angolana pós-independência é também repleta de factos marcantes, como as invasões externas que enfrentou, a guerra civil que sofreu, a fracassada tentativa de implantação do socialismo, o advento da democracia e outros. O facto de ser angolano e de ter vivido a maior parte da minha vida em Angola está, portanto, visivelmente marcado na minha literatura. Além disso, faço parte de uma família de nacionalistas, algumas das quais, como o meu pai, foram autênticas personagens da história do país. Eu próprio estive envolvido, até há pouco, com a política angolana, o que me deu um conhecimento que me permite criticar o funcionamento do sistema político e o comportamento das elites angolanas, como tenho feito, sobretudo na ficção. Por outro lado, Angola, como o prova a história do Atlântico, é um país ligado ao mundo desde há muitos séculos e os angolanos contribuíram para a formação de várias outras nações, incluindo os Estados Unidos (sabia que há notícia da presença de angolanos em Jamestown?). Acresce, finalmente, que a humanidade vive hoje um processo de globalização a que Angola não pode escapar. Portanto, essa minha experiência “internacional”, digamos assim, a que nenhum ser humano escapa atualmente, pode também ser encontrada na minha literatura. Entretanto, tem de ser dito que as nossas experiências, por mais extraordinárias que sejam, não bastam para fazer literatura. Como sabemos, literatura é linguagem. Por isso, esforço-me, seja na poesia seja na ficção, por fazer literatura acima de tudo. Mas não literatura “neutra”, coisa em que não acredito, absolutamente.

P: Pode descrever a sua infância em Angola?

R: Considero que tive uma infância normal, tendo em conta as circunstâncias históricas do meio em que nasci e cresci. O meu pai, que era perseguido pelas autoridades coloniais portuguesas, deixou-nos quando eu tinha seis anos de idade, para se juntar aos nacionalistas que combatiam de armas na mão pela independência de Angola. Durante algum tempo, portanto, eu e um irmão vivemos com a nossa mãe em casa dos meus avós, pais dela, onde também viviam os nossos tios. Dois desses tios eram igualmente nacionalistas e, ao mesmo tempo, escritores e artistas plásticos. Esses dois tios estiveram muito presentes naquele período, excepto quando passavam umas temporadas nas prisões portuguesas. Essas experiências não podiam deixar de marcar-me, de qualquer forma. Mais tarde, a minha mãe casou-se novamente e fomos morar para um bairro destinado a funcionários públicos, onde fiquei até aos meus 15 anos de idade. O meu padrasto era um homem culto e muito lido, apesar de severo, tendo contribuído também para o meu gosto pela leitura. Portanto, posso dizer que a minha infância sempre foi rodeada de livros e de referências culturais em geral. Por outro lado, lembro-me também das veladas conversas que os mais idosos (tios, primos, etc.) tinham sobre a situação política de Angola, ainda submetida, na altura, à dominação colonial portuguesa. Quando chegou a adolescência, o mesmo tipo de conversas começou também a acontecer entre nós, os mais jovens, já entrados no ensino secundário. É curioso que, nos últimos tempos, essas reminiscências estejam a assomar-me à cabeça com perfeita nitidez e insistência.

P: Quando e como começou a escrever?

R: Comecei a escrever no ano de 1970, aos 15 anos de idade. Poesia, claro. Tudo aconteceu depois de eu ter feito uma viagem de comboio entre Luanda, a capital, e a cidade de Malanje, cerca de 400 quilómetros a noroeste, onde fora passar as minhas primeiras férias com a minha avó paterna. Não tenho nenhuma explicação racional para isso. A verdade é que a paisagem que pude apreciar durante essa viagem me impressionou de tal maneira, que, quando regressei a casa, comecei a escrever sem parar. Felizmente para os leitores, tudo o que escrevi naquela idade foi parar ao caixote do lixo, excepto um poema, que conseguiu sobreviver até hoje.

P: Publicou um poema seu acerca de LornaBreen, um dos primeiros médicos a sucumbir por causa da Covid, no ultimo número da revistaGavea-Brown. O que o levou a prestar-lhe esse tributo?

R: Como disse atrás, a humanidade está toda conectada. É a globalização. Acontece que tomei conhecimento, através do noticiário internacional, do que tinha acontecido com essa médica americana e o facto impressionou-me de tal maneira, que, de repente, vi-me diante de uma folha de papel escrevendo esse poema. Saiu-me quase de um jato. Aproveito para dizer que estive alguns anos em que praticamente só escrevi e publiquei ficção, mas em 2020, primeiro ano da pandemia da covid 19, fui como que compelido a regressar à poesia. Voltei, pois, a escrever poesia e fi-lo tão febrilmente que terminei um novo livro, depois de muitos anos. Chamado “Diário do Medo”, o livro deve sair este ano em português. O poema para LornaBreen faz parte do mesmo. Para mim, tudo isto mostra como a poesia é algo visceral e essencial. Poesia talvez seja a nossa única hipótese de salvação.

P: A literatura produzida nos países de língua portuguesa em geral não é traduzida para o inglês e também, consequentemente, não é publicada nos Estados Unidos. Por que razão? O que se poderá fazer a respeito disso? Como construir pontes?

É uma pergunta difícil de responder. A concorrência é brutal. Há muita gente a escrever, em todo o mundo e em todas as línguas, mas quem escreve em inglês parte em grande vantagem, pois essa é a língua hegemónica globalmente. Por exemplo, o interesse internacional crescente pelas literaturas africanas está a ser puxado pelo boom da literatura nigeriana. Mas as editoras anglófonas teriam muito a ganhar, acredito, se pesquisassem e apostassem mais nas várias literaturas em língua portuguesa, afinal a sexta língua mais falada do mundo, cobrindo uma realidade pluri-geográfica e pluri-cultural tão vasta, pelo menos, como o próprio inglês. Lembre-se que o português também é falado em todos os cinco continentes. Não tenho dúvidas: o espanto que Harold Bloom teve quando conheceu a obra de Saramago ou que a crítica norte-americana experimentou recentemente, ao re-descobrir Machado de Assis, pode acontecer novamente, se outros autores de língua portuguesa, incluindo africanos, forem traduzidos e publicados em inglês.

P: Costuma traduzir o seu próprio trabalho para inglês? E já alguma vez traduziu poesia ou ficção de inglês para português?

R: Nem uma coisa nem outra. No plano da ficção, trabalho sobretudo com o grande tradutor americano Clifford E. Landers, conhecido pela tradução de grandes escritores brasileiros. Ele organizou, inclusive, um livro de contos meus, que traduziu com o título “AndSuddenlytheFlowersWhitered”. Está atualmente à procura de um editor anglófono. Enquanto isso, alguns contos foram publicados, nos EUA, em vários sites e revistas literárias, como WordsWithoutBorders, CatamaranLiterary Reader, Chicago QuarterlyReview e Ellery Queen MysteryMagazine. Quanto à poesia, tenho pouquíssimos textos traduzidos para inglês. O poema “LornaBreen”, publicado na revista Gávea-Brown, foi traduzido por Greice Holleran. Uma belíssima tradução! O poeta e tradutor americano IndranAmirthanaygam, nascido no Sri Lanka (onde há reminiscências da língua portuguesa...), traduziu também alguns poemas meus, lidos no seu canal de poesia no Youtube. Mas estou entusiasmado com a possibilidade de qualquer deles traduzir mais poesia minha. 

P: Quais os principais  jornais literários existentes em Portugal e nos restantes países de língua portuguesa, incluindo Angola?

R: Não conheço essa realidade em todos os países de língua portuguesa. Mas posso dizer que o Brasil é o país onde o maior número de suplementos, jornais e revistas literárias continua a resistir. Em Portugal, o mais conhecido e resiliente é o Jornal de Letras, uma publicação quinzenal, mas posso mencionar também a revista de poesia Nervo. Em Angola, só há um: a gazeta Lavra & Oficina, editada pela União de Escritores Angolanos. Entretanto, nos últimos tempos, têm surgido no espaço de língua portuguesa uma série de blogs, sites e revistas literárias digitais.

P: Acredita que escrever é um acto constante de desfazer e refazer?

R: Com certeza. Em geral, a literatura lida, desde os seus primórdios, com uma série de temas fundamentais para toda a humanidade, como o amor, ódio, alegria, tristeza, raiva, desespero, esperança, fuga, resistência, luta e outros. Sob um prisma mais estrito, do próprio processo de escrita, há como que uma reelaboração permanente. Daí o recurso a técnicas como a intertextualidade, diálogo entre níveis de linguagem, paródia e outros, que, no nosso tempo, o pós-modernismo tem levado ao extremo. Por fim, creio que todos os autores, uns mais do que outros, estão permanentemente a auto-revisar e reescrever a sua obra. Ultimamente, eu próprio estou envolvido, depois de 50 anos de atividade literária, na revisão e reorganização da minha poesia. Vou fazer o mesmo com os contos.

P: Em que medida pode a literatura ajudar a curar a sociedade?

R: Já fui mais otimista. Hoje, creio que a arte tanto pode ajudar a curar os males da sociedade, como a agravá-los. O que se passa atualmente com a desinformação, as fakenews, as teorias negacionistas, a manipulação digital e outras manifestações e procedimentos é muito preocupante.

P: Como é que a literatura pode contribuir para debater a desigualdade e a violência?

R: Mesmo que a literatura não possa, por si só, mudar o mundo, não deve, na minha opinião, deixar de reflectir e denunciar a violência e a desigualdade, que têm crescido exponencialmente nas últimas quatro décadas, com o neoliberalismo, e tendem a agravar-se, com a expansão da extrema direita em todo o mundo. A boa literatura tem de ser incómoda. Mas é preciso cuidado para não alimentar a tendência para a polarização, os novos tribalismos e os excessos identitários, em suma, o “apartheid politicamente correto”. Outro cuidado, obviamente, é continuar a ser literatura, ou seja, não se transformar em ensaio, manifesto ou, pior ainda, mero panfleto.

P: Onde, quando e com que frequência costuma escrever? Para si, a escrita é um processo formal e orgânico?

R: Nunca fui muito organizado para escrever. Antes de me reformar da vida pública, escrevia ocasionalmente e sem ritmo definido. Assim, tinha períodos mais produtivos e outros em que praticamente nada escrevia. Embora já tenha escrito poesia em mesas de bar, sempre escrevi principalmente em casa e à noite. Agora que me dedico exclusivamente à escrita, tenho tempo e condições para escrever durante mais horas e também de maneira mais organizada. Mas ainda estou em busca de uma rotina. Tenho muitas ideias e planos, mas preciso de estabelecer uma rotina para leva-los a cabo.

P: Na sua opinião, que artista ou escritor angolano merece o mais amplo e profundo reconhecimento?

R: Há três manifestações artísticas angolanas que merecem um maior reconhecimento global: música, literatura e artes plásticas. Quero citar aqui três nomes, representando cada uma dessas áreas: Waldemar Bastos (músico), infelizmente falecido em 2020; Luandino Vieira (escritor), autor fundante que revolucionou o uso da língua portuguesa na literatura, articulando-a de maneira inovadora com as línguas africanas faladas em Angola, e que há muito – digo-o sem receio - merece o Nobel de Literatura; e António Ole (artista plástico). Mas há muitos outros, nesses e noutros domínios.

P: O que destaca no trabalho do moçambicano Mia Couto?

R: O diálogo entre modernidade e a tradição africana, a recriação da língua portuguesa e a sua linguagem poética.

P: Pode descrever o trabalho e os temas que os outros escritores angolanos estão a tratar?

R: A literatura angolana é muito urbana (afinal, a taxa de urbanização do país ultrapassa os 60%) e luandense. Há uma série de temas, como a memória do passado colonial, a guerra pós-independência, as questões identitárias, o fracasso das utopias, a crítica às elites contemporâneas e à atual governação que são comuns a vários autores. O resgate da história pré-colonial e dos seus “heróis” começa também a ser explorado por alguns autores. Como a grande maioria da população é jovem, os autores mais novos tendem também a escrever sobre as suas próprias vivências e problemas, que são semelhantes aos problemas de todos os outros jovens, em todo o mundo. Temas como a ecologia, as relações homossexuais e outros começam a aparecer também nos textos desses autores.

P:  Como se diferencia o seu trabalho da escrita dos demais autores de língua portuguesa, nomeadamente no plano dos temas e do respetivo tratamento?

R: Não me sinto confortável para falar de mim próprio nesses termos. Como poeta, sou herdeiro de uma linhagem tradicional da poesia angolana, de forte pendor social, mas penso ter contribuído igualmente para a sua renovação estética, através da introdução do erotismo e do experimentalismo. Como ficcionista, creio que uma das diferenças será o humor, em todas as suas variantes. Na verdade, o humor é, para mim, uma espécie de cosmovisão, uma maneira de ver e, sobretudo, de poder enfrentar as misérias do mundo. A propósito, lembro-me sempre da frase de um grande autor africano, segundo o qual para nós, africanos, o humor é uma forma de resistência... Outra diferença será o estilo assumidamente pós-moderno de narrar, utilizando técnicas como o diálogo entre diferentes níveis de linguagem, o pastiche, a narração interrompida, os desfechos múltiplos ou abertos e a intervenção explícita do narrador (e às vezes até do autor), resultando de tudo isso uma construção inesperada.

Obra do escritor

Vencedor do Prémio Nacional da Cultura 2009 pelo conjunto da sua obra literária, João Melo é habitualmente publicado em Angola e Portugal, mas tem igualmente livros saídos no Brasil, Itália e Cuba.

Tem ainda poemas e contos publicados em várias antologias, revistas e sites literários em inglês, francês, alemão, árabe e mandarim.

No princípio deste ano, um dos seus contos – “O meu primeiro milhão de dólares” – foi publicado em inglês no site nigeriano Olongo África (www.olongoafrica.com), traduzido pelo norte-americano Cliff E. Landers, tradutor habitual de vários escritores brasileiros.

“A morte é sempre pontual”, outro conto de João Melo, também traduzido por Landers, sairá no próximo verão europeu na revista Catamaran Literary Review, publicada em Santa Cruz da Califórnia, nos Estados Unidos.

Essa revista já publicou anteriormente duas outras estórias do escritor angolano.

O autor tem  mais de vinte livros, entre poesia, contos e um ensaio sobre jornalismo.

Em 2020, publicou, em Portugal, “O dia em que Charles Bossangwa chegou à América”, o seu sétimo livro de contos, que continua a aguardar editor em Angola.