Empresas investem no teletrabalho

  • Computador, instrumento básico na era digital
Luanda – O teletrabalho tornou-se, desde Março de 2020, a "tábua de salvação" de milhares de empresas em Angola, que investem, cada vez mais, no chamado trabalho à distância, para evitarem despedimentos em massa e se manterem competitivas no mercado.

Por Ângela Correia Neto

O recurso a este modelo de trabalho nunca havia sido tão expressivo entre os angolanos até à altura da chegada do vírus SARS-COV 2 ao país, que impõe a empregadores e empregados uma nova forma de interagir e buscar eficiência, longe do ambiente frenético dos escritórios.

Trata-se, em concreto, de um modelo usado em praticamente todo o mundo, com recurso às novas tecnologias de informação, para contornar a exigência mundial do distanciamento físico e fazer reduzir, substancialmente, as taxas de contaminação do novo coronavírus.

Na verdade, o teletrabalho, surgido em 1973, por intermédio do professor Jack Nilles, da Universidade da Califórnia (EUA), já se "implantou" em milhares de empresas, a tal ponto de muitos profissionais preferirem, hoje, manter-se a labutar neste regime ou em regime misto.

No caso específico de Angola, há quem está há quase dois anos a prestar serviços remotos, longe do escritório, colegas, clientes e fornecedores, mas com o mesmo comprometimento.

A título de exemplo, foi pelo teletrabalho que dezenas de professores de colégios privados conseguiram dar seguimento às aulas, aquando da primeira vaga da Covid-19, recorrendo às tele-aulas, até então pouco habituais, para manterem os postos de emprego.

A partir do domicílio, dezenas de docentes e milhares de alunos interagiram, com regularidade, até à altura da reabertura oficial das escolas, numa demonstração de que o teletrabalho tornou-se um "mal necessário" que veio para ficar em Angola, mesmo no período pós-pandemia.

Actualmente, trabalham neste regime à distância milhares de funcionários com comorbidades, ou seja, doentes de risco, deslocados, repentinamente, dos escritórios para o teletrabalho.

Segundo especialistas, cinco em cada dez pessoas passaram a trabalhar em casa desde o surgimento da Covid-19 no país, a maioria mulheres com filhos menores e idosos em casa.

Em termos concretos, uma pesquisa do Centro de Estudos Jurídicos, Económicos e Sociais da Universidade Agostinho Neto, com mil e 211 inquiridos, refere que 53 por cento dos trabalhadores estava em situação de teletrabalho, até ao começo deste ano.

Em contrapartida, o estudo revela que nove por cento dos funcionários inquiridos estava a laborar em regime de trabalho presencial, por turnos, e 38 por cento em trabalho convencional.

Ouvidos pela ANGOP, a esse respeito, vários profissionais afirmaram que o teletrabalho tem sido de grande valia neste contexto de pandemia, mas advertem que tem vantagens e desvantagens.

Para alguns, uma das desvantagens é o facto de dividirem o novo ambiente de trabalho com familiares, o que pode retirar, de alguma forma, a concentração necessária para as tarefas.

Segundo Victória Ludmila, bancária, 37 anos de idade, trabalhar em casa traz desconforto, porque, muitas das vezes, tem de conciliar o serviço com a assistência à filha menor.

A bancária conta que mantém contacto frequente com os superiores hierárquicos, sublinhando que, apesar desta situação, o trabalho tem sido interessante e desafiador.

"É um pouco cansativo, porque tenho de dividir as atenções entre o trabalho e a bebé, mas é bastante desafiador. O teletrabalho não irá prejudicar a minha carreira", afirma.

O também bancário Makiesse Janota diz que prestar serviço a partir de casa significa, em algumas situações, ter mais horas de trabalho e labutar em horários irregulares.

Lamenta, entretanto, o facto de não dispor de muitos recursos técnicos em casa para prestar um serviço regular e sem falhas, sobretudo em termos de energia eléctrica.

"A nossa energia eléctrica não é 100 por cento estável e por vezes, quando falha, acabamos por perder horas de trabalho. Temos que trabalhar até mais tarde para compensar", conta.

Para grande parte dos entrevistados, o teletrabalho é um modelo que deve prevalecer depois de controlada a Covid-19, mas os empregadores devem avaliar melhor as condições técnicas dos profissionais, antes de os submeterem a este regime.

O trabalhador Makiesse Janota, por exemplo, afirma que o seu sinal da internet nem sempre está em perfeitas condições, é lento e, por vezes, leva-o a fazer mais tempo com os trabalhos.

"No escritório, a actualização de um simples relatório que lê os dados de uma base pode levar 10 minutos, mas aqui em casa leva horas, principalmente em dias ruins de sinal", diz.

Por sua vez, Eunice Chicato, 33 anos, afirma que o teletrabalho é um recurso a ter em conta, mas confidencia que, apesar dos ganhos, está ansiosa pela hora do retorno ao escritório.

A esse respeito, a WHO-5, órgão da Organização Mundial da Saúde que avalia a percepção do estado de humor, vitalidade e interesse geral, refere, num estudo, que as pessoas apreciaram a autonomia de trabalhar em casa, tendo desenvolvido novas maneiras de fazer trabalho.

A organização sustenta que os trabalhadores de todo o mundo, "confinados" ao teletrabalho, têm hoje uma compreensão clara do que é esperado no trabalho.

Conforme especialistas, trabalhar em regime remoto pode trazer as mesmas vantagens conseguidas no escritório, ficando a eficiência do que se faz a depender da entrega de cada um.

É, exactamente, por isso, que muitos profissionais preferem hoje não "desgrudar" das novas tecnologias de informação, a fim de interagirem com clientes e colegas de trabalho a partir de casa, poupando esforços físicos e até receitas com transportes.

Entretanto, para quem está "confinado" neste regime ou no regime misto (trabalhar em casa e no escritório em dias alternados), os especialistas deixam algumas dicas que podem ser importantes e capazes de proporcionar um desempenho igual ao apresentado no escritório.

Primeiro, o teletrabalho em casa exige limitar ao máximo os equipamentos, como computador e telefone, além de recomendar o uso de meios para controlar o ritmo de trabalho.

Para obter sucesso no seu "escritório virtual", dizem, importa, também, mensurar os resultados da sua actividade, manter a concentração intelectual e definir planos de trabalho.

Àqueles trabalhadores que ficam muitas vezes fora de casa, os especialistas também dispõem de uma boa dica nessa época de confinamento: recorram ao "escritório móvel" ou "portátil".

O que isso significa? Nada mais, nada menos, que trabalhar a partir de qualquer local, ou seja, hotel, estação de serviço, no carro, avião, usando apenas o seu computador ou telefone móvel, através dos quais estará em permanente contacto com a empresa, os clientes ou fornecedores.

Como não podia deixar de ser, o teletrabalho tem implicações económicas e sociais para os empregadores e empregados, quer em Angola, quer no resto no mundo.

Ainda assim, apesar das vantagens e desvantagens, é um dos recursos que mais se recomenda, enquanto o mundo busca por soluções mais consistentes para contornar a Covid-19, reabrir as empresas em definitivo e voltar à esperada normalidade social.

 

Por Ângela Correia Neto

O recurso a este modelo de trabalho nunca havia sido tão expressivo entre os angolanos até à altura da chegada do vírus SARS-COV 2 ao país, que impõe a empregadores e empregados uma nova forma de interagir e buscar eficiência, longe do ambiente frenético dos escritórios.

Trata-se, em concreto, de um modelo usado em praticamente todo o mundo, com recurso às novas tecnologias de informação, para contornar a exigência mundial do distanciamento físico e fazer reduzir, substancialmente, as taxas de contaminação do novo coronavírus.

Na verdade, o teletrabalho, surgido em 1973, por intermédio do professor Jack Nilles, da Universidade da Califórnia (EUA), já se "implantou" em milhares de empresas, a tal ponto de muitos profissionais preferirem, hoje, manter-se a labutar neste regime ou em regime misto.

No caso específico de Angola, há quem está há quase dois anos a prestar serviços remotos, longe do escritório, colegas, clientes e fornecedores, mas com o mesmo comprometimento.

A título de exemplo, foi pelo teletrabalho que dezenas de professores de colégios privados conseguiram dar seguimento às aulas, aquando da primeira vaga da Covid-19, recorrendo às tele-aulas, até então pouco habituais, para manterem os postos de emprego.

A partir do domicílio, dezenas de docentes e milhares de alunos interagiram, com regularidade, até à altura da reabertura oficial das escolas, numa demonstração de que o teletrabalho tornou-se um "mal necessário" que veio para ficar em Angola, mesmo no período pós-pandemia.

Actualmente, trabalham neste regime à distância milhares de funcionários com comorbidades, ou seja, doentes de risco, deslocados, repentinamente, dos escritórios para o teletrabalho.

Segundo especialistas, cinco em cada dez pessoas passaram a trabalhar em casa desde o surgimento da Covid-19 no país, a maioria mulheres com filhos menores e idosos em casa.

Em termos concretos, uma pesquisa do Centro de Estudos Jurídicos, Económicos e Sociais da Universidade Agostinho Neto, com mil e 211 inquiridos, refere que 53 por cento dos trabalhadores estava em situação de teletrabalho, até ao começo deste ano.

Em contrapartida, o estudo revela que nove por cento dos funcionários inquiridos estava a laborar em regime de trabalho presencial, por turnos, e 38 por cento em trabalho convencional.

Ouvidos pela ANGOP, a esse respeito, vários profissionais afirmaram que o teletrabalho tem sido de grande valia neste contexto de pandemia, mas advertem que tem vantagens e desvantagens.

Para alguns, uma das desvantagens é o facto de dividirem o novo ambiente de trabalho com familiares, o que pode retirar, de alguma forma, a concentração necessária para as tarefas.

Segundo Victória Ludmila, bancária, 37 anos de idade, trabalhar em casa traz desconforto, porque, muitas das vezes, tem de conciliar o serviço com a assistência à filha menor.

A bancária conta que mantém contacto frequente com os superiores hierárquicos, sublinhando que, apesar desta situação, o trabalho tem sido interessante e desafiador.

"É um pouco cansativo, porque tenho de dividir as atenções entre o trabalho e a bebé, mas é bastante desafiador. O teletrabalho não irá prejudicar a minha carreira", afirma.

O também bancário Makiesse Janota diz que prestar serviço a partir de casa significa, em algumas situações, ter mais horas de trabalho e labutar em horários irregulares.

Lamenta, entretanto, o facto de não dispor de muitos recursos técnicos em casa para prestar um serviço regular e sem falhas, sobretudo em termos de energia eléctrica.

"A nossa energia eléctrica não é 100 por cento estável e por vezes, quando falha, acabamos por perder horas de trabalho. Temos que trabalhar até mais tarde para compensar", conta.

Para grande parte dos entrevistados, o teletrabalho é um modelo que deve prevalecer depois de controlada a Covid-19, mas os empregadores devem avaliar melhor as condições técnicas dos profissionais, antes de os submeterem a este regime.

O trabalhador Makiesse Janota, por exemplo, afirma que o seu sinal da internet nem sempre está em perfeitas condições, é lento e, por vezes, leva-o a fazer mais tempo com os trabalhos.

"No escritório, a actualização de um simples relatório que lê os dados de uma base pode levar 10 minutos, mas aqui em casa leva horas, principalmente em dias ruins de sinal", diz.

Por sua vez, Eunice Chicato, 33 anos, afirma que o teletrabalho é um recurso a ter em conta, mas confidencia que, apesar dos ganhos, está ansiosa pela hora do retorno ao escritório.

A esse respeito, a WHO-5, órgão da Organização Mundial da Saúde que avalia a percepção do estado de humor, vitalidade e interesse geral, refere, num estudo, que as pessoas apreciaram a autonomia de trabalhar em casa, tendo desenvolvido novas maneiras de fazer trabalho.

A organização sustenta que os trabalhadores de todo o mundo, "confinados" ao teletrabalho, têm hoje uma compreensão clara do que é esperado no trabalho.

Conforme especialistas, trabalhar em regime remoto pode trazer as mesmas vantagens conseguidas no escritório, ficando a eficiência do que se faz a depender da entrega de cada um.

É, exactamente, por isso, que muitos profissionais preferem hoje não "desgrudar" das novas tecnologias de informação, a fim de interagirem com clientes e colegas de trabalho a partir de casa, poupando esforços físicos e até receitas com transportes.

Entretanto, para quem está "confinado" neste regime ou no regime misto (trabalhar em casa e no escritório em dias alternados), os especialistas deixam algumas dicas que podem ser importantes e capazes de proporcionar um desempenho igual ao apresentado no escritório.

Primeiro, o teletrabalho em casa exige limitar ao máximo os equipamentos, como computador e telefone, além de recomendar o uso de meios para controlar o ritmo de trabalho.

Para obter sucesso no seu "escritório virtual", dizem, importa, também, mensurar os resultados da sua actividade, manter a concentração intelectual e definir planos de trabalho.

Àqueles trabalhadores que ficam muitas vezes fora de casa, os especialistas também dispõem de uma boa dica nessa época de confinamento: recorram ao "escritório móvel" ou "portátil".

O que isso significa? Nada mais, nada menos, que trabalhar a partir de qualquer local, ou seja, hotel, estação de serviço, no carro, avião, usando apenas o seu computador ou telefone móvel, através dos quais estará em permanente contacto com a empresa, os clientes ou fornecedores.

Como não podia deixar de ser, o teletrabalho tem implicações económicas e sociais para os empregadores e empregados, quer em Angola, quer no resto no mundo.

Ainda assim, apesar das vantagens e desvantagens, é um dos recursos que mais se recomenda, enquanto o mundo busca por soluções mais consistentes para contornar a Covid-19, reabrir as empresas em definitivo e voltar à esperada normalidade social.