“O Executivo acertou quando fechou as fronteiras” – especialista em saúde pública

  • Especialista em Saúde pública Jeremias Agostinho
Luanda – Desde a altura do diagnóstico dos dois primeiros casos de Covid-19 em Angola, a 21 de Março de 2020, Jeremias Agostinho, especialista em saúde pública, tornou-se num dos mais referenciados comentaristas das questões relacionadas com a pandemia no país.  

Por:  Venceslau Mateus

De 36 anos de idade, licenciado em enfermagem pela Universidade Agostinho Neto,  docente universitário e especialista em pediatria, o profissional é um dos convidados da ANGOP para abordar sobre o impacto da doença, no quadro do dossier Especial Covid-19.  

A propósito dos primeiros 12 meses de coabitação de Angola com a pandemia, que se assinalam a 21 de Março, o especialista concedeu uma entrevista exclusiva à ANGOP, em que aborda os grandes desafios do país e as estratégias para contornar a pandemia. 

Nesta conversa, conduzida pelo jornalista Venceslau Mateus, Jeremias Agostinho diz não ter dúvidas de que, ao decretar o Estado de Emergência, em Março de 2020, as autoridades angolanas impediram uma “escalada perigosa da Covid-19” no país. 

O médico avança que impor a cerca sanitária a Luanda, única com circulação comunitária do vírus, foi um factor determinante para o “quase” controlo da situação sanitária.  

“O Executivo acertou, quando decidiu fechar as fronteiras”, sublinha o especialista. 

Ao longo da entrevista, o profissional avalia as medidas implementadas pelo Executivo para conter a proliferação do vírus, a campanha de vacinação em curso no país e os futuros reflexos da pandemia na economia nacional, sublinhando que, apesar dos números reduzidos, impõe-se a manutenção da vigilância epidemiológica. 

Jeremias Agostinho diz-se, entretanto, “desapontado” com o cenário que se regista actualmente no país, em particular na província de Luanda, onde afirma haver total desrespeito das normas estabelecidas, como se Angola já estivesse livre da Covid-19.

Eis a íntegra da entrevista:

ANGOP - Um ano depois dos dois primeiros casos de Covid-19 em Angola, que apreciação faz dos números registados até à presente data?

Jeremias Agostinho (JA) - Os números são satisfatórios. Estamos numa fase estacionária, a desacelerar, já não temos muitos casos como anteriormente ou como os que tivemos no pico, entre Outubro e Novembro. Contrariamente a outros países, só tivemos uma fase, mas, mesmo assim, não devemos adormecer. Relativamente à nossa capacidade de testes, também reduzimos, mas, mesmo assim, não tivemos aumento do número de casos positivos, nem de mortalidade,  muito menos de doentes internados.

Provavelmente, até podemos ter mais casos entre a população angolana, mas o facto de a maioria ser de assintomáticos deixa as unidades sanitárias mais desafogadas. 

ANGOP- O país, em particular, e África, em geral, surpreenderam as organizações mundiais que previam um desastre, tendo em conta as debilidades dos sistemas nacionais de saúde. Qual julga ter sido o segredo dos africanos neste combate? 

JA - Os factores são múltiplos: primeiro, temos que reconhecer que se trata de uma doença cuja origem é a Ásia e chegou à África dois ou três meses depois. África teve o primeiro caso no dia 14 de Fevereiro, a Ásia em Dezembro de 2020. A doença chega em África com dois, três meses de atraso, factor que facilitou o processo de implementação de acções de prevenção, porque tivemos, de certa forma, tempo suficiente para se preparar uma resposta mais adequada. Enquanto a Ásia, a Europa e América passavam por situações de aperto, sem saber muito bem o que fazer para impedir o aumento vertiginoso de casos da doença, os africanos conseguiram observar o que estava a acontecer no Ocidente e decidir que medidas eram as mais assertivas. Os governos africanos ouviram os conselhos das organizações internacionais e África preparou-se, de facto, para o pior. Enquanto no Ocidente ainda discutiam o que fazer, os países africanos adoptavam medidas de prevenção concretas, tomadas em tempo oportuno.  

No caso particular de Angola, as estratégias de prevenção e combate foram aplicadas imediatamente e uma das vantagens foi a aplicação do Estado de Emergência, fechando as fronteiras quando ainda tínhamos só três casos identificados. O facto de conseguirmos ver, antes, qual era o impacto da doença na Europa, Ásia e América, ajudou e muito para a contenção do vírus. Angola acertou quando decidiu fechar-se e, principalmente, quando impôs a cerca sanitária a Luanda. A suspensão do ensino, a imposição do uso obrigatório da máscara facial, a suspensão de direitos como o de manifestação, para evitar os ajuntamentos públicos, o encerramento do comércio não essencial, distribuição de água para a lavagem de mãos ajudaram, e muito, para se travar a propagação da doença em grande escala. Como não sabíamos na altura quem eram as pessoas com mais risco de morrer face à exposição da Covid-19, tendo em conta a existência de doenças como as diarreias, malária, dengue, febre-amarela, ébola, VIH/Sida, tuberculose, entre outras enfermidades, os africanos, em particular os angolanos, tomaram as medidas necessárias para se evitar o pior. Felizmente, descobrimos que as nossas doenças (enfermidades) não são de risco elevado face à Covid-19, mas sim os doentes hipertensos, diabéticos, com câncer, doenças muito frequente em países ocidentais e que não abundam em Angola. 

Outro factor que muito ajudou é a maioria da população africana ser jovem, sendo que mais de 50 por cento tem menos de 35 anos. Face ao desenrolar da situação, estudos feitos demonstraram que a grande maioria dos pacientes nesta faixa etária é assintomática, não propensa a desenvolver complicações graves, só em casos de haver outras cormobilidades, causadas pela Covid-19. A OMS, a CDC África e outras organizações internacionais estavam certas nas projecções iniciais sobre África, mas a prevenção imediata evitou a tal catástrofe preconizada. Se eles não tivessem lançado o alerta, podíamos estar em situação bem pior. Se não tivessem lançado o alerta sobre o impacto da doença em África, estaríamos de rastos. 

ANGOP- Volvido um ano, já se pode falar, de forma fundamentada, que a biomassa dos africanos pode ter sido determinante? Há algum estudo que possa sustentar essa tese que foi muito propalada no início da pandemia? 

JA - O que teve influência foi o clima. A doença é mais agressiva no período frio, por isso tivemos o pico entre Outubro e Novembro. Na Europa, o inverno é muito prolongado e com temperaturas muito baixas, ao contrário de África. Também é sabido que o vírus morre mais rápido quando mais exposto a temperaturas elevadas. Não é o principal facto, mas não restam dúvidas de que influenciou para os números em Angola. 

ANGOP- Angola registou o pico da doença entre Outubro e Novembro de 2020, mas estabilizou abaixo da casa das centenas desde Dezembro. Com as novas variantes, acha que podemos ter de novo números assustadores no país? 

JA – A princípio não, mas continua a ser importante o cumprimento rigoroso das medidas de prevenção e combate. Com a excepção da África do Sul, Senegal e Nigéria, não existem outros países africanos que conseguem identificar no seu próprio território as novas variantes e, com isto, saber se estão ou não a aumentar os números locais. Não temos dados que nos permitam confirmar se temos ou não um aumento de casos provocados pelas novas variantes. É verdade que as novas variantes infectam mais pessoas, mas nem por isso dão origem a casos com sintomas mais graves e maiores taxas de mortalidade. Provavelmente, podemos ter mais casos, mas não de mortos. A probabilidade de termos mais mortos é reduzida. Não podemos afirmar que elas vão agravar a nossa situação. Agora, muitos têm a tendência de comparar os dados, principalmente com a África do Sul. Devo dizer que os dados de Angola não podem e nem devem ser comparados com os dados da África do Sul, porque se trata de um país com características muito diferentes, mesmo em relação ao clima. A África do Sul tem características muito diferentes da dos demais países da SADC. 

ANGOP - Qual deve ser, doravante, a abordagem das autoridades diante destas novas variantes do vírus? O que deve ser corrigido na estratégia de prevenção?   

JA - A estratégia continua a ser a mesma. Todas as medidas implementadas até à presente data são válidas. No entanto, isso não significa dizer que temos que fechar novamente o espaço aéreo angolano. Essa medida não é 100 por cento eficaz e pode causar danos maiores que a Covid-19 na sociedade angolana. Se fecharmos o espaço aéreo nacional, corremos o risco de morrer de fome e não de Covid-19, porque não vamos conseguir fazer a economia circular. 

Agora, acho e considero muito dispendioso para o Governo continuar com os testes pós-desembarque. É verdade que o passageiro deve apresentar o teste negativo, feito 72 horas antes do embarque, mas o teste no aeroporto tem pouca eficácia. Uma pessoa que fez um exame três dias antes, dificilmente testa positivo no desembarque. O Estado gasta milhões de Kwanzas para identificar um ou outro caso. Para evitar-se os gastos com os testes pós-desembarque, o Governo deve reforçar as medidas de vigilância das pessoas em quarentena domiciliar. É menos dispendioso colocar alguém a vigiar e controlar pessoas em quarentena do que gastar o que se gasta com os testes pós-desembarque. O que o passageiro paga para o teste não cobre os gastos feitos com os testes. Não há novas medidas, é apenas continuar a aplicar as que já existem e estão definidas. As estripes podem ser importadas ou internas, Angola pode também desenvolver a sua própria estripe. 

ANGOP - O surgimento da Covid-19 despertou nas autoridades a necessidade de uma aposta mais forte no sector da saúde, quer em termos de infra-estruturas, quer de equipamentos e recursos humanos. Como olha para isso? 

JA - Não só para Angola, mas para África toda. Aprendemos com a Covid-19 que não podemos estar dependentes apenas dos serviços que temos. A Covid-19 despertou no Governo a necessidade de maior aposta nas infra-estruturas e nos recursos humanos. O país deve valorizar mais o nacional, criando oportunidades para os profissionais angolanos, porque o Sistema Nacional de Saúde (SNS) pode ser submetido a novas pressões. Não esquecer que temos um país vizinho (República Democrática do Congo) com um surto de ébola, pelo que devemos estar preparados para todos os cenários, razão pela qual é essencial uma aposta forte nas infra-estruturas, com equipamentos de última geração. Olhe, por exemplo, o que aconteceu ao longo do ano 2020. Muitos cidadãos angolanos que tinham o hábito de, volta e meia, rumar para o estrangeiro para consultas médicas, foram obrigados a recorrer aos hospitais nacionais. Mesmo contra a vontade, tiveram que usar as unidades sanitárias angolanas e viram que, afinal, com um pouco mais de investimento, podemos melhorar ainda mais. Há que reconhecer que a Covid-19 acelerou a execução de alguns projectos do sector da saúde, que estavam engavetados. É só olhar que, em tempo record, o país viu surgir hospitais de campanha, com equipamentos tecnológicos de ponta, que poderão ser aproveitados para outros fins. Temos profissionais capazes, só não tínhamos meios e apoios adequados. Despertou também (a Covid-19) a necessidade de apostar na investigação científica. 

ANGOP – Mudando de foco, Angola recebeu o primeiro lote de vacinas e começou com o seu programa de vacinação em massa. Que desafios se colocam ao sector da saúde para levar adiante o processo de vacinação? 

JA - O plano está muito bem elaborado, possui todas as etapas e recursos necessários, factor que contribuiu para que o país fosse o terceiro africano a receber a primeira dose de vacinas da iniciativa Covax. Temos experiência em vacinação, bons planos,  conhecimentos e um programa de vacinação funcional. A nossa dificuldade é a implementação. Nestas primeiras semanas de vacinação, o Governo tomou uma medida assertiva. Começámos com um posto no Paz Flor e, por esta altura, já temos uns tantos espalhados pela cidade de Luanda. É necessária a criação, também, de equipas móveis. Equipas que vão ao encontro dos cidadãos, nos mercados, nos supermercados e em outros locais de grande aglomeração populacional. No entanto, só temos que melhorar alguns aspectos, nomeadamente aumentar os postos de vacinação, as equipas irem ao encontro das pessoas, aumentar as campanhas de mobilização para a vacinação, porque há muita campanha de desmobilização contra a vacinação. Há que disponibilizar uma via para as pessoas apresentarem informações sobre os efeitos provocados pela vacina. 

ANGOP - Já agora, como olha para aqueles discursos de figuras mediáticas do país que se têm posicionado contra a vacinação. Vê alguma fundamentação nisso, ou seja, do ponto de vista clínico, há algo a temer? 

JA - A vacina é segura. Agora, é preciso levar em conta as contra-medidas da ficha técnica. É segura para maiores de 18 anos, não é aconselhável para menores de 18 anos e maiores de 65 anos e mulheres grávidas. As pessoas devem ter o cuidado de passar todas as informações aos médicos sobre o historial clínico e, desta forma, serem informadas se devem ou não apanhar a vacina, o que está a acontecer na Europa, nomeadamente os casos de coagulação sanguínea (que não consta das contra medidas), que leva os pacientes a terem AVC ou fazerem enfarte e acabarem por morrer.

Os dados do nosso ministério indicam que a nossa vacina tem origem do instituto na Índia, um lote diferente do produzido no Reino Unido e distribuído na Europa. O que acontece é que a maior parte dos países europeus que suspenderam a vacina da AstraZeneca fizeram-no por questões preventivas e porque têm outras opções.

Nós temos que ter apenas algumas cautelas. Primeiro, é que não temos as reacções adversas e, segundo, não temos outras alternativas para protecção dos cidadãos angolanos. O importante é acompanhar e se tivermos casos do género, estudar as razões e suspender. Não podemos, simplesmente, suspender para seguir a “bala”, seguir a “onda”.

Aponta-se, por exemplo, o facto de Portugal suspender a vacina da Astrazeneca. A pergunta que faço é: Portugal já registou e apresentou algum caso adverso provocado pela vacina? Portugal só suspendeu, porque ouviu que oito países europeus suspenderam a administração da vacina, também fez o mesmo. O momento é para manter a tranquilidade. 

ANGOP - O plano de vacinação prevê imunizar, inicialmente, apenas 52 por cento da população. Acha suficiente? 

JA - Em casos de Covid-19, há uma variante que denominamos imunidade de grupo. A imunidade de grupo significa vacinar um número determinado de cidadãos que permite às autoridades controlar a forma como vão evoluir.

Para haver imunidade de grupo, deve-se vacinar entre 50 a 70 por cento da população. Se conseguirmos 52 por cento, conseguimos a imunidade de grupo. Se pudermos puxar para 70 ou 80 por cento, melhor ainda. Mas acima de 50 por cento conseguimos a imunidade de grupo e controlar os casos, evitando ainda a existência de casos que possam desestabilizar o país. 

ANGOP - Qual seria o quadro se, hipoteticamente, o país não conseguisse recursos para comprar a segunda dose das vacinas? 

JA - Se os cidadãos não tomarem a segunda dose, correm o risco de perder 90 por cento da protecção. Quer isto dizer que o risco de se infectarem e transmitirem a doença ainda se vai manter elevado. O país deve fazer todo um esforço para estar em condições de aplicar a segunda dose, para, desta forma, manter a população protegida. É fundamental a segunda dose, porque quanto maior for o tempo de intervalo entre a primeira e segunda dose, ela deixa de ter a eficácia deseja.    

ANGOP - Para terminar, que desafios se colocam ao país para vencer a pandemia, sobretudo agora que se iniciou a vacinação?  

JA - É tentar equilibrar os casos, para se poder equilibrar a economia nacional. É dos principais desafios. Se, por um lado, temos uma pandemia que mata, por outro, sabemos que as medidas para se conter a Covid-19 degradam a situação da saúde da população, ou seja, quando fechamos o espaço aéreo ou quando colocamos uma província sob cerca sanitária, que são medidas que dão para controlar, estamos a danificar a economia e, ao danificar a economia, estamos a piorar a situação económica e social das famílias. Aumenta o desemprego e a fome, levando a que os cidadãos adquiram doenças que podem provocar a morte. Está a destruir famílias, colocando mais crianças na rua, mais cidadãos pedintes e em condições de penúria total. Há ainda que ter conta que, para adquirir as vacinas, o Estado precisa de dinheiro e, para ter dinheiro, deve manter o circuito económico funcional. É também necessário controlar a disseminação nas escolas, nos mercados informais, visto que já não há rigor no cumprimento das medidas de prevenção. Há que levar as vacinas para as zonas mais recônditas do país, mobilizar os cidadãos para a vacinação, controlar as novas variantes, aumentar os profissionais de saúde. A Covid-19 ainda não passou e o pior pode vir, se não cumprirmos com as medidas de prevenção. É necessário o envolvimento de todos para se combater a doença e, desta forma, podermos voltar ao normal.

 

De 36 anos de idade, licenciado em enfermagem pela Universidade Agostinho Neto,  docente universitário e especialista em pediatria, o profissional é um dos convidados da ANGOP para abordar sobre o impacto da doença, no quadro do dossier Especial Covid-19.  

A propósito dos primeiros 12 meses de coabitação de Angola com a pandemia, que se assinalam a 21 de Março, o especialista concedeu uma entrevista exclusiva à ANGOP, em que aborda os grandes desafios do país e as estratégias para contornar a pandemia. 

Nesta conversa, conduzida pelo jornalista Venceslau Mateus, Jeremias Agostinho diz não ter dúvidas de que, ao decretar o Estado de Emergência, em Março de 2020, as autoridades angolanas impediram uma “escalada perigosa da Covid-19” no país. 

O médico avança que impor a cerca sanitária a Luanda, única com circulação comunitária do vírus, foi um factor determinante para o “quase” controlo da situação sanitária.  

“O Executivo acertou, quando decidiu fechar as fronteiras”, sublinha o especialista. 

Ao longo da entrevista, o profissional avalia as medidas implementadas pelo Executivo para conter a proliferação do vírus, a campanha de vacinação em curso no país e os futuros reflexos da pandemia na economia nacional, sublinhando que, apesar dos números reduzidos, impõe-se a manutenção da vigilância epidemiológica. 

Jeremias Agostinho diz-se, entretanto, “desapontado” com o cenário que se regista actualmente no país, em particular na província de Luanda, onde afirma haver total desrespeito das normas estabelecidas, como se Angola já estivesse livre da Covid-19.

Eis a íntegra da entrevista:

ANGOP - Um ano depois dos dois primeiros casos de Covid-19 em Angola, que apreciação faz dos números registados até à presente data?

Jeremias Agostinho (JA) - Os números são satisfatórios. Estamos numa fase estacionária, a desacelerar, já não temos muitos casos como anteriormente ou como os que tivemos no pico, entre Outubro e Novembro. Contrariamente a outros países, só tivemos uma fase, mas, mesmo assim, não devemos adormecer. Relativamente à nossa capacidade de testes, também reduzimos, mas, mesmo assim, não tivemos aumento do número de casos positivos, nem de mortalidade,  muito menos de doentes internados.

Provavelmente, até podemos ter mais casos entre a população angolana, mas o facto de a maioria ser de assintomáticos deixa as unidades sanitárias mais desafogadas. 

ANGOP- O país, em particular, e África, em geral, surpreenderam as organizações mundiais que previam um desastre, tendo em conta as debilidades dos sistemas nacionais de saúde. Qual julga ter sido o segredo dos africanos neste combate? 

JA - Os factores são múltiplos: primeiro, temos que reconhecer que se trata de uma doença cuja origem é a Ásia e chegou à África dois ou três meses depois. África teve o primeiro caso no dia 14 de Fevereiro, a Ásia em Dezembro de 2020. A doença chega em África com dois, três meses de atraso, factor que facilitou o processo de implementação de acções de prevenção, porque tivemos, de certa forma, tempo suficiente para se preparar uma resposta mais adequada. Enquanto a Ásia, a Europa e América passavam por situações de aperto, sem saber muito bem o que fazer para impedir o aumento vertiginoso de casos da doença, os africanos conseguiram observar o que estava a acontecer no Ocidente e decidir que medidas eram as mais assertivas. Os governos africanos ouviram os conselhos das organizações internacionais e África preparou-se, de facto, para o pior. Enquanto no Ocidente ainda discutiam o que fazer, os países africanos adoptavam medidas de prevenção concretas, tomadas em tempo oportuno.  

No caso particular de Angola, as estratégias de prevenção e combate foram aplicadas imediatamente e uma das vantagens foi a aplicação do Estado de Emergência, fechando as fronteiras quando ainda tínhamos só três casos identificados. O facto de conseguirmos ver, antes, qual era o impacto da doença na Europa, Ásia e América, ajudou e muito para a contenção do vírus. Angola acertou quando decidiu fechar-se e, principalmente, quando impôs a cerca sanitária a Luanda. A suspensão do ensino, a imposição do uso obrigatório da máscara facial, a suspensão de direitos como o de manifestação, para evitar os ajuntamentos públicos, o encerramento do comércio não essencial, distribuição de água para a lavagem de mãos ajudaram, e muito, para se travar a propagação da doença em grande escala. Como não sabíamos na altura quem eram as pessoas com mais risco de morrer face à exposição da Covid-19, tendo em conta a existência de doenças como as diarreias, malária, dengue, febre-amarela, ébola, VIH/Sida, tuberculose, entre outras enfermidades, os africanos, em particular os angolanos, tomaram as medidas necessárias para se evitar o pior. Felizmente, descobrimos que as nossas doenças (enfermidades) não são de risco elevado face à Covid-19, mas sim os doentes hipertensos, diabéticos, com câncer, doenças muito frequente em países ocidentais e que não abundam em Angola. 

Outro factor que muito ajudou é a maioria da população africana ser jovem, sendo que mais de 50 por cento tem menos de 35 anos. Face ao desenrolar da situação, estudos feitos demonstraram que a grande maioria dos pacientes nesta faixa etária é assintomática, não propensa a desenvolver complicações graves, só em casos de haver outras cormobilidades, causadas pela Covid-19. A OMS, a CDC África e outras organizações internacionais estavam certas nas projecções iniciais sobre África, mas a prevenção imediata evitou a tal catástrofe preconizada. Se eles não tivessem lançado o alerta, podíamos estar em situação bem pior. Se não tivessem lançado o alerta sobre o impacto da doença em África, estaríamos de rastos. 

ANGOP- Volvido um ano, já se pode falar, de forma fundamentada, que a biomassa dos africanos pode ter sido determinante? Há algum estudo que possa sustentar essa tese que foi muito propalada no início da pandemia? 

JA - O que teve influência foi o clima. A doença é mais agressiva no período frio, por isso tivemos o pico entre Outubro e Novembro. Na Europa, o inverno é muito prolongado e com temperaturas muito baixas, ao contrário de África. Também é sabido que o vírus morre mais rápido quando mais exposto a temperaturas elevadas. Não é o principal facto, mas não restam dúvidas de que influenciou para os números em Angola. 

ANGOP- Angola registou o pico da doença entre Outubro e Novembro de 2020, mas estabilizou abaixo da casa das centenas desde Dezembro. Com as novas variantes, acha que podemos ter de novo números assustadores no país? 

JA – A princípio não, mas continua a ser importante o cumprimento rigoroso das medidas de prevenção e combate. Com a excepção da África do Sul, Senegal e Nigéria, não existem outros países africanos que conseguem identificar no seu próprio território as novas variantes e, com isto, saber se estão ou não a aumentar os números locais. Não temos dados que nos permitam confirmar se temos ou não um aumento de casos provocados pelas novas variantes. É verdade que as novas variantes infectam mais pessoas, mas nem por isso dão origem a casos com sintomas mais graves e maiores taxas de mortalidade. Provavelmente, podemos ter mais casos, mas não de mortos. A probabilidade de termos mais mortos é reduzida. Não podemos afirmar que elas vão agravar a nossa situação. Agora, muitos têm a tendência de comparar os dados, principalmente com a África do Sul. Devo dizer que os dados de Angola não podem e nem devem ser comparados com os dados da África do Sul, porque se trata de um país com características muito diferentes, mesmo em relação ao clima. A África do Sul tem características muito diferentes da dos demais países da SADC. 

ANGOP - Qual deve ser, doravante, a abordagem das autoridades diante destas novas variantes do vírus? O que deve ser corrigido na estratégia de prevenção?   

JA - A estratégia continua a ser a mesma. Todas as medidas implementadas até à presente data são válidas. No entanto, isso não significa dizer que temos que fechar novamente o espaço aéreo angolano. Essa medida não é 100 por cento eficaz e pode causar danos maiores que a Covid-19 na sociedade angolana. Se fecharmos o espaço aéreo nacional, corremos o risco de morrer de fome e não de Covid-19, porque não vamos conseguir fazer a economia circular. 

Agora, acho e considero muito dispendioso para o Governo continuar com os testes pós-desembarque. É verdade que o passageiro deve apresentar o teste negativo, feito 72 horas antes do embarque, mas o teste no aeroporto tem pouca eficácia. Uma pessoa que fez um exame três dias antes, dificilmente testa positivo no desembarque. O Estado gasta milhões de Kwanzas para identificar um ou outro caso. Para evitar-se os gastos com os testes pós-desembarque, o Governo deve reforçar as medidas de vigilância das pessoas em quarentena domiciliar. É menos dispendioso colocar alguém a vigiar e controlar pessoas em quarentena do que gastar o que se gasta com os testes pós-desembarque. O que o passageiro paga para o teste não cobre os gastos feitos com os testes. Não há novas medidas, é apenas continuar a aplicar as que já existem e estão definidas. As estripes podem ser importadas ou internas, Angola pode também desenvolver a sua própria estripe. 

ANGOP - O surgimento da Covid-19 despertou nas autoridades a necessidade de uma aposta mais forte no sector da saúde, quer em termos de infra-estruturas, quer de equipamentos e recursos humanos. Como olha para isso? 

JA - Não só para Angola, mas para África toda. Aprendemos com a Covid-19 que não podemos estar dependentes apenas dos serviços que temos. A Covid-19 despertou no Governo a necessidade de maior aposta nas infra-estruturas e nos recursos humanos. O país deve valorizar mais o nacional, criando oportunidades para os profissionais angolanos, porque o Sistema Nacional de Saúde (SNS) pode ser submetido a novas pressões. Não esquecer que temos um país vizinho (República Democrática do Congo) com um surto de ébola, pelo que devemos estar preparados para todos os cenários, razão pela qual é essencial uma aposta forte nas infra-estruturas, com equipamentos de última geração. Olhe, por exemplo, o que aconteceu ao longo do ano 2020. Muitos cidadãos angolanos que tinham o hábito de, volta e meia, rumar para o estrangeiro para consultas médicas, foram obrigados a recorrer aos hospitais nacionais. Mesmo contra a vontade, tiveram que usar as unidades sanitárias angolanas e viram que, afinal, com um pouco mais de investimento, podemos melhorar ainda mais. Há que reconhecer que a Covid-19 acelerou a execução de alguns projectos do sector da saúde, que estavam engavetados. É só olhar que, em tempo record, o país viu surgir hospitais de campanha, com equipamentos tecnológicos de ponta, que poderão ser aproveitados para outros fins. Temos profissionais capazes, só não tínhamos meios e apoios adequados. Despertou também (a Covid-19) a necessidade de apostar na investigação científica. 

ANGOP – Mudando de foco, Angola recebeu o primeiro lote de vacinas e começou com o seu programa de vacinação em massa. Que desafios se colocam ao sector da saúde para levar adiante o processo de vacinação? 

JA - O plano está muito bem elaborado, possui todas as etapas e recursos necessários, factor que contribuiu para que o país fosse o terceiro africano a receber a primeira dose de vacinas da iniciativa Covax. Temos experiência em vacinação, bons planos,  conhecimentos e um programa de vacinação funcional. A nossa dificuldade é a implementação. Nestas primeiras semanas de vacinação, o Governo tomou uma medida assertiva. Começámos com um posto no Paz Flor e, por esta altura, já temos uns tantos espalhados pela cidade de Luanda. É necessária a criação, também, de equipas móveis. Equipas que vão ao encontro dos cidadãos, nos mercados, nos supermercados e em outros locais de grande aglomeração populacional. No entanto, só temos que melhorar alguns aspectos, nomeadamente aumentar os postos de vacinação, as equipas irem ao encontro das pessoas, aumentar as campanhas de mobilização para a vacinação, porque há muita campanha de desmobilização contra a vacinação. Há que disponibilizar uma via para as pessoas apresentarem informações sobre os efeitos provocados pela vacina. 

ANGOP - Já agora, como olha para aqueles discursos de figuras mediáticas do país que se têm posicionado contra a vacinação. Vê alguma fundamentação nisso, ou seja, do ponto de vista clínico, há algo a temer? 

JA - A vacina é segura. Agora, é preciso levar em conta as contra-medidas da ficha técnica. É segura para maiores de 18 anos, não é aconselhável para menores de 18 anos e maiores de 65 anos e mulheres grávidas. As pessoas devem ter o cuidado de passar todas as informações aos médicos sobre o historial clínico e, desta forma, serem informadas se devem ou não apanhar a vacina, o que está a acontecer na Europa, nomeadamente os casos de coagulação sanguínea (que não consta das contra medidas), que leva os pacientes a terem AVC ou fazerem enfarte e acabarem por morrer.

Os dados do nosso ministério indicam que a nossa vacina tem origem do instituto na Índia, um lote diferente do produzido no Reino Unido e distribuído na Europa. O que acontece é que a maior parte dos países europeus que suspenderam a vacina da AstraZeneca fizeram-no por questões preventivas e porque têm outras opções.

Nós temos que ter apenas algumas cautelas. Primeiro, é que não temos as reacções adversas e, segundo, não temos outras alternativas para protecção dos cidadãos angolanos. O importante é acompanhar e se tivermos casos do género, estudar as razões e suspender. Não podemos, simplesmente, suspender para seguir a “bala”, seguir a “onda”.

Aponta-se, por exemplo, o facto de Portugal suspender a vacina da Astrazeneca. A pergunta que faço é: Portugal já registou e apresentou algum caso adverso provocado pela vacina? Portugal só suspendeu, porque ouviu que oito países europeus suspenderam a administração da vacina, também fez o mesmo. O momento é para manter a tranquilidade. 

ANGOP - O plano de vacinação prevê imunizar, inicialmente, apenas 52 por cento da população. Acha suficiente? 

JA - Em casos de Covid-19, há uma variante que denominamos imunidade de grupo. A imunidade de grupo significa vacinar um número determinado de cidadãos que permite às autoridades controlar a forma como vão evoluir.

Para haver imunidade de grupo, deve-se vacinar entre 50 a 70 por cento da população. Se conseguirmos 52 por cento, conseguimos a imunidade de grupo. Se pudermos puxar para 70 ou 80 por cento, melhor ainda. Mas acima de 50 por cento conseguimos a imunidade de grupo e controlar os casos, evitando ainda a existência de casos que possam desestabilizar o país. 

ANGOP - Qual seria o quadro se, hipoteticamente, o país não conseguisse recursos para comprar a segunda dose das vacinas? 

JA - Se os cidadãos não tomarem a segunda dose, correm o risco de perder 90 por cento da protecção. Quer isto dizer que o risco de se infectarem e transmitirem a doença ainda se vai manter elevado. O país deve fazer todo um esforço para estar em condições de aplicar a segunda dose, para, desta forma, manter a população protegida. É fundamental a segunda dose, porque quanto maior for o tempo de intervalo entre a primeira e segunda dose, ela deixa de ter a eficácia deseja.    

ANGOP - Para terminar, que desafios se colocam ao país para vencer a pandemia, sobretudo agora que se iniciou a vacinação?  

JA - É tentar equilibrar os casos, para se poder equilibrar a economia nacional. É dos principais desafios. Se, por um lado, temos uma pandemia que mata, por outro, sabemos que as medidas para se conter a Covid-19 degradam a situação da saúde da população, ou seja, quando fechamos o espaço aéreo ou quando colocamos uma província sob cerca sanitária, que são medidas que dão para controlar, estamos a danificar a economia e, ao danificar a economia, estamos a piorar a situação económica e social das famílias. Aumenta o desemprego e a fome, levando a que os cidadãos adquiram doenças que podem provocar a morte. Está a destruir famílias, colocando mais crianças na rua, mais cidadãos pedintes e em condições de penúria total. Há ainda que ter conta que, para adquirir as vacinas, o Estado precisa de dinheiro e, para ter dinheiro, deve manter o circuito económico funcional. É também necessário controlar a disseminação nas escolas, nos mercados informais, visto que já não há rigor no cumprimento das medidas de prevenção. Há que levar as vacinas para as zonas mais recônditas do país, mobilizar os cidadãos para a vacinação, controlar as novas variantes, aumentar os profissionais de saúde. A Covid-19 ainda não passou e o pior pode vir, se não cumprirmos com as medidas de prevenção. É necessário o envolvimento de todos para se combater a doença e, desta forma, podermos voltar ao normal.