Shopping Kinaxixi mantém padrão  

  • Edifício do Kinaxixi em Luanda " antigo espaço comercial"
Luanda – Quem circula pelos arredores da Ingombota, mais precisamente pelo antigo Largo do Kinaxixi, facilmente se apercebe, nos dias de hoje, que vários elementos simbólicos, como a estátua da Rainha Njinga, sumiram do local, há mais de 10 anos. 

Por Hermenegildo Manuel  

Desde a era colonial, o espaço contou com símbolos identitários de vários períodos da resistência africana e europeia, entre os quais as estátuas de Maria da Fonte e Njinga Mbandi, “evaporadas” com o tempo, até à altura do encerramento do Mercado do Kinaxixi. 

O famoso largo serviu, durante várias décadas, de referência turística da província de Luanda, reunindo, ao seu redor, bens materiais e imateriais de grande simbolismo colectivo, além de uma praça cheia de iguarias típicas da tradição luandense.  

Para grande parte da sociedade, todo esse conjunto de imagens e memórias já parece coisa do passado, a julgar pelo processo de transformação e pelas “gigantescas” obras em curso naquele local, que deverão dar lugar a um centro comercial. 

Entretanto, engana-se quem pense que, com o surgimento do Shopping Kinaxixi, o simbolismo do largo com o mesmo nome perderá, definitivamente, a essência de outrora.   

Conforme a maquete do empreendimento, a que a Angop teve acesso, recentemente, todo esse manancial de aspectos culturais poderá estar de volta depois da conclusão das obras, executadas, até ao presente momento, num ritmo de mais de 50 por cento. 

É pretensão dos novos proprietários do espaço manter a essência do Largo do Kinaxixi, ou seja, alguns dos anteriores símbolos, apesar de incorporar outros atractivos, como adianta o director-geral da empresa Kinaxixi Empreendimentos Imobiliários, S.A., o brasileiro Luciano Dzik.  

Pretende-se, com isso, transformar o espaço num lugar de lazer e entretenimento, aberto a todas as classes sociais, que poderão usá-lo para efeitos de fazer fotos e vídeos, bem como outras opções. 

O espaço do antigo Largo do Kinanaxi será devolvido à sociedade, com mais conforto e dotado de novas valências, para atrair o maior número de cidadãos, particularmente casais. 

“Colocaremos WC, espaço para fotos tradicionais de casamento e paisagens, além de retornarmos a estátua original da Rainha Njinga Mbandi, que ficará num pedestal com altura privilegiada e susceptível de ser vista à distância”, adianta o empresário. 

Só para ter uma ideia, Luciano Dzik explica que o pedestal e a estátua da rainha estarão ao nível dos edifícios de cinco a seis andares, localizados ao redor do largo do Kinaxixi.    

Conforme a fonte, a estátua original, guardada no Museu Nacional de História Militar, será o “cartão de visitas” do novo largo, cujos custos de restauração estão a ser assumidos pela sua empresa, que também assegurará a manutenção do espaço. 

Segundo o empresário, o largo do Kinaxixi será totalmente repaginado, respondendo à tradição angolana, devendo conter, inclusive, um anfiteatro. 

“O largo vai ser repaginado. A estátua da Rainha Njinga vai estar a capitanear a praça, que será mantida. Vamos preservar a tradição angolana”, sublinha a fonte, para quem não existem razões de preocupação em relação à preservação da história no local. 

Obras ao ritmo da crise 

Conquanto, para que isso se efective, muito ainda há por fazer em termos de execução das obras, apesar de estarem a 50 por cento, com a parte de alvenaria praticamente concluída.  

Ainda assim, nem todos os que passam ao redor do recinto do futuro Shopping Kinaxixi se dão conta do avanço dos trabalhos para a conclusão daquele projecto comercial. 

Quem vê do lado de fora, depara-se com um cenário de obra aparentemente abandonada. Na parte exterior das chapas de cobertura, inclusive, pode-se observar, a “olho nu”, latas e outros pequenos amontoados de lixo, que “escondem” a realidade dos factos. 

Em contraste, na parte interior da obra, 200 profissionais, entre nacionais e estrangeiros, trabalham afincadamente para conclusão de um complexo comercial integrado, numa altura em que o país procura superar o quadro de retracção, iniciado em 2014. 

"Estamos na fase de preparação dos acabamentos. Por mais que essa imagem possa dar a impressão de que está tudo parado, nós nunca interrompemos a obra, continuamos a trabalhar, para atender a demanda na hora que se colocar", afirma o proprietário. 

Entretanto, munícipes dos arredores do Kinaxixi entendem que a obra é bem-vinda, mas pedem cautelas em algumas questões, como a da manutenção da história e tradição.  

“Penso que devíamos continuar a preservar esses espaços, para mantermos a verdadeira história e contarmos aos mais novos”, declara a moradora Júlia de Azevedo, cuja visão é partilhada pelo cidadão José António, que solicita rigor na execução dos trabalhos. 

A propósito deste assunto, o economista Eduardo Manuel entende que a conclusão da obra vai contribuir para a melhoria da imagem de Luanda e ajudar a fomentar o emprego, embora, do seu ponto de vista, “não devia ter sido executada no espaço onde está”. 

 Outro ganho apontado pelo especialista, com a requalificação e modernização do antigo espaço do Mercado do Kinaxixi, é o provável aumento das receitas fiscais.  

 “Quanto ao antigo mercado, é necessário entender que o mundo evoluiu naquele modelo de comercialização e o que se tem hoje são as grandes áreas. Buscando essas origens, dentro do espaço do Kinaxixi, nós vamos criar, na área da restauração, um espaço para a venda em pequenos botes”, afirma o proprietário da obra, Luciano Dzik, rebatendo a crítica. 

Segundo o empresário, no espaço do antigo mercado nascerá um empreendimento imobiliário desenhado no conceito três em um, que vai compreender três torres independentes, sendo duas reservadas a escritórios e outros serviços, e uma a residências. 

Em concreto, a maquete a que a Angop teve acesso contempla um total de 38 pisos nas duas torres reservadas para escritórios e outros serviços, e 19 pisos na torre para apartamentos, esta última que terá 116 residências, com tipologia T2, T3, T4, T5 e T6. 

Além das três torres, o espaço contará com um centro comercial, que deverá albergar 220 lojas diversas, seis salas de cinemas, cafés, restaurantes e espaços de cultura, assim como uma zona para as quitandeiras (vendedeiras) exporem produtos diversos da terra.  

Segundo o director-geral da Kinaxixi Empreendimentos Imobiliários, S.A., o projecto já consumiu 50% do valor inicialmente estimado, acima de USD mil milhões, numa conjunção de recursos próprios (40%) e da banca comercial angolana (60%).  

Luciano Dzik explica que a obra, iniciada com mil pessoas, conta, nesta altura, com apenas 200 funcionários, em face das restrições impostas pela pandemia da Covid-19. 

Entregas dependem da procura   

A Angop constatou, no local, que em algumas áreas já se iniciaram os acabamentos. 

“Atravessamos a linha dos 50%, o que significa, na prática, que a estrutura está pronta, alvenaria pronta, todo embasamento concluído, e iniciando-se a fase de preparação para o início dos acabamentos, que é a fase final do empreendimento”, explica Luciano Dzik.  

Quanto à questão dos prazos de entrega, o empresário não avança datas concretas, mas assegura que a sua equipa teria condições de abrir o shopping em até 18 meses.  

Já em relação às três torres, afirma que podem ser entregues em até 20 meses, estando com algum conforto para adaptar-se ao actual momento da economia angolana. 

“Se houver demanda que justifique, o shopping poderá ficar concluído em 18 meses, porque já avançámos muito. Estamos agora num momento de tomar essa decisão, que tem a ver com outros factores da economia, como a demanda e o público”, afirma. 

A esse respeito, o empresário discorda da visão de que o empreendimento esteja bastante atrasado, pelo facto de nunca ter anunciado uma data concreta para o início da entrega dos escritórios, apartamentos e do centro comercial a eventuais compradores. 

“É impossível ter pouco tempo numa obra como a do Kinaxixi, com 330 mil metros quadrados de construção, 132 metros do nível zero, sete mil desenhos de duas empresas de renome internacional, que levaram aproximadamente dois anos de concepção”, rebate. 

O empresário sublinha que não vendeu projectos na matriz, para evitar ser pressionado por eventuais compradores, pelo que ninguém pode aferir a questão do atrasado. 

Entretanto, o Bastonário da Ordem dos Arquitectos de Angola, Celestino Chitonho, afirma que, do ponto de vista da política pública, deveria ser tomada uma atitude, tendo em conta a demora da obra, independentemente do facto de o promotor não ter feito vendas. 

 “As licenças duram um determinado tempo e depois são renovadas. Em alguns países, quando a obra está a renovar permanentemente a licença, porque não está a acabar, vão colocando encargos, tornando cada vez mais caro renovar a licença de construção, a tal ponto que o empreiteiro ou acaba ou desiste”, argumenta o especialista. 

 Segundo o bastonário, trata-se de uma obra enorme que deveria ter sido feita num momento em que a economia estava em alta e havia algum dinheiro para pagar preços altos. 

 “O próprio investidor tinha uma expectativa do retorno, mas, com a crise económica, isso desmoronou-se, a tal ponto de não ter muito incentivo para concluir a obra, porque a maior parte dos espaços vão ficar vazios e ele sabe disso. Então, acredito que está a fazer nas calmas, por saber que os espaços vão ficar vazios”, enfatiza Celestino Chitonho.  

 O arquitecto diz ser um fenómeno que acontecia também em obras de menor dimensão, porque muitos começavam a construir uma casa sem saber quanto custava, porque surgia sempre algum dinheiro no bolso, prática que diminuiu com o surgimento da crise.  

“Em relação ao Kinaxixi, há um efeito da crise neste aspecto, mas também deveríamos ter políticas públicas rígidas para definir essas coisas. O custo da renovação de uma licença é barato, mas precisa-se perceber que se essa obra tem determinado impacto na sociedade, temos de colocar determinados requisitos para eles terminarem”, reforça.  

Noutro domínio, o especialista afirma que, pelo valor histórico, simbólico e patrimonial, o Mercado do Kinaxixi nunca deveria ter sido demolido. “Apesar do facto de o promotor garantir o retorno da praça, do ponto de vista científico não é a mesma coisa”, vinca. 

 Apesar das contrariedades e da divergência de pontos de vista, é factual que a entrada em funcionamento do empreendimento vai ajudar a fomentar o emprego em Luanda.  

 A esse respeito, Luciano Dzik adianta que, depois da conclusão do centro comercial, e em função do número de lojas, estima-se a criação de cerca de dois mil 500 empregos directos e cerca de sete mil indirectos, tendo em conta as médias mundiais. 

Contornos da obra 

O histórico Mercado Municipal do Kinaxixi foi encerrado em 2008, depois de um longo tempo de espera, que oscilou entre a reabilitação e a demolição, à semelhança do que aconteceu com outros empreendimentos históricos da capital do país.  

O empreendimento foi construído na década de 50, sob batuta de Vasco Vieira da Costa, arquitecto português formado pela Escola de Belas-Artes do Porto, Portugal, que viajou para Paris e por lá trabalhou por algum tempo com o arquitecto francês Le Corbusier.  

O Mercado Municipal de Luanda foi a sua primeira obra na capital angolana. 

Até 2003, o espaço funcionava como o grande mercado de frescos de Luanda, mas esse modelo começou a mudar, depois da retirada e transferência dos comerciantes. 

Na altura, o discurso das autoridades andava à volta da reabilitação e era isso que os comerciantes e a população esperavam. Porém, dois anos depois, o mercado estava abandonado e surgia o anúncio de alienação daquele espaço a uma empresa privada. 

Seguiu-se o primeiro projecto, desenvolvido por uma empresa com parceiros lusos, que previa a não destruição total do mercado. Este projecto não vingou.  

Contrariamente às expectativas, o projecto inicial e desconhecido de grande parte do público dava lugar ao plano de construção de um centro comercial, ante um ambiente de aparente revolta da sociedade, que discordava do derrube da infra-estrutura histórica. 

Foi nesse ambiente que a empresa Kinaxixi Empreendimentos Imobiliários, S.A. decidiu entrar no negócio e avançar com uma proposta de construção de um empreendimento capaz de congregar espaços residenciais, de trabalho e lazer, os conhecidos espaços três em um. 

Os meandros da entrada da empresa no negócio são desconhecidos do grande público, até hoje, apesar de o proprietário da empresa afirmar que foi por via de concurso público. 

Luciano Dzik afirma que nunca houve injecção de fundos públicos para dar corpo ao seu projecto imobiliário no espaço do antigo Mercado Kinaxixi.  

“Não há como se encaixar o dinheiro público”, declara o empresário, afirmando, por outro lado, que não foi favorecido na questão da cedência do espaço para a esfera privada. 

A fonte desmente informações que apontam para uma hipotética ligação, na época da realização do concurso público, a figuras influentes da anterior liderança política do país. 

“Quando cheguei aqui (Angola), em 2007, era uma situação já resolvida. O que sei é que houve a participação de todas as figuras que se envolvem num processo como esse e essa área foi destinada a um propósito que está a ser materializado”, remata. 
 

Por Hermenegildo Manuel  

Desde a era colonial, o espaço contou com símbolos identitários de vários períodos da resistência africana e europeia, entre os quais as estátuas de Maria da Fonte e Njinga Mbandi, “evaporadas” com o tempo, até à altura do encerramento do Mercado do Kinaxixi. 

O famoso largo serviu, durante várias décadas, de referência turística da província de Luanda, reunindo, ao seu redor, bens materiais e imateriais de grande simbolismo colectivo, além de uma praça cheia de iguarias típicas da tradição luandense.  

Para grande parte da sociedade, todo esse conjunto de imagens e memórias já parece coisa do passado, a julgar pelo processo de transformação e pelas “gigantescas” obras em curso naquele local, que deverão dar lugar a um centro comercial. 

Entretanto, engana-se quem pense que, com o surgimento do Shopping Kinaxixi, o simbolismo do largo com o mesmo nome perderá, definitivamente, a essência de outrora.   

Conforme a maquete do empreendimento, a que a Angop teve acesso, recentemente, todo esse manancial de aspectos culturais poderá estar de volta depois da conclusão das obras, executadas, até ao presente momento, num ritmo de mais de 50 por cento. 

É pretensão dos novos proprietários do espaço manter a essência do Largo do Kinaxixi, ou seja, alguns dos anteriores símbolos, apesar de incorporar outros atractivos, como adianta o director-geral da empresa Kinaxixi Empreendimentos Imobiliários, S.A., o brasileiro Luciano Dzik.  

Pretende-se, com isso, transformar o espaço num lugar de lazer e entretenimento, aberto a todas as classes sociais, que poderão usá-lo para efeitos de fazer fotos e vídeos, bem como outras opções. 

O espaço do antigo Largo do Kinanaxi será devolvido à sociedade, com mais conforto e dotado de novas valências, para atrair o maior número de cidadãos, particularmente casais. 

“Colocaremos WC, espaço para fotos tradicionais de casamento e paisagens, além de retornarmos a estátua original da Rainha Njinga Mbandi, que ficará num pedestal com altura privilegiada e susceptível de ser vista à distância”, adianta o empresário. 

Só para ter uma ideia, Luciano Dzik explica que o pedestal e a estátua da rainha estarão ao nível dos edifícios de cinco a seis andares, localizados ao redor do largo do Kinaxixi.    

Conforme a fonte, a estátua original, guardada no Museu Nacional de História Militar, será o “cartão de visitas” do novo largo, cujos custos de restauração estão a ser assumidos pela sua empresa, que também assegurará a manutenção do espaço. 

Segundo o empresário, o largo do Kinaxixi será totalmente repaginado, respondendo à tradição angolana, devendo conter, inclusive, um anfiteatro. 

“O largo vai ser repaginado. A estátua da Rainha Njinga vai estar a capitanear a praça, que será mantida. Vamos preservar a tradição angolana”, sublinha a fonte, para quem não existem razões de preocupação em relação à preservação da história no local. 

Obras ao ritmo da crise 

Conquanto, para que isso se efective, muito ainda há por fazer em termos de execução das obras, apesar de estarem a 50 por cento, com a parte de alvenaria praticamente concluída.  

Ainda assim, nem todos os que passam ao redor do recinto do futuro Shopping Kinaxixi se dão conta do avanço dos trabalhos para a conclusão daquele projecto comercial. 

Quem vê do lado de fora, depara-se com um cenário de obra aparentemente abandonada. Na parte exterior das chapas de cobertura, inclusive, pode-se observar, a “olho nu”, latas e outros pequenos amontoados de lixo, que “escondem” a realidade dos factos. 

Em contraste, na parte interior da obra, 200 profissionais, entre nacionais e estrangeiros, trabalham afincadamente para conclusão de um complexo comercial integrado, numa altura em que o país procura superar o quadro de retracção, iniciado em 2014. 

"Estamos na fase de preparação dos acabamentos. Por mais que essa imagem possa dar a impressão de que está tudo parado, nós nunca interrompemos a obra, continuamos a trabalhar, para atender a demanda na hora que se colocar", afirma o proprietário. 

Entretanto, munícipes dos arredores do Kinaxixi entendem que a obra é bem-vinda, mas pedem cautelas em algumas questões, como a da manutenção da história e tradição.  

“Penso que devíamos continuar a preservar esses espaços, para mantermos a verdadeira história e contarmos aos mais novos”, declara a moradora Júlia de Azevedo, cuja visão é partilhada pelo cidadão José António, que solicita rigor na execução dos trabalhos. 

A propósito deste assunto, o economista Eduardo Manuel entende que a conclusão da obra vai contribuir para a melhoria da imagem de Luanda e ajudar a fomentar o emprego, embora, do seu ponto de vista, “não devia ter sido executada no espaço onde está”. 

 Outro ganho apontado pelo especialista, com a requalificação e modernização do antigo espaço do Mercado do Kinaxixi, é o provável aumento das receitas fiscais.  

 “Quanto ao antigo mercado, é necessário entender que o mundo evoluiu naquele modelo de comercialização e o que se tem hoje são as grandes áreas. Buscando essas origens, dentro do espaço do Kinaxixi, nós vamos criar, na área da restauração, um espaço para a venda em pequenos botes”, afirma o proprietário da obra, Luciano Dzik, rebatendo a crítica. 

Segundo o empresário, no espaço do antigo mercado nascerá um empreendimento imobiliário desenhado no conceito três em um, que vai compreender três torres independentes, sendo duas reservadas a escritórios e outros serviços, e uma a residências. 

Em concreto, a maquete a que a Angop teve acesso contempla um total de 38 pisos nas duas torres reservadas para escritórios e outros serviços, e 19 pisos na torre para apartamentos, esta última que terá 116 residências, com tipologia T2, T3, T4, T5 e T6. 

Além das três torres, o espaço contará com um centro comercial, que deverá albergar 220 lojas diversas, seis salas de cinemas, cafés, restaurantes e espaços de cultura, assim como uma zona para as quitandeiras (vendedeiras) exporem produtos diversos da terra.  

Segundo o director-geral da Kinaxixi Empreendimentos Imobiliários, S.A., o projecto já consumiu 50% do valor inicialmente estimado, acima de USD mil milhões, numa conjunção de recursos próprios (40%) e da banca comercial angolana (60%).  

Luciano Dzik explica que a obra, iniciada com mil pessoas, conta, nesta altura, com apenas 200 funcionários, em face das restrições impostas pela pandemia da Covid-19. 

Entregas dependem da procura   

A Angop constatou, no local, que em algumas áreas já se iniciaram os acabamentos. 

“Atravessamos a linha dos 50%, o que significa, na prática, que a estrutura está pronta, alvenaria pronta, todo embasamento concluído, e iniciando-se a fase de preparação para o início dos acabamentos, que é a fase final do empreendimento”, explica Luciano Dzik.  

Quanto à questão dos prazos de entrega, o empresário não avança datas concretas, mas assegura que a sua equipa teria condições de abrir o shopping em até 18 meses.  

Já em relação às três torres, afirma que podem ser entregues em até 20 meses, estando com algum conforto para adaptar-se ao actual momento da economia angolana. 

“Se houver demanda que justifique, o shopping poderá ficar concluído em 18 meses, porque já avançámos muito. Estamos agora num momento de tomar essa decisão, que tem a ver com outros factores da economia, como a demanda e o público”, afirma. 

A esse respeito, o empresário discorda da visão de que o empreendimento esteja bastante atrasado, pelo facto de nunca ter anunciado uma data concreta para o início da entrega dos escritórios, apartamentos e do centro comercial a eventuais compradores. 

“É impossível ter pouco tempo numa obra como a do Kinaxixi, com 330 mil metros quadrados de construção, 132 metros do nível zero, sete mil desenhos de duas empresas de renome internacional, que levaram aproximadamente dois anos de concepção”, rebate. 

O empresário sublinha que não vendeu projectos na matriz, para evitar ser pressionado por eventuais compradores, pelo que ninguém pode aferir a questão do atrasado. 

Entretanto, o Bastonário da Ordem dos Arquitectos de Angola, Celestino Chitonho, afirma que, do ponto de vista da política pública, deveria ser tomada uma atitude, tendo em conta a demora da obra, independentemente do facto de o promotor não ter feito vendas. 

 “As licenças duram um determinado tempo e depois são renovadas. Em alguns países, quando a obra está a renovar permanentemente a licença, porque não está a acabar, vão colocando encargos, tornando cada vez mais caro renovar a licença de construção, a tal ponto que o empreiteiro ou acaba ou desiste”, argumenta o especialista. 

 Segundo o bastonário, trata-se de uma obra enorme que deveria ter sido feita num momento em que a economia estava em alta e havia algum dinheiro para pagar preços altos. 

 “O próprio investidor tinha uma expectativa do retorno, mas, com a crise económica, isso desmoronou-se, a tal ponto de não ter muito incentivo para concluir a obra, porque a maior parte dos espaços vão ficar vazios e ele sabe disso. Então, acredito que está a fazer nas calmas, por saber que os espaços vão ficar vazios”, enfatiza Celestino Chitonho.  

 O arquitecto diz ser um fenómeno que acontecia também em obras de menor dimensão, porque muitos começavam a construir uma casa sem saber quanto custava, porque surgia sempre algum dinheiro no bolso, prática que diminuiu com o surgimento da crise.  

“Em relação ao Kinaxixi, há um efeito da crise neste aspecto, mas também deveríamos ter políticas públicas rígidas para definir essas coisas. O custo da renovação de uma licença é barato, mas precisa-se perceber que se essa obra tem determinado impacto na sociedade, temos de colocar determinados requisitos para eles terminarem”, reforça.  

Noutro domínio, o especialista afirma que, pelo valor histórico, simbólico e patrimonial, o Mercado do Kinaxixi nunca deveria ter sido demolido. “Apesar do facto de o promotor garantir o retorno da praça, do ponto de vista científico não é a mesma coisa”, vinca. 

 Apesar das contrariedades e da divergência de pontos de vista, é factual que a entrada em funcionamento do empreendimento vai ajudar a fomentar o emprego em Luanda.  

 A esse respeito, Luciano Dzik adianta que, depois da conclusão do centro comercial, e em função do número de lojas, estima-se a criação de cerca de dois mil 500 empregos directos e cerca de sete mil indirectos, tendo em conta as médias mundiais. 

Contornos da obra 

O histórico Mercado Municipal do Kinaxixi foi encerrado em 2008, depois de um longo tempo de espera, que oscilou entre a reabilitação e a demolição, à semelhança do que aconteceu com outros empreendimentos históricos da capital do país.  

O empreendimento foi construído na década de 50, sob batuta de Vasco Vieira da Costa, arquitecto português formado pela Escola de Belas-Artes do Porto, Portugal, que viajou para Paris e por lá trabalhou por algum tempo com o arquitecto francês Le Corbusier.  

O Mercado Municipal de Luanda foi a sua primeira obra na capital angolana. 

Até 2003, o espaço funcionava como o grande mercado de frescos de Luanda, mas esse modelo começou a mudar, depois da retirada e transferência dos comerciantes. 

Na altura, o discurso das autoridades andava à volta da reabilitação e era isso que os comerciantes e a população esperavam. Porém, dois anos depois, o mercado estava abandonado e surgia o anúncio de alienação daquele espaço a uma empresa privada. 

Seguiu-se o primeiro projecto, desenvolvido por uma empresa com parceiros lusos, que previa a não destruição total do mercado. Este projecto não vingou.  

Contrariamente às expectativas, o projecto inicial e desconhecido de grande parte do público dava lugar ao plano de construção de um centro comercial, ante um ambiente de aparente revolta da sociedade, que discordava do derrube da infra-estrutura histórica. 

Foi nesse ambiente que a empresa Kinaxixi Empreendimentos Imobiliários, S.A. decidiu entrar no negócio e avançar com uma proposta de construção de um empreendimento capaz de congregar espaços residenciais, de trabalho e lazer, os conhecidos espaços três em um. 

Os meandros da entrada da empresa no negócio são desconhecidos do grande público, até hoje, apesar de o proprietário da empresa afirmar que foi por via de concurso público. 

Luciano Dzik afirma que nunca houve injecção de fundos públicos para dar corpo ao seu projecto imobiliário no espaço do antigo Mercado Kinaxixi.  

“Não há como se encaixar o dinheiro público”, declara o empresário, afirmando, por outro lado, que não foi favorecido na questão da cedência do espaço para a esfera privada. 

A fonte desmente informações que apontam para uma hipotética ligação, na época da realização do concurso público, a figuras influentes da anterior liderança política do país. 

“Quando cheguei aqui (Angola), em 2007, era uma situação já resolvida. O que sei é que houve a participação de todas as figuras que se envolvem num processo como esse e essa área foi destinada a um propósito que está a ser materializado”, remata.