Reino de Ombala ya Nalueque com olhar na modernização

Ondjiva – Localizado a 158 quilómetros a sudoeste da cidade Ondjiva, capital da província do Cunene, o secular reino de Ombala ya Nalueque, olha para a construção de infra-estruturas sociais como via para a sua modernização e desenvolvimento.

Apesar de preservar os seus traços tradicionais,  Onalueque, como também é conhecido, solicita ao governo a construção de escolas e de uma estrada que a liga a vila de Xangongo, para evitar a fuga de quadros à República da Namíbia, destino de muitos dos seus filhos em busca de formação, acabando por nacionalizar-se, na maioria dos casos.

O Rei de Onalueque, Mário Shatipamba, traz à estampa esta triste realidade, pois, socialmente as coisas tardam em acontecer, naquele espaço histórico,  palco de uma das maiores batalhas de resistência à ocupação colonial, em Setembro de 1904, a chamada batalha do Vau do Pembe.

Em entrevista à Angop, o soberano disse que a região foi apenas contemplada, desde 1975, com  algumas escolas do primeiro nível,  faltando unidades do I e II ciclos.

Faz referência há carência de escolas, porque mesmo as do I nível só existem na povoação do Omotolo, Chetekela e Dombodola, mas estas aldeias têm distâncias entre 20 e 25 quilómetros.

 “ Isto tem trazido  um grande  constrangimento porque temos crianças a caminhar mais 30 quilómetros para estudar. A maior parte dos pais manda às crianças à Namíbia para poderem estudar, porque fica mais próximo”, lamentou.

Outra dificuldade prende-se com a existência de condições para albergar os professores pois, segundo a autoridade tradicional,  os professores, quando vêm, percorrem 120 quilómetros.

“Imagine fazer este percurso a semana inteira, sem transportes e estradas em condições”, questiona.

Disse que a saída encontrada por muitos pais, quando os filhos atingem o II ciclo, é construir casebres de chapas próximo das escolas na vila do Xangongo,  há 60 quilómetros, mas a alternativa representa muitos riscos, principalmente para as meninas, que acabam por se desviar dos seus objectivos.

Perante este cenário, já perdemos muitos dos nossos filhos por irem estudar na Namíbia, onde depois do ensino médio e superior preferem se nacionalizar como namibianos para manter a sua vida estável.

“Isto atrapalha o nosso ambiente e preocupa-nos como angolanos. Ver os nossos  filhos a se fazerem de estrangeiros para poderem nivelar a sua vida. Quadros que deveriam dar o seu contributo para o desenvolvimento da região”, lamenta.

No domínio da saúde, disse que verificasse a carência constante de medicamentos no posto de saúde local, que são abastecidos intermitentemente.

A Namíbia, mais uma vez, tem sido a alternativa, mas neste período de pandemia, em que a fronteira está encerrada a situação é mais dramática, abundando os casos de doenças diarreicas, paludismo, entre outras.

A autoridade tradicional aponta também a construção de uma estrada até  Xangongo como alternativa para incentivar o empresariado a investir na região, através da criação de empreendimentos comerciais.

O drama da fome

A fome, consequência da seca do ano transacto que se prolonga até ao momento, foi igualmente motivo de conversa com o Rei de Onalueque, no trono há 16 anos, tendo informado que este mal afecta mais de 20 mil pessoas na região.

Segundo o entrevistado, na região há pouca água nas chimpacas e lagoas, porque  a maior parte, construídas nos anos 50, 60 até 70 pelos portugueses, encontram-se assoreadas e  sem capacidade para conservar o líquido.

As pessoas se deslocam com carroças para transportar águas com os burros e bois, percorrendo longas distâncias.

Para sobreviver, explicou, os habitantes  vendem os poucos animais que lhes restam, muitas vezes a preços desleais só para adquirir algo para comer.

Indagado sobre o número de refeições que as famílias fazem por dia, Shatipamba solta um sorriso irônico. “Se conseguir pelo menos uma refeição num dia já é motivo de grande satisfação”.

Mas no meio de tanta dificuldade, ainda há espaço para solidarizar-se com outros povos deslocados devido à fome, como as famílias do município dos Gambos (Huíla) que acabaram por se instalar em Ombala ya Nalueque a procura de algo para sobrevivência.

Mário Shatipanda relata que dividem o pouco que conseguem com estas 48 famílias deslocadas, idosos e diminuídos físicos.

Na nossa tradição, nós os Ambós dissemos “onde tem muitas pessoas e não tem alimento suficiente ninguém pode se saciar, mas pelo menos que cada um prove”, é nesta vertente que estamos a nos dividir com as pessoas que vivem à nossa volta.

A Construção do Sistema de Transferência de Água do rio Cunene, a partir da região do Cafu, veio trazer esperança em dias melhores, pois um dos canais vai atravessar a Ombala.

De acordo com o rei, a população tem assistido com satisfação a progressão desta empreitada, cujo final está previsto para Fevereiro de 2022.

 Encerramento da fronteira agrava situação social

O encerramento da fronteira com Namíbia, com medida de prevenção contra à Covid-19,  agravou a situação social dos habitantes de Onalueque, pois a educação, assistência médica e medicamentosa, bem como a aquisição de alimentos dependem da nação vizinha.

Os alunos têm mesmo de arriscar e passar por caminhos não oficiais, porque senão perdem o ano lectivo, uma situação de risco pois têm sempre de contornar as autoridades migratórias.

Nesta perspectiva, Mário Shatipamba solicita ao governo para repensar a questão do encerramento, olhando especificamente para esta população fronteiriça, porque deslocar-se para a cidade de Ondjiva ou Xangongo é muito mais distante e as pessoas não têm transporte para o efeito, nem dinheiro.

Reino resistente às batalhas de ocupação colonial

Ombala ya Nalueque, localizado no município de Ombadja, é um dos três  reinos da província do Cunene. Os outros dois são Ombala yo Mungo e Oukwanhama.

Na sua originalidade, Ombadja era apenas um único território, mas devido a sua vastidão, com andar dos tempos houve a necessidade de se dividir o território para um melhor controlo.

Então, optou-se pela divisão das duas Ombalas: Ombala yo Mungo e Ombala ya Nalueque.

O reino, segundo o soberano, tem uma história muito longa e alguns elementos complexos, mas continua a ser guardião dos hábitos e costumes dos povos Ambós, aliado à modernização.

Pai de 10 filhos, Mário Shatipamba disse que o reino começou a ser povoado a partir do século XV, provavelmente quando surgiram povos provenientes dos grandes lagos, com a finalidade de procurar melhores condições de vida.

Entre os traços característicos da sua trajectória salta à vista a guerra de resistência colonial, que durou 16 anos.

Neste particular, destaca a batalha registada em 1891, na localidade de Omdube yo Fengue, onde o invasor colonial saiu derrotado.

Segue-se, a 25 de Setembro de 1904, a memorável batalha do Vau do Pembe, considerada a maior derrota da ocupação colonial portuguesa em África.

O confronto opôs um destacamento de forças do exército português, comandado pelo capitão Luís Pinto de Almeida e guerreiros Cuamato, sob as ordens do Rei Oshietekela, e resultou na total derrota das forças portuguesas, que perderam cerca de 250 homens, mais de metade do efectivo presente.

Esta batalha faz parte das poucas vitórias africanas contra uma potência europeia durante as guerras de ocupação colonial, tendo apenas paralelo na Batalha de Isandhlwana, ganha pelo Zulus contra os britânicos em 1879, ou na batalha de Adoua ganha pelos etíopes contra os italianos em 1896.

 

 

Apesar de preservar os seus traços tradicionais,  Onalueque, como também é conhecido, solicita ao governo a construção de escolas e de uma estrada que a liga a vila de Xangongo, para evitar a fuga de quadros à República da Namíbia, destino de muitos dos seus filhos em busca de formação, acabando por nacionalizar-se, na maioria dos casos.

O Rei de Onalueque, Mário Shatipamba, traz à estampa esta triste realidade, pois, socialmente as coisas tardam em acontecer, naquele espaço histórico,  palco de uma das maiores batalhas de resistência à ocupação colonial, em Setembro de 1904, a chamada batalha do Vau do Pembe.

Em entrevista à Angop, o soberano disse que a região foi apenas contemplada, desde 1975, com  algumas escolas do primeiro nível,  faltando unidades do I e II ciclos.

Faz referência há carência de escolas, porque mesmo as do I nível só existem na povoação do Omotolo, Chetekela e Dombodola, mas estas aldeias têm distâncias entre 20 e 25 quilómetros.

 “ Isto tem trazido  um grande  constrangimento porque temos crianças a caminhar mais 30 quilómetros para estudar. A maior parte dos pais manda às crianças à Namíbia para poderem estudar, porque fica mais próximo”, lamentou.

Outra dificuldade prende-se com a existência de condições para albergar os professores pois, segundo a autoridade tradicional,  os professores, quando vêm, percorrem 120 quilómetros.

“Imagine fazer este percurso a semana inteira, sem transportes e estradas em condições”, questiona.

Disse que a saída encontrada por muitos pais, quando os filhos atingem o II ciclo, é construir casebres de chapas próximo das escolas na vila do Xangongo,  há 60 quilómetros, mas a alternativa representa muitos riscos, principalmente para as meninas, que acabam por se desviar dos seus objectivos.

Perante este cenário, já perdemos muitos dos nossos filhos por irem estudar na Namíbia, onde depois do ensino médio e superior preferem se nacionalizar como namibianos para manter a sua vida estável.

“Isto atrapalha o nosso ambiente e preocupa-nos como angolanos. Ver os nossos  filhos a se fazerem de estrangeiros para poderem nivelar a sua vida. Quadros que deveriam dar o seu contributo para o desenvolvimento da região”, lamenta.

No domínio da saúde, disse que verificasse a carência constante de medicamentos no posto de saúde local, que são abastecidos intermitentemente.

A Namíbia, mais uma vez, tem sido a alternativa, mas neste período de pandemia, em que a fronteira está encerrada a situação é mais dramática, abundando os casos de doenças diarreicas, paludismo, entre outras.

A autoridade tradicional aponta também a construção de uma estrada até  Xangongo como alternativa para incentivar o empresariado a investir na região, através da criação de empreendimentos comerciais.

O drama da fome

A fome, consequência da seca do ano transacto que se prolonga até ao momento, foi igualmente motivo de conversa com o Rei de Onalueque, no trono há 16 anos, tendo informado que este mal afecta mais de 20 mil pessoas na região.

Segundo o entrevistado, na região há pouca água nas chimpacas e lagoas, porque  a maior parte, construídas nos anos 50, 60 até 70 pelos portugueses, encontram-se assoreadas e  sem capacidade para conservar o líquido.

As pessoas se deslocam com carroças para transportar águas com os burros e bois, percorrendo longas distâncias.

Para sobreviver, explicou, os habitantes  vendem os poucos animais que lhes restam, muitas vezes a preços desleais só para adquirir algo para comer.

Indagado sobre o número de refeições que as famílias fazem por dia, Shatipamba solta um sorriso irônico. “Se conseguir pelo menos uma refeição num dia já é motivo de grande satisfação”.

Mas no meio de tanta dificuldade, ainda há espaço para solidarizar-se com outros povos deslocados devido à fome, como as famílias do município dos Gambos (Huíla) que acabaram por se instalar em Ombala ya Nalueque a procura de algo para sobrevivência.

Mário Shatipanda relata que dividem o pouco que conseguem com estas 48 famílias deslocadas, idosos e diminuídos físicos.

Na nossa tradição, nós os Ambós dissemos “onde tem muitas pessoas e não tem alimento suficiente ninguém pode se saciar, mas pelo menos que cada um prove”, é nesta vertente que estamos a nos dividir com as pessoas que vivem à nossa volta.

A Construção do Sistema de Transferência de Água do rio Cunene, a partir da região do Cafu, veio trazer esperança em dias melhores, pois um dos canais vai atravessar a Ombala.

De acordo com o rei, a população tem assistido com satisfação a progressão desta empreitada, cujo final está previsto para Fevereiro de 2022.

 Encerramento da fronteira agrava situação social

O encerramento da fronteira com Namíbia, com medida de prevenção contra à Covid-19,  agravou a situação social dos habitantes de Onalueque, pois a educação, assistência médica e medicamentosa, bem como a aquisição de alimentos dependem da nação vizinha.

Os alunos têm mesmo de arriscar e passar por caminhos não oficiais, porque senão perdem o ano lectivo, uma situação de risco pois têm sempre de contornar as autoridades migratórias.

Nesta perspectiva, Mário Shatipamba solicita ao governo para repensar a questão do encerramento, olhando especificamente para esta população fronteiriça, porque deslocar-se para a cidade de Ondjiva ou Xangongo é muito mais distante e as pessoas não têm transporte para o efeito, nem dinheiro.

Reino resistente às batalhas de ocupação colonial

Ombala ya Nalueque, localizado no município de Ombadja, é um dos três  reinos da província do Cunene. Os outros dois são Ombala yo Mungo e Oukwanhama.

Na sua originalidade, Ombadja era apenas um único território, mas devido a sua vastidão, com andar dos tempos houve a necessidade de se dividir o território para um melhor controlo.

Então, optou-se pela divisão das duas Ombalas: Ombala yo Mungo e Ombala ya Nalueque.

O reino, segundo o soberano, tem uma história muito longa e alguns elementos complexos, mas continua a ser guardião dos hábitos e costumes dos povos Ambós, aliado à modernização.

Pai de 10 filhos, Mário Shatipamba disse que o reino começou a ser povoado a partir do século XV, provavelmente quando surgiram povos provenientes dos grandes lagos, com a finalidade de procurar melhores condições de vida.

Entre os traços característicos da sua trajectória salta à vista a guerra de resistência colonial, que durou 16 anos.

Neste particular, destaca a batalha registada em 1891, na localidade de Omdube yo Fengue, onde o invasor colonial saiu derrotado.

Segue-se, a 25 de Setembro de 1904, a memorável batalha do Vau do Pembe, considerada a maior derrota da ocupação colonial portuguesa em África.

O confronto opôs um destacamento de forças do exército português, comandado pelo capitão Luís Pinto de Almeida e guerreiros Cuamato, sob as ordens do Rei Oshietekela, e resultou na total derrota das forças portuguesas, que perderam cerca de 250 homens, mais de metade do efectivo presente.

Esta batalha faz parte das poucas vitórias africanas contra uma potência europeia durante as guerras de ocupação colonial, tendo apenas paralelo na Batalha de Isandhlwana, ganha pelo Zulus contra os britânicos em 1879, ou na batalha de Adoua ganha pelos etíopes contra os italianos em 1896.