"Modernização tecnológica dos serviços é urgente" – Nuno Francisco

  • Vista parcial do Aeroporto 4 de Fevereiro
Luanda - No Dia Internacional do Controlador do Tráfego Aéreo (20 de Outubro), em Angola os profissionais do sector clamam por melhores condições técnicas e tecnológicas, bem como capacitação dos quadros, no sentido de garantirem maior eficácia no serviço prestado.

Por Osmar da Fonseca

A propósito da efeméride instituída em 1960, para homenagear os profissionais do sector, pela responsabilidade da gestão, organização e monitorização do tráfego de aeronaves, o presidente do Sindicato desses profissionais considerou urgente esse processo para prevenir colisões no ar.

Em entrevista à ANGOP, Nuno Francisco considerou que, apesar de ser funcional, a tecnologia que assegura o espaço aéreo nacional é “precária e ultrapassada”.

Entre os principais constrangimentos laborais, o técnico de tráfego e sindicalista cita o estado obsoleto dos equipamentos com que operacionalizam os serviços e o deficiente domínio, pelos  trabalhadores, das línguas estrangeiras, mormente a oficial do sector - a inglesa.

Eis a íntegra da entrevista:

ANGOP - Que importância atribui a esta data?

NF - Esta data deriva de um conjunto de esforços de algumas associações europeias de controladores de tráfego aéreo, que culminou com a proclamação da IFATCA (Federação Internacional das Associações de Controladores de Tráfego Aéreo), no dia 20 de Outubro de 1961, em Amesterdão, na Holanda, com objectivo de representar e defender os interesses dos seus associados em todo o mundo.

ANGOP - Que actividades estão reservadas para saudar a data?

NF – Pelo sindicato, as celebrações acontecem também em Benguela, Cabinda e Lubango. Vamos inaugurar (no aeroporto) a sede da nossa associação, e iremos participar em alguns programas de televisão e nas plataformas digitais. As actividades encerram-se no sábado, com um almoço de confraternização.

ANGOP - Como se apresentam os Controladores de Tráfego Aéreo em Angola?

NF - Na verdade, os controladores de tráfico aéreo (CTA) em todo o mundo actuam como uma mão invisível na indústria aeronáutica, ou seja, no sistema de segurança da aviação civil. As pessoas sabem que existem as torres de controlo nos aeroportos, mas desconhecem o trabalho mágico realizado nelas. No caso de Angola, os CTA são colaboradores da Empresa Nacional de Navegação Aérea - EP (ENNA-EP), tutelada pelo Ministério dos Transportes, e dispõem de duas instituições autónomas e independentes, nomeadamente a associação (AACTA) que actua no lado científico e de mercado, focada, principalmente, nas oportunidades e ameaças, e o Sindicato (SINCTA) que actua no lado laborar, representando e defendendo os interesses dos CTA a nível da empresa, com foco principal nas forças e fraquezas da classe.

ANGOP – Em breves palavras, pode descrever a missão dos CTA?

NF - A missão dos CTA é garantir a realização segura dos voos, desde a descolagem até a aterragem no aeroporto de destino, aliada à coordenação e ao alto grau de eficiência. Para que tal aconteça, os controladores emitem instruções aos pilotos, que devem ser cumpridas com rigor para não haver risco de colisão entre as aeronaves, mas tudo dentro das normas e procedimentos regulados pela ICAO (Organização Internacional da Aviação Civil). Resumindo, os CTA guiam os pilotos (risos…).

ANGOP - Que avaliação pode fazer dos serviços dos CTA a nível nacionais, nos contextos regional e internacional?

NF - Angola partilha fronteira aérea com a África do Sul, República Democrática do Congo, Congo, Namíbia, Zâmbia, Senegal, Ghana, Kinshasa, Botswana e com o Brasil, bem como a Ilha de Santa Helena. Angola, em matéria de prestação de serviço de tráfego aéreo, encontra-se no fim desta fila de países com fronteiras aéreas, por não investir no sector. Estima-se que o sector necessita de um investimento de cerca de 30 milhões de dólares. Se Angola não fizer este investimento, nos próximos tempos, arrisca-se a perder parte deste enorme espaço fronteiriço aéreo que nos foi adjudicado antes da independência, pela capacidade que demonstrávamos na altura diante do domínio português.

ANGOP - Com que condições técnicas e tecnológicas funciona a torre de controlo ao dispor dos CTA?

NF – Trabalhamos em condições precárias. Os CTA dispõem de apenas um computador, péssimo para a imagem do país. Contamos com um sistema de monitorização ADS-CPDLC, que funciona com muitas oscilações, adquirido há mais 10 anos, e um sistema de rádios obsoletos e completamente ruidoso que nos impedem de prestar um serviço com qualidade. Muitas vezes somos obrigados a recorrer aos nossos telefones pessoais (Flight Radar) para complementarmos o nosso trabalho, infelizmente. Angola deve ser o único país no mundo que ainda usa fitas de progresso de voo, onde ficam registados os dados dos aviões sob controlo, manuscritos, o que tem dificultado as investigações dos incidentes, isto é quando ocorrem.

ANGOP – Essas dificuldades também se colocam em relação ao radar?.

NF - Comecei a ouvir falar da intenção da compra do radar em 2001, ano em que entrei no quadro da Aviação Civil em Angola. Em 2018, em Madrid, participamos na feira da CANSO (SINCTA, AACTA e ENANA-EP), na qual fomos informados pela então direcção da empresa que estava em via de compra um RADAR para Angola, e que parte dos acessórios já estava armazenado em contentores, em direcção ao país. 

ANGOP - Desde aquela altura até hoje, o sindicato nunca mais foi contactado para abordar o assunto?

NF - Diz-se que Angola, até àquela data, teria feito apenas o pagamento de um milhão e quinhentos mil dólares (desconhece-se o valor global), e até hoje já não se sabe nada desse assunto.

Sobre a efeméride e o profissional

O Dia Internacional do Controlador de Tráfego Aéreo foi instituído em 1960 para homenagear o profissional responsável pela gestão, organização e monitorização do tráfego de aeronaves no espaço aéreo, a fim de prevenir colisões.

Nesse mesmo dia e evento, realizado na Grécia, houve a criação da Federação Internacional de Controladores do Tráfego Aéreo (IFATCA, em inglês, International Federation of Air Traffic Controllers Associations).

Aos países signatários da Convenção de Chicago (também conhecida como Convenção sobre Aviação Civil Internacional), a actuação do controlador de tráfego aéreo é reconhecida como profissão, tal como acontece em Angola, membro efectivo.

Esta actividade torna-se cada vez mais complexa, devido ao crescente número de aviões que cruzam o espaço aéreo e ao surgimento de aeronaves cada vez mais modernas e rápidas, as quais voam conjuntamente com outras mais antigas e lentas.

Os controladores de tráfego aéreo necessitam de diversas habilidades e ferramentas técnicas e tecnológicas para exercer, de maneira eficiente, o seu trabalho e garantir o funcionamento eficaz do sistema de controlo da actividade aeronáutica.

São aqueles profissionais que permanecem em torres de controlo, existentes em todos os aeroportos. Eles são, sobretudo, responsáveis pela emissão de autorização de descolagens e aterragens das aeronaves, por isso, entram em contacto permanente com os pilotos.

Para se tornar controlador de tráfego aéreo é necessário conhecimentos sobre meteorologia, navegação aérea, geografia (relevo e acidentes geográficos da região), língua inglesa, reconhecimento e desempenho de aeronaves, normas de tráfego aéreo, dentre outras valências.

 

Por Osmar da Fonseca

A propósito da efeméride instituída em 1960, para homenagear os profissionais do sector, pela responsabilidade da gestão, organização e monitorização do tráfego de aeronaves, o presidente do Sindicato desses profissionais considerou urgente esse processo para prevenir colisões no ar.

Em entrevista à ANGOP, Nuno Francisco considerou que, apesar de ser funcional, a tecnologia que assegura o espaço aéreo nacional é “precária e ultrapassada”.

Entre os principais constrangimentos laborais, o técnico de tráfego e sindicalista cita o estado obsoleto dos equipamentos com que operacionalizam os serviços e o deficiente domínio, pelos  trabalhadores, das línguas estrangeiras, mormente a oficial do sector - a inglesa.

Eis a íntegra da entrevista:

ANGOP - Que importância atribui a esta data?

NF - Esta data deriva de um conjunto de esforços de algumas associações europeias de controladores de tráfego aéreo, que culminou com a proclamação da IFATCA (Federação Internacional das Associações de Controladores de Tráfego Aéreo), no dia 20 de Outubro de 1961, em Amesterdão, na Holanda, com objectivo de representar e defender os interesses dos seus associados em todo o mundo.

ANGOP - Que actividades estão reservadas para saudar a data?

NF – Pelo sindicato, as celebrações acontecem também em Benguela, Cabinda e Lubango. Vamos inaugurar (no aeroporto) a sede da nossa associação, e iremos participar em alguns programas de televisão e nas plataformas digitais. As actividades encerram-se no sábado, com um almoço de confraternização.

ANGOP - Como se apresentam os Controladores de Tráfego Aéreo em Angola?

NF - Na verdade, os controladores de tráfico aéreo (CTA) em todo o mundo actuam como uma mão invisível na indústria aeronáutica, ou seja, no sistema de segurança da aviação civil. As pessoas sabem que existem as torres de controlo nos aeroportos, mas desconhecem o trabalho mágico realizado nelas. No caso de Angola, os CTA são colaboradores da Empresa Nacional de Navegação Aérea - EP (ENNA-EP), tutelada pelo Ministério dos Transportes, e dispõem de duas instituições autónomas e independentes, nomeadamente a associação (AACTA) que actua no lado científico e de mercado, focada, principalmente, nas oportunidades e ameaças, e o Sindicato (SINCTA) que actua no lado laborar, representando e defendendo os interesses dos CTA a nível da empresa, com foco principal nas forças e fraquezas da classe.

ANGOP – Em breves palavras, pode descrever a missão dos CTA?

NF - A missão dos CTA é garantir a realização segura dos voos, desde a descolagem até a aterragem no aeroporto de destino, aliada à coordenação e ao alto grau de eficiência. Para que tal aconteça, os controladores emitem instruções aos pilotos, que devem ser cumpridas com rigor para não haver risco de colisão entre as aeronaves, mas tudo dentro das normas e procedimentos regulados pela ICAO (Organização Internacional da Aviação Civil). Resumindo, os CTA guiam os pilotos (risos…).

ANGOP - Que avaliação pode fazer dos serviços dos CTA a nível nacionais, nos contextos regional e internacional?

NF - Angola partilha fronteira aérea com a África do Sul, República Democrática do Congo, Congo, Namíbia, Zâmbia, Senegal, Ghana, Kinshasa, Botswana e com o Brasil, bem como a Ilha de Santa Helena. Angola, em matéria de prestação de serviço de tráfego aéreo, encontra-se no fim desta fila de países com fronteiras aéreas, por não investir no sector. Estima-se que o sector necessita de um investimento de cerca de 30 milhões de dólares. Se Angola não fizer este investimento, nos próximos tempos, arrisca-se a perder parte deste enorme espaço fronteiriço aéreo que nos foi adjudicado antes da independência, pela capacidade que demonstrávamos na altura diante do domínio português.

ANGOP - Com que condições técnicas e tecnológicas funciona a torre de controlo ao dispor dos CTA?

NF – Trabalhamos em condições precárias. Os CTA dispõem de apenas um computador, péssimo para a imagem do país. Contamos com um sistema de monitorização ADS-CPDLC, que funciona com muitas oscilações, adquirido há mais 10 anos, e um sistema de rádios obsoletos e completamente ruidoso que nos impedem de prestar um serviço com qualidade. Muitas vezes somos obrigados a recorrer aos nossos telefones pessoais (Flight Radar) para complementarmos o nosso trabalho, infelizmente. Angola deve ser o único país no mundo que ainda usa fitas de progresso de voo, onde ficam registados os dados dos aviões sob controlo, manuscritos, o que tem dificultado as investigações dos incidentes, isto é quando ocorrem.

ANGOP – Essas dificuldades também se colocam em relação ao radar?.

NF - Comecei a ouvir falar da intenção da compra do radar em 2001, ano em que entrei no quadro da Aviação Civil em Angola. Em 2018, em Madrid, participamos na feira da CANSO (SINCTA, AACTA e ENANA-EP), na qual fomos informados pela então direcção da empresa que estava em via de compra um RADAR para Angola, e que parte dos acessórios já estava armazenado em contentores, em direcção ao país. 

ANGOP - Desde aquela altura até hoje, o sindicato nunca mais foi contactado para abordar o assunto?

NF - Diz-se que Angola, até àquela data, teria feito apenas o pagamento de um milhão e quinhentos mil dólares (desconhece-se o valor global), e até hoje já não se sabe nada desse assunto.

Sobre a efeméride e o profissional

O Dia Internacional do Controlador de Tráfego Aéreo foi instituído em 1960 para homenagear o profissional responsável pela gestão, organização e monitorização do tráfego de aeronaves no espaço aéreo, a fim de prevenir colisões.

Nesse mesmo dia e evento, realizado na Grécia, houve a criação da Federação Internacional de Controladores do Tráfego Aéreo (IFATCA, em inglês, International Federation of Air Traffic Controllers Associations).

Aos países signatários da Convenção de Chicago (também conhecida como Convenção sobre Aviação Civil Internacional), a actuação do controlador de tráfego aéreo é reconhecida como profissão, tal como acontece em Angola, membro efectivo.

Esta actividade torna-se cada vez mais complexa, devido ao crescente número de aviões que cruzam o espaço aéreo e ao surgimento de aeronaves cada vez mais modernas e rápidas, as quais voam conjuntamente com outras mais antigas e lentas.

Os controladores de tráfego aéreo necessitam de diversas habilidades e ferramentas técnicas e tecnológicas para exercer, de maneira eficiente, o seu trabalho e garantir o funcionamento eficaz do sistema de controlo da actividade aeronáutica.

São aqueles profissionais que permanecem em torres de controlo, existentes em todos os aeroportos. Eles são, sobretudo, responsáveis pela emissão de autorização de descolagens e aterragens das aeronaves, por isso, entram em contacto permanente com os pilotos.

Para se tornar controlador de tráfego aéreo é necessário conhecimentos sobre meteorologia, navegação aérea, geografia (relevo e acidentes geográficos da região), língua inglesa, reconhecimento e desempenho de aeronaves, normas de tráfego aéreo, dentre outras valências.