“O caminho a percorrer na educação em Angola ainda é longo” – Académico angolano

  • Académico angolano Pedro Francisco Miguel
Luanda – O caminho a percorrer em Angola, no domínio da educação e ensino, ainda é longo, considera o académico angolano Pedro Francisco Miguel, radicado na Itália. 

“A meu ver, o caminho é ainda longo, dependendo, é claro, daquilo que o angolano deseja ser”, afirma, em entrevista à ANGOP.

De acordo com o académico,  “a colonização introduziu em África um sistema educativo absolutamente inadaptado aos povos africanos, um sistema educativo que não serviu para a produção nem para a reprodução social”.

Leia a entrevista integral de uma entidade angolana com uma invejável produção científico-literária e sócio-filosófica.   

ANGOP – Nasceu no município do Cazengo, na província do Cuanza Norte, em 1941. Que imagens mais lhe marcaram na sua infância?

Pedro Francisco Miguel (PFM) – Na minha zona, os grupos sociais não se organizavam em aldeias, e sim em núcleos familiares, distanciados de um (1) a  cinco (5) quilómetros, um do outro. Quanto às imagens incisivas da minha infância, recordo-me, no  âmbito da natureza, de superfícies extensas, frondosas e verdejantes, animadas de seres vivos de várias espécies. No âmbito sócio-escolar, lembro-me dos grupos de meninos que aumentavam de número – o nosso era composto de 45 a 50 indivíduos – ao longo do caminho do lar doméstico à Escola Primária. No plano sócio-antropológico, as noites de instrução – em kimbundu ditas sungila – consistentes em narração de mitos, parábolas, etc.., e de diversificados jogos.

ANGOP – Quando decide sair de Angola e que motivações teve para se fixar definitivamente no estrangeiro?

PFM – Uma Congregação religiosa de missionários estrangeiros (italianos) necessitava de docentes para dar cobertura a escolas primárias das áreas da própria jurisdição. A Congregação formulou um pedido à sua homónima de Cazengo, a qual respondera com o fornecimento de uma equipa de 12 professores. Entre os 12, estava eu. Ensinei por algum tempo. Uma vez que essa Congregação dispunha de Estruturas de Escola Superior, “in loco” e no país de origem (Itália), eu optara para a prossecução e o aperfeiçoamento dos meus estudos. Foi assim que me encontrei estudante nessas Estruturas, “in loco” e no estrangeiro.

ANGOP – Qual foi a última vez que esteve em Angola?

PFM – Em 2006.

ANGOP – De seu nome completo José Francisco Miguel, o seu pai era mais conhecido por Mestre Sousa. Porquê?

PFM – O provérbio kimbundu reza: Ki ata, jina; kiatê kukohona. Traduzido: o que se proferiu, foi o nome; não se proferiu a tosse. No fundo, entre outras acepções, o provérbio está a ratificar aquilo que a sabedoria ancestral acumulou na sua vivência. Para os africanos, o nome da pessoa tem um valor noético e dinâmico. Noético, porque deve evocar algo inerente à história clânico-familiar; e dinâmico, porque deve responder a linhas de episódios histórico-salvíficos ocorridos no seio clânico. Não esqueçamos que, na nomenclatura colonial, o colonizado era classificado em “assimilado” e “não assimilado”. Sei que o meu pai e família não éramos “assimilados”. Nada sei da existência do apelido Sousa, apelido sob o qual somos conhecidos, mas que não resulta na documentação colonial. Conclusão: por vezes, a alienação procede com uma lógica que a lógica não contempla. 

Mestre Sousa, como era conhecido, porque o meu pai era catequista. Com grau de instrução bastante consistente. Ao lado do exercício dessa específica mansão, dispensava, também, elementos de alfabetização. É o tempo do famoso João de Deus, cartilha maternal, texto base para aprendizagem de leitura e escrita. Na época, a nossa casa era uma “para-escola”, com cerca de uma dezena de alunos e alunas fixos, internos. Quando alguém, dessa “escola” doméstica, ia matricular-se na Escola Oficial, já sabia ler e escrever fluentemente, a começar por nós, os filhos.

ANGOP – Antropologicamente, cresceu num ambiente ambivalente, caracterizado, por um lado, pelo apego à cultura endógena e, por outro, pela faceta opressora e discriminatória do regime colonial. Detalhe mais sobre essa ambivalência.

PFM – O meu grupo antropo-linguístico é o Kimbundu. A minha graça é Pedro Francisco Miguel – que resulta na minha documentação. Este não é um nome Kimbundu. Mas a praxe colonial houve por bem que para distinguir o Pedro Miguel de extração Kimbundu-Angola do Pedro Miguel da extração portuguesa-Portugal, no módulo da Certidão do Baptismo do segundo Pedro Miguel encontramos impresso, no cabeçalho, “o lábaro sacrossanto da Cruz ao lado do lábaro também santo e glorioso da Pátria, blasonado com as chagas do Redentor”; ao passo que no módulo da Certidão do Baptismo do primeiro Pedro Miguel, angolano, encontramos impresso, sempre no cabeçalho, uma criança negra com o rosto confuso entre o humano e o macaco, enquanto o resto do corpo é claramente humano, e no traseiro uma cauda comprida e pendente, precisamente à guisa do macaco (tenho depositada no meu arquivo uma cópia deste módulo-macaco).  

Nascer e crescer num clima de semelhante anfibologia, como procurei demonstrar no meu livro “Estruturas do Poder”, restitui-nos um “eu-psicológico”, quanto menos reduzido em cacos. A pôr em ordem esta confusão, cria-se no sujeito a figura psicológica da “polícia interior”, isto é, interioriza-se instâncias de uma autoridade inibitória que passam por serem legítimas.

ANGOP – Uma das suas obras tem o título de Estruturas do Poder e mecanismos de Domínio da Igreja em Angola. Dos exórdios da Conquista à Independência política. Análise psico-ético-política. Qual é a essência da obra?

PFM – Podemos encontrar o resumo da essência dessa obra, de 208 páginas, na articulação do conteúdo dos seguintes itens: 

“As benemerências de Portugal na civilização – mediante a pregação católica – das colónias são insignes e indiscutíveis”. (“L'Osservatore Romano”, 8.5.1941, pag. 1).

“Aqui estamos nós há mais de quatro séculos e meio; aqui estamos hoje, com a ajuda de Deus, mais empenhados do que nunca numa grandiosa tarefa, erguendo bem alto a bandeira portuguesa, (…) ensinando, educando e conduzindo a uma vida melhor a rude massa dos indígenas, disciplinando os seus instintos rudimentares, moldando a sua alma a uma forma superior de Cristianismo, administrando justiça com carinhosa compreensão” (do Discurso de Craveiro Lopes, então Presidente da República Portuguesa (1951 -1958), em Luanda.

“Durante um período inteiro da História do continente africano, homens, mulheres e crianças negros foram conduzidos a este pequeno lugar - Gorée – Senegal, arrancados da sua terra e separados dos seus entes queridos, para serem vendidos como mercadorias” (do Discurso do Papa João Paulo II em Gorée – Senegal, aos 22 de Fevereiro de 1992).

“(...) foi sempre princípio da missionação portuguesa “dilatar a Fé e o Império, associar a Cruz e a Espada”: isto é, não fazer cristãos sem os fazer, por isso mesmo e simultaneamente, portugueses”. (da Carta dos 9 sacerdotes angolanos exilados em Portugal, apresentada ao Núncio Apostólico em Lisboa, em Outubro de 1963).

ANGOP – Que futuro antevê para Angola, no capítulo religioso, num momento em que proliferam as religiões, muitas delas focadas apenas no enriquecimento fácil, através da manipulação dos fiéis?

PFM – A verdade histórica e o sangue dos mártires triunfarão. Aquém e Além.

ANGOP – Quais foram as principais razões que lhe levaram a fixar residência permanente no estrangeiro, mais concretamente em Itália?

PFM – Sentia e tinha o direito de viver.

ANGOP – O senhor tem uma invejável obra científico-literária. A partir da sua autoavaliação e das avaliações que lhe chegam da sociedade, tanto em Angola quanto no estrangeiro, aponte cinco dos seus trabalhos de maior repercussão.

PFM – Foi sempre meu desejo orientar as investigações no âmbito do pensamento filosófico africano. E é neste mesmo âmbito que respondo ao seu pedido.

-Kijila. Per una Filosofia Bantu, Edlico, Bari  1985.

(Kijila. Para uma Filosofia Bantu). (Kijila = Preceito)

-Mwa Lemba. Per una Teologia Bantu, Edlico, Bari 1987.

(Mwa Lemba. Para uma Teologia Bantu). (Mwa Lemba = caminhando ao encontro do Deus da vida - presente dentro de nós).

-Honga. Guida per una immersione felice tra i Bantu dell'Africa Nera, Nuova Specie, Troia (FG) 1994.

(Honga. Guia para uma feliz imersão entre os Bantus da África Negra). (Honga =  Rio, bacia hidrográfca).

-Muxima. Sintesi epistemologica di filosofia africana, Edizioni Associate, Editrice Internazioale, Roma 2002.

(Muxima. Síntese epistemológica de filosofia africana).

(Muxima = a) Coração (órgão físico), b) o locus, o lugar onde se fazem perguntas, respostas, reflexões e decisões).

-Anangola Kolenu. Letterature Africane di Espressione Portoghese (1845-1980), Edizioni Associate, Editrice Internazionale, Roma 2008.

(Anangola Kolenu. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa  - 1845-1980). (Anangola Kolenu = Filhos de Ngola, gritai).

ANGOP – Uma boa parte da sua produção científico-literária está apenas disponível na língua italiana. Nunca ninguém se disponibilizou a apostar na sua tradução massiva para a língua portuguesa?

PFM – As minhas publicações visam como principal destinatário o estado do continente que me dá hospedagem e se ufana de me ter civilizado e evangelizado.

Por minha casa, passam muitos angolanos e muitos estudantes universitários. Todos ficam “admirados” ao verem a nossa biblioteca (quase seis mil volumes) e a nossa produção literária. Digo “nossa”, entendendo eu e a minha companheira - inteligência sideral, que a providência quis tê-la precocemente junto de si.

Pois bem. Perante a minha produção científico-literária, os visitantes exprimem-se cada um segundo a própria impressão; mas um comum denominador denota os lusófonos: o pedido da tradução das minhas obras. Um particular, porém, que tais visitantes não consideram é que traduzir uma obra necessita de bom tradutor, dinheiro para o tradutor e tempo. Quanto a este último factor, tempo, eu, que já o dispusera para preparar o livro, não posso estar à disposição para efectuar traduções. Excepção feita para com as duas obras que mandei para Angola. Todavia, também neste caso, dactiloscristos em italiano jaziam na minha gaveta, quando um grupo de angolanos, que estudavam na Universidade onde eu era docente, soube da existência desses escritos e insistiram para que eu os publicasse em português. Fiz uma tradução veloz, pois sabia que os estudantes interessados, uma vez concluído o curso, voltariam para o seu país. E assim foi. Tendo-me encontrado com os volumes dos livros sem os seus destinatários, decidi enviá-los para Angola.

ANGOP – Em 1977, esteve no Brasil, para fazer pesquisas antropológicas sobre religiões afro-brasileiras, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Que experiência colheu da iniciativa e o que mais lhe marcou enquanto esteve naquele país latino-americano?

PFM – A experiência do Brasil me foi muito favorável. Referindo-me a valores espirituais, encontrei as comunidades muito mais adultas do que as comunidades italianas ou as comunidades angolanas nos respectivos países. Notei uma maturidade psicológica bem vincada. Salientando a liberdade de espírito e com a simultânea profundidade de sentimentos com que se vive a dimensão sacral.

ANGOP – Se lhe pedissem para citar cinco escritores, pesquisadores e cientistas angolanos, que nomes apontarias?

PFM – Permanecendo firme à premissa feita no item '10', após o plano geral traçado na minha obra “Anangola Kolenu”, ser-me-ia mais fácil responder recorrendo ao universo dos defuntos, como António Jacinto, Agostinho Neto… No quadro actual, destacaria os autores que, de alguma maneira, tocam “ex-professo” fibras do pensamento filosófico africano. Por exemplo, Boaventura Cardoso, Kota Ingo... Mas a distância e o tempo não me permitem alongar o passo.

ANGOP – Do seu ponto de vista, quais são os três países cimeiros, no continente africano, no capítulo da literatura e da investigação científica?

PFM – Nigéria,  República Democrática do Congo (Senegal?) e Angola ...

ANGOP – A educação e o ensino são dois dos pilares fundamentais para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Pelas informações que lhe são disponibilizadas, o que julga estar a faltar em Angola nesse domínio?

PFM – A meu ver, o caminho é ainda longo, dependendo, é claro, daquilo que o angolano deseja ser. A colonização introduziu em África um sistema educativo absolutamente inadaptado aos povos africanos, um sistema educativo que não serviu para a produção nem para a reprodução social.

Vejamos, por exemplo, o programa da política ultramarina do “Alto Comissário” Norton de Matos, que ditava o seguinte: “A colonização de famílias portuguesas deve excluir completamente dos núcleos de colonização os indivíduos de raça negra” (Cfr. “A Província de Angola, 1926, pág. 20);  ou os art. 68, 69 do Estatuto Missionário, traduzido em Decreto-Lei n° 30.207, de 5 de Abril de 1941, que ditam o conteúdo dos programas escolares a serem aplicados nas colónias; e depois da intimação da obrigatoriedade da língua portuguesa, a mão civilizadora acaricia dizendo que “no ensino da religião, pode, porém, ser livremente usada a língua indígena”. E, assim, de facto, nos encontramos com a tradução em Kimbundu do Hino Nacional português, “Heróis do mar”, cujos elementos do conteúdo, por pertencerem a um contexto psico-glotológico e psico-antropológico diferente, podiam, simplesmente, redundar numa lavagem do cérebro dos colonizados.

Sob o ponto de vista psico-social, o princípio filosófico-ocidental que orientou os angolanos na própria formação é o Princípio do Terceiro Excluído, de aristotélico-escolástica memória, que diz: uma coisa ou é ou não é; a terceira via é excluída, “tertium non datur”. No meu livro “Mwa Lemba”, demonstrei que o “Terceiro Mundo” é, efectivamente, o Terceiro Excluído. “Ou te desenvolves como o homem ocidental ou não és alguém!. “Para seres, é preciso ser como”. Mas, “para ser como”, é necessário dispor de recursos económicos e antropológicos. As consequências deste princípio filosófico ocidental, ou seja, a pobreza económica na África, foram descritas brilhantemente por Serge Latouche, já docente de Sociologia na Universidade da Sorbonne, que, com investigação de campo, declara: “A pobreza económica - na África - é mesmo uma invenção ocidental, não só porque criou novas necessidades materiais sem as satisfazer, mas também porque a intrusão do Ocidente tocou o sistema de valores que regem as práticas sociais dos tempos antigos” (Turim, 1997, p. 141). E além da pobreza no quadro social, surge aqui a pobreza antropológica, formada pelos “zombis”, que renegam os próprios valores culturais , mas que não podem integrar-se completamente em valores da cultura ocidental, porque não lhes pertencem. Não me refiro, claro, à lógica das “contaminationes”. O que faz sentar no banco dos acusados não é o dilema entre  “tradição-passado” e “progresso-futuro”, bem sim o dilema entre “independência-autonomia” e “dependência-homologação”.

ANGOP – Alguma mensagem para os angolanos?

PFM – Anangola Kolenu!

Nota Biográfica

Pedro Francisco Miguel nasceu a 17 de Novembro de 1941, em Cazengo, província do Cuanza Norte. É filho de Maria João Augusto e de José Francisco Miguel, mais conhecido como Mestre Sousa. Pedro Miguel ingressa na escola oficial, juntamente com os seus irmãos (três rapazes e três meninas), quando já sabia ler e escrever no alfabeto português. Faz estudos primários na Escola de Pesquisa. Depois de se formar na escola de Cerca, Pedro Miguel foi escolhido para leccionar nas escolas primárias. Após dois anos a ensinar, sente que o que aprendeu foi apenas o início de uma longa caminhada. Na década de 60 e 70, devido à situação política e militar em Angola, parte para a Itália, onde, mais tarde, viria a formar-se em Filosofia, na Universidade de Bari, e em Teologia Moral, na Academia Alfonsiana de Roma. Em 1980, depois de ter permanecido por algum tempo no Brasil, para fazer pesquisas antropológicas, chegou a ponderar regressar a Angola, mas preferiu fixar residência na Itália, devido à instabilidade que se vivia na sua terra natal. Figura entre os intelectuais angolanos contemporâneos, na “Enciclopédia Multimédia De Agostini”, em 22 Volumes, sob o título “Angola”. Está igualmente presente, sob o verbete "Miguel Pedro Francisco", na Enciclopédia da Pessoa no Século XX, de António Pavan,  Edizioni, Nápoles 2009, pp. 677–679.

 

“A meu ver, o caminho é ainda longo, dependendo, é claro, daquilo que o angolano deseja ser”, afirma, em entrevista à ANGOP.

De acordo com o académico,  “a colonização introduziu em África um sistema educativo absolutamente inadaptado aos povos africanos, um sistema educativo que não serviu para a produção nem para a reprodução social”.

Leia a entrevista integral de uma entidade angolana com uma invejável produção científico-literária e sócio-filosófica.   

ANGOP – Nasceu no município do Cazengo, na província do Cuanza Norte, em 1941. Que imagens mais lhe marcaram na sua infância?

Pedro Francisco Miguel (PFM) – Na minha zona, os grupos sociais não se organizavam em aldeias, e sim em núcleos familiares, distanciados de um (1) a  cinco (5) quilómetros, um do outro. Quanto às imagens incisivas da minha infância, recordo-me, no  âmbito da natureza, de superfícies extensas, frondosas e verdejantes, animadas de seres vivos de várias espécies. No âmbito sócio-escolar, lembro-me dos grupos de meninos que aumentavam de número – o nosso era composto de 45 a 50 indivíduos – ao longo do caminho do lar doméstico à Escola Primária. No plano sócio-antropológico, as noites de instrução – em kimbundu ditas sungila – consistentes em narração de mitos, parábolas, etc.., e de diversificados jogos.

ANGOP – Quando decide sair de Angola e que motivações teve para se fixar definitivamente no estrangeiro?

PFM – Uma Congregação religiosa de missionários estrangeiros (italianos) necessitava de docentes para dar cobertura a escolas primárias das áreas da própria jurisdição. A Congregação formulou um pedido à sua homónima de Cazengo, a qual respondera com o fornecimento de uma equipa de 12 professores. Entre os 12, estava eu. Ensinei por algum tempo. Uma vez que essa Congregação dispunha de Estruturas de Escola Superior, “in loco” e no país de origem (Itália), eu optara para a prossecução e o aperfeiçoamento dos meus estudos. Foi assim que me encontrei estudante nessas Estruturas, “in loco” e no estrangeiro.

ANGOP – Qual foi a última vez que esteve em Angola?

PFM – Em 2006.

ANGOP – De seu nome completo José Francisco Miguel, o seu pai era mais conhecido por Mestre Sousa. Porquê?

PFM – O provérbio kimbundu reza: Ki ata, jina; kiatê kukohona. Traduzido: o que se proferiu, foi o nome; não se proferiu a tosse. No fundo, entre outras acepções, o provérbio está a ratificar aquilo que a sabedoria ancestral acumulou na sua vivência. Para os africanos, o nome da pessoa tem um valor noético e dinâmico. Noético, porque deve evocar algo inerente à história clânico-familiar; e dinâmico, porque deve responder a linhas de episódios histórico-salvíficos ocorridos no seio clânico. Não esqueçamos que, na nomenclatura colonial, o colonizado era classificado em “assimilado” e “não assimilado”. Sei que o meu pai e família não éramos “assimilados”. Nada sei da existência do apelido Sousa, apelido sob o qual somos conhecidos, mas que não resulta na documentação colonial. Conclusão: por vezes, a alienação procede com uma lógica que a lógica não contempla. 

Mestre Sousa, como era conhecido, porque o meu pai era catequista. Com grau de instrução bastante consistente. Ao lado do exercício dessa específica mansão, dispensava, também, elementos de alfabetização. É o tempo do famoso João de Deus, cartilha maternal, texto base para aprendizagem de leitura e escrita. Na época, a nossa casa era uma “para-escola”, com cerca de uma dezena de alunos e alunas fixos, internos. Quando alguém, dessa “escola” doméstica, ia matricular-se na Escola Oficial, já sabia ler e escrever fluentemente, a começar por nós, os filhos.

ANGOP – Antropologicamente, cresceu num ambiente ambivalente, caracterizado, por um lado, pelo apego à cultura endógena e, por outro, pela faceta opressora e discriminatória do regime colonial. Detalhe mais sobre essa ambivalência.

PFM – O meu grupo antropo-linguístico é o Kimbundu. A minha graça é Pedro Francisco Miguel – que resulta na minha documentação. Este não é um nome Kimbundu. Mas a praxe colonial houve por bem que para distinguir o Pedro Miguel de extração Kimbundu-Angola do Pedro Miguel da extração portuguesa-Portugal, no módulo da Certidão do Baptismo do segundo Pedro Miguel encontramos impresso, no cabeçalho, “o lábaro sacrossanto da Cruz ao lado do lábaro também santo e glorioso da Pátria, blasonado com as chagas do Redentor”; ao passo que no módulo da Certidão do Baptismo do primeiro Pedro Miguel, angolano, encontramos impresso, sempre no cabeçalho, uma criança negra com o rosto confuso entre o humano e o macaco, enquanto o resto do corpo é claramente humano, e no traseiro uma cauda comprida e pendente, precisamente à guisa do macaco (tenho depositada no meu arquivo uma cópia deste módulo-macaco).  

Nascer e crescer num clima de semelhante anfibologia, como procurei demonstrar no meu livro “Estruturas do Poder”, restitui-nos um “eu-psicológico”, quanto menos reduzido em cacos. A pôr em ordem esta confusão, cria-se no sujeito a figura psicológica da “polícia interior”, isto é, interioriza-se instâncias de uma autoridade inibitória que passam por serem legítimas.

ANGOP – Uma das suas obras tem o título de Estruturas do Poder e mecanismos de Domínio da Igreja em Angola. Dos exórdios da Conquista à Independência política. Análise psico-ético-política. Qual é a essência da obra?

PFM – Podemos encontrar o resumo da essência dessa obra, de 208 páginas, na articulação do conteúdo dos seguintes itens: 

“As benemerências de Portugal na civilização – mediante a pregação católica – das colónias são insignes e indiscutíveis”. (“L'Osservatore Romano”, 8.5.1941, pag. 1).

“Aqui estamos nós há mais de quatro séculos e meio; aqui estamos hoje, com a ajuda de Deus, mais empenhados do que nunca numa grandiosa tarefa, erguendo bem alto a bandeira portuguesa, (…) ensinando, educando e conduzindo a uma vida melhor a rude massa dos indígenas, disciplinando os seus instintos rudimentares, moldando a sua alma a uma forma superior de Cristianismo, administrando justiça com carinhosa compreensão” (do Discurso de Craveiro Lopes, então Presidente da República Portuguesa (1951 -1958), em Luanda.

“Durante um período inteiro da História do continente africano, homens, mulheres e crianças negros foram conduzidos a este pequeno lugar - Gorée – Senegal, arrancados da sua terra e separados dos seus entes queridos, para serem vendidos como mercadorias” (do Discurso do Papa João Paulo II em Gorée – Senegal, aos 22 de Fevereiro de 1992).

“(...) foi sempre princípio da missionação portuguesa “dilatar a Fé e o Império, associar a Cruz e a Espada”: isto é, não fazer cristãos sem os fazer, por isso mesmo e simultaneamente, portugueses”. (da Carta dos 9 sacerdotes angolanos exilados em Portugal, apresentada ao Núncio Apostólico em Lisboa, em Outubro de 1963).

ANGOP – Que futuro antevê para Angola, no capítulo religioso, num momento em que proliferam as religiões, muitas delas focadas apenas no enriquecimento fácil, através da manipulação dos fiéis?

PFM – A verdade histórica e o sangue dos mártires triunfarão. Aquém e Além.

ANGOP – Quais foram as principais razões que lhe levaram a fixar residência permanente no estrangeiro, mais concretamente em Itália?

PFM – Sentia e tinha o direito de viver.

ANGOP – O senhor tem uma invejável obra científico-literária. A partir da sua autoavaliação e das avaliações que lhe chegam da sociedade, tanto em Angola quanto no estrangeiro, aponte cinco dos seus trabalhos de maior repercussão.

PFM – Foi sempre meu desejo orientar as investigações no âmbito do pensamento filosófico africano. E é neste mesmo âmbito que respondo ao seu pedido.

-Kijila. Per una Filosofia Bantu, Edlico, Bari  1985.

(Kijila. Para uma Filosofia Bantu). (Kijila = Preceito)

-Mwa Lemba. Per una Teologia Bantu, Edlico, Bari 1987.

(Mwa Lemba. Para uma Teologia Bantu). (Mwa Lemba = caminhando ao encontro do Deus da vida - presente dentro de nós).

-Honga. Guida per una immersione felice tra i Bantu dell'Africa Nera, Nuova Specie, Troia (FG) 1994.

(Honga. Guia para uma feliz imersão entre os Bantus da África Negra). (Honga =  Rio, bacia hidrográfca).

-Muxima. Sintesi epistemologica di filosofia africana, Edizioni Associate, Editrice Internazioale, Roma 2002.

(Muxima. Síntese epistemológica de filosofia africana).

(Muxima = a) Coração (órgão físico), b) o locus, o lugar onde se fazem perguntas, respostas, reflexões e decisões).

-Anangola Kolenu. Letterature Africane di Espressione Portoghese (1845-1980), Edizioni Associate, Editrice Internazionale, Roma 2008.

(Anangola Kolenu. Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa  - 1845-1980). (Anangola Kolenu = Filhos de Ngola, gritai).

ANGOP – Uma boa parte da sua produção científico-literária está apenas disponível na língua italiana. Nunca ninguém se disponibilizou a apostar na sua tradução massiva para a língua portuguesa?

PFM – As minhas publicações visam como principal destinatário o estado do continente que me dá hospedagem e se ufana de me ter civilizado e evangelizado.

Por minha casa, passam muitos angolanos e muitos estudantes universitários. Todos ficam “admirados” ao verem a nossa biblioteca (quase seis mil volumes) e a nossa produção literária. Digo “nossa”, entendendo eu e a minha companheira - inteligência sideral, que a providência quis tê-la precocemente junto de si.

Pois bem. Perante a minha produção científico-literária, os visitantes exprimem-se cada um segundo a própria impressão; mas um comum denominador denota os lusófonos: o pedido da tradução das minhas obras. Um particular, porém, que tais visitantes não consideram é que traduzir uma obra necessita de bom tradutor, dinheiro para o tradutor e tempo. Quanto a este último factor, tempo, eu, que já o dispusera para preparar o livro, não posso estar à disposição para efectuar traduções. Excepção feita para com as duas obras que mandei para Angola. Todavia, também neste caso, dactiloscristos em italiano jaziam na minha gaveta, quando um grupo de angolanos, que estudavam na Universidade onde eu era docente, soube da existência desses escritos e insistiram para que eu os publicasse em português. Fiz uma tradução veloz, pois sabia que os estudantes interessados, uma vez concluído o curso, voltariam para o seu país. E assim foi. Tendo-me encontrado com os volumes dos livros sem os seus destinatários, decidi enviá-los para Angola.

ANGOP – Em 1977, esteve no Brasil, para fazer pesquisas antropológicas sobre religiões afro-brasileiras, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Que experiência colheu da iniciativa e o que mais lhe marcou enquanto esteve naquele país latino-americano?

PFM – A experiência do Brasil me foi muito favorável. Referindo-me a valores espirituais, encontrei as comunidades muito mais adultas do que as comunidades italianas ou as comunidades angolanas nos respectivos países. Notei uma maturidade psicológica bem vincada. Salientando a liberdade de espírito e com a simultânea profundidade de sentimentos com que se vive a dimensão sacral.

ANGOP – Se lhe pedissem para citar cinco escritores, pesquisadores e cientistas angolanos, que nomes apontarias?

PFM – Permanecendo firme à premissa feita no item '10', após o plano geral traçado na minha obra “Anangola Kolenu”, ser-me-ia mais fácil responder recorrendo ao universo dos defuntos, como António Jacinto, Agostinho Neto… No quadro actual, destacaria os autores que, de alguma maneira, tocam “ex-professo” fibras do pensamento filosófico africano. Por exemplo, Boaventura Cardoso, Kota Ingo... Mas a distância e o tempo não me permitem alongar o passo.

ANGOP – Do seu ponto de vista, quais são os três países cimeiros, no continente africano, no capítulo da literatura e da investigação científica?

PFM – Nigéria,  República Democrática do Congo (Senegal?) e Angola ...

ANGOP – A educação e o ensino são dois dos pilares fundamentais para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Pelas informações que lhe são disponibilizadas, o que julga estar a faltar em Angola nesse domínio?

PFM – A meu ver, o caminho é ainda longo, dependendo, é claro, daquilo que o angolano deseja ser. A colonização introduziu em África um sistema educativo absolutamente inadaptado aos povos africanos, um sistema educativo que não serviu para a produção nem para a reprodução social.

Vejamos, por exemplo, o programa da política ultramarina do “Alto Comissário” Norton de Matos, que ditava o seguinte: “A colonização de famílias portuguesas deve excluir completamente dos núcleos de colonização os indivíduos de raça negra” (Cfr. “A Província de Angola, 1926, pág. 20);  ou os art. 68, 69 do Estatuto Missionário, traduzido em Decreto-Lei n° 30.207, de 5 de Abril de 1941, que ditam o conteúdo dos programas escolares a serem aplicados nas colónias; e depois da intimação da obrigatoriedade da língua portuguesa, a mão civilizadora acaricia dizendo que “no ensino da religião, pode, porém, ser livremente usada a língua indígena”. E, assim, de facto, nos encontramos com a tradução em Kimbundu do Hino Nacional português, “Heróis do mar”, cujos elementos do conteúdo, por pertencerem a um contexto psico-glotológico e psico-antropológico diferente, podiam, simplesmente, redundar numa lavagem do cérebro dos colonizados.

Sob o ponto de vista psico-social, o princípio filosófico-ocidental que orientou os angolanos na própria formação é o Princípio do Terceiro Excluído, de aristotélico-escolástica memória, que diz: uma coisa ou é ou não é; a terceira via é excluída, “tertium non datur”. No meu livro “Mwa Lemba”, demonstrei que o “Terceiro Mundo” é, efectivamente, o Terceiro Excluído. “Ou te desenvolves como o homem ocidental ou não és alguém!. “Para seres, é preciso ser como”. Mas, “para ser como”, é necessário dispor de recursos económicos e antropológicos. As consequências deste princípio filosófico ocidental, ou seja, a pobreza económica na África, foram descritas brilhantemente por Serge Latouche, já docente de Sociologia na Universidade da Sorbonne, que, com investigação de campo, declara: “A pobreza económica - na África - é mesmo uma invenção ocidental, não só porque criou novas necessidades materiais sem as satisfazer, mas também porque a intrusão do Ocidente tocou o sistema de valores que regem as práticas sociais dos tempos antigos” (Turim, 1997, p. 141). E além da pobreza no quadro social, surge aqui a pobreza antropológica, formada pelos “zombis”, que renegam os próprios valores culturais , mas que não podem integrar-se completamente em valores da cultura ocidental, porque não lhes pertencem. Não me refiro, claro, à lógica das “contaminationes”. O que faz sentar no banco dos acusados não é o dilema entre  “tradição-passado” e “progresso-futuro”, bem sim o dilema entre “independência-autonomia” e “dependência-homologação”.

ANGOP – Alguma mensagem para os angolanos?

PFM – Anangola Kolenu!

Nota Biográfica

Pedro Francisco Miguel nasceu a 17 de Novembro de 1941, em Cazengo, província do Cuanza Norte. É filho de Maria João Augusto e de José Francisco Miguel, mais conhecido como Mestre Sousa. Pedro Miguel ingressa na escola oficial, juntamente com os seus irmãos (três rapazes e três meninas), quando já sabia ler e escrever no alfabeto português. Faz estudos primários na Escola de Pesquisa. Depois de se formar na escola de Cerca, Pedro Miguel foi escolhido para leccionar nas escolas primárias. Após dois anos a ensinar, sente que o que aprendeu foi apenas o início de uma longa caminhada. Na década de 60 e 70, devido à situação política e militar em Angola, parte para a Itália, onde, mais tarde, viria a formar-se em Filosofia, na Universidade de Bari, e em Teologia Moral, na Academia Alfonsiana de Roma. Em 1980, depois de ter permanecido por algum tempo no Brasil, para fazer pesquisas antropológicas, chegou a ponderar regressar a Angola, mas preferiu fixar residência na Itália, devido à instabilidade que se vivia na sua terra natal. Figura entre os intelectuais angolanos contemporâneos, na “Enciclopédia Multimédia De Agostini”, em 22 Volumes, sob o título “Angola”. Está igualmente presente, sob o verbete "Miguel Pedro Francisco", na Enciclopédia da Pessoa no Século XX, de António Pavan,  Edizioni, Nápoles 2009, pp. 677–679.