Os desafios do "showbiz"

  • Festival da Canção de Luanda (Arquivo)
Luanda - O mercado de eventos culturais regista novas perspectivas de crescimento em Angola, desde meados de Janeiro, com a retoma gradual dos espectáculos comerciais, depois de quase nove meses inactivo e com fortes quedas de receitas.

Por: Ângela Correia Neto

À semelhança de muitos Estados, as actividades criativas, primeiras a serem suspensas por causa do novo coronavírus, estão entre as últimas que retomam a "marcha", numa altura de incertezas e grandes desafios impostos às economias mundiais.

É, sobejamente, sabido que a paralisação dos espectáculos, devido à particularidade de concentrarem pessoas em espaços restritos, representou um duro golpe para a "indústria do showbiz", agora reanimada com a possibilidade de reabertura das salas.

Apesar dos receios de contágios, particularmente da nova variante do coronavírus, o ano de 2021 afigura-se de grandes desafios para a classe dos promotores de eventos no país,  fundamentalmente na questão da combinação do binómio segurança sanitária/lucros.

Na verdade, o novo ano não podia começar melhor para os agentes culturais, que correm atrás do tempo para recuperar o seu público e oferecer diferentes manifestações artísticas, salvando uma "indústria" já com grandes sinais de insustentabilidade.

A volta dos espectáculos comerciais aos grandes palcos é uma das principais novidades do último Decreto Presidencial sobre a Situação de Calamidade Pública, que dá "luz verde" à realização de eventos culturais com até 50 por cento da lotação das salas.

Esta medida das autoridades angolanas surge para minimizar o impacto da pandemia no mercado do entretenimento nacional, que no entender de vários fazedores de arte tem sido dos "mais penalizados" pelas restrições impostas pelo Executivo.

Com o “reacender dos holofotes”, adivinha-se o regresso de milhares de criadores aos palcos e às passerelles, depois de quase 300 dias de "confinamento", situação que deixou dezenas de empresas à beira da falência e milhares de artistas na penúria.

Entre Março de 2020 e Janeiro deste ano, apenas os músicos promoveram actividades regulares, em formato de lives, através das plataformas digitais e da TV, enquanto que os sectores do teatro, da dança, moda e das artes plásticas viveram um quase "apagão".

A proibição da realização de espectáculos de carácter comercial cedo revelou-se um factor inibidor da criatividade dos promotores e artistas nacionais, que se dizem prontos para retomar as actividades regulares, apesar das incertezas do mercado.

Conforme os agentes culturais, a falta de show impactou fortemente na vida dos artistas e dos grupos, gerando uma retracção sem precedentes em toda a cadeia de produção, em termos de receitas, o que vai exigir criatividade e firmeza na hora do retorno.

Desde já, os promotores de evento aplaudem as novas medidas contidas no Decreto Presidencial sobre a Situação de Calamidade Pública, e prometem tudo fazer para um retorno seguro aos palcos e para reequilibrar as já "saturadas" tesouraria das empresas.

Todavia, há quem considere a margem de 50 por cento de ocupação das salas, ditada  pelo Governo, insuficiente para responder as necessidades do momento, sustentando que os promotores precisariam de outros incentivos para sobreviverem à crise.

Seguramente, esta limitação de espaços vai exigir dos promotores de eventos bastante prudência, criatividade e rigor na selecção dos espectadores, a fim de se evitar que a ânsia de gerar receitas e recuperar as tesourarias possa resultar em violações à Lei.  

No caso da música, por exemplo, os agentes culturais só podem realizar espectáculos de carácter não-dançante, até às 22 horas, com 50 por cento da capacidade dos espaços.

Para que isso ocorra dentro dos parâmetros do Decreto, os participantes devem estar sentados, com um distanciamento mínimo de 2 metros, e usar máscara facial, cabendo aos promotores gerir com rigor os acessos e a higienização das salas, para evitar multas.

Um dos principais desafios que se coloca aos promotores, nesta primeira etapa do retorno aos grandes palcos, será, certamente, a imperiosa contratação de empresas para desinfestação dos locais, situação que poderá tornar o negócio mais oneroso.

De igual modo, importa que os promotores preparem o ambiente cultural, garantam a segurança dos colaboradores e comuniquem, essencialmente, ao público as medidas adoptadas de segurança, a fim de estabelecerem nova relação de confiança.

Nesta hora do retorno, é fundamental que se clarifique e uniformize as regras de acesso do público às salas de espectáculo, definindo ou não a obrigatoriedade da apresentação prévia de testes negativos de Covid-19, a fim de se evitar o livre arbítrio dos promotores e eventuais incompreensões com o público. 

De recordar que as violações das normas do Decreto Presidencial serão sancionadas com multas, que vão de AKZ 200.000,00 (duzentos mil Kwanzas) a AKZ 300.000,00 (trezentos mil Kwanzas), sem prejuízo do encerramento temporário dos locais.

Segundo a directora da Step Models, Karina Barbosa, existem mecanismos para promover eventos controlados, obedecendo a todas as normas de biossegurança.

Para si, o novo diploma e o consequente alívio das medidas de desconfinamento já se impunham, sublinhando ser possível fazer eventos perfeitamente seguros.

"É seguro ir a um desfile de moda, assistir a uma peça de teatro ou show de música com a plateia sentada. Não entendo porquê que os cinemas estavam liberados há tanto tempo e os eventos não, se a lógica de seatting é a mesma", comentou.

Na visão da empresária, seria pertinente que a medida viesse acompanhada do acesso ao fundo para a retoma, “anunciado/prometido pelo Executivo, no ano passado”.

Sem este apoio, fundamenta a promotora, fica seriamente comprometida a subsistência e a sobrevivência das empresas e dos profissionais individuais, que se viram impedidos de trabalhar e realizar receitas para cobrir os seus custos fixos.

De igual modo, diz, a falta de apoio não permite melhorar os planos das empresas e assegurar o pagamento de salários e de outros serviços, como aluguer de escritórios, armazéns, viaturas, seguros, manutenção de estruturas e encargos administrativos.

"É essencial que o Governo financie as empresas produtoras de eventos com agendas específicas, para que tenham meios de iniciar a retoma, uma vez que estas depois subcontratam todos os outros intervenientes desta indústria, como artistas, empresas de estruturas, seguranças, catering, actores, modelos, protocolos, geradores, gráficas (...) ".

Karina Barbosa afirma serem os promotores que movimentam o sector, para depois devolverem parte ao Estado, através do pagamento dos seus impostos.

O também promotor de eventos Yuri Simão diz que, apesar de ainda haver receios de propagação do vírus, a medida contida no novo Decreto Presidencial é acertada.

"Com a nova vaga do Covid-19 para nós é complicado. Imagina estar a preparar agora um espectáculo, por conta da abertura das salas, e tão logo ter de cancelar já com os custos feitos, também por conta da pandemia", questiona.

Adianta que a Nova Energia será prudente, tendo em conta o eventual medo do próprio público de estar em um lugar fechado e contrair o vírus.

"A solução é deixar o tempo ditar as regras", refere Yuri Simão, acrescentando que o Governo podia ser mais ousado e apoiar as oficinas, visto que, mesmo paradas durante quase um ano, os mesmos continuam a pagar os impostos.

"Acredito que chegou a hora de se dar mais atenção e estudar nova forma de investimento, porque são muitas empresas a fechar, músicos a ficarem sem trabalho e muitas outras situações", expressa o empresário da promotora Nova Energia.

Já o director de teatro Sérgio Oliveira disse há dias à TPA, que a retoma dos espectáculos será de grande valia, em particular para os grupos teatrais, afirmando que a pandemia fez das artes cénicas angolanas uma manifestação claramente "moribunda".

Por: Ângela Correia Neto

À semelhança de muitos Estados, as actividades criativas, primeiras a serem suspensas por causa do novo coronavírus, estão entre as últimas que retomam a "marcha", numa altura de incertezas e grandes desafios impostos às economias mundiais.

É, sobejamente, sabido que a paralisação dos espectáculos, devido à particularidade de concentrarem pessoas em espaços restritos, representou um duro golpe para a "indústria do showbiz", agora reanimada com a possibilidade de reabertura das salas.

Apesar dos receios de contágios, particularmente da nova variante do coronavírus, o ano de 2021 afigura-se de grandes desafios para a classe dos promotores de eventos no país,  fundamentalmente na questão da combinação do binómio segurança sanitária/lucros.

Na verdade, o novo ano não podia começar melhor para os agentes culturais, que correm atrás do tempo para recuperar o seu público e oferecer diferentes manifestações artísticas, salvando uma "indústria" já com grandes sinais de insustentabilidade.

A volta dos espectáculos comerciais aos grandes palcos é uma das principais novidades do último Decreto Presidencial sobre a Situação de Calamidade Pública, que dá "luz verde" à realização de eventos culturais com até 50 por cento da lotação das salas.

Esta medida das autoridades angolanas surge para minimizar o impacto da pandemia no mercado do entretenimento nacional, que no entender de vários fazedores de arte tem sido dos "mais penalizados" pelas restrições impostas pelo Executivo.

Com o “reacender dos holofotes”, adivinha-se o regresso de milhares de criadores aos palcos e às passerelles, depois de quase 300 dias de "confinamento", situação que deixou dezenas de empresas à beira da falência e milhares de artistas na penúria.

Entre Março de 2020 e Janeiro deste ano, apenas os músicos promoveram actividades regulares, em formato de lives, através das plataformas digitais e da TV, enquanto que os sectores do teatro, da dança, moda e das artes plásticas viveram um quase "apagão".

A proibição da realização de espectáculos de carácter comercial cedo revelou-se um factor inibidor da criatividade dos promotores e artistas nacionais, que se dizem prontos para retomar as actividades regulares, apesar das incertezas do mercado.

Conforme os agentes culturais, a falta de show impactou fortemente na vida dos artistas e dos grupos, gerando uma retracção sem precedentes em toda a cadeia de produção, em termos de receitas, o que vai exigir criatividade e firmeza na hora do retorno.

Desde já, os promotores de evento aplaudem as novas medidas contidas no Decreto Presidencial sobre a Situação de Calamidade Pública, e prometem tudo fazer para um retorno seguro aos palcos e para reequilibrar as já "saturadas" tesouraria das empresas.

Todavia, há quem considere a margem de 50 por cento de ocupação das salas, ditada  pelo Governo, insuficiente para responder as necessidades do momento, sustentando que os promotores precisariam de outros incentivos para sobreviverem à crise.

Seguramente, esta limitação de espaços vai exigir dos promotores de eventos bastante prudência, criatividade e rigor na selecção dos espectadores, a fim de se evitar que a ânsia de gerar receitas e recuperar as tesourarias possa resultar em violações à Lei.  

No caso da música, por exemplo, os agentes culturais só podem realizar espectáculos de carácter não-dançante, até às 22 horas, com 50 por cento da capacidade dos espaços.

Para que isso ocorra dentro dos parâmetros do Decreto, os participantes devem estar sentados, com um distanciamento mínimo de 2 metros, e usar máscara facial, cabendo aos promotores gerir com rigor os acessos e a higienização das salas, para evitar multas.

Um dos principais desafios que se coloca aos promotores, nesta primeira etapa do retorno aos grandes palcos, será, certamente, a imperiosa contratação de empresas para desinfestação dos locais, situação que poderá tornar o negócio mais oneroso.

De igual modo, importa que os promotores preparem o ambiente cultural, garantam a segurança dos colaboradores e comuniquem, essencialmente, ao público as medidas adoptadas de segurança, a fim de estabelecerem nova relação de confiança.

Nesta hora do retorno, é fundamental que se clarifique e uniformize as regras de acesso do público às salas de espectáculo, definindo ou não a obrigatoriedade da apresentação prévia de testes negativos de Covid-19, a fim de se evitar o livre arbítrio dos promotores e eventuais incompreensões com o público. 

De recordar que as violações das normas do Decreto Presidencial serão sancionadas com multas, que vão de AKZ 200.000,00 (duzentos mil Kwanzas) a AKZ 300.000,00 (trezentos mil Kwanzas), sem prejuízo do encerramento temporário dos locais.

Segundo a directora da Step Models, Karina Barbosa, existem mecanismos para promover eventos controlados, obedecendo a todas as normas de biossegurança.

Para si, o novo diploma e o consequente alívio das medidas de desconfinamento já se impunham, sublinhando ser possível fazer eventos perfeitamente seguros.

"É seguro ir a um desfile de moda, assistir a uma peça de teatro ou show de música com a plateia sentada. Não entendo porquê que os cinemas estavam liberados há tanto tempo e os eventos não, se a lógica de seatting é a mesma", comentou.

Na visão da empresária, seria pertinente que a medida viesse acompanhada do acesso ao fundo para a retoma, “anunciado/prometido pelo Executivo, no ano passado”.

Sem este apoio, fundamenta a promotora, fica seriamente comprometida a subsistência e a sobrevivência das empresas e dos profissionais individuais, que se viram impedidos de trabalhar e realizar receitas para cobrir os seus custos fixos.

De igual modo, diz, a falta de apoio não permite melhorar os planos das empresas e assegurar o pagamento de salários e de outros serviços, como aluguer de escritórios, armazéns, viaturas, seguros, manutenção de estruturas e encargos administrativos.

"É essencial que o Governo financie as empresas produtoras de eventos com agendas específicas, para que tenham meios de iniciar a retoma, uma vez que estas depois subcontratam todos os outros intervenientes desta indústria, como artistas, empresas de estruturas, seguranças, catering, actores, modelos, protocolos, geradores, gráficas (...) ".

Karina Barbosa afirma serem os promotores que movimentam o sector, para depois devolverem parte ao Estado, através do pagamento dos seus impostos.

O também promotor de eventos Yuri Simão diz que, apesar de ainda haver receios de propagação do vírus, a medida contida no novo Decreto Presidencial é acertada.

"Com a nova vaga do Covid-19 para nós é complicado. Imagina estar a preparar agora um espectáculo, por conta da abertura das salas, e tão logo ter de cancelar já com os custos feitos, também por conta da pandemia", questiona.

Adianta que a Nova Energia será prudente, tendo em conta o eventual medo do próprio público de estar em um lugar fechado e contrair o vírus.

"A solução é deixar o tempo ditar as regras", refere Yuri Simão, acrescentando que o Governo podia ser mais ousado e apoiar as oficinas, visto que, mesmo paradas durante quase um ano, os mesmos continuam a pagar os impostos.

"Acredito que chegou a hora de se dar mais atenção e estudar nova forma de investimento, porque são muitas empresas a fechar, músicos a ficarem sem trabalho e muitas outras situações", expressa o empresário da promotora Nova Energia.

Já o director de teatro Sérgio Oliveira disse há dias à TPA, que a retoma dos espectáculos será de grande valia, em particular para os grupos teatrais, afirmando que a pandemia fez das artes cénicas angolanas uma manifestação claramente "moribunda".