Prostituição aumenta no Namibe

  • Arteria da Cidade de Moçamedes
Moçâmedes - Os índices de prostituição na província do Namibe aumentaram, significativamente, nos últimos 18 meses, particularmente em Moçâmedes, onde jovens e adolescentes "vendem", cada vez mais, o corpo em busca de contrapartidas financeiras.

Por Anabela do Céu Fritz

À semelhança de outras cidades do país, a prática nesta região é feita à luz do dia e à noite, mesmo em período de pandemia, situação que preocupa a sociedade, por causa dos elevados riscos de contágio da Covid-19 e das doenças sexualmente transmissíveis.

Nos últimos três meses, a ANGOP constata a presença de centenas de adolescentes, jovens e adultos, alguns provenientes das províncias da Huíla, de Benguela e Luanda, circulando com trabalhadoras de sexo, pelas ruas, pensões, hospedarias e bares de Moçâmedes.

Nesse trabalho de alto risco, há quem, inclusive, prefira esconder-se de baixo da ponte sobre o rio Bero ou nas imediações do Placa do Yaya, para materializar os prazeres sexuais, sem medir as consequências de tal prática, que pode resultar em doenças indesejáveis.  

Mesmo com o confinamento imposto pelo Governo, para travar a proliferação da Covid-19, o número de mulheres trabalhadoras de sexo aumentou nas ruas do Namibe.

Elas confirmam que antes da Covid-19 havia mais facilidades, mas hoje sao  obrigadas a recorrer às redes sociais (Facebook e watshapp) para "captarem" clientes.

Além da prostituição, as raparigas, por serem inimputáveis (menores de idade), são usadas pelos seus promotores para comercializarem drogas leves, com destaque para a liamba.

Uma dessas protagonistas é a adolescente "Cláudia" (nome fictício), de 14 anos, que diz ter entrado para o mundo da prostituição após ter sido violada.

Segundo a mesma, no exercício da actividade, considerada ilegal em Angola, faz recurso às drogas, que coloca em bebidas, para sentir-se solta e activa diante dos seus clientes.

"Tão logo o efeito da droga passa, só me apetece dormir e comer. O resto não sei de mais nada. Não tenho mãe nem pai e vivo com um irmão que é lavador de carro", confidencia,  sem especificar se usa preservativo para evitar ser contaminada por doenças sexuais.

Cláudia, estudante da 8ª classe, diz que os colegas sabem que pratica esta profissão à noite.

"No princípio, era discriminada, mas hoje já ninguém se mete comigo. Às vezes recebo conselho dos professores, mas se deixar, como vou viver,  como vou estudar?", indaga a adolescente, que luta, entretanto, para deixar as drogas.

"Estou a tentar deixar o uso das drogas, mas não está fácil, porque os meus clientes, na maioria, também consomem drogas", conclui o seu relato a adolescente.

Tal como Cláudia, "Chana", exerce esta actividade desde 1990.

Considerada pelas demais colegas como a mais esbelta, vaidosa, batalhadora e com mais clientes, devido a sua beleza física e corporal, diz que, infelizmente, desta profissão nasceram três filhos, sendo que a primogénita dá sinais de enveredar pelo mesmo caminho.

Por causa desse último factor, recorreu a um psicólogo para fazer acompanhamento adequado à menina, na tentativa de evitar que tenha a mesma sorte da mãe.

"Acho que ela (filha) descobriu o que faço e faz o mesmo. Não tenho coragem de repreendê-la”, diz, sem, no entanto, demonstrar arrependimento pela vida que leva.

Segundo Chana, esta profissão exige que a mulher esteja sempre bem-disposta.

Informa que já conheceu clientes agressivos, outros carinhosos e há ainda aqueles que aparecem só para uma conversa, um conselho e no final, mesmo sem sexo, conseguem dar uma gorjeta. "São poucos, mas hoje tornaram-se meus grandes amigos", exprime.

No entanto, Chana diz existirem também clientes que, depois do acto, não pagam. Se houver reclamações, conta, estes partem para a violência física, situação apenas controlada com a intervenção dos "chefes", cuja missão é garantir a segurança das mulheres.

Conta que faz tudo em segredo e em casa apenas a mãe e a filha sabem da sua condição. Os outros dois filhos e demais parentes pensam que trabalha em uma hospedaria.



Quanto ao dinheiro recebido, diz que vai dos 10 mil aos 15 mil kwanzas por noite, usados na compra de material de beleza, roupa, comida e na propina da escola dos petizes.

Chana diz que, apesar de não ser uma vida fácil, já rendeu dinheiro para a compra do terreno e a construção de uma casa, esperando juntar mais algum para acabar a obra.

Na mesma condição estão "Betty" e "Zela", que dizem conseguir entre 15 e 20 mil kwanzas por dia, com a repartição dos valores arrecadados em cada acto sexual.

"Quando decidimos ir à rua sem eles darem conta, como à Marginal ou à Avenida dos Correios, conseguimos mais clientes, sobretudo por altura do pagamento dos salários da função pública. Por cada noite, podemos arrecadar 30 mil kwanzas", reforçam.

Segundo as trabalhadoras de sexo, ouvidas pela ANGOP, a sua relação com os clientes se restringe na prestação do serviço sexual, não havendo contacto fora desta actividade.

Conforme essas mulheres, a maioria dos clientes é adultos, presumivelmente com problemas nos lares, uma vez que antes do envolvimento sexual, estes aproveitam alguns momentos para desabafar diante delas.

Perigos à vista

A respeito desse fenómeno, psicólogos ouvidos pela ANGOP afirmaram que a prostituição constitui um acto perigoso, uma vez que muitas doenças podem ser transmitidas e outros transtornos podem surgir, do ponto de vista físico e psicológico.

O psicólogo José Manuel Kanivete afirma que as mulheres se prostituem por vários motivos, como pobreza, uso de substâncias ilícitas, estrutura familiar deficitária e abuso sexual, factores que facilitam a entrada no negócio da prostituição.

Para si, esta profissão só desaparecerá com educação familiar de base, bem sustentada e sólida, além de diálogo educativo e sexual permanente.

Aponta, igualmente, a educação religiosa como uma das medidas para que os adolescentes e jovens não possam desviar-se da sua caminhada e enveredarem pela prostituição.

Já o psicólogo Pedro Simão diz que o combate deste fenómeno exige o envolvimento de todos (educação, família, autoridades tradicionais, religiosas, sociólogos) na criação de políticas educativas mais sustentadas, a partir do ensino secundário.

"Se apostarmos para a educação sexual, de forma clara e transparente, e se em casa os pais educarem os filhos de forma correcta, poderemos, futuramente, ter meninas e rapazes bem-educados e capazes de pautar por caminhos seguros", sublinha.

Médico aponta consequências

O clínico geral Coríntios Miguel revela que todo o procedimento sexual feito desta maneira (prostituição) é sempre comprometedor para a saúde humana e para o futuro destas pessoas, acarretando consigo inúmeras consequências físicas e psicológicas.

"Mesmo que termine ou abandone a actividade, sempre levará consigo recordações tristes que vão perturbando a sua mente e o seu estado emocional", reforça o especialista.

Na constituição física, ressalta o médico, a pessoa pode contrair várias doenças sexualmente transmissíveis, mesmo usando o preservativo, pois este anticonceptivo foi feito para prevenção de gravidez e não das doenças sexualmente transmissíveis.

"Dado o mecanismo de adaptação, o mesmo acabou sendo usado como elemento para prevenção de certas doenças", explica o médico.

Quanto às menores de idade, diz que o risco é ainda maior, na medida em que muitas  ainda têm o conhecimento ou informação deturpada sobre as consequências desta acção, sobretudo da sua fertilidade, independentemente de usarem preservativo.

Aponta ainda o facto de as mesmas perderem o prazer sexual, futuramente, por terem começado muito cedo a ter relações sexuais, de forma traumática e comercial.

"Estas mulheres não fazem esta vida por prazer sexual, mas sim por necessidade económica, perdendo, na fase adulta, o sabor sexual", reforça.

Para o médico Coríntios Miguel, nesta altura de pandemia, as trabalhadoras de sexo estão sujeitas ao risco redobrado, pois estão expostas e podem apanhar a doença.

Dados apontam que pelo menos 10,5% das trabalhadoras de sexo de Luanda, Benguela, Cabinda, Cunene e Bié são portadoras do HIV/Sida, e 2,6% vive com sífilis activa.

Outras informações referem há uma prevalência de 7,8% entre as mulheres e 2,4% entre os homens que fazem sexo com outros homens.

Por Anabela do Céu Fritz

À semelhança de outras cidades do país, a prática nesta região é feita à luz do dia e à noite, mesmo em período de pandemia, situação que preocupa a sociedade, por causa dos elevados riscos de contágio da Covid-19 e das doenças sexualmente transmissíveis.

Nos últimos três meses, a ANGOP constata a presença de centenas de adolescentes, jovens e adultos, alguns provenientes das províncias da Huíla, de Benguela e Luanda, circulando com trabalhadoras de sexo, pelas ruas, pensões, hospedarias e bares de Moçâmedes.

Nesse trabalho de alto risco, há quem, inclusive, prefira esconder-se de baixo da ponte sobre o rio Bero ou nas imediações do Placa do Yaya, para materializar os prazeres sexuais, sem medir as consequências de tal prática, que pode resultar em doenças indesejáveis.  

Mesmo com o confinamento imposto pelo Governo, para travar a proliferação da Covid-19, o número de mulheres trabalhadoras de sexo aumentou nas ruas do Namibe.

Elas confirmam que antes da Covid-19 havia mais facilidades, mas hoje sao  obrigadas a recorrer às redes sociais (Facebook e watshapp) para "captarem" clientes.

Além da prostituição, as raparigas, por serem inimputáveis (menores de idade), são usadas pelos seus promotores para comercializarem drogas leves, com destaque para a liamba.

Uma dessas protagonistas é a adolescente "Cláudia" (nome fictício), de 14 anos, que diz ter entrado para o mundo da prostituição após ter sido violada.

Segundo a mesma, no exercício da actividade, considerada ilegal em Angola, faz recurso às drogas, que coloca em bebidas, para sentir-se solta e activa diante dos seus clientes.

"Tão logo o efeito da droga passa, só me apetece dormir e comer. O resto não sei de mais nada. Não tenho mãe nem pai e vivo com um irmão que é lavador de carro", confidencia,  sem especificar se usa preservativo para evitar ser contaminada por doenças sexuais.

Cláudia, estudante da 8ª classe, diz que os colegas sabem que pratica esta profissão à noite.

"No princípio, era discriminada, mas hoje já ninguém se mete comigo. Às vezes recebo conselho dos professores, mas se deixar, como vou viver,  como vou estudar?", indaga a adolescente, que luta, entretanto, para deixar as drogas.

"Estou a tentar deixar o uso das drogas, mas não está fácil, porque os meus clientes, na maioria, também consomem drogas", conclui o seu relato a adolescente.

Tal como Cláudia, "Chana", exerce esta actividade desde 1990.

Considerada pelas demais colegas como a mais esbelta, vaidosa, batalhadora e com mais clientes, devido a sua beleza física e corporal, diz que, infelizmente, desta profissão nasceram três filhos, sendo que a primogénita dá sinais de enveredar pelo mesmo caminho.

Por causa desse último factor, recorreu a um psicólogo para fazer acompanhamento adequado à menina, na tentativa de evitar que tenha a mesma sorte da mãe.

"Acho que ela (filha) descobriu o que faço e faz o mesmo. Não tenho coragem de repreendê-la”, diz, sem, no entanto, demonstrar arrependimento pela vida que leva.

Segundo Chana, esta profissão exige que a mulher esteja sempre bem-disposta.

Informa que já conheceu clientes agressivos, outros carinhosos e há ainda aqueles que aparecem só para uma conversa, um conselho e no final, mesmo sem sexo, conseguem dar uma gorjeta. "São poucos, mas hoje tornaram-se meus grandes amigos", exprime.

No entanto, Chana diz existirem também clientes que, depois do acto, não pagam. Se houver reclamações, conta, estes partem para a violência física, situação apenas controlada com a intervenção dos "chefes", cuja missão é garantir a segurança das mulheres.

Conta que faz tudo em segredo e em casa apenas a mãe e a filha sabem da sua condição. Os outros dois filhos e demais parentes pensam que trabalha em uma hospedaria.



Quanto ao dinheiro recebido, diz que vai dos 10 mil aos 15 mil kwanzas por noite, usados na compra de material de beleza, roupa, comida e na propina da escola dos petizes.

Chana diz que, apesar de não ser uma vida fácil, já rendeu dinheiro para a compra do terreno e a construção de uma casa, esperando juntar mais algum para acabar a obra.

Na mesma condição estão "Betty" e "Zela", que dizem conseguir entre 15 e 20 mil kwanzas por dia, com a repartição dos valores arrecadados em cada acto sexual.

"Quando decidimos ir à rua sem eles darem conta, como à Marginal ou à Avenida dos Correios, conseguimos mais clientes, sobretudo por altura do pagamento dos salários da função pública. Por cada noite, podemos arrecadar 30 mil kwanzas", reforçam.

Segundo as trabalhadoras de sexo, ouvidas pela ANGOP, a sua relação com os clientes se restringe na prestação do serviço sexual, não havendo contacto fora desta actividade.

Conforme essas mulheres, a maioria dos clientes é adultos, presumivelmente com problemas nos lares, uma vez que antes do envolvimento sexual, estes aproveitam alguns momentos para desabafar diante delas.

Perigos à vista

A respeito desse fenómeno, psicólogos ouvidos pela ANGOP afirmaram que a prostituição constitui um acto perigoso, uma vez que muitas doenças podem ser transmitidas e outros transtornos podem surgir, do ponto de vista físico e psicológico.

O psicólogo José Manuel Kanivete afirma que as mulheres se prostituem por vários motivos, como pobreza, uso de substâncias ilícitas, estrutura familiar deficitária e abuso sexual, factores que facilitam a entrada no negócio da prostituição.

Para si, esta profissão só desaparecerá com educação familiar de base, bem sustentada e sólida, além de diálogo educativo e sexual permanente.

Aponta, igualmente, a educação religiosa como uma das medidas para que os adolescentes e jovens não possam desviar-se da sua caminhada e enveredarem pela prostituição.

Já o psicólogo Pedro Simão diz que o combate deste fenómeno exige o envolvimento de todos (educação, família, autoridades tradicionais, religiosas, sociólogos) na criação de políticas educativas mais sustentadas, a partir do ensino secundário.

"Se apostarmos para a educação sexual, de forma clara e transparente, e se em casa os pais educarem os filhos de forma correcta, poderemos, futuramente, ter meninas e rapazes bem-educados e capazes de pautar por caminhos seguros", sublinha.

Médico aponta consequências

O clínico geral Coríntios Miguel revela que todo o procedimento sexual feito desta maneira (prostituição) é sempre comprometedor para a saúde humana e para o futuro destas pessoas, acarretando consigo inúmeras consequências físicas e psicológicas.

"Mesmo que termine ou abandone a actividade, sempre levará consigo recordações tristes que vão perturbando a sua mente e o seu estado emocional", reforça o especialista.

Na constituição física, ressalta o médico, a pessoa pode contrair várias doenças sexualmente transmissíveis, mesmo usando o preservativo, pois este anticonceptivo foi feito para prevenção de gravidez e não das doenças sexualmente transmissíveis.

"Dado o mecanismo de adaptação, o mesmo acabou sendo usado como elemento para prevenção de certas doenças", explica o médico.

Quanto às menores de idade, diz que o risco é ainda maior, na medida em que muitas  ainda têm o conhecimento ou informação deturpada sobre as consequências desta acção, sobretudo da sua fertilidade, independentemente de usarem preservativo.

Aponta ainda o facto de as mesmas perderem o prazer sexual, futuramente, por terem começado muito cedo a ter relações sexuais, de forma traumática e comercial.

"Estas mulheres não fazem esta vida por prazer sexual, mas sim por necessidade económica, perdendo, na fase adulta, o sabor sexual", reforça.

Para o médico Coríntios Miguel, nesta altura de pandemia, as trabalhadoras de sexo estão sujeitas ao risco redobrado, pois estão expostas e podem apanhar a doença.

Dados apontam que pelo menos 10,5% das trabalhadoras de sexo de Luanda, Benguela, Cabinda, Cunene e Bié são portadoras do HIV/Sida, e 2,6% vive com sífilis activa.

Outras informações referem há uma prevalência de 7,8% entre as mulheres e 2,4% entre os homens que fazem sexo com outros homens.