Meliantes "invadem" Macambira  

  • Espaço que albergou o antigo mercado de Macambira
Luanda – O terreno onde funcionava a antiga Fábrica Imperial de Borracha (FIB), vulgo Macambira, continua em estado de abandono e transformado em esconderijo de meliantes, volvidos quase oito anos desde a desactivação e demolição do empreendimento. 

Por Quinito Bumba 

Localizado no bairro Nelito Soares/Vila Alice (distrito urbano do Rangel), município de Luanda, o espaço, com  20 mil metros quadrados, detinha um conglomerado de pelo menos 50 armazéns, todos derrubados pelo Governo, em Agosto de 2013. 

À época dos factos, o então Ministério do Comércio justificou que a extinção dos armazéns, dois dos quais alvos de incêndio de grande proporção, em Fevereiro de 2010, visava, essencialmente, melhorar a organização da actividade comercial na capital do país. 

Segundo as autoridades de então, pretendia-se, igualmente, eliminar os constrangimentos no trânsito automóvel, acabar com os focos de lixo e reduzir o índice de delinquência que se fazia sentir na zona da FIB, onde se confeccionava tecidos, roupas e calçados. 

Após o desalojamento coercivo dos “inquilinos”, que comercializavam diversos produtos na antiga Macambira, o primeiro objectivo (melhoria do trânsito) foi alcançado. Entretanto, contra todas as expectativas, a segunda meta (diminuição dos assaltos) caiu por terra. 

De acordo com moradores e comerciantes da Vila Alice, de 2013 até à presente data, a delinquência intensificou-se, principalmente a partir das 18 horas, em consequência do capim, do lixo e das sucatas que fazem morada no antigo "centro comercial". 

Acrescenta-se a isso a existência de caves no recinto, onde os assaltantes se escondem para consumir estupefacientes, mesmo à luz do dia, conforme constatou a equipa da Angop. 

Como se não bastasse, o agora espaço baldio é utilizado, de noite, para a prática de prostituição, muitas vezes materializada no interior de viaturas, além de violações sexuais a transeuntes. Há, inclusive, relatos de mortes no local, nesse período do dia.  

Contíguas à ex-fábrica estão, actualmente, apenas uma agência de gás da Sonangol, uma oficina alegadamente propriedade do Ministério da Defesa e uma loja pertencente ao grupo Agro Santos a comercializar mobiliários, as poucas que escaparam das demolições. 

O espaço é ocupado por vendedoras eventuais que comercializam diversos produtos no seu interior, durante a semana. Aos finais de semana, é usado como campo de futebol.  

Testemunho de frequentadores do espaço 

Nos dias de hoje, mesmo descaracterizado, o descampado quintalão serve de “amparo” para dementes e meninos de rua, bem como para o estacionamento de comerciantes, que garantem ali, esporadicamente, o sustento familiar, enquanto se aguarda pela requalificação. 

Vanilda Pinto é uma das vendedoras e moradoras que, há 15 anos, comercializam botijas de gás e seus acessórios (redutor e mangueira) nas ruas Eugénio de Castro e Senado da Câmara, perímetros adjacentes à antiga infra-estrutura da Macambira. 

Segundo a vendedeira, que justificou a sua permanência no local pela força do hábito e fidelização dos seus clientes, a Macambira transformou-se em depósito de lixo/entulho e esconderijo de bandidos, com os quais já não se consegue ter sossego. 

“Desde que foram retirados os armazéns, a bandidagem aumentou. Nós não conseguimos ficar com dinheiro no local de venda, nem vender de forma tranquila, porque a qualquer momento podemos ser surpreendidas pelos assaltantes”, denuncia. 

A cidadã detalha que, além de levarem dinheiro, os mesmos apoderam-se dos seus bens e chegam, nalguns casos, a violar meninas que vão ou saem da escola. 

Lembra que, por falta de policiamento na área, uma colega já acabou rendida com arma de fogo, pelos marginais, que lhe receberam o redutor e a mangueira da botija de gás. 

Rosa Gonçalves, também vendedora nos arredores da Macambira, há 10 anos, relata que, em 2019, testemunhou a violação e agressão de um casal que circulava naquela zona, cujo destino foi a morte, numa das unidades hospitalares de Luanda. 

“Os meliantes, quando olham as vendedoras com as pastas nas mãos, pensam que temos muito dinheiro, invadem e levam tudo”, lamenta a cidadã, apelando para o destacamento permanente de efectivos da Polícia, enquanto o espaço continuar “abandonado”. 

Além dos meliantes, as vendedoras queixam-se do facto de alguns agentes da Polícia Nacional receberem frequentemente os seus negócios e, muitas vezes, levarem os próprios comerciantes à esquadra, por alegadamente venderem em passeios ou locais impróprios. 

Moradores exigem infra-estruturas sociais 

De Agosto de 2013 a Junho de 2021, a Macambira sucumbiu no tempo, ficando apenas o nome, alguns destroços resultantes das demolições e a história de uma das indústrias de referência de Luanda, do período pré-independência até à década de 1990. 

Até ao momento, as autoridades competentes ainda “não se pronunciaram sobre a infra-estrutura que será erguida naquele espaço comercial”, criando várias especulações nas comunidades que muito se beneficiaram da então Fábrica Imperial de Borracha. 

A esse respeito, a Angop tentou contactar, sem sucesso, os possíveis gestores e responsáveis do terreno da Macambira, que, em 2005, depois de um período de funcionamento a meio gás, se tornou num “Centro Logístico e Comercial”. 

Após a demolição dos armazéns, orientada na altura, alegadamente, pelo Ministério do Comércio, o terreno foi posto à disposição da Comissão Administrativa da Cidade de Luanda, que, até ao momento, pouco ou nada fez para a valorização do espaço. 

O abandono do terreno pode indiciar que o processo de reorganização da actividade comercial em zonas urbanas ou residenciais ficou sem “pernas para andar”, pelo que se vê ainda muitos armazéns grossistas e retalhistas a comercializarem no centro da cidade. 

As zonas do Rangel, São Paulo e Hoji-Ya-Henda são exemplos vivos e evidentes da permanência da prática do comércio no casco urbano, nas mesmas condições que levaram à extinção da Macambira, tratados, entretanto, de forma diferente.  

Tendo em conta o tempo de abandono do espaço, o perigo que acarreta para o bairro e a sua localização geográfica, muitos moradores da Vila Alice sugerem a construção, por exemplo, de uma unidade hospitalar e instituições de ensino médio e superior no local. 

Outros defendem a construção de infra-estruturas como complexo residencial na vertical (edifícios), centro gimno-desportivo ou Vila Olímpica, centro de formação profissional ou um supermercado, como, de resto, já foi intenção de um grupo empresarial privado. 

De acordo com a moradora Patrícia António, seria bom o regresso dos armazéns grossistas e retalhistas nesse espaço “abandonado”, de forma mais organizada, para que os cidadãos deixem de percorrer longas distâncias para adquirirem bens de primeira necessidade. 

Quem também partilha desta opinião é a vendedora Rosa Gomes, que labuta há 15 anos na zona circunvizinha, para quem se impõe a edificação de um mercado no local, a fim de reduzir a venda ambulante e acabar com a lixeira, os mosquitos e as moscas na localidade. 

Especialistas apontam caminho 

Segundo especialistas, os antigos espaços comerciais/industriais da capital do país são de extrema importância para o tecido económico e social, facto que exige políticas governamentais capazes de tirar o melhor proveito destes agora “passivos” do Estado. 

Na opinião do economista José Lumbo, no contexto actual, é necessário que se faça um estudo de mercado profundo, antes de se iniciar a construção de qualquer infra-estrutura, pensando-se, primeiramente, na organização desta e no acesso à mesma. 

Conforme a fonte, a reactivação de espaços como a Macambira pode trazer valor acrescentado ao tecido económico de Luanda, em particular, e de Angola, em geral, mas só quando o exercício da actividade económica for feito de forma legal e bem fiscalizado. 

Segundo José Lumbo, a construção de novas infra-estruturas comerciais nos antigos espaços mercantis permitirá, também, aumentar os níveis de produção de bens de capital, através da indústria transformadora, além de fomentar o empreendedorismo. 

Para o também especialista em Mercado de Capitais e Finanças Públicas, o surgimento de infra-estruturas comerciais nesses espaços contribuirá para a criação de novos postos de trabalho, bem como para o aumento de arrecadação de receitas públicas. 

“Para aumentar os níveis de arrecadação de receitas, o Estado deve criar condições técnicas para os comerciantes e consumidores, a fim de se evitar erros do passado”, refere, chamando atenção para o respeito pelo desejo dos jovens da zona da Macambira. 

Por isso, o economista defende a necessidade de os comerciantes e do Governo trabalharem juntos, traçando políticas comerciais que protejam a indústria doméstica, com vista a reduzir o déficit comercial e criar um superávit. 

Entende, entretanto, que, com o reaproveitamento dos antigos espaços, o cenário comercial já não será como o de antigamente, tendo em conta o contexto macroeconómico actual, marcado, fundamentalmente, pelo baixo poder de compra dos consumidores. 

Contextualização e arquitectura   

Quem também reconhece a relevância dos antigos espaços comerciais de Luanda na economia nacional é o economista Délsio Ferreira, que considera nefasta a ausência de infra-estruturas adequadas nestes terrenos, conformada aos novos padrões arquitectónicos. 

Para o perito em economia e gestão empresarial, é imprescindível ter-se infra-estruturas eficientes em funcionamento nesses espaços comerciais, tendo em conta a crise económica que o país enfrenta, desde 2014, agravada pela pandemia da Covid-19. 

Segundo o também membro da Ordem dos Economistas de Portugal, país onde reside, quanto maior for o número de infra-estruturas, maior será a facilidade de criação de emprego e o consequente crescimento económico do país. 

Afirma que o aproveitamento eficiente destes espaços pode ser um factor facilitador para combater as possíveis convulsões sociais (aumento do descontentamento, da criminalidade, da pobreza e crescimento da economia informal, entre outros males). 

Na sua opinião, os projectos de criação ou manutenção de qualquer infra-estrutura dentro e fora do casco urbano devem centrar-se no impacto ambiental, financeiro, social e económico, visando obter resultados positivos que beneficiam as comunidades locais. 

“Após uma profunda e detalhada avaliação, os espaços em desuso devem ser aproveitados para a construção de infra-estruturas que melhor se conformem   à realidade local e respondam às necessidades ambientais, sociais e económicas dos cidadãos”, aconselha. 

Délsio Ferreira sugere, em específico, a construção de centros comerciais nesses sítios abandonados de Luanda, incluindo grandes superfícies, para a criação de mais postos de trabalho, produção de bens e serviços e aumento da receita fiscal. 

Além da antiga Macambira, existem por toda a província de Luanda, vários outros espaços na mesma condição, que se vão degradando durantes anos, aos olhos de todos, sem uma intervenção definitiva dos proprietários.   

É o caso das feiras Popular e Ngoma, dos históricos mercados do Roque Santeiro, da Estalagem e do Kinaxixi, importantes estabelecimentos e/ou espaços de Luanda que jogaram papel importante na vida dos citadinos, tirados de cena de forma inesperada. 

Diante do actual cenário económico do país, há quem diga que as chances de requalificação desses espaços são ínfimas, pelo menos por agora, embora seja por demais evidente que os terrenos em causa precisam, urgentemente, de novos projectos requalificação. 

No caso do terreno da antiga Macambira, o desfecho ainda é desconhecido. Volvidos oito anos, quase ninguém sabe o que o Estado se propõe erguer naquele espaço público, deixando, entre os moradores da área, um clima de ansiedade e preocupação, ante o aumento da criminalidade. 

Por Quinito Bumba 

Localizado no bairro Nelito Soares/Vila Alice (distrito urbano do Rangel), município de Luanda, o espaço, com  20 mil metros quadrados, detinha um conglomerado de pelo menos 50 armazéns, todos derrubados pelo Governo, em Agosto de 2013. 

À época dos factos, o então Ministério do Comércio justificou que a extinção dos armazéns, dois dos quais alvos de incêndio de grande proporção, em Fevereiro de 2010, visava, essencialmente, melhorar a organização da actividade comercial na capital do país. 

Segundo as autoridades de então, pretendia-se, igualmente, eliminar os constrangimentos no trânsito automóvel, acabar com os focos de lixo e reduzir o índice de delinquência que se fazia sentir na zona da FIB, onde se confeccionava tecidos, roupas e calçados. 

Após o desalojamento coercivo dos “inquilinos”, que comercializavam diversos produtos na antiga Macambira, o primeiro objectivo (melhoria do trânsito) foi alcançado. Entretanto, contra todas as expectativas, a segunda meta (diminuição dos assaltos) caiu por terra. 

De acordo com moradores e comerciantes da Vila Alice, de 2013 até à presente data, a delinquência intensificou-se, principalmente a partir das 18 horas, em consequência do capim, do lixo e das sucatas que fazem morada no antigo "centro comercial". 

Acrescenta-se a isso a existência de caves no recinto, onde os assaltantes se escondem para consumir estupefacientes, mesmo à luz do dia, conforme constatou a equipa da Angop. 

Como se não bastasse, o agora espaço baldio é utilizado, de noite, para a prática de prostituição, muitas vezes materializada no interior de viaturas, além de violações sexuais a transeuntes. Há, inclusive, relatos de mortes no local, nesse período do dia.  

Contíguas à ex-fábrica estão, actualmente, apenas uma agência de gás da Sonangol, uma oficina alegadamente propriedade do Ministério da Defesa e uma loja pertencente ao grupo Agro Santos a comercializar mobiliários, as poucas que escaparam das demolições. 

O espaço é ocupado por vendedoras eventuais que comercializam diversos produtos no seu interior, durante a semana. Aos finais de semana, é usado como campo de futebol.  

Testemunho de frequentadores do espaço 

Nos dias de hoje, mesmo descaracterizado, o descampado quintalão serve de “amparo” para dementes e meninos de rua, bem como para o estacionamento de comerciantes, que garantem ali, esporadicamente, o sustento familiar, enquanto se aguarda pela requalificação. 

Vanilda Pinto é uma das vendedoras e moradoras que, há 15 anos, comercializam botijas de gás e seus acessórios (redutor e mangueira) nas ruas Eugénio de Castro e Senado da Câmara, perímetros adjacentes à antiga infra-estrutura da Macambira. 

Segundo a vendedeira, que justificou a sua permanência no local pela força do hábito e fidelização dos seus clientes, a Macambira transformou-se em depósito de lixo/entulho e esconderijo de bandidos, com os quais já não se consegue ter sossego. 

“Desde que foram retirados os armazéns, a bandidagem aumentou. Nós não conseguimos ficar com dinheiro no local de venda, nem vender de forma tranquila, porque a qualquer momento podemos ser surpreendidas pelos assaltantes”, denuncia. 

A cidadã detalha que, além de levarem dinheiro, os mesmos apoderam-se dos seus bens e chegam, nalguns casos, a violar meninas que vão ou saem da escola. 

Lembra que, por falta de policiamento na área, uma colega já acabou rendida com arma de fogo, pelos marginais, que lhe receberam o redutor e a mangueira da botija de gás. 

Rosa Gonçalves, também vendedora nos arredores da Macambira, há 10 anos, relata que, em 2019, testemunhou a violação e agressão de um casal que circulava naquela zona, cujo destino foi a morte, numa das unidades hospitalares de Luanda. 

“Os meliantes, quando olham as vendedoras com as pastas nas mãos, pensam que temos muito dinheiro, invadem e levam tudo”, lamenta a cidadã, apelando para o destacamento permanente de efectivos da Polícia, enquanto o espaço continuar “abandonado”. 

Além dos meliantes, as vendedoras queixam-se do facto de alguns agentes da Polícia Nacional receberem frequentemente os seus negócios e, muitas vezes, levarem os próprios comerciantes à esquadra, por alegadamente venderem em passeios ou locais impróprios. 

Moradores exigem infra-estruturas sociais 

De Agosto de 2013 a Junho de 2021, a Macambira sucumbiu no tempo, ficando apenas o nome, alguns destroços resultantes das demolições e a história de uma das indústrias de referência de Luanda, do período pré-independência até à década de 1990. 

Até ao momento, as autoridades competentes ainda “não se pronunciaram sobre a infra-estrutura que será erguida naquele espaço comercial”, criando várias especulações nas comunidades que muito se beneficiaram da então Fábrica Imperial de Borracha. 

A esse respeito, a Angop tentou contactar, sem sucesso, os possíveis gestores e responsáveis do terreno da Macambira, que, em 2005, depois de um período de funcionamento a meio gás, se tornou num “Centro Logístico e Comercial”. 

Após a demolição dos armazéns, orientada na altura, alegadamente, pelo Ministério do Comércio, o terreno foi posto à disposição da Comissão Administrativa da Cidade de Luanda, que, até ao momento, pouco ou nada fez para a valorização do espaço. 

O abandono do terreno pode indiciar que o processo de reorganização da actividade comercial em zonas urbanas ou residenciais ficou sem “pernas para andar”, pelo que se vê ainda muitos armazéns grossistas e retalhistas a comercializarem no centro da cidade. 

As zonas do Rangel, São Paulo e Hoji-Ya-Henda são exemplos vivos e evidentes da permanência da prática do comércio no casco urbano, nas mesmas condições que levaram à extinção da Macambira, tratados, entretanto, de forma diferente.  

Tendo em conta o tempo de abandono do espaço, o perigo que acarreta para o bairro e a sua localização geográfica, muitos moradores da Vila Alice sugerem a construção, por exemplo, de uma unidade hospitalar e instituições de ensino médio e superior no local. 

Outros defendem a construção de infra-estruturas como complexo residencial na vertical (edifícios), centro gimno-desportivo ou Vila Olímpica, centro de formação profissional ou um supermercado, como, de resto, já foi intenção de um grupo empresarial privado. 

De acordo com a moradora Patrícia António, seria bom o regresso dos armazéns grossistas e retalhistas nesse espaço “abandonado”, de forma mais organizada, para que os cidadãos deixem de percorrer longas distâncias para adquirirem bens de primeira necessidade. 

Quem também partilha desta opinião é a vendedora Rosa Gomes, que labuta há 15 anos na zona circunvizinha, para quem se impõe a edificação de um mercado no local, a fim de reduzir a venda ambulante e acabar com a lixeira, os mosquitos e as moscas na localidade. 

Especialistas apontam caminho 

Segundo especialistas, os antigos espaços comerciais/industriais da capital do país são de extrema importância para o tecido económico e social, facto que exige políticas governamentais capazes de tirar o melhor proveito destes agora “passivos” do Estado. 

Na opinião do economista José Lumbo, no contexto actual, é necessário que se faça um estudo de mercado profundo, antes de se iniciar a construção de qualquer infra-estrutura, pensando-se, primeiramente, na organização desta e no acesso à mesma. 

Conforme a fonte, a reactivação de espaços como a Macambira pode trazer valor acrescentado ao tecido económico de Luanda, em particular, e de Angola, em geral, mas só quando o exercício da actividade económica for feito de forma legal e bem fiscalizado. 

Segundo José Lumbo, a construção de novas infra-estruturas comerciais nos antigos espaços mercantis permitirá, também, aumentar os níveis de produção de bens de capital, através da indústria transformadora, além de fomentar o empreendedorismo. 

Para o também especialista em Mercado de Capitais e Finanças Públicas, o surgimento de infra-estruturas comerciais nesses espaços contribuirá para a criação de novos postos de trabalho, bem como para o aumento de arrecadação de receitas públicas. 

“Para aumentar os níveis de arrecadação de receitas, o Estado deve criar condições técnicas para os comerciantes e consumidores, a fim de se evitar erros do passado”, refere, chamando atenção para o respeito pelo desejo dos jovens da zona da Macambira. 

Por isso, o economista defende a necessidade de os comerciantes e do Governo trabalharem juntos, traçando políticas comerciais que protejam a indústria doméstica, com vista a reduzir o déficit comercial e criar um superávit. 

Entende, entretanto, que, com o reaproveitamento dos antigos espaços, o cenário comercial já não será como o de antigamente, tendo em conta o contexto macroeconómico actual, marcado, fundamentalmente, pelo baixo poder de compra dos consumidores. 

Contextualização e arquitectura   

Quem também reconhece a relevância dos antigos espaços comerciais de Luanda na economia nacional é o economista Délsio Ferreira, que considera nefasta a ausência de infra-estruturas adequadas nestes terrenos, conformada aos novos padrões arquitectónicos. 

Para o perito em economia e gestão empresarial, é imprescindível ter-se infra-estruturas eficientes em funcionamento nesses espaços comerciais, tendo em conta a crise económica que o país enfrenta, desde 2014, agravada pela pandemia da Covid-19. 

Segundo o também membro da Ordem dos Economistas de Portugal, país onde reside, quanto maior for o número de infra-estruturas, maior será a facilidade de criação de emprego e o consequente crescimento económico do país. 

Afirma que o aproveitamento eficiente destes espaços pode ser um factor facilitador para combater as possíveis convulsões sociais (aumento do descontentamento, da criminalidade, da pobreza e crescimento da economia informal, entre outros males). 

Na sua opinião, os projectos de criação ou manutenção de qualquer infra-estrutura dentro e fora do casco urbano devem centrar-se no impacto ambiental, financeiro, social e económico, visando obter resultados positivos que beneficiam as comunidades locais. 

“Após uma profunda e detalhada avaliação, os espaços em desuso devem ser aproveitados para a construção de infra-estruturas que melhor se conformem   à realidade local e respondam às necessidades ambientais, sociais e económicas dos cidadãos”, aconselha. 

Délsio Ferreira sugere, em específico, a construção de centros comerciais nesses sítios abandonados de Luanda, incluindo grandes superfícies, para a criação de mais postos de trabalho, produção de bens e serviços e aumento da receita fiscal. 

Além da antiga Macambira, existem por toda a província de Luanda, vários outros espaços na mesma condição, que se vão degradando durantes anos, aos olhos de todos, sem uma intervenção definitiva dos proprietários.   

É o caso das feiras Popular e Ngoma, dos históricos mercados do Roque Santeiro, da Estalagem e do Kinaxixi, importantes estabelecimentos e/ou espaços de Luanda que jogaram papel importante na vida dos citadinos, tirados de cena de forma inesperada. 

Diante do actual cenário económico do país, há quem diga que as chances de requalificação desses espaços são ínfimas, pelo menos por agora, embora seja por demais evidente que os terrenos em causa precisam, urgentemente, de novos projectos requalificação. 

No caso do terreno da antiga Macambira, o desfecho ainda é desconhecido. Volvidos oito anos, quase ninguém sabe o que o Estado se propõe erguer naquele espaço público, deixando, entre os moradores da área, um clima de ansiedade e preocupação, ante o aumento da criminalidade.