Empreendedorismo ganha espaço entre as mulheres

  • Mulheres apostam na agro-pecuária
Luanda – Perseverança, foco, criatividade, talento e dedicação são algumas das qualidades comuns na trajectória inspiradora de várias mulheres empreendedoras angolanas, muitas das quais são os principais pilares das suas famílias.

Em homenagem ao Dia da Mulher Angolana e ao Dia Internacional da Mulher, 2 e 8 de Março, respectivamente, a ANGOP colheu relatos de empreendedoras, que, com determinação, força e fé, transformaram e continuam a transformar as dificuldades em oportunidades.

Um dos exemplos vem de Maria António Pedro, que começou a vender peixe, em 1994, aos 16 anos, na Praia da Firmar, orla marítima do Sumbe, Cuanza Sul. Por cada venda, poupava 20 kwanzas. Da poupança viria adquirir, mais tarde, a sua primeira embarcação pesqueira.

“Eu poupava 20 kwanzas e era questionada sobre o que faria com tão pouco valor. Hoje, tenho quatro embarcações de pesca à linha, uma de rapa, 36 trabalhadores e já inspiro muita gente sobre como evoluir no negócio”, relata.

“Aconselharam-me, para começar, mandar fabricar uma chata, comprar um motor 1.5 e uma rede. Contratei dois jovens, que se faziam ao mar de manhã e voltavam à tarde, com peixe que eu secava e vendia depois”, conta.

Quatro anos depois, disse, mesmo sem apoio bancário, adquiriu um motor mais potente, Hp-15, duas arcas obsoletas para acondicionar o peixe, objectivando começar a pesca de linha, tendo, nos dois anos seguintes, comprado o Hp-25 e o Hp-40 e empregue mais marinheiros.

Do dinheiro de cada pesca, sem precisar as quantidades, reparte-se para o combustível, para os marinheiros e, por fim, para a proprietária.

A sua ambição é adquirir uma embarcação com uma capacidade para um mínimo de 25 pessoas, entre os quais, marinheiros.

Já na província do Bengo, 38 mulheres processadoras, pertencentes a duas cooperativas, transformam 50 quilos de peixe fresco em seco, por dia, e produzem  farinha de peixe.

As empreendedoras necessitam de facas, embarcações e todo kit de pesca (rede, motores e fios), por forma a imprimirem uma maior dinâmica à actividade.

Em declarações à ANGOP, Joana Sandra Miguel, processadora, disse que a cooperativa precisa também de reactivar o Centro de Apoio à Pesca, para uma melhor organização e facilidade a possíveis apoios.

Apesar das dificuldades, a cooperativa quer implementar um projecto de aquicultura e agricultura, pelo que apelam por mais apoios governamentais.

Na província do Huambo, uma cooperativa agrícola, Tuapama, com 63 mulheres, procura financiamento de instituições bancárias e ONG’s, objectivando adquirir sementes para o cultivo de batata do reino (batata), feijão e tomate nas zonas ribeirinhas.

A organização previa colher mais de 100 toneladas de milho e feijão, em 50 hectares, no presente ano, mas, por causa da seca, esse objectivo vai rondar apenas os 35 por cento.

Neste momento, estão a ser preparados três hectares para batata, dois para feijão e igual número para tomate, visando recuperar os prejuízos financeiros resultantes da seca, segundo a responsável, Vitorina Emília Vassole.

Fundada em 2002, a organização tem o apoio da Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA), da Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA) e Ministério da Agricultura.

Em Ndalantando, na província do Cuanza Norte, a agro-empresária Maria Virgínia Mateus, disse que Angola pode tornar-se auto-sustentável em produtos agrícolas, bastando, para o efeito, que o governo facilite o acesso ao crédito aos agricultores.

Para a empresária, que investe no sector agrícola, desde 2013, exportadora de feijão para a República Democrática do Congo, o país tem potencialidade e terras férteis para passar de importador a exportador.

Criadora de gado bovino e cavalos, a investidora revelou que tem dificuldades de aquisição de vacinas para manter saudáveis os animais, tendo sido obrigada a recorrer à veterinários das províncias da Huíla e Luanda.

Maria Virgínia tem uma propriedade de mais de três mil hectares, na comuna de Samba Lucala (Samba Caju) e produz mandioca, batata, hortícolas, leguminosas, citrinos e feijão, em grande escala.

Na Lunda Sul, o mau estado das vias para se atingir os campos agrícolas tem dificultado a vida de algumas empreendedoras do ramo.

Beneficiária, em 2020, de um financiamento no âmbito do Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (Prodesi), Elsa Tanda fez saber que, por causa do mau estado das vias, tem tido dificuldades de escoar a produção que compra a cerca de 200 quilómetros.

O negócio da empreendedora resume-se à aquisição de produtos como batata-doce e batata, mandioca, cebola, hortaliças, frutas e ovos dos camponeses, para os revender na cidade.

Constam dos seus projectos, para este ano, a expansão do negócio para outras zonas da província, com vista a facilitar as famílias a adquirirem os produtos de campo, com quantidade e qualidade.

Na Lunda Sul, das culturas mais produzidas destacam-se a mandioca, o milho, cebola, feijão, abacaxi, limão, batata-doce, batata e hortaliças.

No Cunene, 25 mulheres empreendedoras de uma cooperativa agrícola e piscatória na localidade de Calueque, município de Ombadja, têm uma média anual de produção de cinco toneladas de produtos diversos.

A cooperativa, que existe há 10 anos, congrega 14 filiais, distribuídas pelos seis municípios da província, e colhe, entre outros produtos, massango, massambala, milho e hortícolas.

No domínio da pesca, no rio Cunene, a média de captura ronda as duas toneladas de peixe quimaia (cacusso) e bagre.

A coordenadora da Associação de Mulheres Empreendedoras no Cunene, Natália Pacavira Marwues, realçou que por falta de uma viatura e condições de conservação, os produtos acabam vendidos a preços muito baixos e outros estragam-se.

Antes do surgimento da Covid-19, em Março de 2019, os seus produtos eram comercializados na Namíbia, o que é impossível neste momento e provoca a baixa dos lucros.

A responsável pede a melhoria das vias de acesso, como forma de se facilitar o escoamento dos produtos do campo para as cidades, na medida em que o seu mau estado encarece o aluguer das viaturas.

Num outro quadrante, uma cooperativa de mulheres rurais no município da Catumbela, na província de Benguela, tenta produzir o mínimo possível de hortaliças e cereais com recurso a moto-bombas, numa altura em que a chuva escasseia pelo país.

Criada em 2014, inicialmente, por 700 mulheres camponesas do perímetro agrícola do município da Catumbela, a cooperativa integra 1.400 membros, ou seja, o dobro.

No primeiro ano de experiência, possuía 160 hectares e, actualmente, são já 235 hectares, com primazia para a produção de hortaliças, cereais, leguminosas e tubérculos, principais culturas da Catumbela, chegando a colher acima de 10 toneladas por safra.

Aos 55 anos, a agricultora Faustina Naquele é a líder daquela cooperativa. À ANGOP admitiu que a situação da seca piora a cada dia, na Catumbela, mas sublinha que as mulheres arregaçam as mangas e fazem a sua parte perante o desafio de produzir alimentos.

Com a estiagem, apenas 500 mulheres, das 1.250 na cooperativa, estão a conseguir produzir, a meio gás. A alternativa é o aluguer de moto-bombas a terceiros,  pagando 500 kwanzas por cada talhão irrigado em 30 minutos.

Para mudar este cenário, Faustina Naquele, para quem a seca está a condicionar a produção agrícola e deixa os campos “sem vida”, pede ao Governo 10 moto-bombas, dois tractores com alfaias e cinco toneladas de fertilizantes.

Igualmente sugere a reabilitação do canal do açude do rio Catumbela, para aumentar a disponibilidade de água para os camponeses.

Na província de Malanje, Ana José, com 59 anos de idade e um longo percurso de sacrifício e determinação, é actualmente dos principais rostos do empreendedorismo, que soube “fintar” as dificuldades da vida e criar a própria empresa (AJOMAL), empregando 155 colaboradores.

Ana José estreou-se no empreendedorismo, aos 15 anos, com a venda de jinguba torrada (amendoim), nos mercados da cidade de Malanje.

Antes de iniciar a sua própria actividade, auxiliava a irmã mais velha, que confeccionava alimentos na antiga Companhia Geral dos Algodões de Angola (Cotonaang), tendo, mais tarde, amealhado 10 escudos com os quais começou a empreender.

“Tia Seja”, como é igualmente tratada, conta que, volvidos alguns anos, o negócio prosperou, diversificou os produtos, com a introdução de bebidas e peixe seco, este último que resultava da permuta por bombó e farinha torrada, na província do Namibe.

Em 1994 criou, com o seu esposo, a empresa de prestação de serviços AJOMAL, do negócio de agropecuária e transporte, que permitiu a criação de 155 postos de trabalho.

No domínio agrícola, a AJOMAL está a produzir café, experimentalmente, em cinco hectares, três hectares de banana-pão e de mesa e 40 hectares de milho.

Na pecuária, dispõe de 300 cabeças de gado bovino, mais de 100 caprinos, 55 suínos, a par de mil 350 galinhas.

A interlocutora frisou que, não obstante os obstáculos, nunca desistiu por “amor” ao que faz e por Malanje.

“Empreender exige amor e carinho. Não precisamos começar com grandes passos, pois grão a grão, a galinha enche o papo”, aconselha a empreendedora, licenciada em gestão de hotelaria e turismo.

Já no Zaire, a gestora de empresa de prestação de serviços Alice Maisa aponta a determinação como segredo para o sucesso no mundo de negócios, dependendo, em grande medida, da força de vontade, visão e determinação do investidor.

A empreendedora é proprietária de uma empresa ligada ao serviço de gráfica, restauração, limpeza e jardinagem e emprega aproximadamente 150 jovens.

Questionada pela ANGOP sobre a sua experiência, contou que é com a força de vencer, fé e determinação que, há oito anos, abraçou o sector da restauração, depois de uma breve passagem pelo negócio de comércio de vestuário, corte e costura de trajes africanos.

A empresária, que exerce a sua actividade com fundos próprios, falou do espírito de “abnegação” que lhe foi incutido, desde tenra idade, pela tia, como outro dos pressupostos do triunfo.

Neste momento, a empreendedora que aconselha os jovens a serem mais “proactivos” e a dedicarem-se mais aos estudos, aguarda por um financiamento do Programa de Alívio Económico do Executivo, com o fito de alavancar uma fazenda agrícola em Mbanza Kongo.

Por sua vez, na província da Lunda Norte, uma empresária que iniciou o seu negócio vendendo peixe seco "cabuenha", num dos mercados informais no município de Chitato, prosperou ao longo dos anos e é, hoje, proprietária de dois restaurantes, uma hospedaria, um talho e várias câmaras frigoríficas.

Trata-se da empresária Carminda Tiago, uma mulher que começou a sua actividade com apenas 17 anos, nos anos 80, e hoje emprega 50 jovens. 

De acordo com a empreendedora, a iniciativa começou em 2003, pela comercialização, em grande escala, de produtos perecíveis (carne, frutas, legumes e especiarias). 

Actualmente, “Dona Carminda” é inspiração para as jovens mulheres que pretendem empreender na Lunda Norte.

A empresária sonha em alargar a sua rede de restaurantes pelos 10 municípios e garantir mais postos de trabalho na circunscrição. 

Enquanto isso, no Namibe, a abertura de salões para o tratamento da beleza da mulher tornou-se num negócio rentável, para muitas jovens empreendedoras, nesta altura da pandemia.

Neste quadro, a empreendedora Linda Lukombo, 26 anos, disse que ganhou o gosto pela profissão, quando trançava o cabelo das irmãs. Posteriormente, trabalhou em salões de beleza e, há três anos, abriu o seu próprio empreendimento.

Um dos seus maiores sonhos é o de abrir um salão de beleza unissexo, onde haja, também, tratamento da pele.

Apesar da pouca clientela, por causa do fraco poder económico em função das carências provocadas pela pandemia da Covid-19, a empreendedora está confiante e aguarda por dias melhores.

A empreendedora Angélica Amélia Rafael criou, na cidade do Luena, província do Moxico, um restaurante denominado “Cozinha do Futuro”, empregando 18 jovens.

Foram precisos 14 anos para concretizar esse seu sonho, virado, essencialmente, a servir os pratos típicos da região, gastando, ao todo, 26 milhões de Kwanzas.

Para concretizar esse desejo, iniciado em 2006, com uma simples barraca num jardim público, numa altura em que a cidade do Luena dispunha apenas de um restaurante, essa vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria no Moxico teve de trabalhar árduo e com disciplina.

Essa disciplina e comprometimento levou essa professora de empreendedorismo, no Liceu do Bairro Capango, a transformar e economizar o pouco que conseguia das barracas e dívidas às pessoas de boa-fé, para evitar contrair um crédito bancário.

Além do restaurante, presta outros serviços como decorações de interiores e festas de casamentos, banquetes, aniversários, eventos culturais, dentro e fora do Luena.

Natural da província de Benguela e residente no Bié, Benvinda da Silva é proprietária de um dos principais restaurantes do município do Andulo, o Brezinia, um espaço que abriu com muito sacrifício e dedicação. 

Mais conhecida por “Tia Bev”, de 54 anos de idade, chegou ao Bié em 2004, procurando por uma estabilidade económica e financeira, tendo começado na capital Cuito, no negócio de peixe, mas, por falta de experiência, não vingou.  

Apesar das vicissitudes, abriu um pequeno espaço no Andulo, onde servia refeições. Com o passar do tempo, conseguiu um outro lugar maior, tido, hoje, como principal sítio para se degustar boa comida, essencialmente a típica bien.

No restaurante Brezinia, há desde o funge (milho ou bombó) com cabidela, folhas de abóbora e feijão manteiga. Serve-se também carne de caça seca ou fresca, peixe, kizaca e outros vegetais. Come-se igualmente arroz, batata, batata-doce, entre outros pratos.  

Neste momento, com seis funcionários, entre balconista, cozinheiro e chefe de sala, os serviços do restaurante da “Tia Bev” são procurados não apenas pelos munícipes locais, mas também por turistas idos de outros pontos do país.

A empreendedora Benvinda da Silva diz que o seu sucesso é fruto de muita dedicação, empenho e, acima de tudo, persistência. 

Para si, a mulher empreendedora está pronta para ajudar o desenvolvimento do país, precisando apenas de apoio das autoridades.

Yola Cláudia Sarmento, 40 anos de idade, natural da comuna da Catala, município de Quilengues, província da Huíla, foi uma referência de beleza feminina em 1997, na escola 27 de Março, e que hoje se tornou numa destacada empreendedora que ajudou a revolucionar o mundo da decoração de eventos nestas paragens.

“Nunca foi meu sonho fazer decorações de eventos, mas o contexto obrigou-me a reinventar, sobretudo por sugestões dos clientes, que, cada vez mais, pediam serviço completo e não mais parei”, conta.

Proprietária de um salão de festas nos arredores do Lubango, iniciou a sua actividade em 2009, com o aluguer do seu recinto para a celebração de festas de casamentos e de aniversários, mas o negócio estendeu-se depois para outros ramos, entre os quais a decoração.

A empreendedora admite que é um negócio rentável, mas exige “muita” disciplina e contenção, pois os gastos são avultados, com o material adquirido na capital do país, Luanda, em virtude dos altos preços praticados localmente.

Actualmente, a empreendedora que começou a actividade sozinha, conta com 40 colaboradores.

“Ganhei gosto pela culinária e o sector hoteleiro quando ajudava o meu pai, cozinheiro de profissão, a preparar as refeições”, explica Rosita Viegas Rosita, 64 anos de idade, proprietária de dois restaurantes, no Uíge, desde 2001, nos quais predomina comida típica da região.

Para reduzir gastos, a gestora produz os produtos do campo para os seus restaurantes que assegura mais de 40 postos de trabalho.

Dona Rosita apontou o estudo do mercado, planeamento, amor ao trabalho, dedicação e persistência como factores do sucesso.

Num outro ângulo, há dois anos, Teresa Lourenço (Mamã Teté), 56 anos, é a primeira mulher a enveredar por uma ocupação antes exercida apenas por homens adolescentes e jovens, em Luanda.

Trata-se da ocupação de “Lotador”, uma expressão atribuída ao cidadão que angaria passageiros para um táxi, permitindo a sua rápida lotação, ganhando o valor da viagem de um dos passageiros (150 kz), por cada veículo.

Sinto-me orgulhosa do trabalho que faço porque consigo sustentar a minha família”, disse a Mamã Teté.

A sua jornada começa às cinco (5) horas, com a lotação de viaturas para táxi, com as rotas Aeroporto/Mutamba/Zamba-2/Ginga Mbandi, São Pulo/Congolenses/Rocha Gamek/Multiperfil, entre outras, arrecadando, por dia, entre oito (8) mil a 10 mil Kwanzas.

Conta que o que ganha no final da jornada é obrigada a repartir com o responsável da “placa da staff”, paragem em que se fixa para chamar os passageiros.

Em muitos casos, os lotadores são confundidos com o cobrador. A lotação, geralmente, é feita de forma coerciva e abusiva, ou seja, sem o devido consentimento do taxista e do seu legítimo cobrador, razão pela qual a Polícia Nacional tem estado a desincentivar esta prática.

Mamã Teté tem como seu ponto fixo a paragem do Aeroporto, próximo à pedonal do bairro Cassenda, distrito da Maianga.

A “placa” é o local onde os membros das organizações (STAFF) de taxistas encontram-se periodicamente para abordarem questões ligadas ao exercício da actividade.

 

 

Em homenagem ao Dia da Mulher Angolana e ao Dia Internacional da Mulher, 2 e 8 de Março, respectivamente, a ANGOP colheu relatos de empreendedoras, que, com determinação, força e fé, transformaram e continuam a transformar as dificuldades em oportunidades.

Um dos exemplos vem de Maria António Pedro, que começou a vender peixe, em 1994, aos 16 anos, na Praia da Firmar, orla marítima do Sumbe, Cuanza Sul. Por cada venda, poupava 20 kwanzas. Da poupança viria adquirir, mais tarde, a sua primeira embarcação pesqueira.

“Eu poupava 20 kwanzas e era questionada sobre o que faria com tão pouco valor. Hoje, tenho quatro embarcações de pesca à linha, uma de rapa, 36 trabalhadores e já inspiro muita gente sobre como evoluir no negócio”, relata.

“Aconselharam-me, para começar, mandar fabricar uma chata, comprar um motor 1.5 e uma rede. Contratei dois jovens, que se faziam ao mar de manhã e voltavam à tarde, com peixe que eu secava e vendia depois”, conta.

Quatro anos depois, disse, mesmo sem apoio bancário, adquiriu um motor mais potente, Hp-15, duas arcas obsoletas para acondicionar o peixe, objectivando começar a pesca de linha, tendo, nos dois anos seguintes, comprado o Hp-25 e o Hp-40 e empregue mais marinheiros.

Do dinheiro de cada pesca, sem precisar as quantidades, reparte-se para o combustível, para os marinheiros e, por fim, para a proprietária.

A sua ambição é adquirir uma embarcação com uma capacidade para um mínimo de 25 pessoas, entre os quais, marinheiros.

Já na província do Bengo, 38 mulheres processadoras, pertencentes a duas cooperativas, transformam 50 quilos de peixe fresco em seco, por dia, e produzem  farinha de peixe.

As empreendedoras necessitam de facas, embarcações e todo kit de pesca (rede, motores e fios), por forma a imprimirem uma maior dinâmica à actividade.

Em declarações à ANGOP, Joana Sandra Miguel, processadora, disse que a cooperativa precisa também de reactivar o Centro de Apoio à Pesca, para uma melhor organização e facilidade a possíveis apoios.

Apesar das dificuldades, a cooperativa quer implementar um projecto de aquicultura e agricultura, pelo que apelam por mais apoios governamentais.

Na província do Huambo, uma cooperativa agrícola, Tuapama, com 63 mulheres, procura financiamento de instituições bancárias e ONG’s, objectivando adquirir sementes para o cultivo de batata do reino (batata), feijão e tomate nas zonas ribeirinhas.

A organização previa colher mais de 100 toneladas de milho e feijão, em 50 hectares, no presente ano, mas, por causa da seca, esse objectivo vai rondar apenas os 35 por cento.

Neste momento, estão a ser preparados três hectares para batata, dois para feijão e igual número para tomate, visando recuperar os prejuízos financeiros resultantes da seca, segundo a responsável, Vitorina Emília Vassole.

Fundada em 2002, a organização tem o apoio da Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente (ADRA), da Estação de Desenvolvimento Agrário (EDA) e Ministério da Agricultura.

Em Ndalantando, na província do Cuanza Norte, a agro-empresária Maria Virgínia Mateus, disse que Angola pode tornar-se auto-sustentável em produtos agrícolas, bastando, para o efeito, que o governo facilite o acesso ao crédito aos agricultores.

Para a empresária, que investe no sector agrícola, desde 2013, exportadora de feijão para a República Democrática do Congo, o país tem potencialidade e terras férteis para passar de importador a exportador.

Criadora de gado bovino e cavalos, a investidora revelou que tem dificuldades de aquisição de vacinas para manter saudáveis os animais, tendo sido obrigada a recorrer à veterinários das províncias da Huíla e Luanda.

Maria Virgínia tem uma propriedade de mais de três mil hectares, na comuna de Samba Lucala (Samba Caju) e produz mandioca, batata, hortícolas, leguminosas, citrinos e feijão, em grande escala.

Na Lunda Sul, o mau estado das vias para se atingir os campos agrícolas tem dificultado a vida de algumas empreendedoras do ramo.

Beneficiária, em 2020, de um financiamento no âmbito do Programa de Apoio à Produção, Diversificação das Exportações e Substituição das Importações (Prodesi), Elsa Tanda fez saber que, por causa do mau estado das vias, tem tido dificuldades de escoar a produção que compra a cerca de 200 quilómetros.

O negócio da empreendedora resume-se à aquisição de produtos como batata-doce e batata, mandioca, cebola, hortaliças, frutas e ovos dos camponeses, para os revender na cidade.

Constam dos seus projectos, para este ano, a expansão do negócio para outras zonas da província, com vista a facilitar as famílias a adquirirem os produtos de campo, com quantidade e qualidade.

Na Lunda Sul, das culturas mais produzidas destacam-se a mandioca, o milho, cebola, feijão, abacaxi, limão, batata-doce, batata e hortaliças.

No Cunene, 25 mulheres empreendedoras de uma cooperativa agrícola e piscatória na localidade de Calueque, município de Ombadja, têm uma média anual de produção de cinco toneladas de produtos diversos.

A cooperativa, que existe há 10 anos, congrega 14 filiais, distribuídas pelos seis municípios da província, e colhe, entre outros produtos, massango, massambala, milho e hortícolas.

No domínio da pesca, no rio Cunene, a média de captura ronda as duas toneladas de peixe quimaia (cacusso) e bagre.

A coordenadora da Associação de Mulheres Empreendedoras no Cunene, Natália Pacavira Marwues, realçou que por falta de uma viatura e condições de conservação, os produtos acabam vendidos a preços muito baixos e outros estragam-se.

Antes do surgimento da Covid-19, em Março de 2019, os seus produtos eram comercializados na Namíbia, o que é impossível neste momento e provoca a baixa dos lucros.

A responsável pede a melhoria das vias de acesso, como forma de se facilitar o escoamento dos produtos do campo para as cidades, na medida em que o seu mau estado encarece o aluguer das viaturas.

Num outro quadrante, uma cooperativa de mulheres rurais no município da Catumbela, na província de Benguela, tenta produzir o mínimo possível de hortaliças e cereais com recurso a moto-bombas, numa altura em que a chuva escasseia pelo país.

Criada em 2014, inicialmente, por 700 mulheres camponesas do perímetro agrícola do município da Catumbela, a cooperativa integra 1.400 membros, ou seja, o dobro.

No primeiro ano de experiência, possuía 160 hectares e, actualmente, são já 235 hectares, com primazia para a produção de hortaliças, cereais, leguminosas e tubérculos, principais culturas da Catumbela, chegando a colher acima de 10 toneladas por safra.

Aos 55 anos, a agricultora Faustina Naquele é a líder daquela cooperativa. À ANGOP admitiu que a situação da seca piora a cada dia, na Catumbela, mas sublinha que as mulheres arregaçam as mangas e fazem a sua parte perante o desafio de produzir alimentos.

Com a estiagem, apenas 500 mulheres, das 1.250 na cooperativa, estão a conseguir produzir, a meio gás. A alternativa é o aluguer de moto-bombas a terceiros,  pagando 500 kwanzas por cada talhão irrigado em 30 minutos.

Para mudar este cenário, Faustina Naquele, para quem a seca está a condicionar a produção agrícola e deixa os campos “sem vida”, pede ao Governo 10 moto-bombas, dois tractores com alfaias e cinco toneladas de fertilizantes.

Igualmente sugere a reabilitação do canal do açude do rio Catumbela, para aumentar a disponibilidade de água para os camponeses.

Na província de Malanje, Ana José, com 59 anos de idade e um longo percurso de sacrifício e determinação, é actualmente dos principais rostos do empreendedorismo, que soube “fintar” as dificuldades da vida e criar a própria empresa (AJOMAL), empregando 155 colaboradores.

Ana José estreou-se no empreendedorismo, aos 15 anos, com a venda de jinguba torrada (amendoim), nos mercados da cidade de Malanje.

Antes de iniciar a sua própria actividade, auxiliava a irmã mais velha, que confeccionava alimentos na antiga Companhia Geral dos Algodões de Angola (Cotonaang), tendo, mais tarde, amealhado 10 escudos com os quais começou a empreender.

“Tia Seja”, como é igualmente tratada, conta que, volvidos alguns anos, o negócio prosperou, diversificou os produtos, com a introdução de bebidas e peixe seco, este último que resultava da permuta por bombó e farinha torrada, na província do Namibe.

Em 1994 criou, com o seu esposo, a empresa de prestação de serviços AJOMAL, do negócio de agropecuária e transporte, que permitiu a criação de 155 postos de trabalho.

No domínio agrícola, a AJOMAL está a produzir café, experimentalmente, em cinco hectares, três hectares de banana-pão e de mesa e 40 hectares de milho.

Na pecuária, dispõe de 300 cabeças de gado bovino, mais de 100 caprinos, 55 suínos, a par de mil 350 galinhas.

A interlocutora frisou que, não obstante os obstáculos, nunca desistiu por “amor” ao que faz e por Malanje.

“Empreender exige amor e carinho. Não precisamos começar com grandes passos, pois grão a grão, a galinha enche o papo”, aconselha a empreendedora, licenciada em gestão de hotelaria e turismo.

Já no Zaire, a gestora de empresa de prestação de serviços Alice Maisa aponta a determinação como segredo para o sucesso no mundo de negócios, dependendo, em grande medida, da força de vontade, visão e determinação do investidor.

A empreendedora é proprietária de uma empresa ligada ao serviço de gráfica, restauração, limpeza e jardinagem e emprega aproximadamente 150 jovens.

Questionada pela ANGOP sobre a sua experiência, contou que é com a força de vencer, fé e determinação que, há oito anos, abraçou o sector da restauração, depois de uma breve passagem pelo negócio de comércio de vestuário, corte e costura de trajes africanos.

A empresária, que exerce a sua actividade com fundos próprios, falou do espírito de “abnegação” que lhe foi incutido, desde tenra idade, pela tia, como outro dos pressupostos do triunfo.

Neste momento, a empreendedora que aconselha os jovens a serem mais “proactivos” e a dedicarem-se mais aos estudos, aguarda por um financiamento do Programa de Alívio Económico do Executivo, com o fito de alavancar uma fazenda agrícola em Mbanza Kongo.

Por sua vez, na província da Lunda Norte, uma empresária que iniciou o seu negócio vendendo peixe seco "cabuenha", num dos mercados informais no município de Chitato, prosperou ao longo dos anos e é, hoje, proprietária de dois restaurantes, uma hospedaria, um talho e várias câmaras frigoríficas.

Trata-se da empresária Carminda Tiago, uma mulher que começou a sua actividade com apenas 17 anos, nos anos 80, e hoje emprega 50 jovens. 

De acordo com a empreendedora, a iniciativa começou em 2003, pela comercialização, em grande escala, de produtos perecíveis (carne, frutas, legumes e especiarias). 

Actualmente, “Dona Carminda” é inspiração para as jovens mulheres que pretendem empreender na Lunda Norte.

A empresária sonha em alargar a sua rede de restaurantes pelos 10 municípios e garantir mais postos de trabalho na circunscrição. 

Enquanto isso, no Namibe, a abertura de salões para o tratamento da beleza da mulher tornou-se num negócio rentável, para muitas jovens empreendedoras, nesta altura da pandemia.

Neste quadro, a empreendedora Linda Lukombo, 26 anos, disse que ganhou o gosto pela profissão, quando trançava o cabelo das irmãs. Posteriormente, trabalhou em salões de beleza e, há três anos, abriu o seu próprio empreendimento.

Um dos seus maiores sonhos é o de abrir um salão de beleza unissexo, onde haja, também, tratamento da pele.

Apesar da pouca clientela, por causa do fraco poder económico em função das carências provocadas pela pandemia da Covid-19, a empreendedora está confiante e aguarda por dias melhores.

A empreendedora Angélica Amélia Rafael criou, na cidade do Luena, província do Moxico, um restaurante denominado “Cozinha do Futuro”, empregando 18 jovens.

Foram precisos 14 anos para concretizar esse seu sonho, virado, essencialmente, a servir os pratos típicos da região, gastando, ao todo, 26 milhões de Kwanzas.

Para concretizar esse desejo, iniciado em 2006, com uma simples barraca num jardim público, numa altura em que a cidade do Luena dispunha apenas de um restaurante, essa vice-presidente da Câmara de Comércio e Indústria no Moxico teve de trabalhar árduo e com disciplina.

Essa disciplina e comprometimento levou essa professora de empreendedorismo, no Liceu do Bairro Capango, a transformar e economizar o pouco que conseguia das barracas e dívidas às pessoas de boa-fé, para evitar contrair um crédito bancário.

Além do restaurante, presta outros serviços como decorações de interiores e festas de casamentos, banquetes, aniversários, eventos culturais, dentro e fora do Luena.

Natural da província de Benguela e residente no Bié, Benvinda da Silva é proprietária de um dos principais restaurantes do município do Andulo, o Brezinia, um espaço que abriu com muito sacrifício e dedicação. 

Mais conhecida por “Tia Bev”, de 54 anos de idade, chegou ao Bié em 2004, procurando por uma estabilidade económica e financeira, tendo começado na capital Cuito, no negócio de peixe, mas, por falta de experiência, não vingou.  

Apesar das vicissitudes, abriu um pequeno espaço no Andulo, onde servia refeições. Com o passar do tempo, conseguiu um outro lugar maior, tido, hoje, como principal sítio para se degustar boa comida, essencialmente a típica bien.

No restaurante Brezinia, há desde o funge (milho ou bombó) com cabidela, folhas de abóbora e feijão manteiga. Serve-se também carne de caça seca ou fresca, peixe, kizaca e outros vegetais. Come-se igualmente arroz, batata, batata-doce, entre outros pratos.  

Neste momento, com seis funcionários, entre balconista, cozinheiro e chefe de sala, os serviços do restaurante da “Tia Bev” são procurados não apenas pelos munícipes locais, mas também por turistas idos de outros pontos do país.

A empreendedora Benvinda da Silva diz que o seu sucesso é fruto de muita dedicação, empenho e, acima de tudo, persistência. 

Para si, a mulher empreendedora está pronta para ajudar o desenvolvimento do país, precisando apenas de apoio das autoridades.

Yola Cláudia Sarmento, 40 anos de idade, natural da comuna da Catala, município de Quilengues, província da Huíla, foi uma referência de beleza feminina em 1997, na escola 27 de Março, e que hoje se tornou numa destacada empreendedora que ajudou a revolucionar o mundo da decoração de eventos nestas paragens.

“Nunca foi meu sonho fazer decorações de eventos, mas o contexto obrigou-me a reinventar, sobretudo por sugestões dos clientes, que, cada vez mais, pediam serviço completo e não mais parei”, conta.

Proprietária de um salão de festas nos arredores do Lubango, iniciou a sua actividade em 2009, com o aluguer do seu recinto para a celebração de festas de casamentos e de aniversários, mas o negócio estendeu-se depois para outros ramos, entre os quais a decoração.

A empreendedora admite que é um negócio rentável, mas exige “muita” disciplina e contenção, pois os gastos são avultados, com o material adquirido na capital do país, Luanda, em virtude dos altos preços praticados localmente.

Actualmente, a empreendedora que começou a actividade sozinha, conta com 40 colaboradores.

“Ganhei gosto pela culinária e o sector hoteleiro quando ajudava o meu pai, cozinheiro de profissão, a preparar as refeições”, explica Rosita Viegas Rosita, 64 anos de idade, proprietária de dois restaurantes, no Uíge, desde 2001, nos quais predomina comida típica da região.

Para reduzir gastos, a gestora produz os produtos do campo para os seus restaurantes que assegura mais de 40 postos de trabalho.

Dona Rosita apontou o estudo do mercado, planeamento, amor ao trabalho, dedicação e persistência como factores do sucesso.

Num outro ângulo, há dois anos, Teresa Lourenço (Mamã Teté), 56 anos, é a primeira mulher a enveredar por uma ocupação antes exercida apenas por homens adolescentes e jovens, em Luanda.

Trata-se da ocupação de “Lotador”, uma expressão atribuída ao cidadão que angaria passageiros para um táxi, permitindo a sua rápida lotação, ganhando o valor da viagem de um dos passageiros (150 kz), por cada veículo.

Sinto-me orgulhosa do trabalho que faço porque consigo sustentar a minha família”, disse a Mamã Teté.

A sua jornada começa às cinco (5) horas, com a lotação de viaturas para táxi, com as rotas Aeroporto/Mutamba/Zamba-2/Ginga Mbandi, São Pulo/Congolenses/Rocha Gamek/Multiperfil, entre outras, arrecadando, por dia, entre oito (8) mil a 10 mil Kwanzas.

Conta que o que ganha no final da jornada é obrigada a repartir com o responsável da “placa da staff”, paragem em que se fixa para chamar os passageiros.

Em muitos casos, os lotadores são confundidos com o cobrador. A lotação, geralmente, é feita de forma coerciva e abusiva, ou seja, sem o devido consentimento do taxista e do seu legítimo cobrador, razão pela qual a Polícia Nacional tem estado a desincentivar esta prática.

Mamã Teté tem como seu ponto fixo a paragem do Aeroporto, próximo à pedonal do bairro Cassenda, distrito da Maianga.

A “placa” é o local onde os membros das organizações (STAFF) de taxistas encontram-se periodicamente para abordarem questões ligadas ao exercício da actividade.