Ngola Ritmos os Heróis do Povo

  • Nacionalista Amadeu Amorim
Luanda - No poema “Içar da Bandeira”, de 1960, Agostinho Neto, o primeiro Presidente de Angola, já reconhecia a necessidade de se valorizar os integrantes do agrupamento musical Ngola Ritmos como “heróis do Povo Angolano”.

Por Stella Silveira

Esta questão, levantada pelo nacionalista Amadeu Amorim no decorrer de mais uma Conversa à quinta-feira, da Academia Angolana de Letras, realizada por vídeo-conferência, apimenta o debate “O Ngola Ritmos no contexto de acções da clandestinidade”. Na sua intervenção, aponta as razões pelas quais deviam passar de “obreiros da luta pela independência, para o quadro de heróis do Povo angolano”, como defende o poeta maior.

Ao fazer uma breve introdução do tema, o escritor Fragata de Morais, moderador do encontro, recorda que o grupo tinha como objectivo preservar a cultura angolana e afirmar a identidade nacional, como reacção natural à imposição colonial, que rejeitava todas as manifestações culturais nativas.

O moderador convida renomados académicos e investigadores de Angola, Brasil e Portugal, a visitarem a história do lendário grupo, intrinsecamente ligada à do nacionalismo angolano, pela voz do último integrante vivo do Ngola Ritmos.

Amadeu Amorim conta, durante pouco menos de uma hora, a história do grupo que nasceu no Bairro Operário, em 1947, por iniciativa de Liceu Vieira Dias, Nino Ndongo e Mário Araújo, alimentados pelas ideologias de intelectuais pan-africanistas como Leopold Senghor, Kwame Nkrumah e Sekou Touré.

Em 1950, o grupo chama Amadeu Amorim no bumbu, Zé Maria dos Santos a executar o solo e posteriormente Euclides Fontes Pereira na dicanza. Vieram também Belita Palma e Lourdes Van Dúnem.

Recorda que o Ngola Ritmos criou com mestria e transportou para a cidade as canções do folclore angolano, tocadas ao piano, violão e dicanza, dando-lhes um compasso de dança e canto, fazendo uma verdadeira homenagem à cultura angolana como parte activa no processo revolucionário que conduziu Angola à independência.

Assim nasceu o Semba

A dicanza de Fontinhas, até aqui um instrumento da Rebita, entra pela mão dos Ngola Ritmos na nova música, um primeiro cartão daquilo que se viria a chamar Semba, utilizando a canção como arma política.

O Semba consiste numa mistura de vários ritmos antigos como Cidrália, Kabocomeu, Kabetula e outros e as canções eram retiradas do folclore nacional, dançadas em roda e com ritmo. O grupo fazia um arranjo, introduzia novas letras, algumas delas com conteúdo político, sempre com mensagem sobre a angolanidade.

Assim nasce “Muxima”, “Mbiri Mbiri”, “Makésú”, quase todas cantadas em  kimbundo (língua falada nas regiões de Luanda, Bengo, Malanje e Cuanza Norte) e com génese na vida dos musseques, visando elevar a cultura dos antepassados e  estabelecer uma relação entre os musseques e a cidade.

A obra do Mestre Liceu

Para Amadeu Amorim, existe um ponto por esclarecer sobre o grupo e das várias polémicas que se levantam à volta da autoria de maior parte das canções do Ngola Ritmos; nenhuma das canções é de Liceu Vieira Dias.

“Liceu era o mestre, cuidava dos arranjos e das afinações das canções, mas não compôs nenhuma das músicas do Ngola Ritmos. Estas pertencem ao folclore nacional”, revela.

A título de exemplo, lembra que “Muxima” foi levada ao grupo por Antoninho Van Dunem, que teve passagem pelo Ngola Ritmos, que a melhorou e deu o cunho que hoje transporta, com todo o seu simbolismo.

Na conversa, acompanhada pelos académicos Paulo de Carvalho e Filipe Zau, presidente e vice-presidente da Academia de Letras, carregada de momentos de sublime humildade, Amadeu Amorim desabafa: “gostaria de ter estudado música, para poder passar a obra do Ngola Ritmos para partitura”, ou de ver escrita a história do grupo, “mas, infelizmente, não tenho o dom da escrita”.

Ao longo do evento, o músico passeia sua voz e graça por várias interpretações que se tornaram hinos, com esclarecimentos e o devido enquadramento das suas letras. À cappella (sem instrumental) foi bom ser agraciado com a boa música que recorda os precursores do Semba.

Passea por “Muxima”, “Monami”, “João Domingos”, “Mecené”, canções que ficam no assobio, na boca, na voz e na cabeça do povo que acabou guerrilheiro.

O músico nasce na Ingombota, mas é no Bairro Operário que acaba por crescer, depois de ter perdido o pai. Ele e os irmãos passam a viver apenas do que a mãe, jovem viúva dos anos 40, lhes podia propiciar.

Atlético - Arauto da Angolanidade

Inicialmente, foi no Atlético de Luanda, o clube dos cozinheiros situado na zona dos Coqueiros, que as elites angolanas se juntaram. Aníbal de Melo, André Mingas (pai), Demosthenes de Almeida eram alguns dos frequentadores que se tornaram nomes sonantes do nacionalismo.

“Podemos dizer que o Atlético foi o arauto da angolanidade. Aqui, nos Coqueiros, se reuniam e, nesta zona, nasceu a cidade de Luanda”, mas a medida que os métodos repressivos coloniais se foram agudizando, foi-se afastando do centro.

A mudança não foi radical, os angolanos foram sendo expulsos da baixa paulatinamente; inicialmente, foram para a Ingombota, depois para o Maculusso, Musseque Braga, Viuvinha e foram sendo empurrados até a criação do Bairro Operário.

“A ideia de juntar a elite angolana no B.O. foi o tiro que lhes (autoridades coloniais) saiu pela culatra, pois surgiram aqui os primeiros nacionalistas”, aponta.

Lembra que o B.O. da altura tinha cinemas, ruas asfaltadas, machimbombos (autocarros), hospital, salões de baile e outras condições que outros musseques não tinham, o que trazia para o bairro pessoas de outras zonas, e, portanto, conseguia juntar e fazer os grandes nacionalistas.

“Começamos por actuar para amigos, aniversários e festas, poucas vezes em espectáculos; depois já tínhamos muita gente a assistir aos nossos ensaios; recebemos vários apoios de figuras como Gabriel Leitão, Domingos Van Dunem, Vasco Sopas, e outros nomes que já não me recordo, todos funcionários que contribuíam para que nos juntássemos a falar e cantar a angolanidade. O Ngola Ritmos vinha dizer: Não à colonização portuguesa!

Neste ambiente foi muito fácil passar à acção.

Os Panfletos

Como não tinham acesso a rádios, nem a jornais, para fazer passar a sua mensagem, e como os africanos têm jeito para a música, os panfletos e a canções passam a ser a base de consciencialização e esperança para a independência.

Estes abordavam os problemas do quotidiano como o pagamento de impostos e outras situações que traziam ao de cima a noção de Pátria. E algum tempo depois, já se ouvia com frequência, “já leste o último”, em alusão aos folhetos de propaganda.

A história da sua origem está toda envolta em mistério, até hoje, segundo Amadeu Amorim, ninguém sabe quem trouxe para Angola a famosa máquina “Spencer”, com que foram feitos os panfletos das noites de Luanda.

Conta-se, apenas, que foi trazida por “ilustres desconhecidos”, marinheiros, no caso, e que chegou às peças, ao Porto do Lobito, e depois a Luanda pelas mãos de André Franco Sousa, “também, não precisávamos de saber muito mais, já que os que tentaram foram parar à cadeia”, elucida.

“Outra informação que tínhamos sobre o assunto, é que os panfletos eram escritos pela direcção do MIA (movimento nacionalista base de criação do MPLA) e distribuídos à noite; cada um tinha o seu raio de acção; o meu era a Maianga e o morro da Maianga”, recorda.

Amadeu Amorim não se consegue esquecer das torturas infindáveis que sofreram, na cadeia, para dizerem onde estava a famosa máquina, felizmente, ninguém sabia a sua verdadeira localização; a dita mudava sempre de lugar, precisamente, para que não fosse denunciada, nem descoberta.

Processo dos 50

Em 1959, Euclides Fontes Pereira, então funcionário público, é transferido para o Luso, actual Moxico; Liceu, Amadeu e Zé Maria são presos, com outros nacionalistas, acusados de conspiração contra a autoridade colonial, o que ficou na história como o “Processo dos 50”.

Nino Ndongo, o único que não foi preso, chama para o grupo Chodó, José Cordeiro e Gegê e gravam os dois primeiros discos do grupo em Lisboa.

Estilização 

A necessidade de passar a mensagem cantada pelo país, leva o grupo aos salões da baixa de Luanda. A primeira actuação foi no Cine Nacional, escolhido porque transmitia os espectáculos em directo, via rádio, para toda Angola.

Para terem acesso ao público da baixa, passaram a cantar músicas diferentes, fundamentalmente em português e começam com o fado “Margarida vai à fonte”, dando-lhe uma roupagem rítmica angolana.

Estilizaram também uma música do português Luís Piçarra, “O Alentejo da minha Alma”, num espectáculo em que o próprio actuava, acabou não cantando a referida música, depois do show dado pelo Ngola Ritmos.

A partir daí foram convidados para actuar em Moçamedes, Lobito e Huambo, cidades consideradas extremamente racistas, onde até o cemitério tinha zona para pretos e zona para brancos.

Encontro com Amílcar Cabral

Foi no regresso de uma dessas digressos  que se encontraram com o líder histórico guineense Amílcar Cabral.

“Tínhamos uma actuação na Roça da Boa Entrada, no Cuanza Sul, onde tocamos até de manhã. Amílcar Cabral foi convidado a discursar nesse acto, mas recusou-se e foi esperar por nós escondido no mato, já a saída da cidade. Passamos um bom bocado juntos, ensinou-nos até a cantar em crioulo a música - Vestido Branco”, recorda.

Nomes como Mário Pinto de Andrade, Matias Mingueis, e outros não menos importantes como o cubano nacionalizado norte-americano Francisco Xavier Hernandez, o tripulante que era pombo-correio entre Angola e o exterior, foram citados pelo político, que não deixa de recordar António Josias, Mário Van Dunem, Ilídio Machado, António Monteiro, Joaquim Figueiredo e António Pedro Benje, companheiros de cárcere e de exílio.

“Precisamos de dar à clandestinidade o lugar devido e merecido; a estes homens devemos o facto de estarmos hoje independentes”, afirma.

Faz ainda outros importantes apelos: o primeiro aos nossos historiadores, “precisam de reescrever a História (atenção), o nosso tempo está no fim, precisamos que alguém nos oiça”.

O segundo apelo vai para o governo, “precisamos de segurar no Bairro Operário e fazer dele um lugar turístico, precisamos de preservar partes da nossa história, foi ali onde foram forjados os primeiros panfletos contra a autoridade colonial, a casa ainda existe, bem como o lugar onde nasceu o Ngola Ritmos”.

O terceiro aos angolanos, para o resgata da identidade cultural, “a história da quarta-feira das mabangas, a seguir a terça de Carnaval; a velha Falange e o seu sarrabulho de domingo; o campo dos Ambuílas, onde vivemos grandes jogos de domingo. Tudo isso, e muito mais, precisa de ser contado”, fundamenta.

Amadeu Amorim

De nome completo Amadeu Timóteo Malheiros de Amorim, de 84 anos de idade, nasceu em Luanda e cresceu no Bairro Operário; partidário da luta pela independência, tem fé na força da música para segurar Angola. “Foi assim então … e pode ser agora, … utilizando a canção como arma política, quem sabe se bem aproveitada, a canção não será capaz de alterar opções e fazer o nosso MPLA ganhar as eleições”, augura o músico político.

Por Stella Silveira

Esta questão, levantada pelo nacionalista Amadeu Amorim no decorrer de mais uma Conversa à quinta-feira, da Academia Angolana de Letras, realizada por vídeo-conferência, apimenta o debate “O Ngola Ritmos no contexto de acções da clandestinidade”. Na sua intervenção, aponta as razões pelas quais deviam passar de “obreiros da luta pela independência, para o quadro de heróis do Povo angolano”, como defende o poeta maior.

Ao fazer uma breve introdução do tema, o escritor Fragata de Morais, moderador do encontro, recorda que o grupo tinha como objectivo preservar a cultura angolana e afirmar a identidade nacional, como reacção natural à imposição colonial, que rejeitava todas as manifestações culturais nativas.

O moderador convida renomados académicos e investigadores de Angola, Brasil e Portugal, a visitarem a história do lendário grupo, intrinsecamente ligada à do nacionalismo angolano, pela voz do último integrante vivo do Ngola Ritmos.

Amadeu Amorim conta, durante pouco menos de uma hora, a história do grupo que nasceu no Bairro Operário, em 1947, por iniciativa de Liceu Vieira Dias, Nino Ndongo e Mário Araújo, alimentados pelas ideologias de intelectuais pan-africanistas como Leopold Senghor, Kwame Nkrumah e Sekou Touré.

Em 1950, o grupo chama Amadeu Amorim no bumbu, Zé Maria dos Santos a executar o solo e posteriormente Euclides Fontes Pereira na dicanza. Vieram também Belita Palma e Lourdes Van Dúnem.

Recorda que o Ngola Ritmos criou com mestria e transportou para a cidade as canções do folclore angolano, tocadas ao piano, violão e dicanza, dando-lhes um compasso de dança e canto, fazendo uma verdadeira homenagem à cultura angolana como parte activa no processo revolucionário que conduziu Angola à independência.

Assim nasceu o Semba

A dicanza de Fontinhas, até aqui um instrumento da Rebita, entra pela mão dos Ngola Ritmos na nova música, um primeiro cartão daquilo que se viria a chamar Semba, utilizando a canção como arma política.

O Semba consiste numa mistura de vários ritmos antigos como Cidrália, Kabocomeu, Kabetula e outros e as canções eram retiradas do folclore nacional, dançadas em roda e com ritmo. O grupo fazia um arranjo, introduzia novas letras, algumas delas com conteúdo político, sempre com mensagem sobre a angolanidade.

Assim nasce “Muxima”, “Mbiri Mbiri”, “Makésú”, quase todas cantadas em  kimbundo (língua falada nas regiões de Luanda, Bengo, Malanje e Cuanza Norte) e com génese na vida dos musseques, visando elevar a cultura dos antepassados e  estabelecer uma relação entre os musseques e a cidade.

A obra do Mestre Liceu

Para Amadeu Amorim, existe um ponto por esclarecer sobre o grupo e das várias polémicas que se levantam à volta da autoria de maior parte das canções do Ngola Ritmos; nenhuma das canções é de Liceu Vieira Dias.

“Liceu era o mestre, cuidava dos arranjos e das afinações das canções, mas não compôs nenhuma das músicas do Ngola Ritmos. Estas pertencem ao folclore nacional”, revela.

A título de exemplo, lembra que “Muxima” foi levada ao grupo por Antoninho Van Dunem, que teve passagem pelo Ngola Ritmos, que a melhorou e deu o cunho que hoje transporta, com todo o seu simbolismo.

Na conversa, acompanhada pelos académicos Paulo de Carvalho e Filipe Zau, presidente e vice-presidente da Academia de Letras, carregada de momentos de sublime humildade, Amadeu Amorim desabafa: “gostaria de ter estudado música, para poder passar a obra do Ngola Ritmos para partitura”, ou de ver escrita a história do grupo, “mas, infelizmente, não tenho o dom da escrita”.

Ao longo do evento, o músico passeia sua voz e graça por várias interpretações que se tornaram hinos, com esclarecimentos e o devido enquadramento das suas letras. À cappella (sem instrumental) foi bom ser agraciado com a boa música que recorda os precursores do Semba.

Passea por “Muxima”, “Monami”, “João Domingos”, “Mecené”, canções que ficam no assobio, na boca, na voz e na cabeça do povo que acabou guerrilheiro.

O músico nasce na Ingombota, mas é no Bairro Operário que acaba por crescer, depois de ter perdido o pai. Ele e os irmãos passam a viver apenas do que a mãe, jovem viúva dos anos 40, lhes podia propiciar.

Atlético - Arauto da Angolanidade

Inicialmente, foi no Atlético de Luanda, o clube dos cozinheiros situado na zona dos Coqueiros, que as elites angolanas se juntaram. Aníbal de Melo, André Mingas (pai), Demosthenes de Almeida eram alguns dos frequentadores que se tornaram nomes sonantes do nacionalismo.

“Podemos dizer que o Atlético foi o arauto da angolanidade. Aqui, nos Coqueiros, se reuniam e, nesta zona, nasceu a cidade de Luanda”, mas a medida que os métodos repressivos coloniais se foram agudizando, foi-se afastando do centro.

A mudança não foi radical, os angolanos foram sendo expulsos da baixa paulatinamente; inicialmente, foram para a Ingombota, depois para o Maculusso, Musseque Braga, Viuvinha e foram sendo empurrados até a criação do Bairro Operário.

“A ideia de juntar a elite angolana no B.O. foi o tiro que lhes (autoridades coloniais) saiu pela culatra, pois surgiram aqui os primeiros nacionalistas”, aponta.

Lembra que o B.O. da altura tinha cinemas, ruas asfaltadas, machimbombos (autocarros), hospital, salões de baile e outras condições que outros musseques não tinham, o que trazia para o bairro pessoas de outras zonas, e, portanto, conseguia juntar e fazer os grandes nacionalistas.

“Começamos por actuar para amigos, aniversários e festas, poucas vezes em espectáculos; depois já tínhamos muita gente a assistir aos nossos ensaios; recebemos vários apoios de figuras como Gabriel Leitão, Domingos Van Dunem, Vasco Sopas, e outros nomes que já não me recordo, todos funcionários que contribuíam para que nos juntássemos a falar e cantar a angolanidade. O Ngola Ritmos vinha dizer: Não à colonização portuguesa!

Neste ambiente foi muito fácil passar à acção.

Os Panfletos

Como não tinham acesso a rádios, nem a jornais, para fazer passar a sua mensagem, e como os africanos têm jeito para a música, os panfletos e a canções passam a ser a base de consciencialização e esperança para a independência.

Estes abordavam os problemas do quotidiano como o pagamento de impostos e outras situações que traziam ao de cima a noção de Pátria. E algum tempo depois, já se ouvia com frequência, “já leste o último”, em alusão aos folhetos de propaganda.

A história da sua origem está toda envolta em mistério, até hoje, segundo Amadeu Amorim, ninguém sabe quem trouxe para Angola a famosa máquina “Spencer”, com que foram feitos os panfletos das noites de Luanda.

Conta-se, apenas, que foi trazida por “ilustres desconhecidos”, marinheiros, no caso, e que chegou às peças, ao Porto do Lobito, e depois a Luanda pelas mãos de André Franco Sousa, “também, não precisávamos de saber muito mais, já que os que tentaram foram parar à cadeia”, elucida.

“Outra informação que tínhamos sobre o assunto, é que os panfletos eram escritos pela direcção do MIA (movimento nacionalista base de criação do MPLA) e distribuídos à noite; cada um tinha o seu raio de acção; o meu era a Maianga e o morro da Maianga”, recorda.

Amadeu Amorim não se consegue esquecer das torturas infindáveis que sofreram, na cadeia, para dizerem onde estava a famosa máquina, felizmente, ninguém sabia a sua verdadeira localização; a dita mudava sempre de lugar, precisamente, para que não fosse denunciada, nem descoberta.

Processo dos 50

Em 1959, Euclides Fontes Pereira, então funcionário público, é transferido para o Luso, actual Moxico; Liceu, Amadeu e Zé Maria são presos, com outros nacionalistas, acusados de conspiração contra a autoridade colonial, o que ficou na história como o “Processo dos 50”.

Nino Ndongo, o único que não foi preso, chama para o grupo Chodó, José Cordeiro e Gegê e gravam os dois primeiros discos do grupo em Lisboa.

Estilização 

A necessidade de passar a mensagem cantada pelo país, leva o grupo aos salões da baixa de Luanda. A primeira actuação foi no Cine Nacional, escolhido porque transmitia os espectáculos em directo, via rádio, para toda Angola.

Para terem acesso ao público da baixa, passaram a cantar músicas diferentes, fundamentalmente em português e começam com o fado “Margarida vai à fonte”, dando-lhe uma roupagem rítmica angolana.

Estilizaram também uma música do português Luís Piçarra, “O Alentejo da minha Alma”, num espectáculo em que o próprio actuava, acabou não cantando a referida música, depois do show dado pelo Ngola Ritmos.

A partir daí foram convidados para actuar em Moçamedes, Lobito e Huambo, cidades consideradas extremamente racistas, onde até o cemitério tinha zona para pretos e zona para brancos.

Encontro com Amílcar Cabral

Foi no regresso de uma dessas digressos  que se encontraram com o líder histórico guineense Amílcar Cabral.

“Tínhamos uma actuação na Roça da Boa Entrada, no Cuanza Sul, onde tocamos até de manhã. Amílcar Cabral foi convidado a discursar nesse acto, mas recusou-se e foi esperar por nós escondido no mato, já a saída da cidade. Passamos um bom bocado juntos, ensinou-nos até a cantar em crioulo a música - Vestido Branco”, recorda.

Nomes como Mário Pinto de Andrade, Matias Mingueis, e outros não menos importantes como o cubano nacionalizado norte-americano Francisco Xavier Hernandez, o tripulante que era pombo-correio entre Angola e o exterior, foram citados pelo político, que não deixa de recordar António Josias, Mário Van Dunem, Ilídio Machado, António Monteiro, Joaquim Figueiredo e António Pedro Benje, companheiros de cárcere e de exílio.

“Precisamos de dar à clandestinidade o lugar devido e merecido; a estes homens devemos o facto de estarmos hoje independentes”, afirma.

Faz ainda outros importantes apelos: o primeiro aos nossos historiadores, “precisam de reescrever a História (atenção), o nosso tempo está no fim, precisamos que alguém nos oiça”.

O segundo apelo vai para o governo, “precisamos de segurar no Bairro Operário e fazer dele um lugar turístico, precisamos de preservar partes da nossa história, foi ali onde foram forjados os primeiros panfletos contra a autoridade colonial, a casa ainda existe, bem como o lugar onde nasceu o Ngola Ritmos”.

O terceiro aos angolanos, para o resgata da identidade cultural, “a história da quarta-feira das mabangas, a seguir a terça de Carnaval; a velha Falange e o seu sarrabulho de domingo; o campo dos Ambuílas, onde vivemos grandes jogos de domingo. Tudo isso, e muito mais, precisa de ser contado”, fundamenta.

Amadeu Amorim

De nome completo Amadeu Timóteo Malheiros de Amorim, de 84 anos de idade, nasceu em Luanda e cresceu no Bairro Operário; partidário da luta pela independência, tem fé na força da música para segurar Angola. “Foi assim então … e pode ser agora, … utilizando a canção como arma política, quem sabe se bem aproveitada, a canção não será capaz de alterar opções e fazer o nosso MPLA ganhar as eleições”, augura o músico político.