Monumento à Paz - símbolo da concórdia- em desgaste

  • Monumento a Paz  Cidade do Luene  Província do Moxico
Luena – Há nove anos, o Estado angolano decidiu-se a “coroar” o fim do conflito armado com a construção do Monumento à Paz, uma estrutura arquitectónica intemporal e um dos pontos emblemáticos da cidade do Luena (Moxico).

Por Teotónio Tchilambavo

Volvido este tempo, apesar da importância do monumento para a história do país, a infra-estrutura apresenta sinais de degradação, com risco de, num futuro muito próximo, transformar-se em ruína, porque, desde a sua inauguração, ainda não beneficiou de manutenção.

Esta imponente obra, erguida no Centro-Leste da cidade do Luena, dentro do mítico zoológico ‘Jardim Lenine’, esteve sob responsabilidade dos ministérios da Construção, da então Cultura e do Governo da Província do Moxico.

Se o Jardim Lenine já era fascinante, a construção, no local, de um monumento que apresenta uma pomba branca apoiada sobre dois braços e a inscrição, na base, da palavra paz valorizaram mais essa área turística, visitada, até então, em média anual por 12 mil pessoas.

Infelizmente, a “estátua da paz” carece de remodelação, com destaque para a “pomba e os braços” que a suportam. Perderam o brilho, face à intensidade do sol e da chuva predominantes na região.

A estrutura na qual funciona a área administrativa, como a sala de conferências e a biblioteca, apresenta fissuras nas partes interna e externa, verificando-se sinais de infiltração de água, situação que está a provocar o desmoronamento “silencioso” do edifício.

A zona verde, que oferecia uma paisagem emblemática aos visitantes, inspirando a cultura de preservação do meio ambiente e de leitura, está a ser “invadida” por capim.

O maior símbolo da paz do país já sofreu, diversas vezes, roubos de computadores, destruição de candeeiros, bancos dos jardins e outros meios, informa o director do complexo, Raimundo Matchai.

Monumento aguarda por autonomia há três anos

Segundo Raimundo Matchai, o complexo da paz foi projectado com a categoria de Instituto Nacional, com autonomia administrativa e financeira. Entretanto, passados estes anos, a infra-estrutura nunca “gozou” desse estatuto, estando impossibilitada de funcionar como concebida.

A proposta do estatuto orgânico, que define o modelo de funcionamento, deu entrada em 2018 no Ministério da Administração do Território (MAT), mas, até ao momento, as autoridades locais ainda não receberam qualquer resposta.

O complexo está desprovido de recursos financeiros para a sua manutenção e garantia do funcionamento dos serviços mínimos.

Consta do regulamento interno a cobrança de uma taxa para o uso da biblioteca e arrendamento da sala de conferências, que tem capacidade para albergar mais de 80 pessoas.

Apesar desta dinâmica, o problema financeiro está longe de ser resolvido, em virtude do baixo índice de procura e do valor de 100 Kz cobrado a cada visitante, cujo número diário não passa de 15.

A sala de conferências tem albergado actividades governamentais, o que diminui a possibilidade de arrecadação de receitas, uma vez que as suas direcções pouco ou nada pagam.

“Devido à pouca atenção que esta infra-estrutura tem merecido, posso afirmar que estamos perante um monstro adormecido”, lamenta o responsável.

ENDE “tira” paz ao monumento

O Monumento à Paz deixou de beneficiar de energia da rede pública, devido a uma dívida acima de 13 milhões Kz que tem, há anos, com a Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE), o que ultrapassa a capacidade financeira do complexo.

Perante este cenário, a alternativa tem sido a utilização de um gerador do complexo, mas que é dispendioso, face à quantidade de combustível e à manutenção.

Até fotógrafos perderam “emprego”

O complexo é o local escolhido por muitos que desejam fazer fotografias em espaços abertos, de modo a constituírem um ‘acervo’ de recordações.

Para o fotógrafo António Francisco, que está há mais de 20 anos nessa profissão, dos quais 12 na praça do Monumento à Paz, quando era só Jardim Lenine, o espaço era bastante concorrido, devido à beleza que oferecia aos visitantes.

Nos primeiros anos da edificação da infra-estrutura, diz, em média conseguia fotografar 25 clientes por dia, número que actualmente baixou para cinco.

António aponta o progressivo estado de degradação do complexo como uma das razões que afugentam os clientes, argumento corroborado por José Dinis, igualmente fotógrafo.

“Por exemplo, o repuxo deixou de jorrar água, os bancos progressivamente vão partindo-se, sem merecer uma substituição”, lamentam os profissionais.

Solvabilidade só com quotas

A forte aposta no marketing para a promoção da imagem da infra-estrutura, com vista à atracção de maior número de visitantes nacionais e estrangeiros, é uma das medidas adoptadas para a revitalização do espaço.

Esta ideia é defendida por Manuela Bango, especialista em Hotelaria e Turismo, que sugere a aplicação de uma quota que varia entre 200 e 500 Kz por cada visitante, com o intuito de se dar início ao processo de auto-sustentabilidade do complexo.

Uma das vias para se atingir este desiderato, conforme a especialista, passa pela gestão privada do espaço e aposta na especialização dos funcionários, bem como na divulgação da imagem e das potencialidades do complexo.

Apela para a necessidade da preservação deste símbolo nacional, bem como dos da cultura local, para serem transformados em fontes de receita.

O Monumento à Paz

O principal ponto de atracção dos visitantes do complexo é a “Estátua da Paz”, uma construção arquitectónica com cerca de 30 metros de altura, esculpida em bronze.

A curiosidade da maioria dos visitantes prende-se com o facto de ser o monumento que simboliza o sacrifício dos angolanos, após vários anos de guerra, e os valores que representa a paz para o bem-estar de cada cidadão, segundo o fotógrafo António Francisco, que “dispara” flashes há 20 anos, 12 dos quais no Monumento à Paz.

Na verdade, foi nesta parcela do território nacional que, a 30 de Março de 2002, foi assinado o conhecido “Memorando de Entendimento do Luena”, que marcou o fim do conflito armado entre a UNITA, enquanto organização político-militar, e o Governo angolano.

Para se eternizar este acontecimento, foi edificado, na cidade do Luena, um complexo turístico denominado “Monumento à Paz”, numa área de mais de mil metros quadrados.

O complexo foi inaugurado há nove anos (4 de Abril de 2012) pelo então Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

A infra-estrutura foi projectada para ser um Centro de Estudos e Produção Bibliográfica de todo o processo que determinou a conquista da paz em Angola, mas nunca chegou a funcionar, de acordo com o seu propósito, por falta de condições humanas e de logística.

O director do complexo, Raimundo Matchai, declara à ANGOP que apenas 20 por cento da capacidade do imóvel está a ser explorada.

Naquele espaço, funciona a área de restauração, biblioteca com mais de seis mil exemplares, sala de exposição de peças arqueológicas, quadra desportiva e internet da rede Angola-Online, com um raio de 30 metros de alcance.

Na sala de exposição, logo à entrada, o visitante depara-se com quadros informativos, com destaque para os discursos políticos que marcaram a sessão de assinatura do Memorando à Paz, proferido pelos generais Geraldo Satchipengo “Nunda”, em representação do Governo angolano, e Abreu Mwengo “Kamorteiro”, da UNITA.

“Demos ao mundo uma prova de maturidade. Este é, para nós, o momento de grande regozijo, porque acabámos de testemunhar um acto de extraordinária importância para o futuro do nosso país”, pode ler-se.

“Cabe-nos, daqui por diante, honrarmos os compromissos assumidos, materializando-os com o mesmo espírito, zelo e sentido de responsabilidade que presidiram às discussões que mantivemos em cerca de 15 dias nesta cidade do Luena”, acrescenta o extracto do discurso, acompanhado de uma imagem do general Nunda.

Em paralelo, vê-se a imagem do general Kamorteiro e parte do seu discurso, em representação da delegação da UNITA.

“Que a Pátria não nos desmereça, assumo sob mandato expresso da Comissão de Gestão da UNITA, que é a sua estância de direcção política actual, a responsabilidade de pousar a minha assinatura sobre este documento, na profunda convicção de que a sua efectivação prática trará a paz definitiva para o nosso belo e martirizado país: Angola”

Na sala, encontram-se fotografias dos primeiros Presidentes de Angola e de Cuba, respectivamente Agostinho Neto e Fidel de Castro, no Comissariado Provincial de Luanda, na primeira e única visita efectuada em Março de 1977, bem como o encontro do estadista angolano, na altura, com Mobutu Sese Seko, na normalização das relações com Congo Kinshasa em 1978, na capital do país (Luanda).

Estes e outros factores fazem daquele espaço um lugar convidativo para receber um número considerável de visitantes. Porém, tudo isso pode ser interrompido caso o actual estágio de degradação progrida.

 

Por Teotónio Tchilambavo

Volvido este tempo, apesar da importância do monumento para a história do país, a infra-estrutura apresenta sinais de degradação, com risco de, num futuro muito próximo, transformar-se em ruína, porque, desde a sua inauguração, ainda não beneficiou de manutenção.

Esta imponente obra, erguida no Centro-Leste da cidade do Luena, dentro do mítico zoológico ‘Jardim Lenine’, esteve sob responsabilidade dos ministérios da Construção, da então Cultura e do Governo da Província do Moxico.

Se o Jardim Lenine já era fascinante, a construção, no local, de um monumento que apresenta uma pomba branca apoiada sobre dois braços e a inscrição, na base, da palavra paz valorizaram mais essa área turística, visitada, até então, em média anual por 12 mil pessoas.

Infelizmente, a “estátua da paz” carece de remodelação, com destaque para a “pomba e os braços” que a suportam. Perderam o brilho, face à intensidade do sol e da chuva predominantes na região.

A estrutura na qual funciona a área administrativa, como a sala de conferências e a biblioteca, apresenta fissuras nas partes interna e externa, verificando-se sinais de infiltração de água, situação que está a provocar o desmoronamento “silencioso” do edifício.

A zona verde, que oferecia uma paisagem emblemática aos visitantes, inspirando a cultura de preservação do meio ambiente e de leitura, está a ser “invadida” por capim.

O maior símbolo da paz do país já sofreu, diversas vezes, roubos de computadores, destruição de candeeiros, bancos dos jardins e outros meios, informa o director do complexo, Raimundo Matchai.

Monumento aguarda por autonomia há três anos

Segundo Raimundo Matchai, o complexo da paz foi projectado com a categoria de Instituto Nacional, com autonomia administrativa e financeira. Entretanto, passados estes anos, a infra-estrutura nunca “gozou” desse estatuto, estando impossibilitada de funcionar como concebida.

A proposta do estatuto orgânico, que define o modelo de funcionamento, deu entrada em 2018 no Ministério da Administração do Território (MAT), mas, até ao momento, as autoridades locais ainda não receberam qualquer resposta.

O complexo está desprovido de recursos financeiros para a sua manutenção e garantia do funcionamento dos serviços mínimos.

Consta do regulamento interno a cobrança de uma taxa para o uso da biblioteca e arrendamento da sala de conferências, que tem capacidade para albergar mais de 80 pessoas.

Apesar desta dinâmica, o problema financeiro está longe de ser resolvido, em virtude do baixo índice de procura e do valor de 100 Kz cobrado a cada visitante, cujo número diário não passa de 15.

A sala de conferências tem albergado actividades governamentais, o que diminui a possibilidade de arrecadação de receitas, uma vez que as suas direcções pouco ou nada pagam.

“Devido à pouca atenção que esta infra-estrutura tem merecido, posso afirmar que estamos perante um monstro adormecido”, lamenta o responsável.

ENDE “tira” paz ao monumento

O Monumento à Paz deixou de beneficiar de energia da rede pública, devido a uma dívida acima de 13 milhões Kz que tem, há anos, com a Empresa Nacional de Distribuição de Electricidade (ENDE), o que ultrapassa a capacidade financeira do complexo.

Perante este cenário, a alternativa tem sido a utilização de um gerador do complexo, mas que é dispendioso, face à quantidade de combustível e à manutenção.

Até fotógrafos perderam “emprego”

O complexo é o local escolhido por muitos que desejam fazer fotografias em espaços abertos, de modo a constituírem um ‘acervo’ de recordações.

Para o fotógrafo António Francisco, que está há mais de 20 anos nessa profissão, dos quais 12 na praça do Monumento à Paz, quando era só Jardim Lenine, o espaço era bastante concorrido, devido à beleza que oferecia aos visitantes.

Nos primeiros anos da edificação da infra-estrutura, diz, em média conseguia fotografar 25 clientes por dia, número que actualmente baixou para cinco.

António aponta o progressivo estado de degradação do complexo como uma das razões que afugentam os clientes, argumento corroborado por José Dinis, igualmente fotógrafo.

“Por exemplo, o repuxo deixou de jorrar água, os bancos progressivamente vão partindo-se, sem merecer uma substituição”, lamentam os profissionais.

Solvabilidade só com quotas

A forte aposta no marketing para a promoção da imagem da infra-estrutura, com vista à atracção de maior número de visitantes nacionais e estrangeiros, é uma das medidas adoptadas para a revitalização do espaço.

Esta ideia é defendida por Manuela Bango, especialista em Hotelaria e Turismo, que sugere a aplicação de uma quota que varia entre 200 e 500 Kz por cada visitante, com o intuito de se dar início ao processo de auto-sustentabilidade do complexo.

Uma das vias para se atingir este desiderato, conforme a especialista, passa pela gestão privada do espaço e aposta na especialização dos funcionários, bem como na divulgação da imagem e das potencialidades do complexo.

Apela para a necessidade da preservação deste símbolo nacional, bem como dos da cultura local, para serem transformados em fontes de receita.

O Monumento à Paz

O principal ponto de atracção dos visitantes do complexo é a “Estátua da Paz”, uma construção arquitectónica com cerca de 30 metros de altura, esculpida em bronze.

A curiosidade da maioria dos visitantes prende-se com o facto de ser o monumento que simboliza o sacrifício dos angolanos, após vários anos de guerra, e os valores que representa a paz para o bem-estar de cada cidadão, segundo o fotógrafo António Francisco, que “dispara” flashes há 20 anos, 12 dos quais no Monumento à Paz.

Na verdade, foi nesta parcela do território nacional que, a 30 de Março de 2002, foi assinado o conhecido “Memorando de Entendimento do Luena”, que marcou o fim do conflito armado entre a UNITA, enquanto organização político-militar, e o Governo angolano.

Para se eternizar este acontecimento, foi edificado, na cidade do Luena, um complexo turístico denominado “Monumento à Paz”, numa área de mais de mil metros quadrados.

O complexo foi inaugurado há nove anos (4 de Abril de 2012) pelo então Presidente da República, José Eduardo dos Santos.

A infra-estrutura foi projectada para ser um Centro de Estudos e Produção Bibliográfica de todo o processo que determinou a conquista da paz em Angola, mas nunca chegou a funcionar, de acordo com o seu propósito, por falta de condições humanas e de logística.

O director do complexo, Raimundo Matchai, declara à ANGOP que apenas 20 por cento da capacidade do imóvel está a ser explorada.

Naquele espaço, funciona a área de restauração, biblioteca com mais de seis mil exemplares, sala de exposição de peças arqueológicas, quadra desportiva e internet da rede Angola-Online, com um raio de 30 metros de alcance.

Na sala de exposição, logo à entrada, o visitante depara-se com quadros informativos, com destaque para os discursos políticos que marcaram a sessão de assinatura do Memorando à Paz, proferido pelos generais Geraldo Satchipengo “Nunda”, em representação do Governo angolano, e Abreu Mwengo “Kamorteiro”, da UNITA.

“Demos ao mundo uma prova de maturidade. Este é, para nós, o momento de grande regozijo, porque acabámos de testemunhar um acto de extraordinária importância para o futuro do nosso país”, pode ler-se.

“Cabe-nos, daqui por diante, honrarmos os compromissos assumidos, materializando-os com o mesmo espírito, zelo e sentido de responsabilidade que presidiram às discussões que mantivemos em cerca de 15 dias nesta cidade do Luena”, acrescenta o extracto do discurso, acompanhado de uma imagem do general Nunda.

Em paralelo, vê-se a imagem do general Kamorteiro e parte do seu discurso, em representação da delegação da UNITA.

“Que a Pátria não nos desmereça, assumo sob mandato expresso da Comissão de Gestão da UNITA, que é a sua estância de direcção política actual, a responsabilidade de pousar a minha assinatura sobre este documento, na profunda convicção de que a sua efectivação prática trará a paz definitiva para o nosso belo e martirizado país: Angola”

Na sala, encontram-se fotografias dos primeiros Presidentes de Angola e de Cuba, respectivamente Agostinho Neto e Fidel de Castro, no Comissariado Provincial de Luanda, na primeira e única visita efectuada em Março de 1977, bem como o encontro do estadista angolano, na altura, com Mobutu Sese Seko, na normalização das relações com Congo Kinshasa em 1978, na capital do país (Luanda).

Estes e outros factores fazem daquele espaço um lugar convidativo para receber um número considerável de visitantes. Porém, tudo isso pode ser interrompido caso o actual estágio de degradação progrida.